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thesapatona:
De alguma forma, as sensações e sentimentos pareciam estar amplificados, o que fizeram com que o toque de Samara na coxa fosse recebido com muito mais intensidade, sentia tanta, mas tanta falta de seu toque. A mudança repentina na voz de Sam indicava que tinha falado algo errado, mas ainda não conseguia identificar exatamente o que. Desistiu de desabotoar o cinto, sentindo-se mais calma por Marion não estar em casa .“Paixãozinha”. Era isso o que havia a incomodado. A mente lenta da garota levou uns segundos para responder - Do que você está falando? - Sabia do que se tratava, mas essa assunto era algo que mal admitia para si, quanto mais para outra pessoa, ainda mais se ela fosse sua ex. Calou-se em seguida. Não queria discutir com ela, arrependendo-se até mesmo da pergunta feita e sem dizer mais nada desceu do carro - Acho que consigo. - Respondeu baixinho. Ao sair do carro, sentiu o mundo inteiro girar em torno de si precisando apoiar-se no mesmo e o estômago dar 3 cambalhotas - Sam.. não tô me sentindo bem. - Os lábios ficaram ligeiramente brancos, sentiu a pressão caindo. Sentou-se na calçada para não cair. Respirou fundo, sentia tudo rodando e sua concentração estava toda em não vomitar, ou desmaiar. - Acho que preciso de ajuda sim.. - a voz saiu fraca e trémula, levantando apoiando no carro.
samara ignorou a pergunta da garota, mas por dentro, aquilo ecoou. lemaire sempre notou a maneira como jenkins olhava para a melhor amiga, um tanto quanto lânguido, demorado demais, desejoso demais, diferente dos demais. tal qual uma criança observa um brinquedo na vitrine de uma loja, que nunca vai ter. por anos guardou para si a dúvida, já que dorothea nunca tinha dado nenhum motivo para alimentar ou confirmar suas desconfianças durante o longo relacionamento. mas sua intuição era aguçada, e a fofoqueira sabia ler as pessoas daquela escola como ninguém. no entanto, agora que estavam terminadas, talvez não houvesse mais nada que impedisse que a ex investisse em sula, se esse fosse o caso, se realmente quisesse. não, não haveria impedimentos, nada para barrar isso, e estaria em seu direito de fazê-lo, por mais que samara detestasse admitir. ainda assim, apenas a ideia delas juntas era o bastante para embrulhar seu estômago. tantos ‘e se’s’ invadiam seus pensamentos quando a situação hipotética a acometia: e se fosse verdade? e se estivesse certa? e se ela sempre tivesse sido apaixonada pela garota? e se sula correspondesse? e se, de fato, a melhor amiga fosse o troféu inalcançável de thea desde o primeiro instante, o que isso fazia de samara? “vem, eu te ajudo,” murmurou gentil e austera, e colocou o braço dela sobre seus ombros para conduzi-la até o portão de grade, que abriu com a chave, antes de subirem as escadas até o segundo andar. a maneira como amolecia perto dela a matava por dentro. samara tinha defesas imbatíveis erguidas contra tudo e todos, milhões de planos vis, mil e uma maneiras de destruir a vida e a reputação de quem quer que cruzasse seu caminho. mas com a ex... ela não conseguia se reconhecer. ou pior, reconhecia muito mais a pessoa vulnerável que a presença de thea trazia à tona do que a faceta maquiavélica, dissimulada e imprevisível que mostrava em east wenk high. parou frente à porta com ela ao lado, e não demorou à abrir. “pro banheiro. vai.”
thesapatona:
Queria ouvi-la dizer ‘Também sinto sua falta’ ou pelo menos mais uma vez ouvir ‘eu te amo’ e não fora nenhuma dessas palavras que saíram dos lábios da ex. Não fosse o fato de ter se distraído com o caminho em que seguiam, começaria a chorar. Olhou mais uma vez para a rua que levaria para sua casa ficando para trás. Fitou Samara brava prestes a começar a xingá-la, chegou a entre abrir os lábios com uma postura mandona, mas perdeu toda a pose quando ela começou a falar - Eu não estou tão ruim assim. - emburrada, encolheu os ombros , recostando no banco do carro. Não tinha pensando em como resolveria isso com os pais. O pensamento passou pela mente como uma criança que vê um passarinho voando e a ideia do banho lhe assombrou a mente. - Banho frio não…- Disse quase chorosa. Odiava banhos gelados, a não ser que fosse direto da natureza, como em cachoeiras. Fora isso, banhos mornos ou quentes. Uma das poucas coisas das quais não conseguia abrir totalmente mão em prol do planeta. Quando o carro virou a esquina, Dorothea sentiu um desespero crescente. Marion. A imagem da ex cunhada veio a mente e por mais gentil que ela fosse, conseguia ser bem intimidadora quando queria. - Sam, melhor eu ir pra outro lugar.. posso ligar pra Sula… - Se enrolou toda tentando desabotoar o cinto de segurança - Sua irmã vai querer me matar se me vir assim e nunca mais vai querer te ver comigo.- No momento, parecia ser uma questão fundamental, por algum motivo esperava ainda ser querida na família.
o estado de negação da morena a fez dar uma risada anasalada e balançar a cabeça de leve. estava batendo com a cara na parede, precisou ser conduzida até o carro e ainda assim achava que estava cem porcento bem... só dorothea mesmo pra abusar da paciência de samara e sair impune tantas vezes. lemaire pôs uma mão na coxa da garota e apertou para que prestasse atenção, como de costume, sem nem pensar, e fez um biquinho com a boca para falar com ela. “o bebezinho não quer tomar banho, é? awn, cuti cuti cuti... tadinho do nenê.” falou irônica, a voz fina em puro desdém. “não tem pra onde correr, thea, vou te enfiar no chuveiro com a resistência desligada e fim de papo.” e como se não bastasse toda essa situação, a menção do nome de sula a alfinetou e a lembrou de um dos principais motivos pelos quais estava brava. tirou a mão da coxa da garota imediatamente e apoiou a palma na marcha. “marion mudou o turno do segundo emprego dela, não está em casa e só vai chegar de madrugada, cansada, querendo a cama dela. mas se você quiser, vá. vá ficar com a sua paixãozinha. eu não ligo.” deu de ombros e engoliu em seco, mas ao final da sentença seus dentes estavam cerrados. “o que interessa é se eu quero me ver contigo.” disse, ferina, sem pensar duas vezes. mas no fundo, sabia que soaria seca. virou a esquina na rua de sua casa e estacionou o jeep em frente a um prédio amarelo, simples mas charmoso, de três andares. respirou fundo e lambeu os lábios, tirando os cintos, pensando sobre o nome antes mencionado. não, não daria uma escolha para thea. temia que não fosse ser escolhida por ela. de novo. “saia do carro, vamos entrar. acha que precisa de ajuda pra subir as escadas?”
thesapatona:
O estacionamento parecia ter sido empurrado uns 5000 km pra frente, pois nunca chegava. Sentia um misto de saudades, vontade de correr e um pouco de enjoo. Ao pararem ao lado do carro, olhou fixo para o horizonte onde o sol se punha - Eu gosto do sol, sabia? - Perguntou olhando para ex enquanto a mesma abria o carro e a mandava entrar - Sim senhora! - Disse batendo continência, como se estivesse a frente de um comandante de exército. Teve mais dificuldade em colocar o cinto do que gostaria de admitir, mas a pequena-grande vitória fora conseguir afivelá-lo antes de Sam entrar no carro. O que fez, com que a mesma flagrasse uma pequena comemoração ao entrar no carro, que foi interrompida no mesmo instante. - Essa é uma excelente pergunta. - Respondeu Thea pensativa, não havia perguntando o que era podia ter boa noite cinderela e agora estar desacordada nos cantos da escola e ainda sim, não teria resolvido o “problema” que levara a beber. - Eu não estava pensando. - Respondeu enrolando a língua levemente. Suspirou olhando para foro da carro, que começava a tomar velocidade, abaixando o vidro para sentir o vento no rosto - Eu queria parar de pensar, estou cansada de pensar sabe? - Olhou para Samara, sentindo o coração parar de bater por um momento. Aquela luz, Golden hour, favorecia tanto os olhos dela a deixando ainda mais bonita, perdeu-se um instante na fala retomando em seguida, desviando o olhar para conseguir pensar melhor. - Sinto sua falta o tempo todo, queria não sentir mais. - Deixou escapar dando de ombros - Antes de você me fuzilar com o olhar e querer me matar.. - levantou o dedo indicador como quem dá uma lição - Eu sei que fui eu que terminei e você deve me odiar, mas não torna as coisas mais fácies. - Voltou a encarar a rua encostando a cabeça no encosto do banco - Hey.. minha casa é pra lá.. - apontou para a rua em que Sam deveria ter entrado.
