Tenho medo.
Tenho sentido bastante saudade.
Tenho me sentido bastante ansiosa.
Tenho fumado e bebido.
Acho que esse é meu novo vício:
não sentir você.
Tenho pensado em te mandar mensagem,
mas me contenho.
Me convenço de que sua saudade
nem existe
e, se existe,
é menor que a minha.
Preciso acreditar nisso.
É mais fácil odiar alguém
quando imagino que fui esquecida.
Tenho tentado ficar sozinha.
Falho todos os dias.
De manhã,
quando o efeito do beck acaba,
a saudade volta primeiro.
Antes da fome.
Antes do bom dia.
Antes de mim.
À noite,
bêbada o suficiente para esquecer meu próprio nome,
mal sei onde estou,
tampouco sei se ainda sinto sua falta.
Talvez seja esse o objetivo.
Talvez eu esteja transformando
meu corpo em um lugar
onde você não consiga mais chegar.
Não sei que estágio de luto é esse.
Não sei se isso é cura
ou apenas uma maneira mais lenta
de me destruir.
Tenho medo de que passe
sem que eu perceba.
Tenho medo de acordar um dia
e descobrir que não dói mais,
não porque eu tenha melhorado,
mas porque já não sobrou nada
em mim capaz de doer.
Passou mesmo?
— me pergunto.
Doeu mesmo?
— me questiono.
Amei mesmo?
— fica a dúvida.
E então penso em você
e sinto uma coisa horrível:
não sei se quero que volte.
Só queria ter certeza
de que um dia
você esteve aqui.
Porque seria cruel demais
ter me destruído por alguém
que, no fim,
nem deixou cicatriz.
Tenho medo.


















