Certa vez, uma voz interna ressoou dentro si, como um distante sussurro que o impeliu a fechar os olhos e concentrar sua atenção naquilo que o instigara. Recebeu uma resposta ambígua, ou talvez, com dois sentidos em contraste e dependentes de si: desligue estas lentes que o fazem ver e desejar o irreal; retire estes fones que imitam os sons dos divinos pássaros e dos riachos; remova todos os aparatos eletrônicos do seu corpo, assim, irá lembrar-se de que és um humano, de carne e osso, e seu tempo está em constante fluxo decrescente. As projeções emulam uma realidade a qual nos sentimos bem e tudo é incrivelmente confortável, mas digo-lhe: não há beleza na tristeza, quando ela pode ser calorosamente amenizada pela felicidade? A solidão não é tão melancólica se não fosse pela necessidade de companhia? E, ah, como é bom estar bem acompanhado. Se vieres com frases como “melhor sozinho do que mal acompanhado”, de certo que vou concordar contigo. Contudo, venho lhe dizer que o mundo é incrivelmente vasto, e grandes decepções e alegrias nos aguardam, e isso que significa estar vivo, ser real. Não reduza sua grandeza como ser vivo único e pensante a uma mera projeção irreal de imitações baratas de “modelos”, aos quais associamos felicidade. Seja por riqueza, porque de certo que o que muito tem, não tem noção genuína disso por nunca ter conquistado, ou por beleza, pois o que muito é agradável, não sabe o calor de um elogio genuíno sem intenções subjetivas, e vem a ser apenas um ídolo em lentes ignorantes que nunca tiveram real interesse no que está atrás daquele belo sorriso.