“claramente,” comentou baixinho, uma carranca no rosto e os olhos focados na estrada adiante para evitar fitá-la de verdade. samara ouviu tudo o que a morena tinha pra dizer em silêncio por um momento que, para ela, pareceu uma eternidade. a voz de dorothea mudava quando ela estava bêbada, ficava arrastada, lenta, confusa, auto-destrutiva, e isso trazia nela um embrulho no estomago, uma sensação esquisita que ela não sabia exatamente explicar de onde vinha ou porquê. tudo o que sabia é que era desconfortável. principalmente a ideia de que jenkins estava assim por sua causa, ainda que indiretamente. “não, não mesmo. e agora, você está realmente tornando as coisas ainda mais difíceis.” queria ter dito: ‘eu também sinto sua falta’, mas seu orgulho a fez engolir as palavras que já escalavam as paredes de sua gargantas e ameaçavam sair, em troca de manter sua postura e dignidade. havia tentado já várias vezes pedir desculpas e se reconciliar com a ex. fazê-lo de novo, tantos meses depois, seria só mais uma forma barata de humilhação. “claro, claro. você quer que eu deixe você na porta de casa desse jeito? melhor ainda, o que acha de ligar pra sua mãe agora e avisar que estamos chegando, quanto tempo você acha que leva pra ela notar na sua voz o quão bêbada você está? vamos ver como ela te recebe! algum palpite? hm, que tal pulos de alegria e confetes? não?! ah tá, foi o que pensei.” caçoou, imitando um telefone com o polegar e o mindinho perto do rosto. “seus pais são legais, mas não abuse da sorte.” disse, colocando a mão de volta no volante. mais duas quadras e chegariam na casa dela. o sol se deitava no horizonte, atrás de thea e, por mais que tentasse, aquele espetáculo carmesim no céu não era tão gentil aos olhos quanto a garota. o crepúsculo não se comparava a ela. deuses, como sentia falta dela... “estamos indo pra minha casa. e a primeira coisa que você vai fazer quando chegar é tomar um banho frio. it’s not up for debate.”
thesapatona:
No fundo, bem no fundo sabia que a ex tinha razão e era um ciúmes infundado. Mas sentia tanta falta dela, que vê-la bem seguindo a vida apesar do término era doloroso. Sim, era um pensamento extremamente egoísta, principalmente por ter sido a própria Dorothea a terminar. Mas queria que a Sam estivesse tão miserável quanto ela. O que queria na verdade ignorar toas as circunstancias que levaram ao termino e reatar, passar uma página em branco e começar tudo de novo. Tinha sorte por estar bêbada naquele momento e não sentir a vergonha pela situação embaraçosa de alguns segundos antes. Não saiu andando muito rápido, pois não confiava nos próprios pés naquele momento. Ao sentir a ex se aproximando, não fez objeção ao contato físico. - Não preciso da sua ajuda. - Murmurou, sentindo as bochechas quentes, e provavelmente avermelhadas. Virando o rosto para o lado, olhando para o chão. Não queria que ela notasse a vergonha, pois a mesma não vinha da situação em sí ou por estar bêbada e sim pelo toque inesperado de sua mão na cintura, ajudando-a a manter o equilíbrio.
não foi difícil encontrar seu carro no estacionamento da escola, que ficava logo na entrada. o sol estava já se pondo num céu saturado. samara gostava tanto de pores-do-sol avermelhados, mas com dorothea bêbada ao seu lado, não pôde nem parar para de fato apreciar. trouxe a garota consigo, e após tirar a chave dos bolsos, abriu a porta do carona para ela. “entra. e coloca o cinto.” pediu, fechando a porta pra ela e caminhando até o lado do motorista para entrar no carro e se acomodar. aquilo tudo era familiar demais. estar com ela naquele jeep preto que o sr sloan deu a ela de aniversário trazia à toda memórias de quando levava thea para passear, desde que tirara sua carteira de motorista. não era muito a cara dela se embebedar dessa forma e, por mais que seus pais fossem bastante tranquilos, não ficariam exatamente felizes em vê-la daquele jeito. e detestaria ver o olhar desapontando na face da sra jenkins quando a levasse pra casa. então, um pouco relutante, decidiu seguir o curso de uma ideia melhor. “o que você bebeu?” perguntou, sem rodeios. dando a ré para sair do estacionamento da escola e pegar a estrada. “no que estava pensando? você precisa ser mais esperta com essas coisas. if you wanna be a bad kid, at least do it right.” lemaire riu debochada, os olhos no trânsito. “amadores...”

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thesapatona:
O sorriso encerrou-se no momento em que ouviu o xingamento da ex, sentindo-se extremamente ofendida, afinal, esperava uma recepção bem mais calorosa. Não esperava beijos e abraças, mas ao menos um sorriso, talvez. - Eu não sei do que você está falando. Estou perfeitamente normal. Inclusive estou ótima, melhor impossível! - Passou a mão nos cabelos afim de tirar uns fios que a incomodavam no rosto. Mesmo parada, tinha a sensação de que tudo ao redor estava rodando e precisava de um esforço enorme para se manter parada e de um esforço maior ainda para focar a ex no campo de visão. Apertou os olhos para ajudá-la a enxergar. Aparentemente o álcool ampliava a leve miopia. Ficou em silêncio um tempo, sentindo um aperto enorme no coração por estar na frente de Samara e naquele clima horrível. - E você também tá ótima né? Fazendo novas amizades…- Deixou no ar as palavras e completou - com as putas novatas. - sem perceber que havia dito em voz alta. Olhando apara a ruiva que Sam havia abraçado a pouco tempo. - Enfim… você tá bem, eu também. então é isso. - Disse sorrindo em um animação falsa e exagerada. Virou nos próprios calcanhares de maneira decidida e pronta para sair do caminho da ex, cambaleando ao fazê-lo. Mas deu de cara com a parede da arquibancada, espalmou a mão da mesma para não perder o equilíbrio apontando com o dedo na outra direção com um sorriso amarelo e saiu andando, como se aquela conversa tivesse existido apenas em sua cabeça.
samara se manteve parada, estática. os olhos pesados, encarando-a com um misto de irritação e pesar. já fazia alguma tempo desde que haviam terminado e, por consequência, começado a se evitarem na escola. era doloroso, claro, ver alguém que era ser tudo se tornar quase que uma estranha pelos corredores de east wenk high. mas já havia passado do estagio de negação do término, e, honestamente, se sentia mais furiosa do que nunca. que direito jenkins tinha de sentir ciúmes dela agora, principalmente depois de todo aquele flerte descarado com maya nas aulas de química? samara queria enfiar a cara das duas num pote de ácido sulfúrico. “ah, tô vendo!” disparou, sarcástica. um sorriso de canto falso e forçado. ao que a colega de classe continuou, lemaire enfiou as mãos no bolso dos shorts e suspirou pesado. “elas têm quatorze pra quinze anos, dorothea. te manca. uma cavalona dessas xingando menina do freshman year por ciúmes, era só o que faltava.” retrucou, o cenho franzido. apontava para jenkins de cima a baixo em julgamento. se a mãe dela a visse daquele jeito, ficaria de coração partido. observou-a dar as costas e tentar seguir seu caminho da maneira mais desajeitada e patética possível. samara não conseguiu conter um risinho. tapou a boca com as mãos para se recompor. respirou fundo e deu de ombros, xingando a si mesma pelo que estava prestes a fazer. caminhou na direção da ex-namorada, em silêncio, e colocou o braço dessa acima de seus ombros, segurando-a perto pela cintura com a outra mão. “vem. e eu não quero ouvir nem um piu seu até a gente chegar no meu carro, okay? é sério.” avisou, guiando-a pelos fundos. com sorte, o evento estava já no finalzinho, então não dariam tanta falta das duas. e samara sabia exatamente como se esgueirar para fora dali. “considere-nos quites.”
