mesmo sabendo que havia praticamente imposto a sua companhia, um sorriso maior estampou seus lábios com s resposta positiva da mulher, sem contar que era uma caminhada agradável do parque ao hospital e soava como exatamente o que ele precisava para tirar a sua mente do que não lhe fazia bem algum. —— bom, minha irmã está grávida, então seu emprego está garantido por alguns meses pelo menos, em uma cidade daquele tamanho não era como se existissem muitas opções, mas ainda sim sean se certificaria que ames e seu futuro sobrinho ou sobrinha ficasse em boas mãos e não havia desconfiança alguma que lunara se encaixava no perfil de uma boa profissional. ele podia não gostar de voltar no tempo para resgatar memórias que gostaria de esquecer, mas em seu momento mais fatídico, não se esqueceria assim tão facilmente da atenção e conforto oferecidos por ela, algo que ele seria eternamente grato. —— mas é bem estranho pensar que a cidade está envelhecendo, se você perde seu emprego eu sou o próximo quando não houver mais crianças e eu sendo obrigado a ensinar adolescentes, disse a última palavra mais baixinho com uma leve careta, fingindo estremecer teatralmente com aquela ideia. —— mas eu também não sou mais novo! dramatizou, —— sinto que entrei em uma zona cinza onde não sei exatamente o que eu sou, ou talvez só é uma crise de meia idade, vai saber…, brincou, dando levemente de ombros antes de finalizar a sua taça e fazer como ela ao colocá-la sobre a mesa mais próxima, já sentia falta do calor do álcool, mas, como prometido a si mesmo, aquela era a sua última dose da noite e ele não podia reclamar muito quando tinha como distração uma boa conversa no lugar da bebida, pois soava como uma troca bastante justa. —— é sobre a confiança, sabe?, riu, —— podis jurar que era uma parte da peça, nunca iria desconfiar se você não tivesse me dito! porém, se quiser tentar uma escolha estilística mais clean da próxima vez que usar essa blusa, recomendo água oxigenada com detergente, garanto que funciona, com tanto vinho ao seu redor, manchas como aquela não eram raridade na casa dos leroux, ainda mais quando um de seus pais era tão estabanado. sean apenas sorriu e acenou com a réplica do elogio, pois não esperava ouvi-lo de volta e também nunca sido muito bom em aceitar elogios, mas ele estava trabalhando nisso e ao menos já havia passado da fase de sentir embaraçado. —— moro sim!, a mentira veio automaticamente ao que colocava-se a caminhar próximo a ela, pois veja bem, aquele não era exatamente o seu caminho, podia-se dizer que era quase o oposto dele, mas não diria isso para acabar fazendo-a mudar de ideia uma vez que ele havia comprado para si a desculpa de estar sendo nobre ao acompanhá-la para poder fugir do fim da festa. sean não era a pessoa mais quieta e controlada do mundo, gostando bastante de sair por aí falando pelos cotovelos, mas ele também era um bom ouvinte e não se importava nenhum pouco em ceder seu espaço, pois existia tempo para tudo, sem contar que apreciava o entusiasmo de lunara e, bem, no fim aquela era uma bela forma de conhecê-la melhor, já que as circunstancias que os levaram a se conhecer não era das melhores. —— eu me acostumei tanto com a comodidade das coisas serem perto que eu não vou de carro para o trabalha há meses, eu gosto disso, é mais tranquilo. oh, onde você já morou?, não pôde deixar de questionar em curiosidade, ele próprio sempre havia sido um grande fã de viagens, mas infelizmente não colecionava tantos lugares visitados em sua bagagem, pois entre viajar e visitar a família, o peso da saudade que sentia de seus pais e irmãos era sempre maior. —— como eu disse, é tranquilo, talvez um pouco calmo demais, mas pelo menos é cheiroso, né? eu não suportava o cheiro das ruas de paris, fui mimado demais por aqui, disse com uma leve careta divertida, ao menos por ali também podia afirmar que todas as suas memórias eram boas, diferente de como era na capital. ou ao menos era o que tentava se convencer quando por sua cabeça já haviam passado inúmeras possibilidades de voltar para a grande cidade, o que por si só já era o suficiente para fazê-lo se sentir extremamente idiota. —— somos bons anfitriões por aqui, mas e você, sente falta de paris?, questionou, se mostrando totalmente atento à resposta dela, era interessante ouvir perspectivas diferentes da mesma situação. —— ah, não se preocupe com isso, agradeço o interesse, mesmo sabendo que minhas respostas provavelmente são bem entediantes, certificou, acompanhou-a no riso. no entanto, ao resgatar a pergunta anterior dela foi impossível disfarçar o brilho que tomou conta de seus olhos e sua expressão mais leve, —— mais ou menos, por vários anos eu fui professor substituto de literatura de turmas do ensino médio, o que foi meio traumatizante, confessou com um breve sorriso mais divertido, —— agora eu ensino francês aos dois primeiros anos do fundamental e estou bem feliz, porque é o que eu sempre quis fazer. é trabalhoso e cansativo como todo trabalho é, mas eu realmente gosto dos meus pirralhinhos e é diferente quando você realmente faz o que ama, faz as coisas valeram a pena.
