Quem sou eu se tirar esse amontoado de coisas? Quem sou eu se a armadura cair?
Quem sou eu se todas as certezas que tenho nĂŁo forem tĂŁo certas assim? Quem sou eu se eu me refizer? Quem vou encontrar?
Se eu me monto para nĂŁo desmontar, em que vou me apoiar quando descobrir que tudo o que criei talvez exista apenas no meu imaginĂĄrio?
E se, na verdade, ser alguém significar se encaixar em categorias, e eu não me encaixar em nenhuma delas?
E se eu descobrir que, por trĂĄs de toda essa profundidade, existe apenas uma garotinha assustada?
Como vou olhar para ela e dizer que falhei? Que nĂŁo consegui cumprir o que havia prometido a nĂłs duas. Que eu disse que nĂŁo perderĂamos. Que um dia ficarĂamos seguras. Que nunca mais entrarĂamos naquele quarto escuro. Que eu nunca mais ensoparia o travesseiro porque me perdi de mim.
Ela, sozinha, segurou tudo. Levantou quando ninguém mais podia. Num gesto silencioso de cuidado, pediu apenas que eu me cuidasse. Que eu rompesse os padrÔes. Que não ficasse presa ao emaranhado de tudo o que vivemos.
E talvez seja justamente isso que mais doa.
Perceber que, enquanto eu tentava entender tudo, talvez eu tenha esquecido de entender aquilo que eu nĂŁo sabia.
Passei tanto tempo tentando ler as pessoas, compreender suas dores, encontrar os motivos por trås das atitudes, enxergar aquilo que ninguém via, que talvez eu tenha criado para mim uma espécie de proteção.
Um castelo feito de tudo aquilo que eu aprendi, de todas as conclusÔes que tirei, de todas as dores que transformei em entendimento.
E dentro dele eu me senti segura.
Porque se eu entendia, eu estava preparada.
Se eu encontrava a origem das coisas, talvez elas nĂŁo pudessem mais me destruir.
Mas e se, no meio de tanto saber, eu tenha esquecido que ainda existem coisas que eu nĂŁo sei?
E se eu tenha transformado a minha profundidade em uma prisĂŁo?
E se eu tenha me forjado tanto para sobreviver que esqueci de ser leve também?
Como Ă© existir sem precisar entender tudo?
Como é sentir algo sem precisar imediatamente encontrar uma explicação?
Como é simplesmente estar, sem transformar cada pedaço de mim em uma pergunta?
Talvez eu tenha confundido profundidade com peso.
Talvez eu tenha confundido consciĂȘncia com controle.
Talvez eu tenha confundido entender tudo com estar segura.
E talvez esse seja o meu maior medo.
Descobrir que, enquanto eu tentava construir alguém que nunca mais voltaria para aquele lugar, eu tenha esquecido de descobrir quem eu sou quando não estou tentando fugir dele.
Quem eu sou quando nĂŁo estou tentando provar que venci?
Quem eu sou quando nĂŁo estou tentando ser melhor do que aquilo que me feriu?
Quem eu sou quando nĂŁo estou tentando salvar aquela menina?
E talvez seja isso que mais assusta.
Porque durante muito tempo eu achei que me conhecer seria finalmente encontrar todas as respostas.
Mas talvez me conhecer seja justamente perceber que algumas respostas ainda nĂŁo existem.
E talvez, pela primeira vez, eu precise aprender a existir sem ter todas elas.