thesapatona:
Thea não estava procurando por @linguaruda, apenas estava caminhando pela escola e quem sabe talvez trombar com a ex. Mas obviamente, não estava a procurando. Estava a procura do banheiro. Onde fica mesmo o banheiro? A morena parou cambaleante, olhando por cima do ombro para Seth, que já estava a uma distancia considerável e que caso fosse preciso conseguiria correr. O porque correria de Seth era um mistério, mas conseguiria caso fosse preciso. Talvez tivesse exagerado um pouco na bebida, ignorando o aviso de que a mesma poderia estar muito forte. Bastaram 3 longos goles, que praticamente acabaram com o conteúdo da garrafa e apenas alguns minutos depois Thea já sentia-se em um carrossel ambulante. Em algum lugar da escola tinha um banheiro e esperava que nele não tivesse uma ex aos beijos com uma novata assim como elas mesma já fizeram matando aulas. Não, não iria pensar em Samara, o foco agora era o banheiro. Uma torcida animada chamou a atenção da jovem embriagada. Muito barulho, cores e bastante risadas e barulho de água. Precisava beber água. Apertava os olhos afim de poder ver melhor as pessoa as pessoas e tentar entender o que estava acontecendo. Ao alcançar o local, apoiou-se na arquibancada. Quando a visão focou nas pessoas que participavam da brincadeira, não conseguiu ver mais ninguém, se não a ex. O coração parecia querer sair pela boca. Era a primeira vez que a via depois que entraram de férias. Na tentativa de tirar o assunto da cabeça, puxou assunto com uma moça que parecia ser novata. Perguntando do que se tratava aquele jogo, tentando parecer o mais sóbria possível. Provavelmente não estava tendo muito sucesso nisso. Pois variava entre xingamentos e elogios para a Sam, que parecia focada de mais no jogo para notar Thea na arquibancada. Gritou e bateu palmas com todo mundo, como se fosse final da copa mundial de futebol e seu time favorito estivesse jogando, até que viu a puta novata abraçando Samara. Thea apertou os olhos fuzilando a garota. Acompanhou Samara com o olhar, esperando que a mesma a olhasse de volta, mas não o fez. Um desaforo! Dorothea marchou em direção a ex aproximando-se dela com um sorriso forçado. - Parabéns pelo … - Não conseguia lembrar-se do nome da brincadeira - jogo! - Olhou em volta ainda sorrindo numa simpatia forçada. - Muito legal né? Esses eventos que a gente recebe os calouros…. E por sinal, você parece estar se dando muito bem com as novatas né? - Riu franzindo o cenho, com a voz levemente estridente. Gesticulou com as mãos, apontando o dedo para ela ao final, numa tentativa de parecer descolada e desinteressada no assunto.
não era novidade alguma o quão competitiva samara podia ser. ainda mais com o tanto de raiva acumulada dentro de si, que ela quase nunca sabia o que fazer para liberar--- ou, ao menos, não de forma saudável. havia até tentado entrar num dos times femininos da escola uma vez, se inscreveu e compareceu ao treino teste e tudo mais, mas fora logo dispensada por ser violenta demais. talvez o treinador tenha visto algo nela que outra pessoas tinham dificuldade de notar (e que samara só viria a descobrir anos depois), mas, de qualquer forma, a festa da fogueira era para todos, assim como os jogos e disputas recreativas proporcionadas lá, e os supervisores não poderiam impedi-la de jogar ali. ela adorava esses eventos, porquê além de ninguém poder dizer-lhe merda alguma sobre sua participação, sua competitividade e falta de escrúpulos faziam-na ser escolhida pelos times primeiro. o jogo da vez era queimada com balões d’água. as regras eram simples: se você fosse atingido com um balão d’agua pelo time adversário, estava eliminado da partida. o time que primeiro eliminasse os participantes do outro time, ganhava. sete partidas depois, samara e uma outra novata, jocelyn ribbs, eram as últimas ainda secas, pulando de alegria e furor, comemorando a vitória do time azul entre abraços e gritos. lemaire primeiro abraçou a garota ruiva, depois o restante do time azul, um punhado de alunos encharcados, saíram dos bancos reserva e correram pra um abraço em grupo. aquelas eram memórias que a fofoqueira levaria pro resto da vida. e, por pelo menos algumas horas, samara pôde esquecer de seus problemas; das coisas financeiramente turbulentas em casa com sua irmã, das pessoas em east wenk high que queriam (com razão) sua cabeça numa bandeja de prata e no dolorido término de seu relacionamento de quase três anos. saía enlevada e distraída da quadra da escola, quando se deparou com dorothea perto das arquibancadas. ótimo. meu dia não podia ficar melhor, pensou, sarcástica. o sorriso morreu em seus lábios ao vê-la naquele estado. era assim que thea estava lidando com o término que ela mesma tinha proporcionado? bebendo e insinuando coisas sobre samara que claramente não estavam acontecendo? aliás, mesmo se estivesse, lemaire estava no direito dela de seguir com a própria vida. ela revirou os olhos e estalou a língua, claramente impaciente. “ih, o que é que você quer, mulher? vá pra porra.” resmungou, de cara fechada, impedida de andar adiante com a ex barrando o caminho. “você devia se preocupar mais com a sua vida. se algum supervisor te encontrar desse jeito você vai se lascar todinha, cê sabe, né?”
