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Digimon Adventure Beyond - Parte III (Final)
Mundos pararelos colidem em uma batalha final que traz respostas e uma épica conclusão.
(Parte III - Final)
39
A viagem usando o portal digital permitia encurtar distâncias. Mas também tinha desvantagens. Não era possível conectar diretamente o mundo real ao DigiMundo, nem ligar diretamente áreas dentro do mesmo DigiMundo; era necessário sempre passar por outro mundo como intermediário. Do distrito de proteção da Cidade Murada de Kowloon até o Forte Álamo, eles estavam usando o portal do Instituto Izumi como passagem intermediária. Dois monitores foram instalados no telhado, um de frente para o outro, com certa distância entre si. Ambos mantinham os portais abertos, e por esse espaço passaram Daisuke e os Digimon.
Por fim, Ken. Depois de trocar um “toca aqui” com Miyako, ele entrou no portal que levava ao Álamo.
“Movimentação concluída. Vou fechar o portal.”
No primeiro andar, diante do monitor principal do laboratório central, Menoa estava na console. Ao lado, diante de outro monitor, estava Koushirou.
“A partir daqui é o momento decisivo.”
“Isso tudo foi graças à Menoa-san. Sozinho, eu não conseguiria construir um equipamento desses.”
“Era para ter sido algo muito mais grandioso, mas há partes da minha memória que estão meio confusas. Eu pretendia corrigir isso até a hora da operação, mas ainda ficaram alguns bugs.”
“Certo, isso eu preciso explicar isso ao Lui-kun.”
Takeru, que estava atrás de Koushirou, respondeu.
“Eu me encarrego disso.”
“Obrigado.”
Koushirou também falou com Gennai no monitor.
“Então, deixo isso com você também.”
Ele se levantou, com o notebook debaixo do braço. Diante da entrada do laboratório, Takeru, Patamon, Koushirou e Tentomon se separaram em direções diferentes.
“Então, se cuidem.”
Takeru foi para a sala de recepção.
“Vocês também!”
Koushirou seguiu para o subsolo.
40
Uma massa negra avançava a partir do horizonte, tão densa que chegava a parecer uma nuvem. A imagem foi ampliada na tela. Cada pequeno fragmento que compunha essa “nuvem” tinha a forma de um Digimon.
“Não há dúvida. São Digimon das Torres Negras.”
Os óculos que Taichi estava usando haviam sido modificados por Koushirou, recebendo algumas funções eletrônicas adicionais, permitindo até certo nível de análise de estrutura e composição.
“Então não precisamos mais ter nenhum tipo de hesitação.”
Yamato ajustou a folga de suas luvas.
“Como se você já tivesse se contido alguma vez.”
Os dois apertaram com força seus Digivices.
41
“Não é como se isso fosse algo nostálgico, não é…”
Na muralha externa do Forte Álamo, Daisuke, Ken, Mimi, Wallace e seus parceiros Digimon estavam posicionados. Do sul, uma enorme massa de Digimon negros se aproximava, e a selva já estava mais da metade encoberta por eles.
Os Digimon das Torres Negras são, como o próprio nome sugere, eram algo criado a partir das Torres Negras — entidades com forma de Digimon, mas que eram, na verdade, outra coisa. Exceto pelo fato de não possuírem um coração como os Digimon normais, eles possuíam praticamente as mesmas funções. Daisuke e os outros já haviam lutado bastante contra esses Digimon negros. Isso havia sido há mais de dez anos.
“Mas eles não são apenas Digimon das Torres Negras. Tem alguns bem perigosos misturados aí.”
Ken, que estava recebendo informações por meio de Koushirou, franziu a testa.
“É… já estou vendo. Esses caras são bem problemáticos, hein.”
Liderando a nuvem negra de Digimon estava SkullSatamon, um Digimon com asas e aparência de esqueleto. Eles já haviam sofrido bastante nas mãos daquela criatura em sua forma original.
“Bom, não vamos perder, né.”
“Claro que não.”
V-mon e Wormmon começaram a emitir a luz da evolução.
42
“Eh— só eu não sabia disso?”
No sanatório, Shuu Kido olhava alternadamente para seu irmão Shin e para seu irmão mais novo Jou.
“Eu não tinha te contado quando fui transferido para cá?”
“Naquela época você estava ocupado em Miyakoto, então quase não voltou pra cá. Mesmo assim, achei estranha essa transferência repentina para Aomori…”
A partir do corpo de Daigo Nishijima, encontrado inconsciente, Koushirou havia descoberto que às vezes eram emitidas fracas ondas eletromagnéticas semelhantes às dos Digimon. E essas emissões se intensificavam quando Maki Himekawa estava por perto.
A mesma frequência também havia sido detectada em Meiko Mochizuki, e sinais ligeiramente diferentes foram encontrados em Wallace e Menoa.
Inicialmente, surgiu a hipótese de que aquilo poderia ser uma ação de alguma entidade maliciosa, enviando pessoas com memórias diferentes das de Taichi e dos outros daquele mundo para causar confusão psicológica e instabilidade por dentro.
No entanto, como eles próprios não demonstravam qualquer intenção maligna — e, com exceção de Nishijima e Himekawa, inclusive estavam cooperando — uma nova hipótese acabou sendo formulada.
A hipótese era que aquilo estaria sendo usado como um marcador pelo responsável por atacar Taichi e os outros — um tipo de “sinalizador” para guiar os ataques.
Se isso fosse verdade, o hospital no centro da cidade era um ponto extremamente perigoso. Caso sofresse um ataque, os danos ao redor seriam grandes demais.
Por precaução, decidiram transferir os pacientes para um hospital em uma área sem residências próximas, caso houvesse uma investida. Além disso, como medida de segurança e possível resposta emergencial, Kido Shin foi designado como médico responsável por ter um parceiro Digimon.
Os preparativos nos bastidores haviam sido organizados por Natsuko Takai, da ONG “DMH”.
Meiko e Wallace, que poderiam ser outros “marcadores”, estavam em uma área protegida do DigiMundo, dentro de uma zona de preservação. Já o laboratório onde Menoa estava possuía um sistema próprio, desenvolvido a partir das suas pesquisas. Estava a meio passo de se tornar plenamente operacional quando Owada Rui chegou, e então uma anomalia foi detectada na frequência mencionada.
Talvez a causa fosse a aproximação entre Rui e Menoa.
O sistema não poderia ser ativado imediatamente. E, acima de tudo, Taichi estava em Genebra. Era necessário ganhar tempo.
Por isso, Takeru decidiu acompanhar Rui até o nordeste.
“Eu esperava que fosse só uma preocupação exagerada… que nada acontecesse.”
A fala de Shin era calma, mas seus olhos permaneciam fixos e atentos ao exterior.
“Como podem ver, o resultado está bem diante dos nossos olhos.”
Do amplo vidro da sala de descanso, era possível ver a floresta escura do lado de fora. Algo grande se contorcia ali. Eram Digimon das Torres Negras.
“Veio uma quantidade considerável.”
O plano era dispersar os indivíduos considerados “marcadores” para também dispersar o risco. Se algum ponto fosse atacado, Taichi e os demais reunidos deveriam ser capazes de lidar com a situação.
No entanto, na prática, os ataques aconteceram simultaneamente em quatro locais diferentes. E, além disso, cada um desses locais estava enfrentando um grande número de inimigos.
“A única coisa positiva é que, comparado ao DigiMundo, aqui o número deles ainda é menor…”
“Imagino que trazer eles para este mundo não seja algo tão simples.”
Jou também não estava relaxado.
A sombra negra na floresta se moveu.
Jou e os outros levantaram seus Digivices.
No chão, à beira da floresta, três Gomamon começaram a emitir a luz da evolução. O mesmo acontecia com Armadillomon, de Iori, à esquerda, e com Kodokugumon, de Motomiya Jun, à direita.
43
O Instituto Izumi era originalmente um armazém. O primeiro andar havia sido dividido em sala de recepção, laboratório e outras áreas, mas o subsolo — com suas divisórias removidas — era bastante amplo. Como não havia iluminação excessiva, o ambiente permanecia escuro.
No centro, havia um dispositivo do tamanho de uma pequena casa. Cabos se espalhavam pelo chão ao redor dele. Encostada na parede, uma mesa de computador do tipo estação. Koushirou terminou de digitar os comandos e ergueu o rosto.
Entre ele e o dispositivo, Tentomon já havia evoluído e aguardava em posição. Era Kabuterimon, um Digimon semelhante a um besouro gigante em pé, com cerca de cinco metros de altura.
“Vamos lá, Kabuterimon.”
“Pode deixar comigo!”
Kabuterimon concentrou sua força, e uma massa de eletricidade em espiral surgiu à frente de seu abdômen. Ele abriu amplamente seus quatro braços e lançou o ataque contra o dispositivo.
O painel frontal da máquina recebeu o impacto elétrico. A corrente percorreu todo o sistema, ativando o equipamento.
Do centro do dispositivo, uma luz estranha e incompreensível começou a se espalhar.
Originalmente, o projeto previa que o sistema funcionasse com energia elétrica comum, mas, no estado atual, a ativação ainda exigia uma quantidade colossal de energia.
Para resolver isso, havia sido instalado um painel capaz de converter os ataques elétricos de Kabuterimon em energia utilizável. Claro, Kabuterimon estava controlando cuidadosamente a intensidade da descarga para não destruir o equipamento.
No telhado do laboratório, Hikari, Miyako e seus irmãos mais velhos, que aguardavam de prontidão, levantaram voo montados em Nefertimon e nos Holsmon. Nos corpos dos Digimon havia cintos presos, conectados a cabos.
“Iniciando a expansão!”
Ao comando de Miyako, os cinco se dispersaram amplamente pelo céu.
A luz percorreu os cabos ligados ao telhado, e uma luz misteriosa começou a se expandir a partir dos pontos de conexão entre os cabos e os cinco Digimon. Era a luz emitida pelo dispositivo subterrâneo.
Uma espécie de cortina luminosa, parecida com uma rede digital, se estendeu até a superfície e envolveu toda a área ao redor do laboratório. Depois, ela se estreitou, sobrepondo-se ao prédio inteiro, e a luz desapareceu.
À primeira vista, parecia que nada havia mudado em comparação a alguns minutos antes.
A única diferença era que os Digimon negros que estavam dentro daquela área haviam desaparecido.
“Pseudo Campo Digital, expansão concluída.”
Koushirou ergueu o rosto do monitor e também falou com Kabuterimon.
“Obrigado pelo esforço.”
“Que isso, nem foi tanta coisa assim!”
A voz de Menoa veio pelo computador.
“Conseguimos, Izzy.”
“Foi praticamente um teste em campo, mas funcionou.”
Menoa e Koushirou vinham desenvolvendo um dispositivo gerador de pseudo campo digital. Ele era capaz de transferir apenas Digimon e humanos portando Digivices que estivessem dentro da área de alcance para algo semelhante a um subespaço da realidade.
Era uma aplicação da tecnologia usada para criar o ciberespaço presente nas memórias de Menoa, e graças a isso os Digimon poderiam lutar entre si sem causar danos às pessoas ou aos edifícios do mundo real.
No entanto, o sistema ainda estava em desenvolvimento, com limitações tanto de alcance quanto de duração. Além disso, também estavam ocorrendo fenômenos que Menoa descrevia como algo parecido com “bugs”.
“Agora só falta isso aguentar até o fim da operação…”
44
Rui Owada permanecia imóvel, atônito.
Ele deveria estar na sala de recepção do laboratório. No entanto, era como se tivesse sido lançado para um espaço completamente diferente: tudo ao redor estava envolto por uma luz desconhecida, e a paisagem que até pouco antes aparecia no monitor agora flutuava amplamente diante dele, ocupando o espaço à sua frente.
Ao olhar ao redor, percebeu outras cenas espalhadas diante das paredes do ambiente. E não eram simples imagens — pareciam projeções tridimensionais com profundidade real.
O que estava sendo exibido eram as áreas ao redor das duas zonas protegidas do DigiMundo, os arredores do sanatório onde Jou e os outros estavam, e também a paisagem ao redor daquele próprio laboratório.
A confusão era tamanha que ele mal conseguia distinguir onde estava a cadeira em que se sentara até pouco antes.
Observando melhor, viu que a cadeira e a mesa continuavam ali. Sem dúvida ele ainda estava na sala de recepção. Também conseguia enxergar o monitor mais ao fundo.
Mas a imagem exibida nele havia ultrapassado a moldura da tela e se espalhado pelo espaço inteiro.
Aparentemente, era esse o “fenômeno parecido com um bug” do qual Menoa havia falado.
Entretanto, apenas a área ao redor do instituto não aparecia como uma paisagem noturna comum. O contorno do edifício emitia uma estranha luz colorida.
Não era mais a paisagem do mundo real, mas a do pseudo campo digital.
No instante em que o campo foi ativado, o interior da sala havia se transformado.
As imagens das diferentes regiões, que antes apareciam divididas no monitor, agora haviam se transformado em várias projeções tridimensionais gigantescas, a ponto de ficar difícil até mesmo perceber o tamanho original da sala.
No caminho até ali, Rui havia achado curioso o fato de o corredor possuir fontes de luz instaladas no chão. Talvez fosse justamente para evitar que alguém se perdesse quando aquilo acontecesse.
Esse pensamento passou vagamente por sua mente.
Mas não era aquele fenômeno o verdadeiro motivo de seu espanto.
Takeru já havia avisado antecipadamente que algo assim aconteceria, então, até certo ponto, aquilo estava dentro do esperado.
O que realmente o chocava era o conteúdo das imagens projetadas — as paisagens do DigiMundo.
As duas zonas de preservação estavam isoladas, como pequenos pontos perdidos no meio de vastas planícies. E em direção a elas avançava uma maré negra.
Dependendo do ângulo das câmeras — que pareciam estar posicionadas em locais extremamente altos — a cena lembrava uma multidão de formigas cobrindo uma pequena caixa de doces.
Claro, não eram formigas.
Eram todos Digimon negros.
Quantos poderiam ser ao todo?
Quantas pessoas havia dentro da fortaleza?
E dentre elas, quantos Digimon realmente eram capazes de lutar?
Mesmo que fossem fortes… seria possível enfrentar uma quantidade dessas?
E não era apenas o DigiMundo.
Também havia projeções do sanatório cercado pela mata perto da costa, e deste instituto, cercado pelos prédios da cidade.
Mesmo na escuridão, era possível perceber que havia uma quantidade enorme de Digimon ao redor de ambos os locais.
Então ocorreu uma mudança entre os Digimon negros.
O grupo diante da Cidade Murada de Kowloon acelerou subitamente. Parte daquela “maré negra” afunilou-se como a ponta de uma lança e avançou contra a fortaleza.
Era uma formação de ataque para romper as defesas à força.
Da fortaleza, um clarão vermelho disparou.
A ponta daquela formação negra foi obliterada instantaneamente.
O que tinha acabado de acontecer?
Enquanto Rui arregalava os olhos, uma figura humanoide azul-esbranquiçada saltou da fortaleza.
Apesar de ainda haver uma boa distância até o inimigo, ela mergulhou no meio da horda negra num piscar de olhos.
Era WereGarurumon, a forma Perfeita de Gabumon, um Digimon de aparência lupina.
Sem perder velocidade, ele avançou cada vez mais fundo na formação inimiga.
Os Digimon ao redor eram cortados e destruídos um após o outro, desaparecendo em sequência.
Da fortaleza veio um segundo disparo vermelho.
Não era luz — era uma chama propulsora, e à frente dela seguia um míssil orgânico.
Era a arma de MetalGreymon, a forma Perfeita de Agumon.
Outra grande área da massa de Digimon negros foi completamente destruída.
Então surgiu o próprio MetalGreymon, com a cabeça, o torso e o braço esquerdo revestidos de metal, avançando para fora da fortaleza.
Ele lançou a extremidade de seu braço esquerdo metálico, equipado com três enormes garras.
Só esse ataque já fez vários Digimon desaparecerem.
O braço estava ligado ao corpo por uma corrente. MetalGreymon então o girou amplamente no ar, varrendo dezenas de Digimon de uma só vez.
Em outra projeção, um Digimon azul semelhante a um dragão bípede e um Digimon humanoide parecido com um inseto verde esmagavam os Digimon negros, abrindo uma fenda no centro da maré escura.
Eram ExVeemon, a evolução de V-mon, e Stingmon, a evolução de Wormmon.
A abertura começou rapidamente a se fechar, cercando os dois Digimon.
Então ambos começaram a emitir luz e se fundiram em um único ser.
Quando o brilho desapareceu, surgiu Paildramon, resultado da evolução por Jogress.
Dos canhões biológicos em sua cintura, ele disparou rajadas contínuas de energia. Bastou girar o corpo uma única vez para destruir centenas de Digimon ao redor.
Em outra projeção ainda, Tailmon e Aquilamon — o Digimon aviário vermelho evoluído de Hawkmon — haviam realizado uma Jogress, transformando-se em Silphymon, um Digimon de aparência humanoide usando uma máscara.
De ambos os braços, Silphymon disparava ondas de energia.
Os Digimon que tentavam saltar para o telhado do laboratório eram abatidos um após o outro.
Na projeção do sanatório, Zudomon — a forma Perfeita de Gomamon, carregando um casco semelhante ao de uma tartaruga nas costas — avançava destruindo vários Digimon negros a cada golpe de seu martelo.
À esquerda e à direita dele, Yukidarumon — evolução do Gomamon de Shuu, um gigante de neve — e Sorcerimon — evolução do Gomamon de Shin, parecido com um mago usando um longo chapéu branco — atacavam os inimigos continuamente.
Mas quem avançava primeiro pela ala direita, exibindo um poder destrutivo avassalador, era Arukenimon, de Motomiya Jun.
Vários fios metálicos se estendiam de suas mãos, retalhando os Digimon negros.
Ankylomon, a forma Adulta de Armadillomon, de Iori, tinha o corpo inteiro coberto por uma couraça resistente, sendo especializado em defesa.
Por isso, permanecia mais atrás, protegendo Jou e os demais.
Observando as batalhas em diversos locais através das projeções tridimensionais, Rui finalmente compreendeu o quão poderosos eram os Digimon de Taichi, Daisuke e dos outros.
Se toda aquela força estivesse concentrada em um único lugar, talvez não houvesse motivo algum para preocupação — especialmente para defender locais do porte do sanatório no mundo real ou mesmo deste instituto.
Mas as forças inimigas estavam dispersas.
Além disso, os ataques atingiam simultaneamente as duas fortalezas do DigiMundo — Álamo e a Cidade Murada de Kowloon.
E o número de inimigos que avançava sobre elas era simplesmente absurdo.
Rui também percebeu a estratégia: MetalGreymon, WereGarurumon e Paildramon estavam deliberadamente mergulhando no centro das linhas inimigas para impedir que a horda avançasse em direção às fortalezas.
Mesmo assim… seria possível exterminar todos aqueles inimigos?
E, ainda que fosse possível, quanto tempo levaria?
Eles teriam energia para sustentar aquilo por tanto tempo?
Na verdade, os círculos de Digimon negros que cercavam os três já pareciam estar se fechando gradualmente.
As alas direita e esquerda da maré negra também tentavam contornar o combate e avançar em direção para as fortalezas.
Os Digimon encarregados da defesa seriam suficientes para detê-los?
Enquanto comparava as projeções da Cidade Murada de Kowloon e do Forte Álamo, Rui percebeu outro movimento.
Algo corria pelos trilhos próximos ao Forte Álamo.
A imagem ampliou automaticamente o objeto que se aproximava vindo do leste.
Parecia um trem.
Aquilo era…
(É Trailmon. Aquilo também é um Digimon.)
Rui se surpreendeu ao ouvir novamente aquela voz ecoando dentro de sua cabeça.
O Trailmon parou diante da fortaleza, e seis crianças saltaram para fora dele.
Elas correram para o lado sul, na direção da horda de Digimon negros.
Então eles também eram Partner Humans?
Mas… os Digimon que deveriam estar com eles não estavam em lugar algum.
E, diante de seus olhos, os seis foram envolvidos por uma luz semelhante a códigos de barras e se transformaram em Digimon.
(Eles são humanos e Digimon ao mesmo tempo.)
Isso… também era possível?
Mas o mais surpreendente era o poder de combate deles.
Cada um dos seis era tão forte quanto MetalGreymon ou Paildramon — talvez até mais.
A ala leste da horda de Digimon negros foi exterminada num instante.
(Eles vieram de um mundo diferente deste. Um mundo conhecido por este nome.)
“Digimon Frontier.”
(Ou melhor… esse é o título do anime de televisão.)
Um mundo de anime?
Rui não conseguia compreender o que aquilo significava.
E então a voz continuou:
(E aquele ali…)
Na tela da Cidade Murada de Kowloon, várias explosões surgiram na parte sul do avanço vindo do oeste dos Digimon negros.
De lá, outro grupo de Digimon estava atacando.
No meio deles havia mais de dez humanos, e o número de Digimon parecia ser várias vezes maior.
O garoto na linha de frente acenava em direção à fortaleza.
Do outro lado, Taichi retribuía o aceno.
(Ele é Kudo Taiki. Ele trouxe todos como forma de agradecimento por terem salvado ele no ano passado.)
(O mundo dele se chama “Digimon Xros Wars”.)
(Em uma ocasião anterior, aquele mundo esteve em perigo, e Digimon e Tamers de vários mundos foram ajudá-los.)
“Tamers?”
(No meu mundo, chamamos os humanos que formam pares com Digimon de Tamers. Esse mundo também se chama “Digimon Tamers”.)
“Então… isso também é um mundo de anime?”
(Para quem vê de fora, pode parecer isso. Mas para mim, é um mundo real. Do meu ponto de vista, este também é um mundo de anime.)
“Ele é chamado de ‘Digimon Adventure’.”
“Este mundo também?”
(Eu vim de um futuro, por motivos próprios. Agora estou em um lugar que é algo como um espaço entre vários mundos.)
