Caricatura de Mário de Andrade por Di Cavalcanti
Uma das obras de exposição "Di Cavalcanti: Papel em destaque", realizada pelo MAC USP na Galeria da Reitoria, é "Mário de Andrade (caricatura)" de 1933. Assim como todas as obras da exposição, seu suporte é o papel (neste caso numa dimensão um pouco menor que a de uma folha a4) e nele o rosto de Mário ocupa a página toda, sem sequer deixar espaço para o pescoço.
Trata-se de um desenho à nanquim, traçado diretamente com pincel, ao que tudo indica, sem esboços. As linhas são grossas, pretas, algumas insinuam um meio tom pela utilização do pincel quase seco, que deixa aparente o rastro das cerdas e cria um cinza. O movimento do artista é muito aparente no traço, as linhas feitas com o pincel semi seco evidenciam uma rapidez, um movimento que parece desleixado, pois cria manchas, mas feito com muita segurança. As linhas mais carregadas de tinta criam contornos expressivos e pesados para o rosto do escritor, que na época tinha 40 anos.
Não é uma caricatura como convencionalmente se pensa esse estilo de desenho, não há comédia sugerida no retrato. Temos, sim, um busto sério, que poderia ser de um senhor de idade, com um maxilar quadrado e pesado, que parece uma base, como visto nos bustos da ilha de páscoa. Essa impressão é reforçada pela dimensão da cabeça, que recortada, sem qualquer fundo ou outro membro do corpo ocupa de canto a canto do papel. A percepção do artista sobre o assunto é o que a torna uma caricatura. Um rosto grandioso, pesado e sério, feito com algumas linhas e nenhum preenchimento, nada apagado ou escondido. As regiões de intersecções de linhas tornam certos contornos incertos e diminui as informações distinguíveis da imagem. Os olhos se misturam aos óculos, que se confundem com os contornos da face e do nariz, assim criando regiões em que há manchas completamente pretas, mas que sugerem muito fortemente o gestual do artista. Parece que é como se ele pensasse, "se determinada linha deve estar aqui, aqui ela estará, não importa se para isso terá de passar por cima de outra que aqui já está". É uma obra que incomoda, pois não nos dá o prazer das informações completas, mas deixa muito aparente o processo, a impressão primeira que o artista tem daquela figura. Um desenho intimista pois não esconde nenhuma parte de sua estrutura, e não busca um resultado específico e pensado para a apreciação do espectador, e por isso incomoda também. É lindo, em contraponto, essa exposição que Di faz de seu traço "puro", feito sem pensar duas vezes, que traduz muito mais a sensação que as formas lhe passam naquele momento do que uma fidelidade com sua aparência.
Nenhuma outra obra da exposição se assemelha a esta, nem nenhuma obra conhecida de Di Cavalcanti explora essa técnica e estilo de desenho. É um retrato muito subjetivo, rápido e sincero, que sugere intimidade e admiração por Mário de Andrade. Fica a impressão de que aquela cabeça monumental é o busto de um homem sério e muitíssimo inteligente, captado rapidamente num momento de devaneio.
Laura Coggiola