saintarine:
samara era extremamente eloquente e confiante sobre suas observações, e isso catherine jamais poderia afirmar o contrário. não que fosse extremamente difícil chegar à conclusão de que catherine com certeza concordava que estaria mais confortável fora dali, mas dentro dessas características existia certo teor de empatia. empatia esta que a sinclair claramente entendia que não existia em todos, mas que ficava muito contente ao percebê-la em pessoas as quais jamais imaginara. o comentário da lemaire a deixou um pouco sem graça devido à menção direta sobre gostar ou não de outros em um sentido mais sexual, mas esse não era o ponto. ela tinha razão sobre seus pais e tudo mais. com certeza seria mantida em cárcere privado até o final do colegial se seus pais descobrissem aquela fuga. “ ━━ parece que você tem ótimos palpites. ━━ ” comentou, da forma mais simples e sucinta possível. não que não quisesse que ela soubesse que tinha a razão. era só constrangedor ter de concordar sobre o fato de que não podia fazer muitas coisas por causa da família. ainda que estivessem em um ambiente barulhento de qualquer forma, subir para a varanda trouxera férias para os ouvidos sensíveis da morena, e mentalmente agradecia samara pela ideia e a companhia. sentando-se em frente a garota e por cima dos joelhos, deixou as mãos acima das coxas, encarando-a. riu um pouco ao concordar com a cabeça. “ ━━ eu acho que estive meio desconfortável até pra fazer isso. como se eu nem devesse estar aqui. ━━ ” por fim, o leve desabafo não fora tão difícil de soltar. “ ━━ oh, não! o que você acha que eu sou? ━━ ” rindo, ajeitara-se sobre as próprias pernas, cruzando-as para ficar mais confortável e encostar-se nas madeiras das contenções da sacada. mais uma vez, samara não estava errada. como a garota sabia tanto sobre ela? não que fosse a pessoa mais misteriosa do mundo, mas pensara ser mais discreta. levando alguns salgadinhos até a boca, negou com a cabeça. “ ━━ sim, eu confio bastante nas pessoas e você tem um ponto, mas não, eu não bebi nem o que as meninas me ofereceram. quer dizer, elas já bebem o suficiente por nós três, e eu acho que uma de nós tem que ficar sóbria pra saber como agir se pelo menos uma de nós se encrencar. ━━ ” comentou, oferecendo um pequeno curvar de lábios para a lemaire. não queria parecer a chata. não queria ser a chata, mas agia como uma por necessidade. sua especialidade era salvar a bunda dos outros. não imaginava que esse era o papel da garota à sua frente, mas pensar que estava sendo essa pessoa naquele momento para ela a fizera sorrir um pouco mais largo. ela parecia realmente influente e importante ali, e agora. “ ━━ desde quando você tem toda essa vibe de heroína? confesso que é difícil ver isso na escola. nunca pensei que viveria pra ver esse momento. é um… novo jeito de te perceber. ━━ ” restringiu-se dessa forma. falar demais não era seu costume, mas empolgava-se com facilidade e isso era um pouco constrangedor toda vez que era exposta a relações novas. a frase dela não exatamente pegara a sinclair de surpresa, mas a diferença entra as duas era gritante e deixava catherine curiosa. perguntava-se como era estar em seus sapatos e poder se sentir livre a ponto de fazer o que quiser sem medir consequências. “ ━━ e você já fez isso? ━━ ”
o que você acha que eu sou? a pergunta ecoou. samara riu e inferiu como uma retórica, mas sua mente afiada tinha uma resposta pronta, que catherine jamais saberia. “é pra isso que elas te trazem pra esse tipo de evento? pra servir de babá delas?” questionou, as sobrancelhas arqueadas. não gostava de sula e detestava a irmã de cat. mas o desgosto por uma era velado, enquanto seu ódio pela outra estava mais do que escancarado. e tinha um pouco de dó de catherine por ter de andar pra cima e pra baixo com essas duas, visto o quão irresponsáveis e inconsequentes eram com a garota recatada. mas não seria idiota ao ponto de dar com a língua nos dentes e expor completamente sua aversão na frente da colega de classe. sabia o quão inocente era, do tipo que perdoava tudo e todos, e o quão apegada à elas parecia ser. as perguntas eram incisivas e as palavras cirurgicamente escolhidas, afim de fazer com que catherine tirasse as próprias conclusões, que achasse que aquilo era idéia sua. ou, ao menos, pretendia instigar um tiquinho, só um tiquinho, de discórdia no grupo--- ao plantar essa sementinha. “ah, não. esqueci. você tirou sua carteira de motorista recentemente, não foi? deve ser por isso. se eu tivesse uma amiga que não bebe nunca, também arrastaria ela comigo pras festas. quero dizer, você entende, né, o quão conveniente seria?” disse descontraída, de forma extremamente casual, enquanto colocava mais um salgadinho na boca. a isca perfeita, ou pelo menos o começo de uma. agora era só esperar para ver a reação no rosto de catherine. as palavras dela em resposta não importavam, mas os olhos castanhos confusos e traídos por meio segundo antes de talvez se recompor era tudo o que samara precisaria vislumbrar pra saber que tinha dado certo. a doce sinclair merecia mais do aquilo. talvez só precisasse de um empurrãozinho pra realizar. “se contar pra alguém, vai acordar com a boca cheia de formigas.” provocou, olhando-a de cima a baixo. samara mordeu o lábio. “i mean, vitória a delas... doce do jeito que você é. vai ser uma refeição bastante apetitosa.” brincou, ardil. se inclinou na direção dela e, com o polegar e o indicador segurando suavemente o queixo dela enquanto falava, fazendo com que a fitasse. “veja bem, é que eu tenho uma reputação a zelar. posso confiar a você esse tortuoso segredo, sinclair?” o sorriso de canto não se desfez quando a soltou devagar. a fofoqueira simplesmente deu de ombros. “ainda não. mas a festa começou faz pouco tempo. a noite é uma criança, quem sabe o que pode acontecer?”
thesapatona:
- Esse é exatamente meu ponto! - Respondeu irritada com a confissão da ex. No fundo, imaginava que poderia ser ela. Afinal, quem mais ligaria consistentemente ano após ano. E mesmo não querendo admitir, era de certa forma um conforto saber que poderia ser ela do outro lado e que a mulher ainda pensava nela assim como a própria Dorothea fazia. Sentiu algo roçando em suas pernas, e ao baixar o olhar viu a gatinha toda carinhosa. Na confusão da briga, mal notara o quarto de hotel, muito menos o fato da escritora ter um gatinho no mesmo. Distraiu-se com o animalzinho, enquanto a ex complementava sua fala , voltando a encará-la ainda irritada, ou até mais do que alguns segundos antes. - Você não acha que esse papo tá velho de mais não?! - Riu batendo a mão na perna, balançando a cabeça , o que faz com que a gatinha escondesse novamente em baixo da cama. - Eu não sou perfeita! Não sou um anjo que caiu do céu nem você é o próprio lúcifer sobre a terra! - Bradou olhando fixamente para Samara - O papel de vitima não te cabe. Então para de ficar jogando a culpa de tudo com base no que VOCÊ acha que as pessoas pensam de você. - Respirou fundo desviando o olhar para o chão demorando-se alguns segundos para voltar a encará-la, sentia-a um vulcão em erupção tamanho era a intensidade dos sentimentos dentro de si. Estava chateada, e nervosa principalmente por não conseguir fazer a ex ver o quanto ainda era importante e justamente por isso Jenkins fugia, pois aquele encontro tinha apenas dois caminhos e depois disso não teria mais volta. Quando se tratava delas não existia meio termo. Preferia muito mais eternizar a ultima dança no baile de formatura, assim como o último beijo e com ele a esperança de um possível “para sempre”, de que as coisas mudariam na faculdade, afinal, não teria mais todo aquele drama da escola e nem as pessoas que faziam mal para Samara. Seu amor estaria intacto nessa memória. Já a realidade, a aterrorizava. - Eu não sei mais o que eu posso fazer pra você entender que sempre fui completamente apaixonada por você . - Disse em um desabafo cheio de cólera sentindo as lágrimas voltarem a escorrer pelo rosto. - Terminar com você foi a coisa mais difícil da minha vida e não tem um dia se quer que eu não me arrependa de ter feito. - Não conseguia mais conter as lágrimas, e de certa forma, sentia como se tivesse descarregado um peso enorme que carregava em seu peito. Mas o choro misturava-se com a raiva que sentia no momento por não ver como conseguiriam resolver aquela situação e isso a apavorava mais do que qualquer coisa na vida. Pois pela primeira vez, percebeu que realmente poderia perdê-la e dessa vez seria para sempre.