(Graças a isso, consegui acessar outros mundos Digimon e chamar ajuda.)
Ao redor da Cidade Murada de Kowloon, outro grupo surgiu.
No centro deles havia um garoto de cabelo verde usando óculos de proteção e um Digimon com aparência de um capacete vermelho.
(Eles vêm de um mundo chamado “Appli monsters”.)
(O Agumon chegou a ir até lá uma vez.)
(Eles ficaram preocupados por talvez não serem exatamente Digimon, mas parece que não há problema. E aparentemente já tinham alguma ligação com Cidade Murada de Kowloon.)
Na tela do telhado do laboratório, outro grupo de Digimon apareceu.
No centro deles havia um garoto de óculos redondos, acompanhado por outras pessoas e seus parceiros Digimon.
Eles também eram fortes.
Estavam conseguindo impedir os Digimon que avançavam em direção ao laboratório.
(Eles vieram de um mundo chamado “Beatbreak”.)
(Parece ser um mundo bem mais à frente no futuro.)
“Tantos mundos diferentes…”
(Ao entrar em contato com este mundo pela primeira vez e ouvir sua voz, eu te recomendei vir para este instituto. Mas naquela época eu não sabia que havia alguma força negra por trás disso.)
(Por isso, também entrei em contato com Gennai, do DigiMundo deste mundo, e começamos a preparar tudo às pressas.)
Rui já tinha ouvido o nome Gennai nas histórias de Takeru. Ele ainda estava ativo?
(Desde a vez em que fomos ajudar o mundo de Xros Wars, o número de mundos ligados aos Digimon só aumentou.)
(Disseram que também seria bom chamá-los.)
(Eu pedi conselhos sobre outras rotas, conversei até com as consciências dos Digimon que permanecem em Odaiba…)
(E conseguimos trazer até mesmo mundos um pouco mais… diferentes.)
As forças do mundo de Xros Wars também eram extremamente poderosas.
A parte sul da “maré negra” começou a desmoronar gradualmente.
A imagem ampliou-se em direção ao norte.
Lá havia um pequeno Digimon parecido com um cão alado, que, diante dos olhos de todos, evoluiu para um enorme dragão vermelho.
Ele derrotava os Digimon negros um após o outro sozinho.
Ao seu lado estava um Digimon com um longo chapéu, semelhante a um mago.
(Eles também conseguiram estabelecer contato com esse mundo. Parece que a consciência do Wizardmon de Odaiba pode conseguir se comunicar com os Wizardmon de outros mundos.)
Rui já tinha ouvido aquele nome.
Então aquele era o Wizardmon?
(Eles não parecem… um pouco diferentes em “textura”?)
Agora que havia dito isso, ele também sentia algo assim — mas não conseguia identificar o motivo.
(Eles vêm de um mundo chamado “Digital Monster X-Evolution”.)
(É um mundo sem humanos, apenas com Digimon no DigiMundo, e ele é representado inteiramente em CGI.)
“Então… até de um mundo em full CG.”
Se era assim, então seria verdade que este mundo também poderia ser visto como um “mundo de anime” por outros?
(Eles pareciam estar preocupados em entender em qual mundo realmente estavam, mas, visto de fora, não há tanta diferença assim.)
(O mais importante é que você é você, e está aqui agora.)
(E isso é o que realmente importa.)
Rui sentiu que começava a compreender algo, ainda que de forma vaga.
(Eu queria explicar melhor, mas não temos muito tempo… ainda estão chegando outros mundos… e, do meu mundo, não consegui trazer muitos…)
“Como é que é? Tá falando que só eu não é o bastante?”
Ao ouvir aquela nova voz de repente, Rui se virou.
Ali estava um Digimon humanoide usando máscara, montado em uma motocicleta gigantesca.
Claro, ele era muito maior que um humano comum.
Não havia espaço naquela sala para algo daquele tamanho existir fisicamente.
Mas, ao observar melhor, seu corpo era levemente translúcido — como uma projeção tridimensional.
(Não é isso, Beelzemon.)
“Então… vamos nessa!”
E ele disparou.
Beelzemon avançou com a moto direto para dentro da projeção e mergulhou em direção ao Cidade Murada de Kowloon.
Mesmo do ar, ele disparava com as armas em ambos os braços.
Os Digimon negros eram despedaçados em sequência.
“Bom, bom… continua o mesmo de sempre, hein.”
Outra voz surgiu.
Um jovem de aparência estranhamente tranquila, acompanhado por um Digimon de aparência um pouco intimidadora, estava ali.
(Ah, Ryo-san.)
“Eu vim mesmo sem ser chamado. Só vou dar uma passada para cumprimentar, então vou até ali.”
Akiyama Ryo e Cyberdramon atravessaram a projeção e entraram na imagem do Forte Álamo.
(Então eu também vou nessa. Se nos encontrarmos de novo, da próxima vez queria te conhecer pessoalmente, não só pela voz.)
“Espere… quem é você afinal?”
(Eu sou Matsuda Takato. Um Tamer.)
O silêncio voltou a tomar conta do ambiente.
Foi só então que Rui percebeu que Takeru já não estava mais na sala de recepção do instituro — ele havia desaparecido em algum momento sem que ele notasse.
45
No leste da Cidade Murada de Kowloon, do lado oposto de onde as hordas negras vinham surgindo até então, uma nuvem escura começou a se formar de repente.
Era um grupo de Digimon negros voadores.
A equipe dos Appmon e os três irmãos de Hong Kong correram imediatamente para o lado leste da fortaleza.
Aquela nuvem negra avançava em uma velocidade incomparavelmente maior do que os Digimon terrestres — e em número ainda mais esmagador, várias vezes superior.
Então uma voz ecoou no ar.
“Final Elysion!”
Do extremo norte, uma onda de energia de proporções absurdas atravessou o céu e colidiu com a nuvem negra.
Com um único impacto, mais da metade dos Digimon negros vindos do leste foi eliminada.
Do alto dos céus, uma figura desceu lentamente.
Um Digimon cavaleiro branco, de aparência sagrada, com um grande manto vermelho esvoaçando.
Ele mantinha uma postura ereta enquanto descia em linha reta.
“Eu sou Dukemon. Atendi ao chamado de socorro.”
(Obrigado, Dukemon!)
“Então… és tu, o portador do chamado?”
(Isso mesmo. Nunca pensei que conseguiria ver a forma de Dukemon assim…)
“Aquela voz… deveria ser a primeira vez que a escuto, mas por algum motivo me soa familiar.”
Enquanto isso, os remanescentes dos Digimon negros que se aproximavam eram eliminados um após o outro pela lança de luz que se estendia do braço direito de Dukemon.
46
Da ala oeste do Forte Álamo, a vanguarda da maré negra de Digimon foi despedaçada por uma sequência de ataques combinados de diferentes tipos.
“São… o Taichi-san e os outros!”
Daisuke, que observava do alto da muralha da fortaleza, soltou uma voz surpresa.
“Do tempo em que ele era criança do ensino fundamental…”
“Então é isso?”
Ken, que não conhecia o Taichi daquela época, também observava com um olhar surpreso.
“Hmm… mas eles não são exatamente como nós.”
Mimi comentou, e ao observar melhor, Greymon e Garurumon também estavam em formas de evolução ligeiramente diferentes.
Além disso, havia vários Digimon desconhecidos lutando ao lado deles.
Eram Taichi e os demais do mundo conhecido como “Digimon Adventure:”.
Mas Daisuke e os outros não tinham como saber disso.
“Então são Taichi-san de outro mundo… em qualquer mundo, o Taichi-san é forte mesmo, hein.”
“Olhe direito, Daisuke… os que estão vindo lá atrás.”
“Ah—! Somos nós! Da época em que éramos crianças! Estamos com a mesma idade daqueles Taichi-san ali!”
“Então quer dizer que pessoas de mundos diferentes e tempos diferentes estão lutando juntas?”
“Agora que você falou… lembro de alguém que ficou bem feliz com isso. Naquela época, eu também lutei por um tempo com a mesma idade do Taichi-san.”
Ken também começava a se lembrar.
“Tenho a sensação de que algo assim já aconteceu… mas quando foi isso mesmo?”
“Não precisa se preocupar tanto com isso.”
Ao se virarem, viram que, onde antes não havia ninguém, agora estavam um jovem de aparência serena e um Digimon de presença intimidadora.
“O mais importante é confiar no que você é agora.”
“Você… eu já te encontrei antes?”
“Talvez sim… talvez não. Mas não precisa se preocupar com isso. Eu mesmo também não entendo muito bem.”
Enquanto falava, Akiyama Ryo deslizou uma carta na fenda do seu Digivice, o D-Ark.
O Digimon de aparência intimidadora, Cyberdramon, evoluiu para Justimon — um herói com aparência de justiça, usando um cachecol vermelho.
“Então, até mais!”
Ele abriu caminho à força.
Ryo e Justimon se lançaram contra os Digimon negros, e rapidamente uma grande abertura começou a se formar na linha inimiga.
47
“Então vamos, Patamon.”
“Finalmente chegou a hora!”
Takeru e Patamon avançaram em direção à névoa escura e densa.
“Deixa comigo também!”
No telhado do laboratório, diante de Koushirou, Kabuterimon evoluiu para sua forma Perfeita, AtlurKabuterimon.
“Conto com você!”
Ao redor, dentro do pseudo campo digital que cobria a área, combates se desenrolavam por todos os lados.
Não eram apenas Hikari e Miyako que estavam lutando.
“Isso aqui… parece um pouco com um Mirror World.”
“Não relaxa nem por um segundo!!”
“Já entendi!”
A equipe de Beatbreak também já estava acostumada com batalhas.
“Amanekawa-kun!”
Um garoto de cabelo claro abriu a entrada que levava ao telhado.
“Darling, não é por aqui!”
Um pequeno Digimon com cabeça parecida com uma água-viva apareceu correndo atrás dele.
“Eh? Eu ouvi a voz do Amanekawa-kun?”
O pequeno Digimon puxou o garoto pelo braço e o levou de volta.
“Quem era aquele agora?”
Silphymon observava a cena, mas—
“É melhor não se preocupar com isso.”
Hikari respondeu de forma simples.
Uma enorme criatura alada levava Sora, Taichi e Yamato em suas mãos, voando em alta velocidade pelos céus.
Era Garudamon, a forma Perfeita de Piyomon.
Seguindo pelo amplo caminho aberto no meio da horda de Digimon negros, eles chegaram em instantes à linha de frente onde estavam MetalGreymon e WereGarurumon, e Taichi e Yamato foram deixados ali.
“A fortaleza está segura, então não se preocupem!”
“Tá, já entendemos!”
“Vamos nessa!”
Taichi e Yamato subiram em MetalGreymon e WereGarurumon e seguiram adiante.
Enquanto isso, um dos Digimon negros que havia escapado da destruição e se aproximado da fortaleza avançou contra Ken.
Mas Monochromon surgiu de lado e o derrubou com um impacto violento.
“Não fica aí parado! Se o Ken se machucar, a Miyako vai ficar brava com a gente!”
Chichos, parceira de Monochromon, gritou com firmeza.
“Sim… obrigado.”
“Vamos, Ken.”
Daisuke e Ken voaram até onde Paildramon estava montados em Airdramon, parceiro de Tatum.
Enquanto isso, Arukenimon estava exausta. Não era surpresa — até poucas horas atrás, ela nunca havia evoluído além do nível Criança.
Tendo avançado sozinha até o centro da formação inimiga por impulso, acabou cercada.
Se tentasse reagir, seus movimentos já estavam lentos.
Os Digimon negros se aproximavam.
Nesse instante, um clarão e o som de disparos cortaram o ar, e vários Digimon negros foram arremessados para longe.
“Ei, senhorita bonitona aí… melhor tomar cuidado.”
Um Digimon com aparência de múmia, todo enfaixado, surgiu girando uma enorme arma chamada Obelisk.
Arukenimon não tinha como saber, mas aquele Digimon tinha uma “textura” diferente.
Ele vinha do mundo de “X-Evolution”.
"Eu me separei dos outros e acabei aqui, mas parece que foi a coisa certa.”
Do lado oposto do céu, o mesmo Obelisk lançou um feixe de luz, que caiu sobre a massa de Digimon negros, destruindo vários deles em pedaços.
Logo depois, um homem alto de jaleco branco pousou no chão.
“Senhorita é muito grosseiro. Diga ‘jovem senhora’.”
Era outro Mamemon vindo de um mundo diferente. Um Mamemon médico.
Jou percebeu o estetoscópio pendurado em seu peito.
“Um Mamemon médico?”
Atrás deles, o som de vidro se quebrando e um grito ecoou — a voz de Himekawa Maki.
Eles correram de volta para dentro do sanatório.
Da direção dos quartos, um jovem loiro surgiu.
“Já foi resolvido. Eu também sou médico. Está tudo bem.”
No interior do quarto, era possível ver um Digimon azul, com aparência de animal.
“Os inimigos também estão vindo por este lado, mas meus companheiros vão dar conta.”
Mais pessoas podiam ser vistas no fim do corredor.
“Ah, eu sou Thoma. Este é Gaomon. Prazer.”
Eles eram do mundo de “Digimon Savers”.
“Só ele já parece ser mais do que suficiente…”
Do lado de fora da entrada, um jovem de cabelo preso para trás saltou para fora com Agumon ao seu lado e, com as próprias mãos, socou um Digimon negro, lançando-o longe.
A partir desse momento, o som de uma batalha intensa começou a ecoar.
“Eles também são bem fortes, né?”
Mimi observava o grupo do mundo “Frontier”.
“Parece que aquele Digimon e aquele outro… quando eram humanos, eram irmãos gêmeos.”
“Gêmeos?”
Wallace se interessou pela palavra. Terriermon também observava atentamente.
“Está lembrando?”
“Isso… eram gêmeos. Eu também tinha um irmão gêmeo…”
“Por que eu tinha esquecido disso?”
Ele olhou para Terriermon.
“Então vocês também eram gêmeos.”
“Finalmente lembrou. Agora vocês podem evoluir.”
Terriermon evoluiu para Gargomon, equipado com armas pesadas em ambos os braços, e avançou contra a ofensiva dos Digimon negros.
No extremo oeste da Cidade Murada de Kowloon, uma floresta escura se estendia sem fim.
No meio dela, havia uma muralha que lembrava a Grande Muralha, atravessando o horizonte de um lado ao outro.
MetalGreymon e WereGarurumon a destruíram com um único golpe e avançaram pela invasão.
Mas a muralha continuava em camadas sucessivas, uma após a outra.
Paildramon então evoluiu ainda mais, transformando-se no gigantesco Dragão Imperial, Imperialdramon.
Daisuke, Ken e também pessoas e Digimon de outros mundos estavam em sua montaria, avançando em direção ao ponto de origem da maré de Digimon negros.
Depois da queda de uma árvore colossal que parecia tocar o céu, abriu-se um enorme vazio no chão.
Sem reduzir a velocidade, eles mergulharam diretamente dentro dele.
“O que… eles estão fazendo?”
Num mundo cinzento, envolto por uma névoa que parecia não ter fim, Higashimitarai Kiyoshiro finalmente conseguiu chegar até seus companheiros.
Ele tinha cabelo claro e expressão concentrada.
Ao lado dele estavam Amanokawa Hiro, um garoto um pouco menor que o carregava nos ombros, e o pequeno Digimon dragão branco, Gamamon.
Mais adiante, Tsukiyono Ruli, uma garota de cabelos longos, permanecia ao lado de Angoramon, um Digimon grande coberto por pelos amarelos e espessos, maior que um adulto.
Eles haviam vindo do mundo de “Digimon Ghost Game”.
“Desde que chegamos aqui, ele está nos chamando sem parar.”
Com as palavras de Ruli, todos estreitaram os olhos.
Do outro lado da névoa, havia uma figura: um jovem um pouco mais velho que Kiyoshiro e um pequeno Digimon amarelo.
Eram Takeru e Patamon.
“Não me diga… é aquele Digimon…”
Atrás deles, havia uma sombra sinistra.
Do outro lado de Takeru, parecia haver o oceano.
E além dele — parcialmente oculto pela névoa — algo gigantesco se movia.
“Aquilo é o Dagomon.”
Jellymon, a parceira de Kiyoshiro — um Digimon semelhante a uma água-viva que flutuava no ar — disse:
“Isso aí é o que vocês chamam de ‘jogo com dificuladade impossível’.”
“Não é isso.”
Angoramon começou a falar calmamente:
“Com quem ele está se comunicando não é um Digimon. É o oceano. Este mundo é formado pela reunião de várias intenções malignas. Aquele oceano é o verdadeiro núcleo, e o Dagomon que vemos não é um Digimon real.”
“S-sério?”
“Ele… o Takeru… é quem está dizendo isso.”
“Não sei se é verdade ou não, mas o Takeru aparentemente já esteve aqui há dez anos.”
“Provavelmente isso assumiu a forma de um Digimon para ameaçar nós, Digimon e seus parceiros.”
“E esse oceano também recebe dados de vários Digimon vindos de algum lugar…”
Angoramon possuía uma audição muito boa. Parece que ele conseguia ouvir tudo.
“Mas parece que isso nunca foi atualizado.”
“Dagomon, como Digimon, é um nível Perfeito. Na época, talvez fosse considerado relativamente forte… mas agora existem muitos Digimon mais fortes.”
“Patamon… esse é aquele Digimon pequeno, certo? Da última vez que vieram aqui, ele só conseguia evoluir até a o nível Armor, mas agora pode evoluir para formas mais fortes.”
“Dagomon não é nada assustador.”
“Além disso, não chamamos apenas pessoas deste mundo — também trouxemos pessoas de outros mundos que já derrotaram Dagomon.”
“Então vocês estão falando de nós.”
“Não só isso, senpai.”
Hiro apontou na direção indicada.
Lá estava um garoto com cabelo arrepiado usando óculos quadrados, acompanhado de um pequeno Digimon azul.
Akashi Tagiru e Gumdramon.
Havia também outras mulheres e Submarimon.
“Eles vieram do mundo chamado ‘Digimon Xros Wars’.”
Angoramon levantou levemente uma das mãos, pedindo silêncio.
“Ele está dizendo algo como: ‘Desista, ou então…’”
Antes que a frase terminasse, Patamon, ao lado de Takeru, começou a emitir luz.
48
“Essa luta não acaba nunca…”
Depois de atravessarem e destruírem várias camadas de muralhas, Taichi e os outros estavam sobre uma rocha. Agora era um momento de espera.
Agumon respondeu a Taichi.
“Ainda tem muito mais pela frente. Mas não podemos perder.”
O que Taichi queria dizer era que, mesmo que aquela batalha terminasse, o inimigo não deixaria de existir. Isso incluía não apenas o DigiMundo, mas também conflitos ligados ao mundo real.
“Enquanto houver pessoas que acreditam em nós…”
Yamato também se lembrava dos companheiros com quem já havia lutado, das crianças que haviam resgatado, e de suas famílias.
Os dois já haviam testemunhado cenas terríveis demais através dessas atividades.
Também estiveram em regiões envolvidas por guerras civis e conflitos armados.
Houve vezes em que simplesmente não conseguiram salvar as crianças.
Taichi chorava em desespero, lamentando a própria impotência.
Yamato, que estava prestes a desmoronar emocionalmente antes mesmo disso, não conseguia expressar bem seus sentimentos. Mas, paradoxalmente, sentiu-se salvo justamente por Taichi.
Se não fosse por ele, Yamato tinha certeza de que teria quebrado por dentro.
Desde então, Taichi passou a colocar o resgate das crianças acima de tudo.
Sua determinação era tão intensa que, por um tempo, as crianças das zonas de preservação chegaram até a sentir medo dele.
Com o passar do tempo, ele aprendeu a aparentar um comportamento mais leve na superfície.
Mas bastava perceber o menor sinal de anormalidade para seu rosto voltar imediatamente à expressão séria.
E, dependendo da situação, ele não hesitava em recorrer a métodos extremamente severos.
Mesmo assim, Yamato sabia que Taichi confiava plenamente nele e em Gabumon.
Os dois humanos e os dois Digimon mantinham os olhos fixos à frente o tempo todo.
Então, do céu escuro ao longe, Imperialdramon surgiu voando.
O enorme buraco aberto sob a árvore colossal havia provocado um fenômeno semelhante aos pontos de distorção que às vezes apareciam no DigiMundo, conectando-se às proximidades daquela floresta.
O gigantesco Digimon dracônico ultrapassou Taichi e os outros, posicionando-se diante do castelo negro que se erguia nas profundezas da floresta.
Era como uma enorme fortaleza europeia — mas construída com pedras estranhamente escuras.
No domo sobre as costas de Imperialdramon, Ken e Daisuke sentiam uma estranha sensação de familiaridade.
“Tenho a impressão de já ter visto esse castelo muitas vezes…”
“Eu também.”
Segundo a hipótese de Koushirou, aquele castelo era a origem de todos os Digimon negros, das Torres Negras e das engrenagens negras.
A partir dali, eles conseguiam enviar Digimon diretamente até a Cidade Murada de Kowloon e, através do buraco sob a árvore colossal, transmitir poder sombrio até o Forte Álamo.
“Então vamos acabar com isso!”
Imperialdramon disparou um gigantesco raio laser.
O castelo foi destruído com um único golpe.
As chamas se espalharam, e uma coluna de fumaça negra subiu alto pelos céus.
Então, dentro da fumaça, uma sombra começou a surgir.
“Mega Death!”
Uma massa de matéria negra de densidade absurda foi disparada por Imperialdramon.
A fumaça negra que se erguia diante deles começou a ser sugada, revelando a criatura escondida atrás dela.
Era um Digimon gigantesco, completamente envolto por uma capa com capuz.
Sua altura provavelmente ultrapassava os cem metros.
O ataque Mega Death foi simplesmente absorvido por ele.
“Como pensei… é ele.”
