Domingo de manhã, chegando da noite.
Tira bota, tira calça, tira camisa, tira blusa.
Short de praia (com rede dentro), papete descolada, regata batida.
Curitiba, inverno, agosto.
O terror do meu pai, da minha mãe, das minhas avós.
Regata de estivador, chinelo, maltrapilho.
Se vó Zeza me visse assim caía morta de novo.
O que vão falar da sua mãe?
E da sua avó que sabem que é quem cuida de você porque sua mãe trabalha fora?
Vó Cecília implica, mas ela entende.
Mulher dura, criada na roça, forte.
Vó Cecília perdeu a mãe com 12 anos, terminou de criar os irmãos.
Vó Cecília perdeu o pai novo. Não tinha cura pra leucemia na época.
Vó Cecília perdeu um filho criança.
Vó Cecília perdeu um filho adulta.
Vó Cecília perdeu o vô João.
Vó Cecília não gosta que eu ande maltrapilho, mas não se importa muito também.
Logo o Luizinho, que nunca ligou pra nada, vai virar advogado.
Luizinho fica bonito quando se arruma, ele sabe, só não faz.
coisa de uns doze, treze anos -
vó Cecília virou pra mim e disse:
esse aí é que nem mineiro que come quieto.
Teus pais você engana, mas tua vó sabe.
Quando eu era criança dizia que minha vó vivia na roça.
Casa da vó tinha galinheiro, pomar, fruta.
Bolso do vô sempre tinha bala, casa da vó sempre tinha bolo.
Minha vó fazia bolo de café e enganava a gente que era bolo de chocolate.
Nunca gostei de café, mas vou pedir pra ela fazer o bolo de novo.
Meu vô bebia muito a vida inteira.
Meu vô só parou de beber depois que eu era nascido.
Uma vez meu vô bêbado me pegou e botou na bicicleta com ele.
Saiu e ninguém sabia onde ia.
Minha mãe não sabia o que falar, minha avó rezava, meu pai ficava louco.
Vô João só me levou no bar comer doce.
Cheguei com a cara cheia de chocolate.
O Luiz é um perigo, igual o vô dele.
O pai dele também, hipoteticamente.
Não pode beber, meu filho, sai dessa vida que bebida não é vida.
Faziam cerveja na fazenda do pai da vó.
Plantavam milho, plantavam mandioca, plantavam batata.
Minha avó fala, mas até hoje sempre pede um vinhozinho.
Só pra eu dar uma bicadinha.
Minha avó não pede pra fazer a comida que ela gosta.
venham aqui fazer coxinha com a vó enquanto a vó tá viva.
Sabe fazer bolinho de chuva? Venha ver como é fácil.
Hmmm hoje acordei com vontade de comer umas esfihas, venha Agnes me ajudar a fazer.
Toda vez que eu viajo pras roças eu gosto de tirar foto pra minha avó.
Mostrar depois na TV eu de terno e sapato no meio do barro.
Mostrar carro de polícia, torre de energia, caminhão de obra, ônibus pegando fogo na estrada.
Minha vó não pode falar que gosta de ver essas coisas.
Eu sei que minha vó gosta.
Tem coisas que só eu e minha vó sabemos.
Eu viro pra ela e dou uma olhada,
ela faz um sinal com a testa e eu dou uma risada.
Já tô eu de próximo na lista.
O mais novo sem filho sou eu.
E ela também não tá ficando nova.
Mas eu confio na minha vó Cecília.
Ela aguenta mais um pouquinho.
Um pouquinho de muleta, um pouquinho de rodinha.
Um pouquinho pra mim, que tenho tanto.
Um muitinho pra ela que não sabe quanto tem.
Mas eu confio na minha vó Cecília.
E acho que ela confia em mim também.