sorriu de canto, amarga, enquanto o olhar de thea a atravessava, assim como suas palavras. mas você é, para mim, um anjo. imperfeito e mau e precioso; cheio de raiva, cheio de coração, pensou; havia um traço de desdém, até mesmo em seus pensamentos, ao recitar mentalmente a linha da poesia que a acometia agora. os versos que havia lido sobre ela, os que havia escrito sobre ela, e aqueles que nunca sairiam de sua cabeça, como o fantasma dela desde que partiu. a escritora suspirou pesado, notando a ironia. ela, que tão boa era com palavras, agora não conseguia sequer juntar um punhado destas para rebatê-la. teria se dado por vencida? dificilmente. havia um sentimento guardado ali, que não a abandonava nunca. uma sensação terrível. e havia perdido as contas de quantas vezes tocara no assunto com sua terapeuta, quantas vezes tentara resolver aquela pertinente e esmagadora impressão de que, se dorothea descobrisse tudo o que tinha feito, todos os erros cometidos, cada canto obscuro de sua personalidade reativa, que passara anos enfrentando para amenizar ou canalizar e melhorar, mesmo assim, a rejeitaria. e, se fosse honesta consigo mesma, já havia há muito aprendido o porquê disso. conhecia consideravelmente bem os labirintos mais sombrios de sua mente, para onde a levavam e para quê e todos esses pequenos motivos inerentes. sim, estava melhor que antes agora, talvez tudo fosse diferente vide que se conhecia melhor. mas ainda tinha medo de que no instante em que seus defeitos emergissem, mais evidentes, mais pungentes, a mulher se assustaria outra vez. samara e sua mania chata de racionalizar tudo, se precipitar, pensar na solução de problemas que nem mesmo existiam e que ela mesma criava. passou a mão pelos cabelos, mordendo o lábio com força, para descontar sua frustração, enquanto a ouvia bradar estridente. estava prestes a revidar no mesmo tom quando a fala da outra penetrou seus ossos e a paralisou de imediato. até o ar que havia puxado, pulmões adentro, congelara neles; e sua espinha tinha certa dificuldade de assimilar os choques necessários para trazer qualquer reação inteligente de volta ao corpo inflamado. piscou os olhos duas vezes, assimilando, e grunhiu--- um som enervado, gutural e cheio de irritação. “você me tira do sério, mulher! que inferno!” saiu como um rosnado, dentes à mostra e tudo, e as mãos em garra como se quisesse apertar e esmagá-la. e foi só o que conseguiu dizer e fazer antes de levantar num rompante, caminhar até ela e beijá-la em cheio na boca-- com toda a cólera, todo o açoite, toda a vontade que tinha de detestá-la, rechaçá-la. seus dedos e palmas, outrora ferozes, seguravam ambos os lados de um rosto tão lindo e cruel, como se feito de vidro, delicado, quebradiço; e, de peito atravessado e aberto, puxava-a afoita para si.
zippyourmouth-dubois:
a risada que escapou entre os lábios de zipp foi completamente espontânea, por mais que não concordasse com violência, imaginava que samara estava brincando, o que tornava a cara de terror feita pelo garoto ruivo, algo hilário… reparação histórica ou algo assim. - Acho que você o assustou o suficiente para ele tentar. - Disse, dando de ombros mesmo após ouvir as frases subsequentes. É claro que samara sabia, não seria surpresa para ninguém encontrar zipporah em alguma das festas com um beck enrolado em algum canto. - Em abstinência o suficiente para ler um panfleto? porque bem…eu tenho uma quantidade boa de ambos. - confessou, apoiando a maos direita em uma das alças da mochila, a colocando sobre o ombro. - Então… quer entrar na causa?
ao ouvir o comentário, riu e fez uma dramática reverência. “de nada, chéri. de nada...” poderia dizer disponha, mas sabia que não havia garantia alguma de uma nova cortesia por sua parte. só estava li porque era conveniente e porque não tinha mais nada para fazer, ninguém mais à vista para atormentar. “a causa envolve tacar fogo em banco e quebrar janela de ônibus? se for eu ‘tô dentro.” perguntou, um sorriso patife nos lábios, fitando a morena como quem procurava um motivo, qualquer que fosse, para se meter em confusão. talvez ela soubesse de alguma coisa. todo mundo sabia algo sobre alguém, restava a ela separar o joio do trigo e usar o que era realmente útil. e samara sabia arrancar os segredinhos dos outros como ninguém. “you’re kind of preaching to the preacher here, honey. mas eu sei exatamente quais alunos poderiam se juntar a você. se quiser eu te ajudo... mas vai ficar me devendo uma.”

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thesapatona:
Jenkins respirou fundo, dando as costas para a porta tendo como desculpa para si a privacidade da ex. O pausa na briga era bem vinda. Mal tinha se dado conta de que não conseguia respirar direito. Ainda processava o fato dela ter acabado de admitir que voltara para os EUA, basicamente, por ela. Ouviu o rapaz anunciar o menu árabe vagano. Uma entrada de tabule e o prato principal mujaddara. Deu um sorriso de canto, ainda de costas. Lembrava-se muito bem daquele prato, anos atrás no aniversário de namoro foram jantar em um restaurante árabe do qual tinha estas opções veganas, alguns meses depois o restaurante fechou e Thea nunca mais conseguiu encontrar este prato tão saboroso quando do pequeno e aconchegante estabelecimento. Ao ouvir o clique da porta se fechando virou-se para Samara ainda com o olhar sério - Nem sei a última vez que eu comi… Mas realente não estou com fome. - Fechou os olhos passando esfregando-os. Cruzando os braços em seguida - Obrigada, de qualquer forma. - completou em seguida, não querendo ser mal agradecida. Até acharia fofo o gesto delicado e cuidadoso da ex, se ainda não estivesse tão magoada. Já a raiva, talvez tenha se destilado um pouco com a interrupção. Suspirou profundamente. Abrindo os olhos para fitá-la. - O problema nisso tudo Samara, é que você esqueceu de me colocar nessa equação, mais uma vez. - Caminhou um passo para frente abrindo os braços. - Quando foi que eu recusei falar com você? Ou rejeitei uma ligação sua? Por mais puta que eu tivesse, e nunca virei as coisas pra você. Muito diferente do que você colocou na sua cabeça. Não estou dizendo que eu não errei, eu errei também, em várias coisas. Mas tudo que precisava era de um telefonema, ou uma mensagem! - A voz era mais mansa porém cheia de mágoa. suspirou novamente cansada. Estava exausta na verdade.
orgulho. essa era a palavra que melhor definia e resumia grande parte dos motivos e atitudes de samara lemaire. quando este era ferido, fazia coisas inimagináveis para retribuir a dor infligida, sem falar na tendência impiedosa de agir como fosse necessário para protegê-lo. era movida pela razão, de uma natureza pouco espontânea propensa a auto-preservação, que não tomava riscos sem primeiro calcular as possibilidades--- o que a tornava mais parecida com sua mãe do que gostaria de admitir. mas isso mudava quase que completamente quando se tratava de dorothea jenkins. apenas ela conseguia deixar a escritora à flor da pele, com o coração na mão e o sangue fervendo; odiava o fato de algum dia ter dado a ela esse tipo de poder. esperava que ter ido embora apagasse isso, destruísse as memórias, diluísse a complexidade e ingenuidade de tudo o que viveram, numa época em que cantavam sobre o amor sem nem ao menos saber como amar. detestava-a apaixonadamente. sim, detestava. agora, de corpo e alma. e olhar em seus olhos só a fazia ter plena ciência da maneira como a mulher a fazia pôr os pés pelas mãos, tomar um salto de fé, deixar seu orgulho de lado--- como tinha feito ao cruzar oceanos; por mais que soubesse lá no fundo que isso só terminaria com ela sendo deixada para trás de novo, com um coração partido e uma vontade agonizante de sumir. deuses, samara estava tão furiosa e tão cansada... não sabia por qual resultado esperava ao comprar aquela passagem só de ida para new york, mas certamente não era esse. olhava-a em silêncio, as íris inundadas em melindre e sanha. era detestável, insuportável e desagradável a maneira como absolutamente e irremediavelmente a adorava. “quem disse que eu nunca te liguei?” franziu o cenho, falhando em conter um risinho debochado. “ou você acha que recebia trotes em todos os seus aniversários? seria muita coincidência, não acha?” ela atravessou o quarto e se sentou na cama, observando enquanto bitch ronronava e se esfregava na perna da jornalista, se acostumando ao novo cheiro. “ano após ano, eu ligava--- apenas por alguns segundos, só pra ouvir sua voz. eu mudei de número, você não. claro que não, a boa e velha dorothea jenkins jamais faria isso. sempre admirei essa qualidade sua, sabia? se eu tivesse em mim um terço do altruísmo que há em você, talvez fosse até canonizada... mas acho que no final, ‘tô mais pra diabo.” desdenhou e estalou a língua. “somos mesmo como água e vinho, não é, estrelinha? você só teve a graça e a decência de perceber isso primeiro... talvez estivesse certa.”