“Está muito maior do que antes.”
O Digimon encapuzado — Daemon — abriu lentamente os braços sem revelar o verdadeiro corpo sob o manto.
“Lá vem!”
“Desvia!”
Uma onda de energia sombria foi liberada da frente de Daemon.
Tudo o que fosse atingido por ela seria aniquilado.
O enorme dragão desviou.
Depois que a energia atravessou a área, formou-se uma cratera alongada no solo.
E, além dela, começaram a surgir figuras avançando na direção deles.
Eram os Digimon que já haviam terminado de eliminar os Digimon negros que atacavam as duas fortalezas.
Taichi, que estava sobre o terreno rochoso aos pés de Daemon, confirmou aquilo através dos seus óculos.
“Vou dar o meu melhor.”
Gabumon assumiu posição.
Seu corpo inteiro começou a brilhar.
“Estou contando com você.”
Depois que Yamato respondeu, Agumon também se preparou e começou a emitir luz.
“Pode deixar comigo!”
“Ceeeerto!”
Taichi ergueu o braço.
“Vamos nessa!”
Os dois Digimon evoluíram.
WarGreymon e MetalGarurumon levantaram voo em direção ao gigantesco Daemon.
E inúmeros Digimon de vários mundos seguiram atrás deles.
49
Nas profundezas da névoa, a sombra de Dagomon se contorcia de forma grotesca.
Tentáculos semelhantes a apêndices se estendiam por todo o seu corpo, e sua forma começou a inchar até atingir várias vezes o tamanho original, antes de gradualmente se condensar em uma única figura.
Dois pares de asas.
Braços anormalmente longos.
“Digimon. Nível Supremo.”
Angoramon murmurou.
Takeru sorriu discretamente.
Ao seu lado estava Angemon, o Digimon angelical para o qual Patamon havia evoluído.
“Takeru-san.”
Ao ouvir a voz, ele se virou.
Iori e Armadillomon estavam ali.
“Iori… então você veio.”
“Disseram que o sanatório ficaria bem com as pessoas que vieram ajudar, então me deixaram vir. Também tem um Submarimon aqui, né?”
Depois de olhar para a mulher à beira da água e para seu Digimon, Iori voltou sua atenção para Digimon.
“Então aquele Digimon grotesco é o nosso inimigo?”
“É. Mas agora que ele assumiu claramente uma forma de Digimon, deve ser mais fácil enfrentá-lo do que algo cuja natureza nem sabíamos se era realmente um Digimon.”
Ao ouvirem isso, Hiro e os outros entenderam.
“Então esse era o objetivo…”
“Claro, ainda teremos que lutar com tudo o que temos.”
“Então vamos, Armadillomon!”
“Entendido, dagyaa!”
Armadillomon evoluiu para Ankylomon e começou uma evolução Jogress com Angemon.
“Contamos com vocês também, pessoal dos outros mundos!”
Os Digimon de Hiro e dos outros, assim como Gumdramon de Akashi Tagiru, também começaram a evoluir.
50
Daemon foi um Digimon contra o qual Daisuke e os outros lutaram no fim de 2002.
Na época, ele era tão poderoso que o grupo não conseguiu derrotá-lo com suas próprias forças, sendo obrigados a bani-lo para outro mundo.
O lugar para onde foi enviado — o Oceano Negro onde Dagomon existia — era, naquele tempo, um local especial onde portais não podiam ser abertos por meios normais.
Nem mesmo Daemon conseguiria sair de lá facilmente.
Mas eles sempre souberam que, um dia, ele retornaria.
E que acabaria se tornando uma ameaça ao mundo real ou ao DigiMundo.
Taichi e os outros jamais esqueceram essa possibilidade.
O Oceano Negro aparentemente estava ligado não apenas a Takeru, Hikari e Ken, mas também a Nishijima, Himekawa Maki e até mesmo Rui.
Por causa disso, chegou-se a suspeitar que Rui e os outros — “aqueles que possuíam memórias de tempos ou mundos diferentes” — talvez fossem vanguardas daquela força sombria.
Mas não era o caso.
Eles haviam sido usados apenas como marcadores.
E agora, após onze anos, Daemon finalmente havia retornado.
Muito provavelmente, ele vinha utilizando o Oceano Negro para continuar acumulando poder.
O fato de ferramentas usadas há mais de dez anos — como as Engrenagens Negras — terem reaparecido era resultado da reutilização de dados daquela época.
Mas tudo aquilo não passava de um teste preliminar.
Seu verdadeiro objetivo era a produção em massa dos Digimon negros.
E o próprio Daemon havia se tornado várias vezes mais poderoso.
Daisuke e os outros desceram ao chão, enquanto Imperialdramon mudou de sua forma dracônica para a forma guerreira.
“Vamos acabar de vez com a lição pendente de dez anos atrásーーー!”
Os Digimon de outros mundos que haviam descido junto com Daisuke, aqueles que vieram pelo buraco sob a árvore colossal e os que avançaram pelo caminho aberto por MetalGreymon e WereGarurumon — todos iniciaram um ataque total.
Mesmo assim, os golpes pareciam causar pouco ou nenhum dano ao gigantesco corpo de Daemon.
“Talvez Daemon originalmente nem possua um corpo verdadeiro. Ataques comuns não terão efeito.”
“Além disso, ele está recebendo energia do Oceano Negro.”
“Se cortarmos essa conexão, haverá uma chance de vitória.”
“E essa ligação provavelmente está dentro daquele manto.”
“Mas aquilo conecta diferentes mundos.”
“Pode acabar transformando-os em mundos convertidos em dados.”
Com base na teoria de Koushirou, Taichi, Yamato, WarGreymon e MetalGarurumon haviam mergulhado no espaço oculto dentro das vestes de Daemon.
Mas ali não existia corpo físico algum.
Na verdade, nem sequer parecia ser um espaço físico.
Era um mundo que só podia ser descrito como escuridão absoluta.
Para conseguirem se orientar naquele vazio, uma nova função dos óculos desenvolvidos por Koushirou foi essencial.
Ela permitia detectar a frequência da energia dos Digimon das trevas.
“É ali!”
Os dois Digimon concentraram seus ataques em um único ponto, abrindo uma brecha.
Taichi estendeu a mão.
A escuridão se abriu, e eles mergulharam em um espaço branco.
No mesmo instante, os Digimon regrediram da forma Suprema para a forma Bebê.
“Isso é só o começo.”
“Vamos mostrar o nosso verdadeiro poder.”
51
Shakkoumon — um Digimon gigantesco que lembrava uma estatueta dogū — era a forma resultante da evolução Jogress entre Angemon e Ankylomon.
Ele absorvia e anulava os ataques de Digimon.
Enquanto isso, os Digimon de Hiro e dos outros evoluíram até o nível Supremo e encurralaram os Digimon.
Mesmo assim, a batalha demorava a chegar ao fim.
Então, uma luz atravessou os céus do Oceano Negro.
Uma abertura surgiu no firmamento, e raios luminosos transbordaram dela.
De dentro daquela fenda, um Digimon branco e esguio desceu com sua capa esvoaçando.
Era Omegamon, formado pela evolução de Agumon e Gabumon.
Taichi e Yamato estavam sobre seus ombros.
Omegamon ergueu a espada em sua mão esquerda e partiu Digimon ao meio com um único golpe.
Em seguida, disparou uma esfera de energia da mão direita em direção à abertura acima.
O espaço branco do outro lado da fenda foi destruído instantaneamente.
Ao mesmo tempo, no mundo terreno, o manto de Daemon se despedaçou e desapareceu.
A batalha havia terminado.
52
“Então a lembrança de termos ido lutar em outro mundo… era mesmo verdadeira.”
Koushirou estava tomando um chá quente.
“Quando recebi o contato do Gennai-san, eu ainda estava em dúvida. Até agora, a linha do tempo e a sequência dos eventos ainda não estão totalmente claras.”
“Bom, tanto faz. O importante é que desta vez fomos ajudados.”
Taichi e os outros haviam retornado ao instituto — vindos do telhado, do sanatório e de vários outros lugares. Talvez fosse a primeira vez que aquela sala de recepção estivesse tão cheia.
“Então, você…”
Taichi se aproximou de Rui.
“Você é o Rui-kun… e o Ukkomon, certo.”
“Ukkomon!? Onde?”
“Ele está aí. No seu olho direito.”
Todos na sala de recepção olharam para o olho direito de Rui.
Sob a franja longa, que costumava escondê-lo, havia algo branco cobrindo a superfície do olho normal.
“Não sei se isso é o corpo principal ou apenas uma parte dele, mas já está na hora de acabar com isso. Você não precisa continuar sendo o vilão para sempre por causa disso.”
“O que…? Do que você está falando?”
Taichi começou a explicar lentamente.
A mãe de Rui, exausta de cuidar do pai dele, que estava acamado, tentou cometer um pacto de morte com ele.
Foi nesse momento que Ukkomon apareceu e salvou a vida de Rui.
Mas Rui ainda era jovem demais para compreender a morte dos pais.
Ukkomon então decidiu fazê-lo acreditar que ele era um Digimon com várias habilidades especiais, levando Rui a pensar que era a primeira criança a ter um Digimon parceiro no mundo.
Depois disso, ao longo dos anos, criou artificialmente várias memórias de sua vida.
E então construiu uma conclusão: os culpados não eram os pais… e sim o Ukkomon.
Graças a isso, Rui pôde crescer sem odiar seus pais.
“Hoje, entre aqueles que vieram nos ajudar, tinha um homem chamado Matsuda Takato. Quando o encontrei antes, ouvi dele que no seu mundo existem seres chamados ‘DigiGnomos’ — algo próximo de um Digimon, mas que não são exatamente Digimon. Agora eu lembrei disso. Você também pode ser mais parecido com esses DigiGnomos do que com um Digimon. Mas já chega. Rui não é mais uma criança. Está na hora de ele viver sua própria vida de verdade.”
Do olho direito de Rui, lágrimas começaram a cair em grande quantidade, e a substância branca que cobria seu olho desapareceu.
Em outros lugares, pessoas e Digimon deste mundo e de outros mundos também se despediam.
Jou, até o último momento, continuava perguntando ao Mamemon de jaleco sobre medicina Digimon.
53
Depois de um tempo, Menoa estava conversando com Rui.
“Eu vou para o DigiMundo procurar pela minha parceira, Morphomon. Parece que posso deixar o resto da pesquisa aqui com o Izzy. Quando o Nishijima terminar a reabilitação, Himekawa Maki também pretende fazer o mesmo. E você?”
“Meu parceiro Digimon… Ukkomon. Será que ele realmente existe?”
“Isso você só vai descobrir indo até lá. Mochizuki Meiko já está lá há muito tempo. Ainda não encontrou, mas não vai desistir.”
“Faz sentido…”
No fim, Rui decidiu ir também.
Antes de atravessar o portal, ele fez um pedido a Takeru.
“Sobre aquela vez no carro… quando você me contou aquela história de aventuras da sua infância.”
“Ah, aquilo? Acabou virando uma história bem longa, né?”
“Você não costuma contar isso para outras pessoas, né?”
“Naquela época eu tinha tempo, então consegui conversar bastante, mas não tenho muitas oportunidades assim, então não costumo contar tudo.”
“Mas aquela história… era muito boa. Sobre como humanos e Digimon vivem juntos. Ainda hoje existem mais pessoas com Digimon parceiros, não é? Acho que isso seria muito útil para elas.”
“Mas não sei se vale a pena contar isso para tanta gente…”
“Então, que tal escrever um livro? Em forma de texto poderia ser traduzido e lido por crianças de outros países. Até adultos.”
“É… pode ser. Vou pensar nisso.”
Assim, Rui e Menoa seguiram para o DigiMundo.
Era a primeira vez dos dois naquele mundo.
Do outro lado de uma vasta planície, muitas borboletas começaram a voar em direção a eles, como se viessem recebê-los.
54
“Takeru... já acabou?”
Patamon, que estava ao lado de Takeru enquanto ele digitava no computador, interrompeu.
“Mais ou menos. Tem algo que te incomoda?”
“Aquele… garoto do norte da Europa.”
“Ah, isso. Mas aquilo é outra história.”
“É mesmo? Então vou ficar esperando.”
------------ FIM--------------
Notas:
Bem, a última parte está postada e assim que possível disponibilizarei o PDF com a tradução completa, revisada e padronizada. Irei disponibilizar uma versão em inglês quando possível. Obrigado a todos que acompanharam.
Happy belated belated birthday!!
Digimon Adventure Beyond - Parte I
Confira a tradução da primeira parte de 13+ a novelização de Digimon Adventure Beyond divulgada por Hiroyuki Kakudou, diretor das duas primeiras temporadas do anime.
(Parte I)
0
Dois anos atrás
Está tudo bem, não precisa ter medo. Eu sou Yuri. Vim da Rússia. Esse ao seu lado é um Digimon, não é? O que está atrás de mim também é um Digimon. A aparência é bem diferente, e o meu é maior, mas nós dois somos companheiros que têm parceiros Digimon. Eu sei que você não pode voltar para sua família agora. Ouvi dizer que passou por momentos difíceis. Mas já está tudo bem. Logo virão nos buscar. Vamos para um lugar onde se pode viver com muita segurança. Eles já nos salvaram de perigos antes. São pessoas muito confiáveis. O mundo não mudou tanto até agora, mas você conhece um país chamado Japão? Eles vêm de lá, são pessoas boas. Yagami Taichi-san e Ishida Yamato-san.
Nas montanhas de um país do norte da Europa. Não há postes de luz, apenas uma única estrada que segue ao longo da montanha. Um pouco acima dessa estrada, há uma caverna. Diante dela, um enorme Digimon com aparência de inseto esperava imóvel. Era o parceiro Digimon de Yuri, Kuwagamon.
Foi só três horas depois que o som de um motor pôde ser ouvido à distância.
“Yuri, desculpa pela demora!”
Da luz dos faróis, surgem uma figura humana e uma pequena sombra se aproximando. Quem fala primeiro é Yagami Taichi, vestindo um casaco térmico azul, de aparência simples, comprado em uma loja de equipamentos para atividades ao ar livre. E a pequena sombra é Agumon, um Digimon que parece um pequeno dinossauro laranja, dizendo: “Desculpa a demora!”
Do outro lado do carro, saindo do banco do motorista, aparece Ishida Yamato, vestindo um casaco de couro preto. Logo atrás, vem Gabumon, um Digimon coberto por uma pele azul. Yuri se aproximou da entrada da caverna.
“Taichi-san, Yamato-san.”
Yamato ajustou a gola do casaco.
“Brr, está frio. Vamos voltar logo para onde dá pra fechar a porta.”
“Quer que eu te empreste meu pelo, Yamato?” sugeriu Gabumon.
“Não precisa, Gabumon. Mais importante—”
Ele mudou para o inglês e se virou para Yuri.
“Aquela criança… consegue entender alguma língua?”
“Acho que em inglês dá pra se comunicar, mais ou menos.”
Taichi também conseguia entender o suficiente.
“Ótimo. Então deixo com você, Yamato.”
“Beleza.”
“O Iori também consegue falar inglês, da-gyaa!” veio uma voz do banco traseiro.
Um Digimon em forma de tatu em pé, Armadillomon, tinha descido do carro. Mais atrás dele, Hida Iori, vestindo um casaco um pouco antigo, respondeu meio sem jeito:
“Ah… mais ou menos.”
Um mundo em que crianças possuem “parceiros Digimon”.
Não, não apenas crianças. Adultos também os possuem. Eles são chamados coletivamente de “PH (Partner Human / Humanos Parceiros)”. O número de PHs está aumentando rapidamente, e sua proporção dobra a cada ano. Esse fenômeno acabou gerando problemas sociais e religiosos. Alguns PHs estão envolvidos em crimes, e houve até tentativas do governo de utilizá-los para fins militares. Sem um Digimon, um PH é apenas um ser humano comum. Mas, ao possuir um Digimon, ele passa a ser visto como alguém especial — e, em alguns casos, torna-se alvo de discriminação.
Iniciativas para apoiar PHs que não conseguem levar uma vida normal começaram a ser gradualmente institucionalizadas ao longo de alguns anos. Isso teve início por volta da época em que Taichi ainda estava no ensino médio.
Izumi Koushiro mantinha contato com PHs de todo o mundo para reunir informações. Como muitas vezes se tratava de regiões perigosas, eram Taichi e Yamato — que possuíam Digimon com grande poder de combate — os que se deslocavam. Entre os seis que possuíam a habilidade de abrir portais para o DigiMundo, um deles sempre acompanhava a missão para ativar o acesso.
O cuidado mental das crianças resgatadas também fazia parte da operação: Sora e Hikari acolhiam os pequenos e organizavam sua nova vida. O mais jovem, Iori, só foi autorizado a participar quando chegou ao ensino médio, acompanhando o grupo para abrir os portais.
A função de apenas proteger o garoto até a chegada de Taichi e dos outros havia terminado, e Yuri montou em Kuwagamon.
“Então, deixo o resto com vocês!”
Iori acenou com a mão.
“Muito obrigado!”
Kuwagamon alçou voo, enquanto o carro de Taichi e Yamato começava a percorrer a estrada da montanha.
No banco traseiro do carro, Iori falava em inglês com suavidade ao garoto:
“E você, qual é o seu nome? Eu sou Hida Iori, tenho dezesseis anos.”
Ele já sabia o nome, mas fez a pergunta mesmo assim.
Na frente, quem dirigia era Ishida Yamato; ao lado dele estava Yagami Taichi.
Yamato, sem tirar os olhos da estrada, falou de lado:
“Taichi, você também já consegue falar inglês, não é? Isso ajuda até na hora de conseguir emprego.”
“Eu sei. Em francês eu até me viro um pouco…”
“Hmm? Ah, foi naquele programa que vocês foram pra França, né?”
“Isso mesmo. Aliás, Yamato, eu sabia que você tinha carteira de motorista, mas não que tinha tirado até a internacional.”
“Foi o último pedido do meu avô, antes de falecer. E você também devia tirar pelo menos a sua carteira — se precisar, até como assistente de produção em animação já ajuda pra conseguir emprego
“Não quero isso, não.”
Agumon e Gabumon estavam no banco de trás, na terceira fileira do carro.
De repente, Agumon gritou:
“Taichi! Estou sentindo cheiro de Digimon!”
Gabumon completou:
“Não vem deste carro.”
Ao lado de Iori, Armadillomon virou-se para trás:
“Está atrás de nós, da-gyaa!”
Iori imediatamente olhou para trás.
Do céu noturno, sem postes de luz ou reflexos de cidades distantes, algo parecido com um pássaro se aproximava.
“É enorme. Não é o Kuwagamon do Yuri.”
Taichi também conseguiu ver: as garras afiadas do Digimon alado já estavam quase sobre eles.
“Desvia!”
Yamato girou o volante.
Kuuh!
O carro desviou para a esquerda, e as garras rasgaram apenas o ar.
O Digimon negro em forma de pássaro voou à frente, depois subiu e fez uma grande curva, que Taichi acompanhou com os olhos.
“Ele vai voltar!”
"Droga! Ainda temos um longo caminho a percorrer antes de podermos abrir o portal!"
Taichi virou-se para o banco de trás:
“Iori, dá para abrir o portal pelo smartphone, não é?”
“Sim, desde que haja conexão com a internet. Mas—”
“Tem sinal agora!”
Taichi estendeu o celular diante de Iori.
“Abre o portal, Iori. Você e o garoto vão na frente.”
“Mas—”
O Digimon alado, em curva, avançava pela lateral.
Yamato desviou rápido, as garras rasparam a dianteira do carro. Ele acelerou imediatamente.
“Não temos tempo para hesitar!”
“Entendido!”
Iori apontou o Digivice D3, o dispositivo capaz de abrir portais, para o smartphone de Taichi.
“Digital Gate, Open!”
A tela de cristal líquido começou a brilhar intensamente, tomada por uma luz pulsante.
“Vamos, você primeiro,” incentivou Iori.
O garoto, que até então permanecia inquieto, abraçou seu pequeno Digimon e se aproximou da luz. Sua decisão firme sugeria que já estava acostumado a enfrentar perigos. Em seguida, sua figura se dissolveu em sombra e foi absorvida pelo clarão. Iori e Armadillomon o seguiram. Então a luz diminuiu e a escuridão retornou.
Do banco traseiro, Agumon e Gabumon espiaram:
“E nós, o que fazemos?”
Yamato deixou escapar um leve sorriso no canto da boca.
“É óbvio, né?”
Taichi olhou para o banco traseiro.
“Pronto, Agumon?”
“Claro!”
Os dois Digivices foram apontados simultaneamente para o banco traseiro. Os indicadores nas telas começaram a subir rapidamente, e dois feixes de energia se estenderam do carro até o alto do céu.
Ali havia uma fronteira invisível: o banco de dados do DigiMundo, inacessível aos sentidos humanos. Uma rede invisível que cobria todo o planeta como uma fina camada de nuvem.
Quando o sinal dos indicadores alcançou esse limite, uma explosão de luz ocorreu no ponto de contato.
Dentro do imenso banco de dados de evoluções dos Digimon, duas formas compatíveis com aquelas luzes foram selecionadas e enviadas de volta à superfície.
Duas hélices duplas de luz desceram em alta velocidade até a parte traseira do carro, enchendo o interior do veículo de luz.
O sinal provocou uma transformação em Agumon e Gabumon. As informações de suas formas foram reescritas, e até sua massa foi reconstruída.
“Agumon… digivolve para…!”
“Gabumon… digivolve para…!
O porta-malas do carro em alta velocidade se abriu, e de dentro da explosão de luz surgiu aquilo que antes era Agumon.
Antes mesmo de tocar o chão, seu corpo já havia crescido várias vezes o seu tamanho.
“Greymon!”
Em seguida, aquilo que antes era Gabumon saltou para fora e se transformou em uma grande criatura semelhante a um lobo.