Ainda que desconfiasse que Sean oferecia aquela linha de raciocínio apenas para concordar com sua própria, Lunara ainda assim permitiu que um sorriso divertido se formasse em seus lábios pela consideração; além disso, a lógica era válida. É claro que não temia tanto assim pelo emprego de nenhum dos dois, afinal tinha certeza de sua paixão e dedicação pela enfermagem, assim como o outro soava esforçado e não transparecia estar verdadeiramente preocupado. “Eu poderia perguntar o que tem de errado com adolescentes, mas considerando que já fui uma, acho que consigo imaginar.” Fez uma careta breve ao se lembrar de tudo que costumava aprontar durante os anos da década anterior, mas logo desfez a grimaça e riu leve. Nunca foi uma jovem terrivelmente rebelde, mas Lunara era passional e nem todas as suas decisões eram as mais acertadas, então colecionava sua cota justa de aventuras. Hoje em dia era bem mais tranquila no geral, mas desconfiava que nunca perderia a teimosia e o deslumbre que, além de serem boa parte do embasamento para suas peripécias, eram também porção considerável de sua essência. “Puts, quanto tempo você tem? Temo que o caminho até em casa não seja suficiente para a lista completa.” Replicou, mas o riso fácil enquanto olhava teatralmente para o próprio relógio no pulso entregava que não falava sério. “Estou brincando, claro. Deixe-me ver: nasci em Istambul, mas morei lá por um tempo muito breve quando era pequena. Depois disso Manchester, Valência, Cologne, Brighton, Leiden, não lembro se nessa ordem. Fomos para os Estados Unidos uma vez, Boston, mas não ficamos lá mais do que alguns meses. Hm... Liverpool e então Paris, onde fiquei para faculdade e um pouquinho depois disso. Bom, e agora Lanveur.” Apostava que tinha uma expressão pensativa enquanto se recordava, as memórias um tanto embaralhadas em sua mente. “Ufa, acho que é isso. Sobreviveu ou te perdi pelo caminho?” O tom de voz era divertido, embora parte de si realmente buscasse algum indicativo na postura alheia que lhe dissesse algo sobre a recepção do assunto. Lunara sabia que sua infância tinha sido totalmente atípica e fora do comum quando comparado à maioria das outras pessoas, e mesmo que adorasse falar sobre sua própria vivência, alguns podiam interpretar o discurso como alguma forma de se vangloriar ou colocar-se como superior. Nunca seria aquilo para ela, e embora conservasse parte de seu orgulho e não aceitasse ser tratada de forma condescendente, ainda gostaria de se certificar de que não seria interpretada dessa maneira. “Eu sinto falta, mas ao mesmo tempo não. Acho que a cidade em si me prende pouco, para mim o que importa mais são as memórias. Como acabei morando em Paris por mais do que alguns anos, o que na minha família era quase raridade, tenho mais lembranças de lá e por isso me sinto mais apegada. É diferente daqui, lá é maior, mais barulhento e realmente tinha lugar que era impossível passar sem franzir o nariz pelo cheiro. A cidade grande oferece opções que um lugar como Lanveur provavelmente não vai ter, mas isso pouco me importa, para ser sincera. No geral, gosto muito daqui e estou feliz por ter vindo. Acho que esse é o resumo.” Finalizou com um sorriso sincero, ainda que mais reservado; não por timidez, mas pela ciência de ter dividido algo pessoal. A esse ponto, Lunara estava sequer prestando muita atenção no caminho, apenas focava-se na conversa e confiava em sua memória muscular para levá-la para casa. “Ah, sim, dá pra perceber que seus olhos brilham quando você fala do trabalho. Nunca fiz o teste em um espelho, mas desconfio que os meus fiquem exatamente assim também.” Dessa vez a curvatura de seus lábios era mais acentuada, sentindo-se contagiada pelo óbvio contentamento alheio. “E como as crianças são com você? Te chamam de ‘tio Sean’ e ficam contentes quando você traz alguma atividade diferente?” Perguntou, curiosa, enquanto dobravam mais uma rua. “Lembro que meu processo de alfabetização foi bem peculiar, já que não fiquei tempo suficiente em um só lugar para passar pelo caminho completo. Certamente devo ter dado bastante trabalho para meus professores.” Naturalmente, não tinha muitas memórias concretas das fases mais iniciais de sua vida, mas lembrava-se de ter tido um pouco de dificuldade em adaptar-se a algumas línguas. “Você ainda era pequeno quando veio para Lanveur? Acho que conheço todos os seus irmãos, e seu pai Louis também. Sempre foram todos vocês?” Indagou, de forma suave o suficiente para que ficasse claro que não estava querendo pressioná-lo por informações. Ao menos, sentia que estava dividindo o bastante sobre si mesma para justificar a curiosidade sobre o outro.