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Pressionando um lábio contra o outro, balançava a cabeça em negação a cada palavra dita pela ex. Já não sabia se queria chorar das mágoas ou de raiva. O que provavelmente era o conjunto de tudo. - Você não está mentindo. - Disse como fel, admitindo o próprio fracasso, fixando o olhar no dela. E riu da ironia que a fala alheia continha - Não sou eu que sou a vingativa dessa relação meu amor, você fica jogando essa culpa toda em cima de mim, quando a única coisa que você não abriu mão foi daquela vingança sua. Foi isso que foi minando nosso relacionamento. - Ao falar, atropelava as próprias palavras aproximando-se um pouco mais da ex. A esse momento, não conseguiu mais segurar o choro, deixando as lágrimas relutante escorrerem pelo rosto. Como se a dor esquecido e enterrada todos aqueles anos voltasse para assombrá-la novamente - E eu não quero uma medalha não Samara, eu sou um ser humano e erro. Eu sei que fiz merda OK? E eu me sinto uma pessoa horrível por isso. - Limpou as lágrimas cerrando os dentes - O que você quer que eu diga Samara? Eu não me arrependo de ter ficado com você. E faria tudo de novo. - Admitiu irritada, principalmente com o fato de que era sincero o desabafo. Talvez, a única coisa que mudaria era toda a situação envolvendo Amélia, mas era tarde de mais para chorar o leite vegetal derramado. - Aahhh, me desculpa se não sou como a grandiosa Samara Lemaire - Disse em tom debochado, em cima da fala da outra - Pois por quê não ficou por lá? Com suas namoradas francesas, vivendo a vida perfeita? - Abriu os braços, como se estivesse apontando para o outro lado do mundo, em alguma direção que indicava a França. Atacou-a magoada pelas palavras, levantando mais a voz do que o necessário, aproximando-se mais dela sem nem perceber. Batidas delicadas na porta chamaram a atenção de Dorothea, fazendo a mesma virar-se para o foco de barulho - O que é? - perguntou irritada, sentindo-se constrangida no mesmo instante em que o funcionário do hotel anunciou ser do serviço de quarto. O que fez com que Thea estalasse a língua, olhando para baixo e afastando-se para que Samara pudesse atender a porta, enquanto secava as lágrimas com a palma da mão.
no fundo, sabia que era verdade. que dorothea a estava evitando. que a viagem a trabalho foi um acontecimento deveras conveniente e que, se não isso, arrumaria outra desculpa para não encontrá-la naquela noite--- e/ou onde quer que estivesse, caso soubesse de antemão, disso já suspeitava. mas ouví-la de fato confirmar o que pensava, olhando fundo em seus olhos... foi como se a escritora tivesse perdido o chão. conteve a própria respiração e aumentou a distância entre elas, com dois passos para trás. foi um golpe certeiro, que lhe dizia: ‘você não deveria ter vindo. nada disso nunca deveria ter acontecido. se eu pudesse, passaria muito bem o resto da minha vida sem te ver’. e para samara, aquilo era o que ela mais temia no momento, tudo o que mais tentava contrariar. porquê a única coisa que não poderia dizer para ferí-la de volta era que conseguiria fazer o mesmo, que conseguiria ficar bem pelo resto dos seus dias sem nunca ao menos procurá-la. se dissesse, estaria mentindo. ninguém se compara ao seu primeiro amor, muito menos se seu primeiro amor é dorothea jenkins--- aí você está fodida, fadada a passar o resto da vida num emaranhado de segundas melhores opções; e o pior, sabendo disso tudo no âmago, assim que seu olhar apaixonado cai sobre ela. “eu...” começou, mas não conseguiu terminar a frase. percebeu naquele instante que estava projetando coisas sobre si mesma na ex-namorada. ela era a vingativa, não dorothea. no fundo, tinha medo que a pessoa doce que conhecia tivesse se tornado em alguém venenosa e maliciosa como ela. lembrou das palavras de sua terapeuta e respirou fundo, se virando de costas para ela e apoiando as mãos na mesa, de cabeça baixa. as respirações ficaram mais fundas e espaçadas, mas havia tensão demais armazenada em seus músculos agora para ser dissipada apenas com o trânsito do ar em seus pulmões. para isso, precisariam de um furacão inteiro. “faria?... mesmo?” a pergunta quase não saiu, visto que sua voz se partia. as lágrimas desceram. ela cerrou os punhos, apertando os próprios dedos para tentar se conter, ao que suas bochechas queimavam de vergonha. não, não deixaria que jenkins a visse assim. mas as palavras debochadas da morena logo fizeram seu sangue ferver, e samara cegou-se em sanha. “eu deveria mesmo! é provável que elas me tratassem melhor do que você.” falou estridentes, ainda que da boca pra fora. “mas eu sou tão idiota, tão burra, que eu larguei tudo pra vir pra new york no minuto em que recebi aquele email da escola... e quem eu quero enganar? eu estava doida pra te ver! e eu fiz de tudo pra te ver, até agendei aquela maldita tarde de autógrafos na livraria onde você trabalhava quando você não apareceu na reunião, porque eu não conseguiria viver mais um minuto comigo mesma do outro lado do globo se eu não pudesse te ver uma última vez. até correndo o risco de parecer ridícula, completamente maluca, tudo porque eu ainda...” antes que completasse a frase, as batidas na porta tiraram seu foco. “o que é?!” indagou junto com ela, ao mesmo tempo. secou as lágrimas com as costas das mãos e foi atender o funcionário do hotel. a tensão pairava no ar e o rapaz parecia desconfortável até mesmo seguindo o protocolo, empurrando o carrinho suíte adentro com as bandejas de comida para dois. ele anunciou o prato e desejou bom apetite para ambas antes de ir embora. samara fechou a porta atrás dele, completamente sem graça. “eu... eu não sabia se você comeria alguma coisa antes de vir pra cá---caso viesse mesmo. então eu pedi comida pra nós duas. fiquei com medo que você esquecesse de comer, do jeito que é negligente consigo mesma, ainda mais sabendo que sua pressão é baixa.” suspirou pesado, massageando as têmporas. “não que isso importe agora. estamos as duas sem apetite, imagino.”