“Garurumon!”
As duas formas atacaram o Digimon semelhante a um pássaro que vinha pela retaguarda. O inimigo tentou reagir com suas garras e bater as asas enormes para afastá-los, conseguindo se livrar de Greymon, mas—
“Mega Flame!”
Da boca de Greymon foi disparada uma esfera de fogo que atingiu em cheio o alvo. O pássaro cambaleou e começou a cair em direção às montanhas.
Sobre ele, Garurumon saltou. De sua boca, expeliu chamas azuis.
“Fox Fire!”
O ataque de fogo foi evitado por pouco. Ainda assim, o próprio corpo de Garurumon colidiu com o inimigo, e ambos se enroscaram e caíram juntos dentro da floresta.
Greymon também avançou em seguida, entrando na mata. Ao fundo, a batalha continuava: várias árvores eram arrancadas, e flashes de fogo e luz escapavam entre a vegetação, indicando o confronto intenso que se desenrolava ali.
Mesmo do ponto da estrada que fazia uma grande curva ao redor da encosta da montanha, era possível ver a luz da batalha. Taichi percebeu que aquilo não iria se resolver tão rápido.
“Um no nível Perfeito, hein…”
Yamato respondeu sem tirar as mãos da direção:
“Vamos evoluir mais uma etapa?”
“Não, espera.”
O Digimon em forma de pássaro saiu da floresta. Sua postura estava instável, mas parecia não ter sofrido muitos danos. Ele subiu até uma altura fora do alcance de Greymon e dos outros, então virou-se novamente.
As garras de ambas as asas começaram a emitir uma luz escura.
“Isso é ruim! Desvia, Greymon!”
A energia disparada carbonizou instantaneamente uma parte da floresta.
Mas Greymon e Garurumon já não estavam mais naquele ponto.
Dois contra-ataques vieram de lados opostos da floresta incendiada: uma esfera de fogo e chamas azuis avançando em direção ao Digimon pássaro.
O histórico de cooperação entre Greymon e Garurumon era longo.
Com ataques vindos de duas direções quase impossíveis de evitar, o Digimon em forma de pássaro sofreu danos na asa direita e nas penas da cauda. Cambaleando, começou a cair em espiral.
Mas então, o espaço onde ele estava caindo se distorceu e passou a refletir outra paisagem.
Do outro lado havia um cenário iluminado pela luz do dia.
“Um portal.”
Enquanto Taichi observava, o Digimon pássaro mergulhou naquela abertura luminosa. Porém, o portal não se fechou.
Ele se ergueu suavemente ao longo da encosta da montanha, aproximando-se do carro de Taichi.
“Yamato, isso é ruim!”
“Eu sei!”
O carro avançava em alta velocidade, enquanto Greymon e os outros corriam ao lado.
Nesse ritmo, não deveriam conseguir ser alcançados pelo portal.
Mas, de repente, o portal que vinha pelo lado se deslocou rapidamente e apareceu à frente do veículo.
Do outro lado da estrada noturna, via-se um espaço claro — e dentro dele, o sol era visível.
O carro e Greymon não conseguiram parar a tempo.
E acabaram sendo engolidos pelo portal.
Aos poucos, os olhos se acostumaram à luz.
Ele olhou ao redor.
Era um deserto.
Exceto por algumas elevações e algumas estruturas que não se podia identificar ao longe, tudo o que havia até onde a vista alcançava era areia. O sol brilhava intensamente sobre a paisagem.
“Que lugar é esse?”
1
“Naquela época foi bem complicado…”
Claro que eles sabiam que aquele deserto era o DigiMundo. Mas mesmo assim, o DigiMundo era vasto — não havia como saber em que parte exatamente estavam.
No entanto, eles pensaram de forma tranquila que, se conseguissem contatar Koushiro e os outros, não haveria problema.
“Acabou levando três dias, né.”
Pensando que já tinham se passado dois anos desde então, Taichi levou o copo de chá gelado à boca.
“Bem, nós também passamos por muita coisa.”
Do outro lado de Taichi, Inoue Miyako segurava um copo de suco de acerola. Talvez combinasse com o macacão vermelho cheio de bolsos que ela usava.
“Ainda não está totalmente claro por que a conexão com o DigiMundo foi interrompida… e provavelmente algum tipo de prenúncio do terremoto que aconteceu depois teve influência nisso."
Na orla oposta de Odaiba, em um canto do distrito de armazéns de Shibaura, havia um depósito um pouco menor do que os demais, mas de aparência robusta. Ao observar com atenção, via-se uma placa dizendo “Instituto Izumi”.
Era o instituto de pesquisa dirigido por Izumi Koushiro.
Taichi estava na sala de recepção desse lugar.
Miyako ainda era universitária e, oficialmente, não era funcionária do instituto, mas sim uma trabalhadora de meio período. No entanto, como o diretor e o outro pesquisador viviam imersos em seus estudos, ela acabava assumindo praticamente todas as tarefas administrativas.
Ela nunca se separava de uma bolsa transversal cheia de ferramentas e equipamentos.
A sala de recepção, que antes tinha uma aparência fria e sem vida, agora era relativamente aconchegante graças a ela, que cuidou da decoração e da iluminação.
“Mesmo que tenham dito que o tremor veio depois de várias horas… ainda assim é estranho que a conexão tenha sido afetada antes disso.”
Taichi pensava que, se nem Koushiro e os outros conseguiam encontrar a causa, ele certamente também não conseguiria entender. Para começar, ele nem sabia ao certo como a comunicação com o DigiMundo funcionava.
“Mas pelo menos foi bom ter conseguido resgatar Iori e aquele garoto em segurança.”
O portal aberto por Iori foi imediatamente detectado por Koushiro, que conseguiu contatar a equipe de recepção. Foi logo depois disso que a conexão caiu.
“O Izumi-senpai… quer dizer, o diretor ainda está incomodado com isso. Ele fica irritado quando não consegue descobrir a causa.”
“Bom, isso é a cara dele mesmo.”
Agora mesmo, ele ainda estava preso no meio de uma pesquisa e não podia ser interrompido.
“Depois do tremor, não tinha mais como manter a conexão…”
Miyako continuou o relato como quem revive uma lembrança. Taichi também ficou sabendo daquilo depois.
Naquele dia, dois anos atrás.
Algumas horas depois de Taichi, Yamato e os outros terem se perdido no deserto do DigiMundo, uma catástrofe atingiu este mundo.
Um grande terremoto ocorreu de Kanto até Tohoku, acompanhado de tsunamis.
Naquele momento, o instituto em Shibaura ainda havia sido recém-inaugurado.
Com telefones e redes de transporte se tornando instáveis, Sora Takenouchi, Kido Jou e Ichijouji Ken se reuniram ali.
Eles discutiram o que deveriam fazer.
Quem defendeu que deveriam sair imediatamente para ajudar as pessoas afetadas pelos desastres foi Tachikawa Mimi, que por acaso havia acabado de voltar dos Estados Unidos.
Ela havia vivido um grande incidente em Nova Iorque, em 2001, dez anos antes. Naquele momento, crianças com parceiros Digimon de todo os Estados Unidos se reuniram e ajudaram no resgate de pessoas sob os escombros.
Embora Koushiro tivesse se comunicado com eles online, ele não tivera a oportunidade de conhecer seus amigos americanos pessoalmente até então. Era desnecessário dizer que os Digimon possuem poderes que humanos comuns não têm. Por isso, eles se reuniram na esperança de poder ajudar de alguma forma.
“Talvez, olhando de forma geral, não tenha feito tanta diferença… mas o importante foi que todos tentaram fazer o que podiam. Foi isso que a Mimi-san disse.”
Mimi estava ansiosa, sentindo que também precisava fazer algo naquele momento.
No entanto, os Digimon de todos eles estavam justamente no DigiMundo naquela época.
Os Digimon não podem permanecer no mundo humano por muito tempo; aos poucos, sua condição física começa a piorar. Por isso, eles precisam retornar periodicamente ao DigiMundo.
Embora existam limites claros para o que podem fazer sozinhos, tudo seria diferente se tivessem seus Digimon com eles. O problema era justamente que não conseguiam entrar em contato com esses Digimon.
Kido Jou defendia uma postura mais cautelosa. Ir naquele momento não mudaria muito o que eles poderiam fazer. Mesmo que fossem atuar como voluntários sem depender dos Digimon, ainda assim precisariam de preparação adequada e meios de transporte. Ir apenas por impulso poderia não só ser inútil, como também atrapalhar. Além disso, no fim das contas, eles eram apenas estudantes.
Enquanto discutiam isso, começaram a chegar notícias sobre os danos causados pelo tsunami.
O poder que eles tinham adquirido através dos Digimon… seria incapaz de fazer qualquer coisa em momentos como aquele?
Eles foram tomados por uma sensação de impotência e frustração.
“Naquele momento… se o Taichi-san ou o Daisuke-kun estivessem aqui, acho que o clima entre todos teria sido um pouco diferente.”
Motomiya Daisuke e Takaishi Takeru tinham ido ao DigiMundo para resgatar Iori e o garoto, enquanto Yagami Hikari dava suporte à operação.
“Quando finalmente conseguimos voltar, todo mundo estava meio abatido…”
Taichi lembrava daquilo com uma expressão um pouco complexa. Ele e Yamato também tinham passado por situações difíceis naquele período — mas isso já era outra história.
“E então… aquele desastre.”
“Isso, isso. Independente de vocês, Taichi-san, seria impossível alguém no Japão não saber disso — ainda mais estando em Tohoku.”
“Mas ele disse que não sabia.”
Miyako estava falando sobre a pessoa que havia aparecido ali no dia anterior.
“E não foi só isso… tem várias coisas estranhas nele. Ou melhor, coisas que chamam atenção, como se estivessem meio fora do lugar.”
“Mas, ainda assim, não foi a primeira vez que você encontrou esse cara, foi?”
“Foi por volta desta época no ano passado… só uma vez. Bem, ninguém da geração de vocês, Taichi-san, chegou a encontrar essa pessoa, certo?”
Os únicos que tinham tido contato com esse indivíduo eram Miyako, Daisuke, Takeru, Ken, Hikari e Iori.
“Nós também não o vimos mais depois daquela vez… e agora que ele apareceu de novo, tem algo estranho.”
As memórias do encontro do ano passado divergiam bastante entre o grupo e o próprio rapaz.
“Eu, o Daisuke-kun e os outros lembramos mais ou menos da mesma coisa… só ele que conta uma versão diferente. Mas também seria estranho simplesmente ignorar isso só porque somos maioria. E, pelo que ele diz, nem conseguimos encontrar o endereço do lugar onde ele supostamente vivia.”
“Então foi por isso que o Takeru levou ele até lá… até Tohoku?”
“Sim, porque o irmão mais velho do Jou-senpai mora naquela região.”
“Ah, o Shuu-san. O Takeru parece se dar surpreendentemente bem com ele.”
“Bem… não foi só por isso que o Takeru-kun decidiu levá-lo até lá.”
2
Embora a neve já tivesse diminuído bastante, Aomori ainda estava fria.
Saindo do carro que haviam parado um pouco mais acima da cidade, em direção à montanha, Shuu — o irmão mais velho de Kido Jou— pisou em um campo vazio e se virou.
“É aqui mesmo, certo?”
O endereço que você mencionou… o lugar onde disse que morava.
Comparado a Jou, que ainda mantinha um ar um tanto frágil e desajeitado, Shuu era mais robusto e também mais alto. Seu casaco, apesar de parecer leve, tinha uma excelente proteção contra o frio. Era ideal para trabalho de campo. Nos bolsos internos, carregava um caderno grande e resistente, embora isso não fosse perceptível à primeira vista.
Logo atrás dele, Takaishi Takeru também se virou. Sua roupa parecia leve — um casaco fino sobre uma camiseta de manga longa mais grossa —, mas suas botas eram firmes e adequadas.
“Sim… é aqui. Rui-kun?”
O jovem que havia aparecido no instituto no dia anterior, Owada Rui, permanecia parado ao lado do carro, completamente atônito.
Não havia o menor vestígio, naquele campo à frente, de que ali algum dia tivesse existido a casa dos parentes onde ele dizia ter vivido.
3
“Não é só sobre o desastre… as memórias dele de quando conheceu a Miyako e os outros, e até mesmo as lembranças anteriores de Hikarigaoka, já eram estranhas desde o início.”
Depois de finalmente sair do laboratório e ir até a sala de recepção, Izumi Koushiro tomou um gole de chá e começou a explicar.
“Ele disse que sempre viveu em Hikarigaoka, não foi?”
Taichi estava tomando café. Na verdade, preferia estar bebendo uma cerveja, mas decidiu esperar até ouvir toda a explicação de Koushiro. Enquanto escutava, ainda pensava se sequer havia cerveja naquele instituto.
“Isso. Até dez anos atrás, em 2003. E mesmo assim… ele diz que a primeira vez que viu um Digimon lutando foi na primavera daquele mesmo ano, pela televisão.”
Um ano antes, quando Rui encontrou Miyako, Ken e Daisuke pela primeira vez, um enorme Digitama havia aparecido perto da Tokyo Tower.
Rui e Daisuke entraram naquele Digitama.
“E então ele viu a Hikari e eu quando éramos pequenos.”
Dentro do Digitama, Daisuke havia assistido a imagens do passado de Hikarigaoka.
“Por isso, o Daisuke-kun achou que o mundo dentro daquele Digitama era Hikarigaoka em 1995.”
Depois disso, ele também viu cenas da família de Rui e do momento em que Rui conheceu um Digimon.
“Mas ele não sabe nada sobre o Greymon e o Parrotmon.”
“A próxima lembrança que o Rui-kun tem envolvendo Digimon que não têm relação direta com ele são notícias de Odaiba — a batalha contra Armagemon, na primavera de 2003. Nesse intervalo, ele não sabe nada sobre a luta entre Mammothmon e Birdramon em Hikarigaoka no verão de 1999, nem sobre outro confronto que também aconteceu lá no fim de 2002.”
“Isso já parece forçado demais. Nessa época ele já devia estar no final do ensino fundamental, não? Ou ele não estava realmente em Hikarigaoka… ou estava em uma versão de Hikarigaoka de outro mundo.”
“Também há outra interpretação possível.”
“Ah é? Qual?”
“O Ukkomon de que o Rui-kun falou… a habilidade de conceder a todas as pessoas um Digimon parceiro.”
Segundo Rui, o Digimon que se tornou seu parceiro em 1995, Ukkomon, decidiu realizar o desejo dele dando um Digimon parceiro a toda a humanidade.
“É uma capacidade grande demais para um Digimon comum… mas nós também não conhecemos tudo sobre os Digimon, então não é impossível. Ainda assim, isso é apenas algo que o Rui-kun ouviu — não há nenhuma evidência que sustente.”
Depois de acrescentar que nem mesmo era certo se Ukkomon poderia ser considerado um Digimon “comum”, Koushiro continuou:
“Sabemos que existe um mundo onde desejos podem ser realizados… ou melhor, materializados.”
No final de 2002, o lugar onde Daisuke e os outros enfrentaram BelialVamdemon era exatamente esse tipo de espaço.
Algo parecido também era lembrado por Koushiro e os outros. Quando foram ao DigiMundo pela primeira vez, ocorreram fenômenos estranhos — como um computador ligar em um lugar sem qualquer fonte de energia, ou um chapéu macio se tornar rígido. Ainda assim, dentro de toda a natureza misteriosa do DigiMundo, isso não parecia tão fora do comum.
“Essa ideia de realizar desejos é muito vaga… mas, se for algo no nível de criar Digimon, não dá para dizer que seja totalmente impossível.”
Eles já tinham encontrado diversos Digimon com habilidades muito além do que se poderia imaginar.
“Mas isso provavelmente exigiria uma quantidade absurda de energia. E, se for para produzir em massa, então seria um trabalho completamente fora de escala. Não parece algo que um único Digimon conseguiria fazer.”
“Seria mais plausível alguém simplesmente fazer o Rui-kun acreditar que foi ele quem fez isso.”
“Então ele foi enganado?”
Depois de dizer isso, Taichi percebeu que essa explicação também soava um pouco estranha.
Se a ideia fosse de engano, então fazer Rui acreditar que o aumento dos parceiros Digimon era resultado de seu próprio poder seria parte disso. No entanto, naquele momento ainda não existiam Digimon assim. Seria necessário prever com certeza que eles aumentariam depois.
“Talvez… as memórias dele tenham sido ligeiramente alteradas.”
“Alteradas em quê?”
“Primeiro, na linha do tempo.”
“Daqui em diante é só uma hipótese”, continuou Koushiro.
Em vez de saber que os Parceiros Digimon ainda iriam aumentar, se alguém já soubesse que eles estavam começando a aumentar, seria mais fácil prever que continuariam crescendo depois.
Uma das coisas mais difíceis de alterar nas memórias de Rui seria sua data de nascimento: 29 de fevereiro, um ano bissexto. Como ele é da mesma turma que Daisuke e os outros, deveria ter nascido em 1992.
“Mas se isso estiver deslocado em um ano, ele passaria a ter nascido em 1996. Se esse for o caso… algumas coisas ficam muito mais fáceis de explicar.”
Se ele tivesse nascido em 1996, não haveria nada de estranho em ele não saber nada sobre 1995 ou 1999. O caso de 2002 no fim do ano ainda seria ambíguo, mas mesmo assim ele teria apenas seis anos.
“Então o que o Daisuke viu em 1995, aquele cenário de Hikarigaoka…”
“Se o Daisuke foi usado como testemunha para aplicar um truque em nós…”
“Um truque?”
“Antes de mais nada, aquilo que ele viu dentro do Digitama era apenas uma projeção de imagens do passado. E parece que os materiais foram selecionados justamente para serem vistos pelo Daisuke-kun.”
“As notícias sobre a batalha contra o Armagemon em 2003 provavelmente ele realmente viu na televisão. Talvez tenha sido isso que desencadeou o aparecimento de Ukkomon, e então Ukkomon surgiu diante do Rui-kun… o que pode ter levado à alteração de suas memórias.”
“Mas essa hipótese não tem nenhuma prova, certo?”
“Há mais uma coisa que sabemos com certeza sobre as memórias do Rui-kun: seus pais não estão vivos. E isso envolve um caso com possível natureza criminal — se pesquisar, você vai encontrar registros.”
Koushiro operou um tablet com o símbolo de um abacaxi e exibiu uma matéria de jornal de 2003.
O artigo relatava que os corpos de um homem acamado e de sua esposa, exausta pelo cuidado constante, foram encontrados. O filho único deles havia sido localizado com ferimentos nos olhos, mas ainda vivo.
“Não há mais registros de continuação, então não sabemos os detalhes.”
O fato de o filho ter ferimentos sugere que pode ter havido uma tentativa de homicídio seguido de suicídio.
Na memória de Rui, isso teria ocorrido quando ele tinha onze anos. Mas, se isso recuar quatro anos, ele teria apenas sete — e o impacto psicológico seria imensamente maior. Nesse momento, também seria muito mais fácil manipular suas memórias.
Talvez Ukkomon tenha sido apresentado a ele como algo que sempre esteve ao seu lado desde muitos anos antes.
“E então ele teria sido induzido a ir para o mundo que era a casa dos pais em Tohoku, vivendo de uma forma que disfarçava a diferença de idade em relação a este mundo. Claro, como eu disse antes, também existe a possibilidade de que a versão dele esteja correta — de que ele realmente veio de um mundo assim. As duas hipóteses têm o mesmo peso.”
Mas não havia um fator decisivo.
“Só que, para nós, dentro deste mundo, é mais fácil aceitar uma explicação que justifique por que ele não sabia nada sobre os eventos de 1999…”
Miyako escutava com admiração. Quando Taichi e Koushiro conversavam, o ritmo era rápido demais; ambos tinham raciocínio ágil e alta capacidade de compreensão. Se não tomasse cuidado, era fácil ficar para trás.
Finalmente surgiu a oportunidade de acrescentar um ponto.
“Eu achei que o Rui-kun parecia bem mais magro do que alguém da mesma série do Daisuke-kun e do Ken-kun… Se ele for mais novo que o Iori, isso faria mais sentido.”
“Então ele acha que tem mais de vinte anos…”
Taichi ainda não tinha visto Rui pessoalmente. E outra dúvida começava a surgir em sua mente.
Por que Ukkomon teria feito aquilo…?
4
“Há uma lenda chamada Mayoiga.”
Enquanto dirigia, Kido Shuu continuava explicando.
“Ela ficou conhecida pelo Tono Monogatari, de Yanagita Kunio, mas é uma história que aparece em toda a região entre Kanto e Tohoku.”
Uma casa ilusória que aparece nas montanhas.
“Não é exatamente isso, mas o lugar onde fomos antes… Hachinohe, em Aomori. Você conhece os nomes dessas cidades, certo? De Ichinohe, Ninonohe, Sannohe, depois Yononohe, e assim por diante até Hachinohe, Kunohe… e o último, Tonohe (Herai). ‘Herai’ lembra ‘Hebrai’, não lembra? Existe até uma teoria de que Cristo teria vindo ao Japão…”
“Shuu-san.”
Takeru interrompeu do banco traseiro.
“Ah, tudo bem, tudo bem. Eu não vou fugir do assunto.”
“Entre Ichinohe e Kunohe, existe uma lacuna curiosa: não há ‘Shinohe’ (Quatro-Nohe). Depois de Sannohe, o próximo nome já passa para Gonohe.”[1]
“Eu morava em Shinohe”, Rui havia dito.
“Parece que esse nome teria desaparecido no período Edo. A explicação mais aceita é que foi apenas uma divisão administrativa de território que acabou apagando o nome. Existe uma justificativa histórica para isso… mas ainda assim dá uma sensação estranha, não acha?”
Ele continuou:
“Além disso, mesmo hoje em dia ainda aparecem relatos — ou melhor, testemunhos de experiências — sobre esse tal ‘Shinohe que não deveria existir’. Essa foi uma das razões desta nossa investigação.”
