JĂĄ pensei em mil cartas de despedidas. Inclusive me lembro que quando era criança escrevia âtestamentosâ. Nunca acreditei que viveria muito ou talvez sempre fui fĂŁ da morte.
Vi e vivi tantas coisas nesses anos, e as vezes ainda fico me perguntando porque eu sou ansiosa, depressiva e nunca me curei disso mesmo quando estava âtudo bemâ.
Quando a dor aperta eu lembro de coisas que jurava ter esquecido. Parece que meu corpo sente como se eu tivesse vivenciado aquilo ontem.
Final do ano passado pra esse ano eu segurei tanta barra sozinha, engoli tanto choro, tomei tanto remĂ©dio pra me virar sozinha. Era um sacrifĂcio sair da cama, lidar com as pessoas. Eu sĂł queria o escuro do meu quarto. A vida Ă© dura demais com algumas pessoas e eu fico me culpando sempre, mesmo sem saber o motivo de tanta culpa.
Nunca tinha ido tanto ao mĂ©dico e nunca pensei tanto que morreria, e por incrĂvel que pareça, nĂŁo por conta prĂłpria.
Chorava recebendo remĂ©dio na clĂnica. Chorava porque me sentia sozinha carregando fardos e pesos de pessoas que sĂł me fizeram mal. Chorava porque a sensação do corpo dormente era algo horrĂvel. Chorava porque o ar nĂŁo vinha. Chorava porque eu nĂŁo queria mais sentir aquilo. Chorava por ter mais pessoas âdesconhecidasâ preocupadas do que minha prĂłpria famĂlia.
Quando pensava em despedidas, pensava nas pessoas que me fizeram mal e se aquilo seria uma vitória pra elas. Mas também penso nas pessoas que me fizeram bem, que oraram por mim mesmo sem eu saber, que mandava mensagem, que marcava algo só pra me distrair.
Sou tão triste e na mesma intensidade também sou tão grata.
Enfim, Deus esteve e estå comigo o tempo todo, mesmo que por alguns dias eu tenha perdido a fé nele. à Ele quem me acalma em uma crise de choro, sempre foi Ele.
Aquela dor insuportĂĄvel, que parece que teu coração vai explodir de tanta angĂșstia, no final o alĂvio repentino, era justamente dEle me dizendo âtĂĄ difĂcil e talvez continue sendo por um tempo, mas eu estou aqui, e uma hora vai passar, confia em mimâ.
Nunca fui de ir a igreja, tĂŁo pouco conseguia orar antes de dormir quando era mais nova, me perguntava quase sempre se eu era a filha esquecida ou do porquĂȘ merecia tĂĄ passando por tanta coisa, que na minha concepção nĂŁo merecia. Mas sempre converso com Ele. As vezes eu faço as pazes com Ele. SĂŁo conversas boas. As vezes Ele sabe que eu vou falar sem nenhuma esperança no coração, sem nenhuma fĂ©, mas tentando assim mesmo. E as vezes eu sĂł falo âDeus, o senhor sabe do meu coração, nesse momento eu nĂŁo consigo falar nada, mas o Senhor sabeâŠâ e eu espero Ele me acalmar, porque sempre foi, e parece que sempre vai ser a minha Ășnica saĂda. Esperar pela sua misericĂłrdia e pela sua calmaria.