thesapatona:
Ouvir o nome completo, daquela forma fez o sangue de Dorothea gelar. Não se lembrava a ultima vez que o ouviu da boca da ex. Apesar da sugestão de ir embora Dorothea não se mexeu, nem fez menção de realmente sair daquele quarto. Fora apenas mais uma maneira idiota de tentar evitar o elefante branco no quarto. Os pensamentos eram mais rápidos que a fala e audição. Não conseguia rebatê-la de imediato, achando melhor talvez até deixar no ar alguma das perguntas. Não iria adiantar rebater, de qualquer forma. Observou-a calada, engolindo cada palavra dita pela ex com amargura. Sabia que esta era a forma dela extravasar, e de um jeito sado, talvez, Thea achava que merecia aquelas palavras. Ela sabia muito bem o que a machucaria. Sentiu os olhos quererem marejar. Apertou o maxilar numa tentativa tosca de retardar o choro, que eventualmente viria. Mas faria o possível para não ser na frente da Ex. - Por que diabos eu estaria brincando com você Samara? - Disse indignada com o absurdo dito por ela - Foi você que apareceu na livraria. Você chegou sem NENHUM sinal e agora quer ME culpar por eu não estar te esperando por dez anos? - Quebrou o breve silêncio. - Quando eu marquei com a Amélia na livraria eu não fazia ideia de que iria te encontrar. Eu devia a ela o mínimo de respeito e conversar pessoalmente para terminar as coisas. Que por sinal só estavam começando - Lambeu o os lábios nervosa balançando a cabeça, sentindo toda a raiva reprimida antes da culpa assumir o papel principal. - Acho engraçado sabe? Como você sempre fala parecendo que só você sofreu. - Riu de nervoso, olhando para cima forçando-se a não deixar as lágrimas cariarem. - Mas de uma coisa você tem razão - Concordou com a cabeça batendo no peito de leve - Eu costumo fugir sim dos meus sentimentos. Mas você acha que é muito diferente meu bem? - Olhou para o lado dando uma risada antes de encarar novamente a ex - Você foi para outro país. OUTRO PAÍS. E quer ME julgar? Se você é tão melhor assim, porque nunca me procurou? Porque pelo que eu sei, tanto você quanto eu fugimos dessa conversa aqui que estamos tendo agora. -
as palavras da outra a fizeram tirar as costas da parede num impulso, diminuindo a distância entre elas. a taça ainda pairava no aperto de sua mão, metade vazia. “se eu tivesse avisado, você ficaria pra me ver? melhor ainda, você teria ido? não! claro que não. você mesma disse, estava me evitando. e me evitaria por mais dez anos se necessário fosse, quer eu voltasse hoje ou cinco anos atrás! olhe nos meus olhos, dorothea, e diga se eu estou mentindo.” os olhos verdes escureciam de raiva, e o perfume que exalava se misturava com o ressentimento de ambas subindo como vapor no ar. bebericou mais um pouco para tentar se acalmar, notando a gatinha de estimação se escondendo debaixo da cama por causa da visita. talvez os instintos de Bitch estivessem certos, afinal. “eu sei lá, pra se vingar... não te vejo há anos, só deus sabe o que mudou!” murmurou, passando as mãos pelas tranças. era um pensamento mesquinho, sabia, mas agradecia por ter se arrumado para essa discussão. queria que dorothea soubesse exatamente o que perderia caso saísse por aquela porta agora. não lhe daria outra chance, não a procuraria de novo. e se a encontrasse passando na rua, atravessaria para o lado oposto. “e você quer uma medalha? uma salva de palmas por ter feito o mínimo? espere sentada.” disse, os dentes à mostra quando falava, feral e colérica e magoada. “não muda o fato de que você estava aos beijos com ela minutos depois de ter ficado comigo. e sim, eu posso ter aparecido sem avisar na livraria, pra fazer o meu trabalho, mas eu não te forcei a me levar pro estoque, você que pegou na minha mão e me levou. eu não te forcei a me beijar, e eu não lembro de você reclamando quando me deixou te chupar. na verdade, até meu nome você gemeu, então não banque a sonsa, dorothea. quem não te conhece que te compra!” desabafou, gesticulando para provar seu ponto e extravasar toda a tensão que circulava pelo seu corpo. terminou o conteúdo da taça num último gole, enquanto ouvia calada o que a morena tinha a dizer em sua defesa. sabia que thea estava contendo o choro, podia ver seus olhos marejados, e aquilo, de alguma forma, a fez estremecer. quando deu por si, seus olhos lacrimejavam também, mas a raiva ainda estava ali. “sim, sim, eu fui! ou você queria que eu ficasse e esperasse você decidir o que queria da vida? eu sempre soube o que queria pra mim, e eu ia atrás, você não. e quer saber? ter ido embora pra paris está se provando agora a melhor decisão da minha vida. sabe do que mais? eu devia nunca ter olhado pra trás. devia ter ficado lá e ignorado tudo o que eu sinto por você pro resto da minha vida. mesmo sabendo que isso iria me assombrar a cada dia!”
zippyourmouth-dubois:
Com a postura de quem descobriu a formula da vida, mesmo se quer soubesse quem era, Zipporah desceu parou a milla vintage azul tiffany em frente a escola e tirou da cesta de palha frontal a mochila de franjas que havia trazido com tudo o que precisava: o celular, panfletos reciclados e revisados com informativos sobre a segunda onda feminista na década de 60 e maconha, escondida é claro na bolsinha do coletor menstrual. Caminhou quase que pretensiosamente até a barraca de comidas, que tinha por objetivo arrecadar fundos para causas beneficentes da igreja. Porque é claro que bons cristãos tem de ajudar o próximo em todos os eventos. Exceto é claro se o próximo for algum LGBT+, ou islâmico , ou budista, ou não concordar com os preceitos. A divindade é incrível , o fã clube, péssimo. - Então… quantas pessoas já tiveram de comer seu sanduíche ouvindo que é pra amar o próximo mas, não muito porque se o próximo for pecador vai queimar no fogo do inferno? - Questionou, para a primeira pessoa que encontrou, ao que abria a mochila pegando um dos panfletos. - Agora que você já foi catequizado o que acha de me ajudar na bandeira do respeito ao próximo ? - disse, estendendo metade dos panfletos praticamente obrigando a outra pessoa a ajudar a distruibui-los.
samara observou a garota se aproximar com os panfletos e agressivamente provar seu ponto, o que trouxe um sorriso de canto em seus lábios. okay, eu gosto de você, pensou. e a sensação de deja vu foi inevitável, porém risível. lemaire logo se aproximou, pondo-se atrás de zipp e olhando ameaçadoramente para o dono da barraca. “é isso aí, você ouviu ela. pega os panfletos ou sua barraca já era.” disse, gesticulando um soquinho contra sua palma. esperou que a colega de classe terminasse de entregar o punhado de panfletos para se juntar a ela numa conversa direta. “você sabe que ele vai jogar fora, né?” enfiou os bolsos na calça jeans, andando ao seu lado. “e vão desviar parte do dinheiro, claro. mas esse deveria ser o menor dos problemas, certo?” o sarcasmo era estridente mas, só para se certificar, samara fez aspas com as mãos. vai que o Q.I. da garota era menor do que imaginava. “a intenção é boa, zipp, mas não vai funcionar. mais fácil você usar os panfletos pra bolar uns becks. tem viado maconheiro aqui chorando em abstinência, não tá vendo? doa pra causa.” é claro que a fofoqueira sabia. ela sabia de tudo sobre todo mundo.
thesapatona:
Era evidente que Samara estava puta, tinha deixado isso bem claro ainda na livraria. Mesmo que somente Dorothea tenha percebido. Não a julgava por estar brava, em seu lugar muito provavelmente estaria e talvez faria uma cena muito mais explícita se a visse com outra mulher depois do reencontro no estoque. Mas não importava o que a jornalista faria. A questão era o aqui e agora, encarar de frente as consequências de uma situação de que não tinha totalmente o controle, mas era sim responsável. As palavras das ex eram frias e cortantes como uma faca japonesa. Não conseguia sustentar muito tempo o olhar dela, por isso o baixou para o chão, pedindo licença bem baixinho ao entrar. - Foi mais uma conversa na verdade. - Parou um pouco mais a frente, observando-a, reparando de fato no roupão que usava. Queria elogiá-la, mas não era o melhor momento. Respirou fundo. focando o pensamento no assunto em que precisava ser dito. Antes de retomar a fala, colocou um das mãos no bolso de trás, por não saber o que fazer com ela - Terminei com ela, quer dizer, nem tinha ainda um relacionamento… Mas enfim. - Analisou cuidadosamente Samara antes de prosseguir a fala com cautela. - Eu sei que… Eu gostaria. - gaguejou nervosa, respirando fundo, fechou os olhos para organizar os próprios pensamentos. Odiava o fato de nunca conseguir expressar os sentimentos, ainda mais quando se tratava de pedir desculpas. Umedeceu os lábios antes de retomar - Desculpa. - Falou por fim procurando o olhar dela - Eu não sabia que estaria na livraria, o Sr Hall só me pediu ajuda em um evento e eu fui.- Parou de falar tentando encontrar as palavras certas - Para falar a verdade, se eu soubesse talvez nem iria. - Corrigiu logo em seguida - Eu queria muito te ver, mas claramente você ainda mexe comigo e eu não sei como agir. - Riu sem graça da confissão que fazia, sentindo-se completamente nua por dizer tão abertamente seu sentimento. - Desculpa, talvez tenha sido uma péssima ideia vir, se quiser eu vou embora . - Era obvio, que Dorothea se sabotaria desta forma, fugir dos sentimentos e conversas verdadeiras sobre os mesmos era sua especialidade.