Shuu era um pesquisador de folclore, acostumado a investigações de campo sobre tradições e lendas.
“Você acabou de virar assistente, e já está tão ocupado assim.”
“O salário é baixo também. Por isso não consigo trocar esse carro nem tão cedo.”
“Mas mesmo assim…”
Takeru comentou, ainda um pouco preocupado com Rui.
“Realmente não havia nada ali em Shinohe, não é?”
“Além da área que vimos antes, há também as ruínas de um castelo chamado Shinohe-jo. Como fica no caminho, vamos passar por lá de qualquer forma.”
5
“Entendo. Então já conseguimos entender um pouco sobre o Rui.”
A conversa de Taichi e dos outros continuava na sala de recepção do instituto.
“Mas, se falarmos apenas do problema das memórias…”
Koushiro disse, mantendo o olhar um pouco baixo.
“Na verdade, nós também não nos lembrávamos muito de 1995, sabe.”
“Bem, faz sentido. Eu mesmo ainda estava no primeiro ano da escola primária.”
Taichi e os outros só haviam recuperado aquelas lembranças de forma repentina quando voltaram a Hikarigaoka em 1999.
Miyako também se lembrava do que Ken havia dito.
“O Ken-kun também fala que não consegue se lembrar muito bem da época em que estava… no lado errado. Mas ele diz que também há coisas antes disso…”
Pelo que parecia, Ken certa vez comentou com Miyako que tinha a sensação de ter lutado ao lado de outro garoto com um Digimon parceiro.[2]
Koushiro também tinha a impressão de já ter ouvido algo parecido.
“Isso é realmente um problema de memória… ou será que…”
Uma mulher que havia saído do laboratório entrou na conversa.
“…eles vieram de um mundo exatamente como o das memórias deles para este mundo atual?”
“Ah, Menoa-san também está numa posição parecida, né?”
Ao lado de Miyako, a mulher de cabelo curto chamada Menoa — vestindo o mesmo uniforme de trabalho do instituto de Koushiro — sentou-se e continuou a falar.
Assim como Rui, ela também era alguém que possuía memórias diferentes das de Taichi e dos outros.
Ela tinha a mesma idade de Taichi, mas se tornou uma professora universitária nos Estados Unidos, pesquisando Digimon. E acabou envolvida em uma das batalhas que também afetaram Taichi e os demais. Apenas ela se lembrava disso.
“Mas no mundo que eu me lembro…”
Ela fez uma pausa.
“A maior diferença… claro, é se MorphoMon existia ou não.”
“O Digimon parceiro da Menoa-san…”
“Uma pessoa que conseguiu, junto com esse Digimon, até dar um salto acadêmico e virar professora universitária… e nesse mundo o Izzy nem sequer percebeu a existência dela.”
“Por favor, pare de me chamar de ‘Izzy’…”
Koushiro finalmente conseguiu intervir.
“Ah, é verdade. Desculpe, senhor presidente.”
“E esse ‘presidente’ também não…”
“Isso, isso, neste mundo ele é o diretor do instituto. Mas na minha memória, o Izzy… ou melhor, Izumi Koushiro, era o presidente de uma empresa. Ainda não me acostumei.”
Era óbvio que ela fazia de propósito, mas esse parecia ser mesmo o jeito de Menoa.
“E não era só você, Menoa-san, que dizia que o Izumi-senpai era presidente.”
“Diretor ou presidente… não havia como uma pessoa como eu não ser notada ou desconhecida por ele. Pelo menos na minha memória, isso era impossível. Depois de trabalhar aqui com ele, entendi isso ainda mais claramente. A capacidade dele de coletar informações é de outro nível.”
“Bem, este próprio instituto só pôde ser fundado graças à Menoa-san.”
Koushiro dizia isso talvez como forma de disfarçar a própria timidez. Na prática, metade do capital inicial de criação havia sido financiado por Menoa, e, na realidade, ela era praticamente uma cofundadora. Ainda assim, quem ocupava oficialmente o cargo de diretor era Koushiro — e isso também foi ideia da própria Menoa.
“Seja virar presidente ou não, eu já estava ganhando dinheiro com royalties de patentes como no mundo das minhas memórias, então essa parte não está errada. Mas além disso…”
Menoa havia parado de falar tanto sobre o passado, mas a chegada de Rui pareceu trazer à tona algumas lembranças. Depois de citar alguns exemplos — como a existência de um assistente suspeito e outras partes até mesmo nebulosas em sua própria memória — ela continuou:
“O mais estranho é que eu não consigo me lembrar de como tive certas ideias… ou de como cheguei a certas conclusões.”
Menoa baixou levemente o olhar.
“Coisas como: ‘quando você cresce, suas possibilidades se estreitam’…”
“Mas, falando nisso…”
Taichi interrompeu a conversa.
“Seu japonês melhorou muito, Menoa.”
“Não é?”
Menoa respondeu com um sorriso.
“Isso mesmo, não é só o diretor… vocês também, Taichi e os outros.”
Yamato, Jou, Mimi — e Sora, mesmo que naquela época ela não estivesse presente.
“As pessoas que eu conhecia, as pessoas das minhas memórias… e vocês de agora têm uma diferença decisiva. O mesmo vale para Daisuke e Miyako. Isso foi algo que eu também disse ontem, quando ouvi a história do Rui-kun.”
6
“Se fossem as pessoas daqui, naquela época…”
Menoa havia dito isso a Rui no dia anterior.
No momento em que ele colocou um ponto final na situação envolvendo aquilo que deveria ter sido seu próprio Digimon parceiro.
“Com certeza teriam buscado outra solução. Provavelmente também fariam isso no seu caso.”
Rui se lembrava dessas palavras.
Na área das ruínas do Castelo de Shinohe — também chamado de ruínas do Castelo de Kindaichi — não havia nenhum vestígio de que ele tivesse realmente vivido ali.
Então… onde ele esteve até agora?
O que aconteceu no ano passado, quando encontrou Daisuke e os outros e aquilo ocorreu… até que ponto aquilo era real?
Ou melhor… quanto das memórias da época em que acreditava que seus pais estavam vivos era de fato verdade?
Enquanto ele pensava nisso, Takeru se aproximou e falou:
“Quando eu conheci o Patamon, meu parceiro Digimon, pela primeira vez…”
“Foi exatamente assim.”
Ele viveu muitas experiências diferentes. No entanto, neste mundo, tudo aquilo havia durado apenas alguns dias.
“Na minha percepção pessoal, parecia ter sido mais de meio ano… ou até mais. Tinha uma diferença enorme. Depois disso, por um tempo, eu nem conseguia conversar direito com os colegas da minha classe.”
Talvez a mudança tenha sido mais psicológica do que temporal.
“Eu ficava pensando coisas como… ‘será que aquilo tudo foi um sonho?’ Mas não, não podia ser um sonho… e, no fundo, eu nem queria que fosse. Foi difícil em muitos momentos, mas também houve coisas boas.”
“Ah… se não se importar…”
Rui falou pela primeira vez em várias horas.
“Você poderia me contar mais sobre isso?”
“Ah… claro, não tem problema.”
“Temos bastante tempo.”
Shuu falou do banco do motorista.
“De qualquer forma, vamos até Tóquio com esse carro — vai demorar bastante. Talvez nem cheguemos a tempo do jantar.”
“Sim.”
“Além disso, eu só ouvi partes da história pelo Jou e pelo meu irmão. Gostaria de ouvir tudo de forma organizada.”
“Ah, entendi. Então… posso falar do meu ponto de vista. Se isso estiver tudo bem.”
Takeru tomou um gole de água da garrafa PET antes de começar a falar.
“No começo era um acampamento de verão. A escola do meu irmão ia para as montanhas nas férias, e nossos pais acabaram se falando por alguma razão. Foi assim que eu também acabei participando.”
Rui começou a ouvir a história daquele verão que parecia, ao mesmo tempo, longo e curto.
7
“E Genebra, como foi?”
Koushiro perguntou.
Taichi respondeu enquanto apoiava as mãos atrás da cabeça e olhava para cima.
“Ah, aquilo lá… aqueles velhotes espertalhões. Mas bem, a família da Catherine-san ajudou a contornar a situação.”
Catherine era uma mulher que Taichi conheceu no final de 2002, quando foi a Paris pela primeira vez. Ela tinha Floramon como Digimon parceiro e parecia vir de uma família com influência no meio político e econômico francês.
Taichi havia acabado de voltar após ser chamado como testemunha para uma comissão de direitos humanos da ONU.
O número de crianças com parceiros Digimon crescia em ritmo de duplicação a cada ano.
Quando ainda eram poucos, foi possível criar áreas de convivência dentro de propriedades de famílias ricas de Partner Humans — especialmente nos Estados Unidos e na Índia — usando grandes jardins e fazendas como locais de moradia.
Antes que a atenção pública se tornasse inevitável, esses espaços foram gradualmente sendo transferidos para o próprio DigiMundo.
Provavelmente, o DigiMundo tinha uma extensão semelhante à da Terra. Nele não havia humanos, mas existiam diversas estruturas utilizáveis. Dependendo da localização, era possível acomodar um grande número de pessoas sem problemas de moradia, água ou alimento.
Embora houvesse casos em que Digimon perigosos se aproximavam dessas áreas, ali estavam apenas crianças acompanhadas por seus parceiros Digimon. No mínimo, sua própria segurança podia ser garantida.
Assim, surgiram algumas zonas de proteção. E, com o passar das gerações após Daisuke e os outros, aqueles que já estavam na faixa da universidade passaram a se revezar na administração desses locais.
Como esses jovens também não viviam constantemente com seus parceiros Digimon, havia um aspecto positivo: podiam ir ao DigiMundo com frequência e passar tempo com eles, o que trazia satisfação.
Com o aumento do número de crianças resgatadas, as atividades de resgate de Taichi e dos outros começaram a atrair atenção, ainda que de forma discreta.
Do ponto de vista da sociedade humana, surgiram até suspeitas de que eles seriam sequestradores. Nesse contexto, houve contato da ONU, e Taichi acabou indo como representante a uma reunião secreta do comitê de direitos humanos.
E, de alguma forma, conseguiram o reconhecimento da ONU — ainda que de forma não oficial.
“Mas, ficar lá tendo que usar roupa formal o tempo todo também era bem sufocante…”
Agora Taichi estava com seu habitual visual descontraído de moletom.
“E ainda tinha toda a parte de ter que ficar parado no avião na ida e na volta por horas…”
“Pois é, normalmente vocês sempre vão e voltam pelo portal do DigiMundo, né.”
Miyako respondeu, pensando que, apesar de ele reclamar como se fosse um incômodo, no fim era bem a cara do Taichi conseguir lidar com aqueles adultos complicados e dar um jeito neles.
“Mas voltando àquela história…”
Taichi direcionou o olhar levemente para Koushiro e Menoa.
“Já perdeu a conta? Quantas pessoas vieram dizer que tinham parceiros Digimon antes de nós?”
“Pessoalmente que encontramos, cinco. Só ouvimos falar de mais três… não, talvez quatro.”
“Não é muito preciso pra alguém como você, Koushiro.”
“É que, somando tudo, passa de oito pessoas. Nossa geração tem oito. Mas, ao calcular pelo aumento posterior, o número antes disso deveria ser sete.”
Koushiro fez uma pausa, como se o próprio dado não encaixasse completamente.
Koushiro e Taichi haviam encontrado os Digimon em 1999. Naquele ano, apenas os oito deles surgiram como novos PHs (Partner Humans). Depois disso, o número vinha dobrando a cada ano: em 1998 eram quatro, no ano anterior dois, e em 1996 apenas um — totalizando sete pessoas no passado.
“Mas se o número passa de oito, então a conta já não fecha… e, além disso, até o próprio ano em que dizem ter conhecido os Digimon já é estranho.”
“Foi por isso que o Izzy sugeriu a hipótese de que talvez nós tenhamos vindo de mundos paralelos.”
Menoa completou a ideia.
“Pode ser que eu e as outras pessoas também venhamos de mundos diferentes entre si.”
“Se dizem que o primeiro encontro com Digimon foi antes de 1995, isso entra em conflito com o que temos aqui.”
O exemplo citado por Koushiro não se referia a Menoa ou Rui, mas a outras pessoas.
“E se forem quatro pessoas, isso complica ainda mais.”
“Na prática, só uma pessoa realmente afirma isso.”
E uma dessas “quatro pessoas” de que Taichi falava estava, naquele momento, em um quarto de hospital, ao lado de outra pessoa que dormia profundamente.
8
Um sanatório localizado em uma colina em uma península na província de Kanagawa. Cercado por floresta e um tanto isolado da cidade, poucas pessoas o visitam. Embora seja chamado de “sanatório”, trata-se apenas de um nome informal; o local possui um nome oficial de hospital, mas, há muito tempo, os idosos que frequentam o lugar continuam chamando-o assim.
Apesar de o prédio ser relativamente pequeno, há quartos de internação. No entanto, há dois anos, apenas um único homem permanece ali, deitado em uma cama, em estado de inconsciência contínua.
“O quê? O que você acabou de dizer?!”
Himekawa Maki apertava o botão do chamado de enfermagem enquanto falava com o homem na cama, Nishijima.
A porta do quarto se abriu de repente, e uma enfermeira de cabelo arrepiado, mal preso sob uma touca, entrou apressada.
“O que aconteceu?”
“Ele falou agora. Parece que recuperou a consciência.”
“Vou chamar o médico!”
A enfermeira saiu apressada, mas a consciência de Nishijima não voltou imediatamente.
Aquele homem, Nishijima, teria sido o professor da turma de Taichi quando eles estavam no ensino médio. Mas aquela era apenas uma identidade falsa; na verdade, ele era um investigador ligado a uma agência governamental. Ele também já tivera um parceiro Digimon.
Após o longo incidente em que Taichi e os outros se envolveram, ele deveria estar morto.
Quem contou isso foi a mulher de roupa simples que vinha acompanhando-o o tempo todo, Himekawa Maki. Ela também pertencia à mesma organização e igualmente tinha tido um parceiro Digimon. Segundo ela, havia mais duas pessoas — ao todo quatro “Digiescolhidos”.
Mas o que Maki relatava sobre o passado entrava em conflito com a hipótese de Koushiro.
Mesmo que o número de quatro pessoas antes da geração de Taichi estivesse correto, havia um problema: a diferença de idade era grande demais, superior a cinco anos.
Alguns anos atrás, Himekawa havia desaparecido na escuridão, e sua memória havia sido interrompida naquele ponto. Quando sua consciência retornou, não havia mais qualquer registro de uma organização à qual ela pertencesse — mas ela descobriu que Nishijima, que acreditava estar morto, ainda estava vivo. Porém, ele estava em estado de coma.
Ao relatar tudo o que sabia no hospital onde ele estava, não ficou claro por qual caminho a informação se espalhou, mas acabaram sugerindo que ela fosse transferida para aquele sanatório. Ela mesma passou a alugar um pequeno quarto nas proximidades e a visitá-lo regularmente.
Ela não sabia se suas memórias eram reais ou se havia sido deslocada para outro mundo muito semelhante. De qualquer forma, a chave para entender tudo estava em Nishijima — e apenas o fato de ele despertar poderia trazer respostas. Assim, ela apenas esperava por esse momento.
O sanatório não era antigo apenas em sua estrutura; o próprio diretor era bastante idoso. O médico jovem que havia vindo junto com Nishijima assumira a posição de vice-diretor e mantinha o funcionamento principal do local.
“É sério isso, Motomiya-kun?”
Kido Shin, o irmão mais velho de Kido Jou e vice-diretor do sanatório, girava parcialmente na cadeira, olhando de lado sem se levantar.
Ajustando levemente o ângulo de seu gorro de enfermeira — um acessório que já era pouco visto hoje em dia —, Motomiya Jun, irmã de Motomiya Daisuke, respondeu.
“É verdade mesmo!! É o quarto 104, rápido—”
“Antes disso.”
Shin apontou para um canto da sala.
“Você pode pedir para o seu Digimon não ficar andando por aí?”
“Ah~~~ Codochan!”
Jun pegou o Digimon no colo.
“Mesmo que quase não venham pessoas aqui, ainda assim tem pacientes que se assustam ou ficam incomodados, e começam a surgir rumores estranhos…”
“Sim, sim, eu entendi!”
“Não é que ele seja um mau Digimon, é só… a aparência dele, sabe.”
Era um Digimon ainda pequeno, mas com formato de aranha.
“Isso! Ele não é um mau garoto! Então fica quietinho aqui, tá?”
Jun o escondeu debaixo de uma prateleira e fechou a tampa. Quando se virou novamente, Shin já estava com um smartphone na mão.
“De qualquer forma, preciso entrar em contato com Jou.”
9
“Ele disse pra eu ir direto para o sanatório.”
Kido Jou falou com Gomamon dentro da grande bolsa que carregava.
“Bem, se foi o Shin nii-san que chamou, não tem muito o que fazer, né? Mas… pra quê será?”
“Parece que o Nishijima-san pode ter acordado.”
“Aquele cara que estava em coma esse tempo todo?”
“Bom, hoje nem está tão corrido assim, então até que foi bom.”
Jou era médico residente. Como trabalhava no hospital do pai, tinha certa flexibilidade — ou melhor, seu pai organizava as coisas de forma a facilitar esse tipo de deslocamento, pensando nele como um dos Partner Humans e tentando dar algum suporte dentro do possível.
“Queria chegar antes do anoitecer…”
Ele ajustou a bolsa no ombro e seguiu em direção à estação.
10
“Disseram que o Nishijima-san recuperou a consciência.”
Em uma das áreas de proteção existentes no DigiMundo — uma construção de concreto isolada em um planalto tranquilo — Takenouchi Sora falou isso para Yagami Hikari.
Sora vestia um boné esportivo azul, camiseta de manga longa em tom rosa claro sobre outra camiseta, além de jeans e um casaco de manga longa amarrado na cintura. Tudo parecia preparado para ser emprestado a alguém caso fosse necessário em uma emergência.
Hikari usava um moletom tipo vestido, com um Digivice dentro de uma pequena bolsa presa ao corpo. À primeira vista era simples, mas por baixo havia uma blusa de três quartos e um short saia, então até mesmo o vestido poderia ser usado como manta se precisasse.
O edifício onde estavam parecia pequeno de longe, mas ao se aproximar revelava-se surpreendentemente grande — como se várias construções diferentes tivessem sido unidas.
Os três irmãos que tinham Shakomon como Digimon parceiro, vindos de Hong Kong, disseram que o lugar parecia uma espécie de “edifício labiríntico em ruínas” que eles conheceram antes de terem idade para se lembrarem, e passaram a chamá-lo assim.
“Cidade Murada de Kowloon.”
A construção lembrava isso.
O trabalho de trazer água de um grande lago localizado um pouco acima do planalto teria exigido normalmente muitas pessoas, mas graças ao esforço dos três irmãos e dos Shakomon, foi concluído em um período surpreendentemente curto.
Isso acelerou o transporte de crianças do mundo real para essa área de proteção.
Era algo que ocasionalmente acontecia no DigiMundo: aquele prédio também podia utilizar energia de origem desconhecida, cuja procedência ninguém conseguia explicar bem.
Graças a isso, cerca de trinta pessoas que viviam ali podiam levar uma vida relativamente estável.
No entanto, como a estabilidade ainda era questionável, foram instalados painéis solares e baterias de armazenamento, além de um computador para comunicação com o mundo real, que ficava naquela sala.
“Parece que ele voltou ao normal bem rápido…”
“Se for sobre o Nishijima-san, acho que é melhor avisar a Mei-san.”
“É verdade… afinal, eles são do mesmo grupo.”
Mochizuki Meiko, conhecida como Mei, tinha a mesma idade de Sora. Ela não possuía um parceiro Digimon, mas havia se estabelecido nessa área de proteção e cuidava das crianças que viviam ali.
Ela tinha memórias em comum com Himekawa Maki e Nishijima Daigo. Segundo essas lembranças, eles teriam vivido diversas experiências junto com Taichi e os outros. Porém, Sora e Hikari não possuíam nenhuma recordação disso.
“Então… vou chamá-la agora.”
“Ah, espera. Sobre o Nishijima-san…”
Sora a interrompeu.
“Só… transmite uma coisa pra ele. O Nishijima-san disse…”
Sora parecia hesitar — algo raro, o que Hikari percebeu imediatamente. E logo entendeu o motivo.
“O Oceano Negro…”
“Isso… quer dizer… o Oceano Negro mesmo… não é…?”
Hikari não conseguiu se mover de imediato.
11
“Se for aquele oceano…”
Rui, que até então apenas ouvira a longa conversa dentro do carro, finalmente falou.
“Eu acho que também já fui lá. Ou melhor… tenho a sensação de que fui. Não consigo lembrar com clareza.”
A história que Takeru contava — sobre sua experiência na infância — já se situava no segundo grande incidente, em 2002. Era um período que ia da primavera até o fim do ano. Agora, no início do verão, ele falava sobre quando foram a um lugar que não era o DigiMundo comum.
“Eu também só fui lá uma vez, na prática… mas fiquei com uma sensação muito ruim o tempo todo. Naquela época, o portal se abriu de um jeito totalmente irregular.”
Uma cidade à beira-mar envolta em névoa constante, como se estivesse sempre sob uma luz apagada.
“Não fomos só eu e a Hikari-san… o Ken também teria ido antes disso, mas ele também diz que não lembra direito. Acho que o Daisuke e os outros só viram através do portal, não chegaram a atravessar de verdade.”
“Um lugar que não é aqui… e também não é o DigiMundo. Será que existem outros mundos assim?”
“Talvez a cidade onde você deveria ter vivido também faça parte disso.”
Shuu entrou na conversa a partir do banco do motorista.
“Se for isso, até fico um pouco com inveja. Eu só fui uma vez ao DigiMundo… e mesmo assim foi bem rápido.”
Rui ficou surpreso.
“Eh? Shuu-san também foi ao DigiMundo?”
“Sim, mas foi coisa de nada. Bem pouco mesmo.”
“Shuu-san, essa história vai complicar as coisas. Melhor deixarmos isso pra depois.”
Takeru puxou a conversa de volta ao rumo principal.
“Posso continuar a história? Naquele Oceano Negro tinha um Digimon bem estranho… ou melhor, nem sei se aquilo era realmente um Digimon.”
A fala de Takeru era calma, quase tranquila demais, como se estivesse escondendo algo por trás disso. Mas Rui apenas continuou ouvindo em silêncio.
A história que Takeru contava — sobre Taichi, Agumon e os outros — era suficientemente envolvente para prendê-lo por completo.
Mas então… e ele?
E aquilo que ele próprio havia vivido.
E suas memórias.
(Escute mais um pouco.)
Uma voz soou dentro da sua cabeça.
(Vai chegar um momento de pausa. Fazer perguntas depois disso ainda vai ser cedo demais.)
Essa não era a primeira vez. Há alguns dias, aquela voz vinha aparecendo de tempos em tempos — e foi guiado por ela que Rui acabou indo até o laboratório de Koushiro.
“Quem… é você?”
(Olha, agora é a melhor parte. Você vai entender sobre Ichijouji Ken.)
Era isso mesmo. Até então, o Ken que aparecia na história de Takeru era bem diferente do Ken que Rui conhecia — alguém sempre calmo, gentil, quase distante de qualquer conflito.
E agora essa diferença parecia prestes a atingir um ponto de virada importante.
As perguntas poderiam esperar.
Rui apenas ouviu.
[1] O trecho explora um jogo de palavras baseado na sequência numérica presente em topônimos com “-nohe” na região de Aomori. A ausência de “Shinohe” (四戸) se relaciona à leitura “shi” (morte), frequentemente evitada em japonês. Além disso, “Herai” é associado foneticamente a “Hebrai” (hebraico), sugerindo de forma especulativa uma conexão com lendas locais sobre a vinda de Cristo ao Japão.
[2] Ichijouji Ken, de Digimon Adventure 02, aparece em Digimon Adventure 02: Tag Tamers em uma versão anterior à de sua fase como Imperador Digimon, sendo retratado ainda como um gênio solitário e batalhando contra Ryo Akiyama.
O texto completo em japonês está no blog do Kakudou e pode ser encontrado aqui.
Digimon Adventure Beyond - Parte II
Segunda parte de 13+1.
(Parte II)
12
“Você deve ter passado por bastante coisa.”
Ichijouji Ken abriu a frente de sua jaqueta de couro preta de motociclista e finalmente pareceu relaxar.
“Pois é. Soube que você também passou por dificuldades sendo apresentado aos figurões da polícia.”
Taichi lançou um olhar rápido para Miyako.
“Graças a isso, parece que não vou precisar mais procurar por emprego.”
Miyako respondeu no lugar de Ken.
“Hum, isso… mas com o alto escalão foi só na primeira vez mesmo. Depois disso, é só com quem deve ser meu superior direto.”
“Futuro chefe, hein. A Divisão de Investigação de Crimes Digimon.”
“Ainda vai ser criada, então é só um nome provisório.”
“Então vão mesmo criar isso… Bem, certamente vai ser necessário daqui pra frente.”
“Parece que o Governo e a polícia também estão pesquisando os Digimon, até certo ponto, né.”
Miyako preferiu não dizer “não só os Digimon, mas nós também” e deixou isso de lado.
“Faz sentido eles terem colocado o Ken na mira, né.”
Ken é justamente quem mais detesta o uso de Digimon para o mal. Ele não quer que outras pessoas cometam os mesmos erros que ele cometeu no passado. E, se alguém acabar seguindo esse caminho, ele quer conter isso o mais rápido possível. Esse sentimento era provavelmente o mais forte entre todos eles ali.
“Eles devem ter achado que o Stingmon não é muito grande, então isso o torna adequado para investigações.”
Isso significa que o lado que escolheu o Ken até sabe quanto cada Digimon pode crescer quando evolui.
“Você é bem modesto, hein.”
Taichi começou a ficar um pouco desconfortável.
“Bem, também não dá pra um Digimon adulto simplesmente sair causando problemas no meio da cidade, né.”
“Ah, a propósito…”
Ken tentou, de alguma forma, mudar de assunto.
“Koushirou-san e os outros estão demorando, né?”
“Disseram que só iam repassar a mensagem do Shin Kido para todo mundo, mas...”
Se deixados sozinhos, aqueles dois acabariamm começando uma discussão por qualquer motivo e não iriam param nunca mais. Provavelmente é isso que está acontecendo agora também.
“Vou lá chamar eles.”
Como Miyako foi embora, o plano de Ken de aproveitar o momento para se conectar ao DigiMundo e ver o rosto de Wormmon acabou não dando certo.
13
“Queria que o Ken-chan também provasse isso.”
Wormmon, o parceiro Digimon de Ken, manipulava os hashis com habilidade usando suas mãos curtas (?) e comia o lámen. Sua aparência — algo como uma grande lagarta que poderia causar estranhamento — contrastava com seus olhos redondos e expressivos, que lhe davam um ar cativante.
“Tá bom demais, né? O caldo de hoje é especial.”
Motomiya Daisuke parecia orgulhoso.
“Você melhorou ainda mais, não foi, Daisuke?”
Sentado ao lado de Daisuke, V-mon — um pequeno Digimon azul que lembrava um cachorro, mas também tinha forma de um pequeno dragão — também parecia orgulhoso.
Ao longe, era possível ver montanhas cobertas de neve. Do lado oposto, havia uma selva densa, quase tropical. Entre os dois, uma linha férrea atravessava a planície em linha reta, mas ninguém jamais tinha visto algo passar por ela.
Havia um pequeno ramal na linha férrea, e, ao final dele, as pás de um gerador eólico giravam lentamente. Grossos cabos elétricos se estendiam até um edifício enorme, semelhante a uma muralha de pedra. Daisuke e os outros estavam no pátio interno desse lugar. Daisuke usava uma jaqueta estilo universitário, com óculos de sol apoiados sobre a cabeça.
Entre as várias áreas de preservação que existem no DigiMundo, esta — onde havia muitos vindos da América do Norte e de países de língua inglesa — possuía uma alimentação mais próxima do estilo ocidental. Os alimentos básicos eram batata, milho e, mais do que pão, massa, que exige menos etapas no preparo e também se conserva melhor. O lámen de Daisuke, criado a partir dessa massa, era bem recebido por todos. Animais propriamente ditos não existem nesse mundo, mas havia peixes em rios e lagos. Daisuke não apenas os preparava, como também aprendeu a extrair bem o caldo. Com o tempo, passou a adicionar mais ingredientes, e, na tigela de hoje, havia cogumelos salteados.
“Minha dica também foi boa, não foi?”
Tachikawa Mimi sorria. Ela vestia uma camiseta longa, um colete jeans, shorts curtos e botas que iam até acima dos joelhos. Assim como Daisuke, sua roupa levava em conta a facilidade de movimento e a proteção.
Os cogumelos foram ideia da Mimi. Quem tinha habilidade para identificar quais cogumelos daquele mundo eram adequados para consumo era Palmon, o parceiro Digimon dela. A própria Palmon, que parecia uma planta verde, não comia lámen — estava no centro do pátio, fazendo fotossíntese ao tomar sol. Ao lado dela, havia um Digimon branco, de orelhas grandes, cochilando tranquilamente ao sol: Terriermon. Seu parceiro, Wallace, estava sentado à mesa com Daisuke e os outros, já totalmente acostumado aos hashis, comendo lámen com habilidade.
“Sobre aquela mensagem de antes… está tudo bem quanto aquele tal de Nishijima?”
Daisuke fez uma expressão um pouco incomodada.
“Bem… eu nunca cheguei a encontrar e conversar com ele, então…”
A primeira vez que Daisuke viu Nishijima, ele estava inconsciente, deitado em uma cama. Naquela ocasião, Himekawa Maki e Mochizuki Meiko estavam ao lado dele. Pelo que eles comentaram, parecia que Daisuke, Iori e os outros haviam sido considerados desaparecidos por um período bastante longo.
A situação de Mimi era diferente.
“Acho que eu já encontrei com ele antes… mas é tudo meio vago.”
Pelo que Meiko contou, Mimi, Taichi e os outros já chegaram a agir juntos com eles. Mimi até sente que já encontrou Meiko antes, mas, se realmente tivesse passado por um grande incidente como ela descrevia, não teria como ter esquecido.
“Então essa sensação vaga não é só sua.”
Wallace entrou na conversa. Diferente de Mimi, Wallace e Daisuke deveriam já ter se encontrado antes — mas isso também já fazia uns dez anos.
“Não diga isso, Wallace. Eu lembro que a gente se deu bem.”
Naquela época, Wallace havia visitado a casa de Michael, um dos PH americanos. O pai de Michael era um famoso astro de cinema e, logo depois que começaram a estabelecer áreas de preservação nos Estados Unidos, ele adquiriu um enorme rancho e destinou parte dele como uma dessas áreas. Isso aconteceu justamente depois da transferência para o DigiMundo. Como Wallace dizia já ter encontrado Daisuke antes, ele acabou sendo chamado.
"Naquela época, não tive a sensação de estar encontrando pela primeira vez."
Mas, quanto à aventura que ele diz terem vivido juntos, não havia uma lembrança clara. Ele até sentia que talvez se recordasse vagamente de uma jornada com Daisuke pelos Estados Unidos e de batalhas contra Digimon poderosos. Miyako e Iori também tinham a mesma sensação.
“Eu também… quando me tornei Magnamon, não parecia que era a primeira vez.”
V-mon disse o mesmo. Mas, fora isso, as lembranças eram vagas. Naquela época, eles estavam justamente no DigiMundo, acertando as contas com o Imperador Digimon. Em que momento, antes ou depois disso, teriam ido até os Estados Unidos — e ainda por cima de avião, em vez de usar um portal — era um mistério.
“Eu também tenho a vaga sensação de ter ficado pequena… ou talvez não…”
Mimi e Taichi não chegaram a encontrar Wallace naquela ocasião. Em vez disso, teriam sido transformados em crianças. Talvez por isso não se lembravam direito — ou talvez essas nem fossem memórias reais. Koushirou havia sugerido que Wallace poderia ter vindo de um mundo diferente. Talvez, quando ele chegou a este mundo, as memórias do Daisuke daquele outro mundo também tivessem vindo junto.
14
“Esse foi o primeiro caso de divergência de memórias, não foi?”
Em uma sala do instituto, Koushirou e Menoa conversavam de pé.
“O caso do Wallace, o da Mei e os outros, o meu… e agora esse do Rui, né.”
“Há também exemplos que ouvi apenas pelo Ichijouji-kun.”
“Esse é o mais misterioso… ou melhor, a situação é diferente demais.”
“Antes disso, há mais um caso relacionado às memórias.”
Em 1995, ocorreu uma grande explosão em Hikarigaoka. Foi tratada como um acidente causado por vazamento de gás, mas, na verdade, foi resultado de um confronto entre Greymon e Parrotmon. Taichi e os outros oito haviam testemunhado aquilo. Mesmo assim, acabaram esquecendo completamente do ocorrido e só se lembraram quatro anos depois, quando voltaram a Hikarigaoka e enfrentaram um Digimon que tentava invadir Tóquio. Na época, acharam que tinham esquecido por serem muito jovens.
“Quando alguém passa por um evento muito grande ou assustador, parece que não é incomum acabar selando essa memória por conta própria — para proteger a mente. Eu achava que no caso de Hikarigaoka era isso, mas, considerando os exemplos posteriores, talvez seja melhor reavaliar essa relação.”
“Ainda assim, me parece que a supressão de memórias e essa divergência de memórias são coisas de naturezas diferentes.”
“No caso de vocês, Menoa-san, seria mesmo um desencontro de memórias?”
“Ou então viemos de mundos diferentes. É o que venho dizendo desde antes.”
“Também existem casos em que temos lembranças de termos ido a outros mundos.”
“E esse também não sabemos onde encaixar na linha do tempo deste mundo. Quando isso acabar, precisamos organizar tudo direitinho.”
“Estamos chamando de problema de memória, mas isso deve estar ligado a uma questão de informação.”
“Algo que o Izzy tem investigado: o que são os Digimon, por que algo de outro mundo pode ter massa neste mundo — e por que isso pode aumentar ou diminuir durante a evolução.”
“A pesquisa da Menoa-san, sobre se o DigiMundo ser apenas um outro mundo, deve ter a mesma raiz desse problema.”
“Com a chegada do Rui, isso acabou voltando à tona.”
“Talvez não seja coincidência o Nishijima-san ter recuperado a consciência também.”
A porta se abriu, e Miyako entrou correndo.
“Ah, já chega, eu sabia! Até quando vocês vão ficar conversando? Já terminaram de avisar todo mundo, não é? O Ken também já chegou.”
Mesmo no corredor de volta à sala de recepção, Koushirou e Menoa ainda não paravam de conversar.
15
“Mundos paralelos ou universos diferentes realmente existem. E, se existirem, onde e de que forma eles estariam? Há uma resposta possível para isso.”
“Vou falar até onde consegui entender o que o Koushirou-san disse. Como sou de humanas, tem um limite para o que consigo compreender.”
Durante uma longa viagem de carro, em uma parada para descanso numa área de serviço de estrada, Takeru começou a explicar a hipótese de Koushirou para Rui. Shuu estava tirando uma soneca no banco do motorista.
“Os átomos que formam a matéria. Ou melhor, o núcleo e os elétrons que compõem esses átomos. Eles são muito menores do que a gente costuma imaginar. Tente pensar na distância entre o Sol e a Terra. Agora imagine uma bola de beisebol e um grão de gergelim colocados ali. Não é uma proporção exata, mas dizem que é o mais próximo disso para conseguir visualizar.”
Takeru pegou dois grãos de gergelim do doce de gergelim à sua frente e os colocou nas extremidades da mesa.
“E são mais distantes que isso.”
Mesmo mantendo aquela distância, ele ainda se comportava como um único átomo porque, na física, isso recebia vários nomes — mas, no fundo, é como se existisse um tipo de acordo, uma espécie de contrato. Na prática, mesmo que outras partículas fundamentais entrem nesse espaço, se não houver esse “contrato”, elas não interagem da mesma forma.
“Mas e se, nesse espaço, na verdade houvesse muitos grãos de gergelim?”
Ele colocou um prato de dango de gergelim entre os dois grãos.
“E se houvesse ainda mais desses pratos…”
Se eles fossem preenchidos por completo, o número se tornaria praticamente infinito. Se cada um estivesse ligado por um tipo diferente de “acordo”, então isso poderia ser justamente o que chamamos de universos diferentes.
Se o “acordo” de um átomo pudesse mudar seu alvo para qualquer uma das partículas vizinhas, ele poderia até se tornar um átomo diferente. O que mantinha esse acordo preso a este mundo eram apenas dados. Se uma quantidade suficiente desses dados reescrevesse o sistema de informação ao lado…
“Seria como pegar o fio que conecta muitos grãos de gergelim e passá-lo por outros grãos diferentes. Talvez isso seja o que significa ir para outro mundo.”
Rui não estava conseguindo acompanhar muito bem aquela conversa repentina. Takeru, porém, continuou sem se importar.
“O interessante dessa ideia é que ela também pode explicar por que os Digimon conseguem ter um corpo neste nosso mundo.”
Em vez de algo distante como outra dimensão ou outro mundo, seriam muitas partículas fundamentais que já estavam neste espaço, mas que não são reconhecidas como existentes. Se você atribuir dados a elas e fizer com que possam ser reconhecidas neste mundo…
“Uma massa que não estava ali passa a existir.”
Takeru espetou um palito de dango de gergelim.
“Espera… isso quer dizer que até a evolução dos Digimon…”
“Isso mesmo. Você entendeu rápido. Os Digimon, quando evoluem, muitas vezes mudam bastante de tamanho. Às vezes chegam a dezenas de vezes a massa original. A questão é: de onde eles estariam trazendo isso?”
Ele ergueu o dango de gergelim com o palito.
“A ideia seria mais ou menos isso: pegar o fio que liga esses grãos de gergelim que existem aqui, mas não são reconhecidos, e puxá-los para este mundo. Isso seria mais rápido. Na verdade, dizem que isso envolve coisas como matéria escura, energia escura, mecânica quântica, vibrações de cordas… mas eu só consigo entender até aqui.”
Koushirou parecia considerar que esse problema de massa também estaria ligado à consciência e à memória.
Takeru, por sua vez, tinha outra dúvida: entre as crianças que testemunharam o incidente de Hikarigaoka em 1995, algumas se mudaram para Odaiba alguns anos depois — então elas foram chamadas ao DigiMundo? Ou, ao contrário, elas acabaram se mudando para Odaiba porque já estavam destinadas a serem chamadas ao DigiMundo? Ele também se perguntava sobre essa relação de causa e efeito. Esse tipo de questão estava fora do interesse de Koushirou, então Takeru achava que teria de resolvê-la sozinho algum dia. Talvez isso envolvesse destino ou até a existência de algo como um deus.
“Queria que um dia a gente entendesse tudo isso… seria bom.”
16
“Naquela hora, o Yamato-senpai estava legal demais. Parecia que ia sair socando alguém a qualquer momento.”
Miyako estava comentando sobre o que tinha acontecido na noite anterior, quando Rui apareceu no Instituto de Koushirou e contou tudo — e depois disso, Yamato ficou sabendo da história.
“Então você está dizendo que o começo do vínculo entre nós e os Digimon foi por algo tão mal explicado assim? Que absurdo. Ainda bem que o Taichi estava em Genebra. Se ele estivesse aqui, aquilo não teria acabado bem”, ele dizia, completamente exaltado.
“O Yamato tem essa mania de jogar tudo em cima de mim, não melhora nunca.”
Taichi respondeu com um ar de cansaço, como quem já estava acostumado.
Ken também havia chegado, então Taichi, Koushirou, Menoa e Miyako estavam revisando tudo desde o início, repetindo os acontecimentos da noite anterior.
“Tem mais uma coisa importante, não tem?”
Até então, Menoa, que vinha apenas ouvindo, finalmente falou.
“Rui, eu… e também Mochizuki Mei.”
Taichi a encarou diretamente.
“O fato é que encontramos nossos parceiros Digimon fora do DigiMundo.”
Taichi e Daisuke, em geral, só tinham conhecido seus parceiros depois de irem ao DigiMundo. Hikari era uma exceção. E mesmo as crianças que tiveram as Sementes das Trevas plantadas dentro de si e só conseguiram derrotar BelialVamdemon depois disso — também encontraram seus parceiros no DigiMundo.
“Depois de 2003, esse tipo de caso começou a aumentar aos poucos também.”
Koushirou fechou a capa do tablet.
“Se voltarmos um pouco mais, até o Wallace, que viveu uma aventura com o Daisuke no verão de 2002, também foi assim. O encontro dele não aconteceu no DigiMundo.”
“Será que há algum significado nisso… o aparecimento dessas desses PH que podem ter vindo de outro mundo?”
"Além disso, todos na situação atual perderam seus Digimons parceiros."
Meiko, Menoa e Rui. Os parceiros Digimon deles agora não existiam mais. Nas memórias deles, esses parceiros foram derrotados por Taichi e Daisuke.
Ken, que vinha ouvindo em silêncio, virou-se para Koushirou.
“A propósito, sobre aquela hipótese de antes… sobre a idade e as memórias do Rui. Não é um assunto bem delicado? Isso foi dito ao próprio Rui?”
“Ah, isso…”
Koushirou começou a responder, mas Miyako e Menoa se levantaram das cadeiras quase ao mesmo tempo e o interromperam com força.
“O próprio diretor foi totalmente proibido de dizer isso!”
“Se o Izzy falasse isso, ia estragar completamente toda a história!”
“Então o Takeru-kun disse que ele mesmo iria conversar com calma com o Rui…”
“E aí, do nada, acabamos indo parar no Tohoku.”
“Ah, então era isso.”
Taichi colocou as mãos atrás da cabeça de novo. Quantas vezes ele tinha feito isso hoje?, pensou.
“Será que não é melhor eu mesmo falar com ele?”
Koushirou ainda não parecia totalmente convencido.
“Bom, o fato de não perceber isso também é uma das qualidades do Izzy, sabe.”
“Mimi-san já disse algo parecido antes.”
Taichi observava aquilo tudo com certa admiração.
Pensava que era até surpreendente como aquele instituto conseguia funcionar direito daquele jeito.
17
“Jou, não está pesado? Eu consigo andar sozinho, sabia.”
“Está tudo bem. Mesmo quando eu era do ensino fundamental, eu já conseguia carregar você direitinho.”
Por causa de algum tipo de acidente, o trem acabou parando, e Kido Jou caminhava por uma estrada à beira-mar com a bolsa onde Gomamon estava dentro pendurada no ombro.
“Acho que não vamos conseguir chegar antes de escurecer, hein…”
O sol já estava bem baixo no horizonte.
18
“Miyako-kun, você pode abrir o portal? Em breve vamos fazer o Tentomon vir até aqui.”
Na sala de recepção, Koushirou, que estava olhando para o tablet, levantou o rosto.
“Algum sinal da anomalia aparecendo?”
“Ainda não parece algo iminente.”
Taichi conseguia perceber a tensão no olhar dele.
“Em quais pontos isso deve acontecer?”
“Perto deste Instituto e em duas das áreas de preservação: a de Sora-san, a ‘Cidade Murada de Kowloon’, e a de Mimi-san, o ‘Forte Álamo’. Há também reações menores em um sanatório em Kanagawa, e outro… parece estar em deslocamento na região de Fukushima. Ao todo, cinco pontos.”
“Tudo isso ao mesmo tempo?”
Miyako franziu a testa.