ouvia as palavras que saíam da boca da mulher com desdém, mas seus olhos varriam cada detalhe dela, de cima à baixo, à procura de inconsistências na maneira como se portava com as palavras que dizia. porque, afinal, tinha de haver alguma, certo? principalmente quando se tratava da ex, não seria uma tarefa muito difícil. “o problema não foi esse, dorothea jenkins, e você sabe muito bem.” disse, ríspida, comprimindo os lábios para umedecê-los. com a porta já fechada, deu alguns passos para trás e virou as costas para ela, buscando a garrafa de vinho branco em cima da rack. encheu a taça mais uma vez, e bebericou mais um gole. o pedido de desculpas da morena soou tão agradável quanto unhas arranhando numa lousa. samara cerrou os dentes. “é muito difícil acreditar no que sai da sua boca agora. de onde ela saiu, huh? num momento você estava comigo no estoque e parecia tão genuíno, no minuto seguinte, assim que eu dei as costas, estava com outra pessoa. e tudo bem, você está aparentemente solteira, pode fazer o que quiser, não é sobre isso. é só que, se isso for algum tipo de joguinho seu, saiba que eu ‘tô fora. você não precisa partir meu coração duas vezes só pra provar um ponto, dorothea, eu me recuso me colocar de novo nesse tipo de situação só pro seu entretenimento.” engoliu em seco, e cada palavra praticamente cuspida saiu arranhando a sua garganta no caminho até seus lábios. ela parecia cansada, mas samara também estava. “ah, não me surpreende... na verdade, a pior parte disso tudo é saber que nada do que aconteceu me surpreende. é bem a sua cara mesmo, agir assim. a única culpada aqui é a minha memória seletiva.” deu de ombros, o sarcasmo na voz era evidente. bebeu mais um pouco e encostou-se na parede do quarto, apoiando o peso de seu corpo numa das pernas. evitava o olhar da outra para não mostrar o quão machucada estava. mas quando o pedido de thea ecoou, deu uma risada anasalada em puro escárnio. “ah, claro que você quer ir embora. você sempre foge primeiro. de tudo, na menor inconveniência, como a covarde que você é.” sibilou, finalmente levantando o olhar para realmente fitá-la. “pelo menos uma vez na vida, jenkins, encare seus próprios sentimentos de frente ao invés de ficar se escondendo e se distraindo com os problemas do mundo. pra variar.”

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A conversa com Amélia saíra melhor do que o esperado. Durante o café, conversaram sobre vários assuntos, como sempre costumavam fazer. Até que Dorothea tomou coragem para abrir o jogo e contar a verdade, ou pelo menos parcialmente , sobre o que estava acontecendo. Disse que gostaria de conhecê-la em outro momento pois estava gostando muito de sair com ela. Mas com a aparição de uma pessoa do passado as coisas mudavam um pouco e não gostaria de incluí-la nesse fogo cruzado. Era visível a decepção no olhar da loira, que levou tudo de uma forma muito leve e amável, assim como ela. Parecia simples… Estar com Amélia e talvez pensar em um relacionamento deveria ser a saída mais fácil. Porém, Dorothea Jenkins nem sempre seguia o caminho mais fácil. Era coração de mais, impulsiva de mais para se pautar em uma decisão puramente racionais. A reaparição da ex em sua vida mudava absolutamente tudo. Parte de si estava irritada, outra sentia-se empolgada e outra completamente confusa. Por isso precisava encara-la de frente.
Já na porta do hotel, entrou e saiu do lobby de entrada pelo menos umas três vezes. Tinha a cabeça coberta pelo capuz do moletom, e andava de cabisbaixa , afim de não chamar muita atenção. Não era tão conhecida quanto a escritora, mas não podiam se dar ao luxo de estarem nos tabloides de fofoca antes mesmo de conseguirem resolver a própria relação, se é que ainda existia alguma. Deu o próprio nome para a recepcionista, como se estivesse fazendo algum escambo ilegal. Falando quase sussurrado, olhando em volta enquanto o fazia. Jenkins era péssima nisso. Com a autorização, subiu até o andar indicado sentindo um frio na barriga, e o coração batendo acelerado devido a adrenalina. Bateu na porta esperando ansiosa para que a mesma abrisse. No elevador, travava uma briga interna entre a ira e a culpa. Quando a porta se abriu, não disse nada por alguns segundos. - Oi, posso entrar? - claramente, a culpa havia ganhado.
ao chegar no quarto de hotel, a primeira coisa que samara fez foi tirar os sapatos, jogar a bolsa no chão e se jogar de cara na cama, esparramada. um suspiro exausto e frustrado escapou de seus lábios, mas seus músculos fatigados agradeceram pelo acolchoado ser tão macio. que dia cheio e confuso aquele tinha sido, pensou. e continuaria naquela posição por pelo menos meia hora se sua gata não tivesse pulado na cama e sentado em suas costas, amassando pãozinho em sua cabeça, num ronronar petulante. “minhas tranças não, Bitch...” murmurou baixinho. “mamãe tá cansada.” ao que a gata apenas miou em disparate. fome, é claro. “já vou, já vou.” se levantou desgostosa e encheu o potinho de ração do animalzinho e trocou sua água. graças aos deuses aquele hotel era pet-friendly, não podia deixar a gatinha em casa por tanto tempo assim. na verdade, samara não sabia por quanto tempo ficaria em NY. não, o lugar de Bitch era com ela, por mais que a gata fosse uma vadia independente--- vide o nome que lhe dera. já que estava de pé, entrou no banheiro da suíte e preparou para si um banho de banheira pra relaxar., com sais e ervas com propriedades calmantes. mas não importava o que fazia, ou quantas vezes tentava mudar o foco de seus pensamentos, dorothea dava um jeito de se infiltrar neles de novo, tornando impossível ignorar os sentimentos que vinham junto; um misto de saudade, raiva, desconfiança e confusão. que porra achava que estava fazendo? se deixando envolver com jenkins mais uma vez, se mostrando vulnerável mais uma vez. certo, ela havia feito alguns reparos na maneira como lidava com as coisas, mas quem garante que a morena tinha feito o mesmo? quem garante que o passado não se repetiria agora? se perguntava: que diabos deu em você, sam? se agarrando com a ex nos estoques de uma livraria como uma adolescente, só para encontrá-la minutos depois aos beijos com outra pessoa. caraca, minutos depois. minutos.
isso que dá, dar uma de burra e revisitar as coisas do passado. sua terapeuta provavelmente reprovaria disso, mas, pensando bem, a doutora reprovaria tudo que viesse junto com o fato de samara estar se metendo de novo nos assuntos de seus ex-colegas de east wenk high. após um tempo, saiu do banho e ligou para a recepção, deixando com eles o nome da possível visita. será que viria? era melhor cogitar que não. melhor nem se perfumar, se pentear, se maquiar de levinho, se adornar, hidratar a pele, pôr o seu roupão de cetim favorito. mas quando deu por si, já o tinha feito. “que ódio dessa filha da puta...” murmurou, os dentes cerrados. era óbvio o efeito que thea ainda tinha sobre ela. mas estava ressentida, e isso não iria mudar tão cedo. abriu uma garrafa de vinho branco e encheu uma taça para si, enquanto olhava o cardápio do hotel pela tela do celular, estava faminta. acabou pedindo refeições veganas pra dois, só pro caso dela realmente dar as caras e não ter comido nada no caminho até o hotel. o que, pela demora, parecia ter sido uma perda de tempo. talvez estivesse com amélia, sim, talvez tivesse decidido ficar com a doce e encantadora amélia. samara suspirou pesado, virando o conteúdo da taça num gole ininterrupto. grandes merdas, pensou. estava escolhendo algo para maratonar na netflix quando alguém bateu na porta. “essa foi a comida mais rápida que eu já pedi...” disse, mas as palavras morreram em sua boca assim que abriu a porta, vendo-a ali, parada bem na sua frente. samara prendeu a respiração por um instante sem nem perceber. “claro. entra.” convidou, um pouco mais seca do que o pretendido, dando passagem para ela. “como foi o date, huh?”