Quando Digimon atuavam no mundo real, havia um fenômeno em que eles causavam interferências em dispositivos eletrônicos. Até o nível Criança, isso não chegava a causar grandes problemas. Quando um Digimon em nível Adulto usava algum tipo de técnica, o entorno começava a ser afetado, e acima do nível Perfeito, apenas a sua existência já poderia gerar ruído e distorções. A frequência desse ruído já estava sendo parcialmente identificada. Ao observá-la, estava se tornando possível detectar a presença de Digimon à distância. Esse era um dos temas de pesquisa desse instituto.
No DigiMundo, também vinham sendo realizados testes de detecção de certos tipos de Digimon. Essa observação estava sendo estruturada por meio de uma rede de cooperação entre Digimon amigáveis de cada região e agentes como Gennai, em colaboração com a vontade que busca a estabilidade do DigiMundo — “Homeostasis”. Tentomon estava no centro dessa rede.
Tanto no mundo real quanto no DigiMundo, a presença de Digimon possivelmente hostis estava sendo detectada. E, além disso, em múltiplos pontos simultaneamente.
“Estão tentando dividir nossas forças. Estão levando isso bem a sério.”
Antes mesmo de Taichi terminar de falar, Menoa já havia se levantado e seguido para o instituto.
“Vou inicializar o sistema e deixar tudo pronto.”
“Eu também preciso ir pra lá.”
“Eu também vou.”
Ken também se levantou.
“Então vá para o lado do Daisuke. Aqui…”
“Acho que nós duas damos conta.”
Miyako, que tinha apenas batido o olho nos dados do tablet de Koushirou e já avaliado a situação das forças envolvidas, falou enquanto apontava o D-3 para o monitor.
No canto da sala de recepção, a tela de LCD começou a emitir uma luz difusa. A luminosidade se intensificou, e um portal se abriu.
19
Do lado de fora do estacionamento da estação de serviço, era possível ver uma floresta. A escuridão começava a cair, e já não dava para distinguir o que havia em seu interior.
Mas alguma coisa se movia ali.
Era possível perceber sua aproximação pelo som. Não parecia ter o tamanho de um ser humano comum.
Shuu Kido estendeu um notebook do banco do motorista.
“Já iniciei.”
“Muito obrigado!”
Takeru apontou o D-3 para a tela.
“Digital Gate Open!”
Uma luz nebulosa surgiu no monitor. Takeru então pegou o notebook e o apontou para o espaço aberto do estacionamento.
A luz expandiu-se violentamente para fora.
No mesmo instante em que um Digimon negro saltava da floresta, Garurumon surgiu da luz e o lançou para longe com um único golpe.
Logo atrás dele, quem emergiu da luz foi Yamato.
“Chegamos a tempo.”
“Por pouco, mas chegamos.”
Enquanto Takeru respondia, Iori e Armadillomon surgiram da luz.
“Vamos segurar eles aqui.”
“Vocês precisam partir logo, dagya!”
“Estamos contando com vocês!”
“E matenham o celular carregado, ouviu?”
“Eu sei disso.”
Respondendo ao Yamato enquanto fechava a porta, o carro levando Takeru voltou a correr em direção a Tóquio.
Da floresta além do Digimon derrubado por Garurumon, mais alguns Digimon negros e grandes apareceram tentando avançar para a estrada.
“Não precisa se segurar, Iori.”
“Eu sei.”
Iori ergueu o D-3, e Armadillomon começou a emitir a luz da evolução.
20
Tendo o paredão costeiro iluminado pelo pôr do sol às costas, o jaleco branco esvoaçou no ar. Jou passou os braços pelas mangas com naturalidade.
“Ainda não é cedo demais pra estar usando isso?”
Embaixo de Jou estava Ikkakumon, coberto por uma longa pelagem branca e macia. Eles já estavam no mar, seguindo em direção ao sanatório.
“Não, é pelo clima! Pelo clima!”
A mão esquerda de Jou segurava o chifre de Ikkakumon. Aquele jaleco era um modelo especial, com resistência a cortes e repelência à água. Por isso também era mais pesado, mas ajudava a bloquear o vento marítimo. Ele o mantinha preparado no dia a dia, para o caso de algo acontecer a qualquer momento. A bolsa onde estavam o jaleco e Gomamon agora estava pendurada no chifre de Ikkakumon.
“Temos que nos apressar!”
“Então segura firme!”
Ikkakumon aumentou a velocidade, levantando grandes jatos de água para os dois lados.
21
No DigiMundo, bem perto da área de preservação da Cidade Murada de Kowloon, havia uma entrada discreta que levava a uma instalação fortificada de cinco andares subterrâneos. Não era um lugar adequado para viver normalmente, mas podia ser usado como abrigo. O fato dessa instalação existir também foi um dos motivos para a região ter sido escolhida como área de preservação.
Hikari estava fechando a pesada porta reforçada do segundo subsolo.
“Conto com você aí dentro.”
Do outro lado da porta estava Mochizuki Meiko, cuidando das crianças.
“Sim, aqui vai ficar tudo bem. Tome cuidado.”
“Obrigada.”
Hikari fechou a porta e abaixou a pesada alavanca de travamento.
“Pronto, isso deve resolver…”
No instante em que relaxou, uma dor aguda atravessou sua cabeça.
Por uma estreita fresta na entrada que levava à superfície, uma escuridão semelhante a uma névoa negra começou a se infiltrar. Era algo que parecia a própria maldade. Pessoas comuns normalmente não conseguiriam vê-la. Muitas talvez não sentissem nada, mesmo estando perto o bastante para tocá-la. Mas aquilo era suficiente para afetar a mente de Hikari.
Ela quase caiu de joelhos.
Do andar inferior, um Digimon branco, parecido com um gato, subiu correndo numa velocidade impressionante. Tailmon havia percebido a anormalidade em Hikari. Com um único golpe envolto em poder sagrado, dispersou a escuridão.
“Hikari!”
“Estou bem. Só baixei a guarda por um instante.”
Primeiro, ela saiu para a superfície e tentou recuperar o fôlego sob a luz do sol.
Então chegaram Takenouchi Sora e sua parceira Digimon em forma de pássaro rosa, Piyomon.
“Parece que o número de inimigos é maior do que imaginávamos. E não é só isso…”
Por trás daquela névoa maligna, havia algo cuja presença não parecia ser apenas a de Digimon comuns.
“Como o Koushirou-kun imaginava. Eu achava que isso acabaria acontecendo um dia.”
Kawada Noriko surgiu correndo da área de preservação da Cidade Murada de Kowloon, carregando Nyaromon nos braços.
“Sora-san, terminei.”
Ela era uma das crianças que receberam as Sementes das Trevas e se tornaram PH em 2003. Atualmente, ajudava em turnos cuidando das crianças naquela área de preservação. Naquele momento, estava verificando se todas as portas de emergência do prédio haviam sido devidamente fechadas.
“Obrigada. Agora entre e fique aqui dentro.”
“E também disseram que algo negro está se aproximando pelo sul.”
“Eu vou verificar. E você, Hikari-san?”
“Vou voltar ao instituto e me revezar com meu irmão e os outros.”
Enquanto observavam Noriko fechar a entrada para o subterrâneo, as duas começaram a correr.
“Então, boa sorte!”
“Vocês também, tomem cuidado!”
Hikari e Tailmon seguiram em direção à Cidade Murada de Kowloon, enquanto Sora montava como se estivesse em um elevador nas patas de Birdramon — a gigantesca ave de fogo na qual Piyomon havia evoluído.
As asas vermelhas bateram forte, e Birdramon alçou voo.
22
“Taichi-san, pegue isto.”
“É aquilo de que você falou no outro dia?”
“Conseguimos terminar bem a tempo.”
“Espero que o Takeru e os outros também consigam chegar a tempo. Enfim, estou indo.”
Depois de receber os óculos de proteção de Koushirou, Taichi atravessou o portal dentro do Instituto em direção ao DigiMundo.
23
“Vou tomar cuidado.”
Takeru carregava o celular usando o carregador do carro de Shuu Kido.
“Embora, pensando bem, o computador parecia mais apropriado para um Garurumon sair pulando dele de repente.”
Como Takeru estava sentado no banco do passageiro, Rui acabou ficando sem muito o que fazer e observava seu Digivice. À primeira vista, ele parecia mais antigo que os de Taichi e os outros. Não tinha a aparência de um D-3 como o de Takeru, nem possuía a função de abrir portais. Na verdade, nem se sabia ao certo se ele realmente funcionava. Nem mesmo no instituto de pesquisa de Koushirou conseguiram determinar de imediato se aquilo era realmente um Digivice ou apenas outro objeto com aparência semelhante.
Uma das funções dos Digivices que foi ficando cada vez mais clara era que pessoas sem um deles não conseguiam permanecer por muito tempo no DigiMundo. Isso porque já houve casos de militares e membros de organizações criminosas que acabaram atravessando à força portais usados pelos PHs e invadindo o DigiMundo.
Os que entravam no DigiMundo tentando usar os Digimon em benefício próprio acabavam passando mal depois de algum tempo. E, além disso, quando eram atacados por Digimon violentos, armas de fogo comuns praticamente não tinham efeito. Para viver no DigiMundo, um parceiro Digimon era indispensável. E um Digivice também.
Os poucos que tiveram sorte de conseguir voltar ao mundo humano relataram esse fracasso. Também ficou claro que, mesmo quando alguém tentava usar o Digivice recebido por outra pessoa, ele quase nunca funcionava. Ou seja, emprestar, tomar à força ou roubar um Digivice não adiantava.
Como não havia garantia de que o Digivice de Rui funcionaria no DigiMundo, eles não podiam usar portais digitais para se locomover. Não restava outra opção além de utilizar meios de transporte normais do mundo humano.
O carro já se aproximava de Tóquio.
Uma motocicleta passou pela pista contrária.
Logo depois, dois carros fizeram um retorno brusco e cercaram o veículo de Shuu pela frente e por trás.
24
Uma enorme figura branca descia em disparada pela ladeira em direção ao sanatório. Era Ikkakumon. O balanço era intenso por causa da longa escadaria. Jou se agarrava firmemente ao chifre de Ikkakumon para não ser jogado. Além da área do sanatório que já começava a surgir à vista, sombras negras se moviam por trás da mata ao redor. Pareciam ser Digimon de grande porte.
Jou saltou. Ikkakumon também desfez a evolução, voltando a Gomamon, e ambos invadiram a entrada do sanatório.
Eles passaram pela frente da sala de exames e seguiram pelo corredor dos quartos. Mais à frente havia uma sala de estar que também funcionava como refeitório e sala de visitas, com uma grande parede de vidro em esquadrias de alumínio. Além do gramado, tudo era mata fechada. Dali, Digimon negros pareciam estar prestes a atacar a qualquer momento.
No corredor, perto de uma porta aberta de um dos quartos, Himekawa Maki espiava com receio o que havia lá fora. Mais adiante, via-se as costas de Shin, o irmão de Jou. Enquanto corria, Jou passou ao lado dele chamando:
“Shin-nii-san, você está bem?”
Antes mesmo de dizer “nós cuidamos disso aqui”, Jou parou de repente, surpreso. Os Digimon na floresta já deveriam ter invadido aquele espaço interno há muito tempo. A menos que algo estivesse impedindo isso.
“Arukenimon…”
Um Digimon em forma de aranha, maior do que um humano, estava no centro da sala, voltado para o lado de fora. Então ele ergueu a parte superior de seu corpo humanoide.
Ao ouvir a voz de Jou, a enfermeira que estava à frente daquele Digimon virou-se.
“Meu Kodou-chan… ficou assim de repente!”
Jou sabia que o Digimon parceiro de Motomiya Jun era um Kodokugumon. Aquela seria então a forma evoluída dele, Arukenimon? Se fosse isso, não deveria ser um inimigo. Afinal, ele havia evoluído justamente para proteger Jun dos Digimon que estavam atacando.
Os Digimon na floresta começaram a se mover em direção ao local.
Arukenimon assumiu posição de combate.
Gomamon também deveria evoluir, mas a sala já estava completamente tomada pela presença de Arukenimon — não havia espaço suficiente para Ikkakumon se manifestar ali.
“Jou, por ali!”
Enquanto falava, Shin correu para o lado direito da porta de vidro. Jou correu para o lado esquerdo, e os dois abriram a porta de vidro ao mesmo tempo.
Arukenimon saltou para fora, e, logo atrás dela, Gomamon foi envolto pela luz da evolução.
25
ONG DMH
Diretora: Natsuko Takaishi
Suas principais atividades eram promover uma relação harmoniosa entre o mundo humano e o DigiMundo, além de garantir a segurança dos PH (Humanos Parceiros), pessoas que possuem Digimon parceiros.
Yagami Taichi trabalhava como funcionário dessa organização.
Yamato e Iori saíram da sede utilizando um portal aberto a partir dali, indo em direção ao DigiMundo, e depois abriram novamente um portal através do computador de Shuu para retornarem e entrarem em ação. Além de Kawada Noriko, que ajudava nessa operação, vários estudantes universitários voluntários também circulavam pela organização, se revezando em atividades nas áreas de preservação.
Assim como ela, Yoshizawa Takashi e Shibata Hiroshi, que também se tornaram PH no início de 2003, estavam dirigindo os dois carros que cercavam o veículo de Shuu. Eles estavam fazendo a escolta até o instituto de Koushirou. Embora tivessem pouca experiência em combate, se candidataram porque acreditavam que poderiam ser úteis, mesmo que em algo assim.
Outro membro, Kurata Keiko, que estava de moto, chegou até a área externa da estação de serviço onde Yamato e os outros estavam. A batalha contra os Digimon negros já havia terminado.
“Desculpem a demora.”
O deslocamento por meio de portais tinha muitas vantagens, mas também algumas desvantagens. Para abrir um portal de volta, era necessário ter um computador adequado no local de destino, caso contrário não era possível ativá-lo imediatamente.
Se o próprio celular fosse usado como dispositivo de abertura de portal, ele precisaria ser deixado para trás naquele lugar.
Por isso, ela havia trazido um smartphone dedicado para a função de abertura de portais.
“Digital Gate Open.”
Quando Iori apontou o D-3, um portal se abriu na tela do celular.
“Por favor, encontrem o Taichi-san no DigiMundo.”
“E quanto ao Jou? Está tudo bem com ele?”
“No momento, parece que lá eles estão conseguindo dar conta.”
“Entendi. Então vamos.”
Depois de ver Yamato e os outros entrarem no portal, a moto de Kurata partiu novamente em direção a Tóquio.
26
“Miyako-san e os outros já se reuniram.”
Na sala do instituto Izumi, Tentomon — um Digimon em forma de joaninha maior que uma cabeça humana — voou até o cômodo onde Koushirou estava.
“Já os levei até o telhado. Ainda não é a nossa vez de agir?”
“Vamos esperar até o Takeru-kun chegar. E ainda não chegamos na fase certa do plano. Por enquanto, descanse um pouco.”
“Então quer dizer que depois vamos ser chamados pra trabalhar até cansar, né? Já estou ansioso.”
Enquanto estava de frente para o monitor do sistema, Menoa virou o rosto naquela direção e sorriu levemente, como se estivesse com um pouco de inveja — mas Koushirou e os outros não perceberam.
27
No horizonte, uma espiral negra começou a se erguer como um tornado, ondulando e tombando de lado enquanto avançava em direção a eles. Parecia uma enorme serpente — ou talvez uma centopeia colossal.
À medida que se aproximava, tornava-se possível ver que aquilo que compunha o tornado não era vento, mas sim partículas em forma de engrenagens de vários tamanhos.
Um impacto direto já seria capaz de causar danos severos. Mas não era só isso: mesmo a menor dessas engrenagens, se entrasse no corpo de um Digimon, poderia corrompê-lo, roubando sua vontade e transformando-o em um servo do mal.
“Eles voltaram a usar aquele método antigo…”
De pé sobre as patas de Birdramon em pleno voo, Takenouchi Sora lembrava-se do que Piyomon havia dito antes.
“Eu sempre achei estranho. Quando diz ‘Meteor Wing’, quem está realmente voando são os meteoros, não as asas. Talvez seja hora de, pelo menos uma vez, deixar as asas serem o foco.”
Em um planalto do DigiMundo, havia uma formação rochosa que surgia de forma abrupta. Birdramon subiu pelo ar desde a frente e, de suas costas, Takenouchi Sora saltou.
Enquanto aterrissava, ela gritou:
“Vai! Faz aquilo!”
Diante do tornado em forma de engrenagens, Birdramon avançou diretamente de frente. Seu corpo inteiro havia entrado em estado de incandescência. Era como se tivesse liberado o poder que normalmente controlava na presença de Sora.
O ataque “Meteor Wing” normalmente consistia em lançar asas flamejantes como shurikens — mas agora ele não estava disparando nada.
Mantendo o olhar fixo à frente, Birdramon torceu todo o corpo. Tornou-se como uma enorme broca vermelha e avançou contra o tornado.
As engrenagens foram dispersadas pela rotação violenta, deformadas pelo calor extremo e despedaçadas. O enorme tornado, que lembrava uma centopeia, foi completamente destruído em menos de vinte segundos.
28
“Quem foi que deu o nome de ‘Álamo’ para este lugar mesmo?”
No interior de uma enorme mansão de pedra onde Mimi e os outros estavam, havia também muros externos do mesmo material, com torres em cada um dos seis cantos. Em uma dessas torres, Michael observava a paisagem enquanto falava.
Do outro lado, na torre oposta, a voz de Steve vinha pelo comunicador.
“Não foi seu pai? Ele não fez um filme com esse nome antigamente?”
“Ah… é mesmo? Então acho que devia ter mudado isso.”
O pai de Michael era um astro de cinema. Antes da transferência para o DigiMundo, parte de sua enorme propriedade rural havia sido usada como abrigo para crianças resgatadas.
Ele nunca chegou a entrar no DigiMundo, mas ao ver as imagens do local de destino, comentou que aquilo lembrava o Forte Álamo de um dos filmes em que atuou.
“Bom, visto de alguns ângulos até lembra mesmo um forte… mas, na verdade, isso aqui é mais um castelo, não é? E convenhamos, esse nome não soa muito bem, não?”
“Relaxa aí.”
“A gente não vai ser derrotado tão fácil assim.”
As vozes de Sam e Lou vinham pelo comunicador. Eles também eram Humanos PH da mesma geração de Mimi.
“Para de perder tempo conversando.”
“Mais inimigos estão chegando.”
As vozes de Maria e Tatum também soaram pelo rádio.
Do lado de fora das muralhas, a primeira onda de engrenagens negras que havia atacado já tinha sido destruída por Togemon — a forma evoluída de Palmon, que agora parecia um grande cacto espinhoso.
Logo depois, fios negros começaram a emergir do solo em vários pontos ao mesmo tempo, avançando em direção ao Álamo por todos os lados.
Esses cabos também roubavam a vontade de qualquer Digimon com que entrassem em contato.
Centenas deles avançavam ao mesmo tempo, mas os Digimon parceiros de Michael e dos outros já estavam destruindo todos enquanto a investida terminava de chegar.
“Beleza, retirada temporária de todos! A equipe A entra em ação.”
Os portões da muralha se abriram, e os Digimon recuaram enquanto cerca de trinta PH saíam em formação, cada um ao lado de seu companheiro.
Os restos dos cabos negros já haviam se desfeito em poeira e desaparecido.
Sobre uma formação rochosa à frente do deserto, Daisuke, Ken, V-mon e Wormmon se posicionaram.
“Chegou a hora de contar com o poder dos Digimon de todo mundo!”
“Não se preocupem, vamos devolvê-los em segurança. Eu prometo!”
Do outro lado do deserto, algo negro começou a surgir do solo — como espinhos.
Eram pilares longos e afilados, do tamanho de árvores gigantes, em forma de prismas quadrangulares. Apenas as pontas eram agudas.
Eram os Obeliscos Negros — as Torre Negras — estruturas capazes de impedir a evolução, bloqueando qualquer Digimon acima do nível Criança.
Uma após outra, aquelas colunas negras continuavam a se erguer a partir da distância, avançando em direção à fortaleza.
29
Na Baía de Tóquio, várias Torre Negras também se erguiam.
O carro de Shuu Kido, escoltado por dois veículos na frente e atrás, freou bruscamente em frente ao instituto Izumi, em Shibaura.
Da entrada, Patamon voou para fora.
“Takeru——!”
“Patamon! Desculpa a demora.”
Dentro da entrada, Koushirou e Tentomon os aguardavam.
“Rápido, para o portal. Você…”
Koushirou guiou Rui até a sala de recepção.
“Espere um pouco aqui, por favor.”
Enquanto isso, no monitor do instituto, Miyako abriu o portal. Através dele, Takeru, Patamon e Shuu Kido seguiram em direção ao DigiMundo.
30
Em 2002, quando Takeru estava no quinto ano do ensino fundamental e havia se mudado para Odaiba, a internet sem fio pública ainda não era algo comum no Japão.
A região ao redor de Odaiba foi escolhida como área de teste para a criação de uma rede de comunicação sem fio espalhada pela cidade. Foram distribuídos a estudantes do ensino fundamental e suas famílias dispositivos um pouco maiores do que os celulares da época — que não possuíam função de chamada telefônica e eram usados principalmente para e-mail.
Esses aparelhos eram chamados de D-Terminal.
Embora originalmente não fossem dispositivos tão avançados, eles possuíam uma memória maior do que os celulares comuns, o que permitia seu uso como meio de armazenamento de dados.
Quando Daisuke Motomiya e os outros conheceram seus parceiros Digimon, seus Digivices D-3 puderam se conectar a esses D-Terminals e armazenar os dados dos Digimentals — as formas digitais dos Brasões.
Graças a esses aparelhos, era possível carregar múltiplos Digimentals e utilizar o poder da Armor Evolution.
Em compensação, a Armor Evolution tinha a desvantagem de só poder ser realizada quando o Digivice e o D-Terminal estavam juntos. Porém, ao contrário dos Digivices, os D-Terminals eram dispositivos eletrônicos fabricados pelos humanos, o que fez com que suas funções pudessem ser facilmente substituídas pelos smartphones que surgiram depois.
Daisuke e os outros agora usavam smartphones no lugar dos D-Terminals. Com a popularização desses aparelhos, começaram a surgir entre os PHs crianças que possuíam Digimon capazes de realizar Armor Evolution. Aqueles que estavam nas áreas de preservação passaram a ser chamados de “Equipe A” — abreviação de Armor Team.
Daisuke gritou com força:
“Beleza! Equipe A, partiu!”
Os Digimon dos PHs que estavam em frente ao Álamo realizaram a Armor Evolution em uníssono.
A Armor Evolution não era afetada pelas Torre Negras.
O parceiro de Daisuke, V-mon, evoluiu para o Digimon quadrúpede azul, Raidramon. Antes, ele mal conseguia carregar apenas Daisuke, mas agora havia crescido para mais do dobro daquele tamanho.
“Vamos nessaaaa!”
Daisuke era levado por Raidramon enquanto ele avançava correndo. Os Digimon do tipo Armor voltados para combate terrestre vinham logo atrás. Eles avançavam em uma carga massiva contra as Torre Negras alinhadas, fazendo a terra tremer com o impacto.
“Nós também vamos!”
Do alto de uma rocha, atrás de Ken Ichijouji, um grupo de Digimon do tipo Armor voltado para voo decolou.
Na linha de frente estava Pucchiemon. Era a forma evoluída de Wormmon — um Digimon do tipo fada com corpo branco e grandes orelhas vermelhas que pareciam um capuz.
Embora sua capacidade de combate fosse baixa, ele tinha um papel essencial: localizar os Digimon que haviam sido deixados para trás dentro das Torre Negras ou aqueles que tinham sido parcialmente corrompidos pelas engrenagens negras, e remover rapidamente essas engrenagens.
Logo atrás dele, os Digimon Armor avançavam, destruindo as Torre Negras sem qualquer hesitação.
31
“Agora, pessoal!”
Submarimon, o Digimon em forma de pequeno submarino em que Iori estava, avançou. Os Digimon do tipo Armor aquáticos que o seguiam atrás da forma Armor de Armadillomon aceleraram.
No lado norte da área de preservação da Cidade Murada de Kowloon, havia um lago em um terreno elevado tão vasto que parecia um mar. Da superfície desse lago, do centro até a região sul, as pontas das Torre Negras se erguiam em intervalos irregulares.
Uma a uma, elas começaram a se inclinar, começando a afundar, a partir das que estavam mais próximas da margem.
Os Digimon de Iori haviam iniciado o ataque.
32
A Baía de Tóquio já estava completamente escura quando as Torre Negras que se projetavam dela começaram a ser cortadas em pedaços por ataques vindos do ar.
Na região de Shibaura, dezenas de Torre Negras também surgiam no solo, mas estavam sendo destruídas em questão de minutos pelos mesmos ataques coordenados.
Os responsáveis eram Digimon voadores.
Um deles era Nefertimon, semelhante a uma esfinge alada, evolução de Tailmon. O outro era Holsmon, a forma evoluída de Hawkmon, com asas de aço ligadas a um corpo de quatro patas.
Havia quatro Holsmon ao todo. Em Nefertimon estava Hikari. Nos Holsmon estavam Miyako, seu irmão e suas duas irmãs.
“Quando isso acabar, vamos recuar temporariamente!”
Com o grito de Miyako, todos começaram a retornar para o telhado do Instituto Izumi.
33
No norte do lago da área de preservação da Cidade Murada de Kowloon, todas as Torre Negras foram destruídas desde a base e submergiram na água.
Submarimon emergiu até a margem, enquanto os outros Digimon do tipo aquático em forma Armor seguiram pelos canais em direção à área de preservação.
Do alto do céu naquela direção, um Digimon em forma de cavalo alado — Pegasumon — desceu em voo.
Era a forma Armor evoluída de Patamon, e Takeru estava montado nele.
“Já limpamos todas as que estavam perto da fortaleza. O resto pode deixar com Daisuke e os outros. Nós vamos para o próximo ponto.”
34
“Valeu a todos! Vamos para Kowloon e dar mais um gás!”
Em frente ao Álamo, Daisuke chamou pelos Digimon em forma Armor.
“Aqui já dá pra deixar com os Digimon do Michael que conseguem evoluir.”
Ken e Wormmon também estavam ali.
“Assim que acabarem com as Torre Negras daquele lado, voltamos imediatamente.”
Do alto de uma das torres, Michael gritou de volta:
“Mimi já saiu daqui!”
Na direção sul da fortaleza, dentro da selva, Palmon e Mimi se moviam como um vendaval.
Os tentáculos nos dedos de Palmon podiam se esticar bastante. Ela agarrava um galho e o puxava ao mesmo tempo em que se contraía, impulsionando-se para frente. Em seguida, estendia o outro tentáculo.
Repetindo esse movimento alternado, elas avançavam em altíssima velocidade pela floresta.
Em uma selva densa onde o solo era irregular e coberto por raízes e vegetação, não havia como alcançar aquela velocidade apenas caminhando pela superfície. Talvez fosse até mais rápido do que voar.
Mimi estava pendurada em Palmon.
Mesmo naquela velocidade, ela não perdia de vista os Digimon no solo. Podia haver ainda alguns corrompidos pelas engrenagens negras.
E, de fato, havia — já na borda da saída da floresta.
Palmon imediatamente evoluiu para Togemon. Em seguida, disparou os espinhos de seu corpo, destruindo as engrenagens negras que estavam presas ao Digimon antes que pudessem se espalhar.
35
“Se os Digimon parceiros de irmãos são iguais ou diferentes, isso é um problema interessante.”
Na sala de estar do centro de recuperação, Shuu Kido observava o ambiente enquanto falava. À sua frente, havia três Gomamon que pareciam estar se dando muito bem.
Do lado de fora, pela porta de vidro já aberta, sons intermitentes de luzes e destruição vinham da escuridão.
“Parece que o Instituto Izumi também quer estudar esse tipo de coisa. Mas ainda não conseguiram focar muito nesse lado.”
“Aquele lugar é mais voltado para pesquisa de sistemas eletrônicos, afinal.”
Jou também comentou.
Os três irmãos Kido tinham parceiros Digimon, todos começando como Bukamon e evoluindo para Gomamon. Chegou-se a pensar que isso fosse influência do fato de Jou ter sido o primeiro a formar o vínculo.
Mas as evoluções seguintes eram diferentes.
Já Daisuke, o irmão mais novo de Motomiya Jun — que agora segurava Kodokugumon — tinha V-mon como parceiro, um Digimon completamente diferente.
Do lado de fora da porta de vidro, o som de asas batendo e de terra sendo escavada se aproximou.
Pegasumon, carregando Takeru, pousou.
“Está quase tudo resolvido por aqui.”
Quando se fala em irmãos com Digimon diferentes, também há o caso dos irmãos Yagami — Taichi e Hikari — e dos irmãos Yamato e Takeru, que também possuíam parceiros distintos.
No terreno do lado de fora, o chão à frente de Iori começou a se elevar. Um Digimon de corpo rígido com uma boca em forma de broca apareceu: Digmon.
Imediatamente depois, ele reverteu a evolução e voltou à forma de Armadillomon.
“Aqui não tinha tantos inimigos assim, dagya.”
A região próxima ao centro de recuperação também tinha começado a ser afetada pelo surgimento das Torre Negras, mas os dois Digimon haviam lidado com elas rapidamente.
Os três Gomamon deram um passo à frente e falaram, se revezando:
“Beleza, então agora é a nossa vez!”
“Vocês dois podem descansar.”
“Tem até chá gelado pra vocês.”
Para quem vê de fora, eles pareciam indistinguíveis, mas diz-se que os irmãos Kido nunca confundiam seus próprios Digimon parceiros.
“Bom, Iori, você descansa.”
Takeru falou com Iori.
“Nós precisamos voltar para o instituto.”
Pegasumon também desfez sua evolução, voltando a Patamon, que pousou sobre a cabeça de Takeru.
“Tem certeza de que está tudo bem… com isso?”
Iori hesitou ao falar.
Ele estava preocupado com o fato de que, sem Takeru e Iori juntos, a evolução de Jogress não poderia ser realizada — e se isso não seria um problema.
As outras combinações de Jogress — Daisuke e Ken, Hikari e Miyako — estavam todas reunidas no mesmo local.
“Nós não somos os únicos que vão.”
Takeru respondeu com um sorriso leve.
Mais tarde, Rui perguntou a alguém, sem direcionar a ninguém em específico:
“Takeru-san… por que ele é sempre tão calmo?”
Por coincidência, naquele momento estavam presentes Iori, Ken e Miyako.
“Ah, quem sabe? Mas ouvi dizer que quando era criança ele já ficou bem fora de si algumas vezes. Né, Iori-kun, Ichijouji-kun?”
“Ah… isso é…”
“É… bem… isso…”
“Dizem que ele fica assustador quando se irrita, não é?”
Iori sentiu um leve aperto no peito.
Mas percebeu depois que aquilo não vinha de preocupação com Takeru em si.
Era pena — dirigida aos que estariam do outro lado quando ele finalmente perdesse a calma.
36
A área ao redor da Cidade Murada de Kowloon já começava a ficar escurecida.
No telhado voltado para o oeste da fortaleza, Taichi e Agumon, Yamato e Gabumon observavam o exterior. Na verdade, Taichi estava deitado de costas, relaxado.
“Está chegando a hora.”
Falou Yamato, que observava as Torre Negras sendo varridas uma a uma ao redor.
Ao ouvir isso, Taichi se levantou de repente.
“Finalmente chegou nossa vez.”
Do fundo do pôr do sol, uma massa negra começou a emergir, avançando em direção a eles.
37
A área de preservação do Álamo ainda estava sob a luz do meio-dia.
Além da selva, depois de atravessar formações rochosas, estendia-se uma vasta planície, e mais ao fundo havia uma árvore gigantesca.
Só o diâmetro de seu tronco já tinha vários quilômetros. No meio de sua altura, camadas de nuvens se acumulavam como anéis, e o topo desaparecia na névoa.
Essa árvore estava lentamente começando a se inclinar.
Do alto de uma rocha à frente, Mimi apontou.
“Aquilo ali, Togemon!”
Togemon, que havia acabado de remover as engrenagens negras que corrompiam os Digimon no solo, aproximou-se de Mimi.
Ao fundo dos dois, a árvore colossal continuava a tombar. Em sua base, uma nuvem negra começou a se elevar.
Mas não era uma nuvem.
Era uma forma em expansão e colapso, composta por inúmeros fragmentos.
E então ficou claro: aquilo não eram engrenagens negras desta vez.
Eram Digimon.
Digimon de nível Adulto, Perfeito… todos envoltos em escuridão.
Eles eram tantos que se tornavam uma massa de milhões, parecendo uma nuvem.
Subiam da terra e avançavam em direção a eles. E não era apenas isso — até o próprio solo parecia ser tomado por aquela escuridão.
Eram Digimon negros que não podiam voar.
“Acho que são um pouco demais para eu sozinha…”
“Pois é. Não viemos aqui para fazer esse tipo de coisa sem sentido.”
Mimi então virou o olhar para a floresta atrás dela.
“Avise os Digimon dessa floresta para fugirem o mais rápido possível.”
“Entendido!”
Togemon correu imediatamente para dentro da mata.
38
Daisuke confirmou a área ao redor antes de gritar:
“Tá tudo terminado! Retirada!”
As Torre Negras que haviam se erguido ao redor da área da Cidade Murada de Kowloon já tinham sido todas destruídas.
Na sala de comunicações do primeiro andar da fortaleza, Sora segurava um monitor que havia sido levado para fora da janela.
Ken abriu um portal ali, e os Digimon do tipo voador — liderados por Pucchiemon — atravessaram primeiro.
Logo depois, os Digimon do tipo terrestre, liderados por Raidramon com Daisuke montado, seguiram pelo portal.
Por último, Ken ficou sozinho por um instante antes de entrar. Ele se virou uma última vez em direção ao pôr do sol.
“Parece que conseguimos chegar a tempo.”
O sol já havia sido completamente encoberto por uma massa de Digimon negros.
No horizonte inteiro, eles avançavam cada vez mais perto.
Sora sorriu levemente.
“Bom trabalho. E pelo menos vamos conseguir devolver todos os Digimon sem ferimentos.”
“Mas os Digimon de agora e seus parceiros pareciam felizes. Mesmo que não fosse para lutar, eles disseram que estavam conseguindo ser úteis para todo mundo.”
“É… a gente precisa garantir que eles não precisem chegar a lutar de verdade.”
Ken atravessou o portal e desapareceu.
No telhado da fortaleza, não estavam apenas Taichi e Yamato. Também havia os três irmãos de Hong Kong — Yue Hong) — além de Dien, do Vietnã, Mina, da Índia, e outros PHs com experiência em combate, junto de seus respectivos Digimon parceiros.
Todos permaneciam de pé, voltados para a direção do pôr do sol.

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Digimon Adventure Beyond - Parte I
Confira a tradução da primeira parte de 13+ a novelização de Digimon Adventure Beyond divulgada por Hiroyuki Kakudou, diretor das duas primeiras temporadas do anime.
(Parte I)
0
Dois anos atrás
Está tudo bem, não precisa ter medo. Eu sou Yuri. Vim da Rússia. Esse ao seu lado é um Digimon, não é? O que está atrás de mim também é um Digimon. A aparência é bem diferente, e o meu é maior, mas nós dois somos companheiros que têm parceiros Digimon. Eu sei que você não pode voltar para sua família agora. Ouvi dizer que passou por momentos difíceis. Mas já está tudo bem. Logo virão nos buscar. Vamos para um lugar onde se pode viver com muita segurança. Eles já nos salvaram de perigos antes. São pessoas muito confiáveis. O mundo não mudou tanto até agora, mas você conhece um país chamado Japão? Eles vêm de lá, são pessoas boas. Yagami Taichi-san e Ishida Yamato-san.
Nas montanhas de um país do norte da Europa. Não há postes de luz, apenas uma única estrada que segue ao longo da montanha. Um pouco acima dessa estrada, há uma caverna. Diante dela, um enorme Digimon com aparência de inseto esperava imóvel. Era o parceiro Digimon de Yuri, Kuwagamon.
Foi só três horas depois que o som de um motor pôde ser ouvido à distância.
“Yuri, desculpa pela demora!”
Da luz dos faróis, surgem uma figura humana e uma pequena sombra se aproximando. Quem fala primeiro é Yagami Taichi, vestindo um casaco térmico azul, de aparência simples, comprado em uma loja de equipamentos para atividades ao ar livre. E a pequena sombra é Agumon, um Digimon que parece um pequeno dinossauro laranja, dizendo: “Desculpa a demora!”
Do outro lado do carro, saindo do banco do motorista, aparece Ishida Yamato, vestindo um casaco de couro preto. Logo atrás, vem Gabumon, um Digimon coberto por uma pele azul. Yuri se aproximou da entrada da caverna.
“Taichi-san, Yamato-san.”
Yamato ajustou a gola do casaco.
“Brr, está frio. Vamos voltar logo para onde dá pra fechar a porta.”
“Quer que eu te empreste meu pelo, Yamato?” sugeriu Gabumon.
“Não precisa, Gabumon. Mais importante—”
Ele mudou para o inglês e se virou para Yuri.
“Aquela criança… consegue entender alguma língua?”
“Acho que em inglês dá pra se comunicar, mais ou menos.”
Taichi também conseguia entender o suficiente.
“Ótimo. Então deixo com você, Yamato.”
“Beleza.”
“O Iori também consegue falar inglês, da-gyaa!” veio uma voz do banco traseiro.
Um Digimon em forma de tatu em pé, Armadillomon, tinha descido do carro. Mais atrás dele, Hida Iori, vestindo um casaco um pouco antigo, respondeu meio sem jeito:
“Ah… mais ou menos.”
Um mundo em que crianças possuem “parceiros Digimon”.
Não, não apenas crianças. Adultos também os possuem. Eles são chamados coletivamente de “PH (Partner Human / Humanos Parceiros)”. O número de PHs está aumentando rapidamente, e sua proporção dobra a cada ano. Esse fenômeno acabou gerando problemas sociais e religiosos. Alguns PHs estão envolvidos em crimes, e houve até tentativas do governo de utilizá-los para fins militares. Sem um Digimon, um PH é apenas um ser humano comum. Mas, ao possuir um Digimon, ele passa a ser visto como alguém especial — e, em alguns casos, torna-se alvo de discriminação.
Iniciativas para apoiar PHs que não conseguem levar uma vida normal começaram a ser gradualmente institucionalizadas ao longo de alguns anos. Isso teve início por volta da época em que Taichi ainda estava no ensino médio.
Izumi Koushiro mantinha contato com PHs de todo o mundo para reunir informações. Como muitas vezes se tratava de regiões perigosas, eram Taichi e Yamato — que possuíam Digimon com grande poder de combate — os que se deslocavam. Entre os seis que possuíam a habilidade de abrir portais para o DigiMundo, um deles sempre acompanhava a missão para ativar o acesso.
O cuidado mental das crianças resgatadas também fazia parte da operação: Sora e Hikari acolhiam os pequenos e organizavam sua nova vida. O mais jovem, Iori, só foi autorizado a participar quando chegou ao ensino médio, acompanhando o grupo para abrir os portais.
A função de apenas proteger o garoto até a chegada de Taichi e dos outros havia terminado, e Yuri montou em Kuwagamon.
“Então, deixo o resto com vocês!”
Iori acenou com a mão.
“Muito obrigado!”
Kuwagamon alçou voo, enquanto o carro de Taichi e Yamato começava a percorrer a estrada da montanha.
No banco traseiro do carro, Iori falava em inglês com suavidade ao garoto:
“E você, qual é o seu nome? Eu sou Hida Iori, tenho dezesseis anos.”
Ele já sabia o nome, mas fez a pergunta mesmo assim.
Na frente, quem dirigia era Ishida Yamato; ao lado dele estava Yagami Taichi.
Yamato, sem tirar os olhos da estrada, falou de lado:
“Taichi, você também já consegue falar inglês, não é? Isso ajuda até na hora de conseguir emprego.”
“Eu sei. Em francês eu até me viro um pouco…”
“Hmm? Ah, foi naquele programa que vocês foram pra França, né?”
“Isso mesmo. Aliás, Yamato, eu sabia que você tinha carteira de motorista, mas não que tinha tirado até a internacional.”
“Foi o último pedido do meu avô, antes de falecer. E você também devia tirar pelo menos a sua carteira — se precisar, até como assistente de produção em animação já ajuda pra conseguir emprego
“Não quero isso, não.”
Agumon e Gabumon estavam no banco de trás, na terceira fileira do carro.
De repente, Agumon gritou:
“Taichi! Estou sentindo cheiro de Digimon!”
Gabumon completou:
“Não vem deste carro.”
Ao lado de Iori, Armadillomon virou-se para trás:
“Está atrás de nós, da-gyaa!”
Iori imediatamente olhou para trás.
Do céu noturno, sem postes de luz ou reflexos de cidades distantes, algo parecido com um pássaro se aproximava.
“É enorme. Não é o Kuwagamon do Yuri.”
Taichi também conseguiu ver: as garras afiadas do Digimon alado já estavam quase sobre eles.
“Desvia!”
Yamato girou o volante.
Kuuh!
O carro desviou para a esquerda, e as garras rasgaram apenas o ar.
O Digimon negro em forma de pássaro voou à frente, depois subiu e fez uma grande curva, que Taichi acompanhou com os olhos.
“Ele vai voltar!”
"Droga! Ainda temos um longo caminho a percorrer antes de podermos abrir o portal!"
Taichi virou-se para o banco de trás:
“Iori, dá para abrir o portal pelo smartphone, não é?”
“Sim, desde que haja conexão com a internet. Mas—”
“Tem sinal agora!”
Taichi estendeu o celular diante de Iori.
“Abre o portal, Iori. Você e o garoto vão na frente.”
“Mas—”
O Digimon alado, em curva, avançava pela lateral.
Yamato desviou rápido, as garras rasparam a dianteira do carro. Ele acelerou imediatamente.
“Não temos tempo para hesitar!”
“Entendido!”
Iori apontou o Digivice D3, o dispositivo capaz de abrir portais, para o smartphone de Taichi.
“Digital Gate, Open!”
A tela de cristal líquido começou a brilhar intensamente, tomada por uma luz pulsante.
“Vamos, você primeiro,” incentivou Iori.
O garoto, que até então permanecia inquieto, abraçou seu pequeno Digimon e se aproximou da luz. Sua decisão firme sugeria que já estava acostumado a enfrentar perigos. Em seguida, sua figura se dissolveu em sombra e foi absorvida pelo clarão. Iori e Armadillomon o seguiram. Então a luz diminuiu e a escuridão retornou.
Do banco traseiro, Agumon e Gabumon espiaram:
“E nós, o que fazemos?”
Yamato deixou escapar um leve sorriso no canto da boca.
“É óbvio, né?”
Taichi olhou para o banco traseiro.
“Pronto, Agumon?”
“Claro!”
Os dois Digivices foram apontados simultaneamente para o banco traseiro. Os indicadores nas telas começaram a subir rapidamente, e dois feixes de energia se estenderam do carro até o alto do céu.
Ali havia uma fronteira invisível: o banco de dados do DigiMundo, inacessível aos sentidos humanos. Uma rede invisível que cobria todo o planeta como uma fina camada de nuvem.
Quando o sinal dos indicadores alcançou esse limite, uma explosão de luz ocorreu no ponto de contato.
Dentro do imenso banco de dados de evoluções dos Digimon, duas formas compatíveis com aquelas luzes foram selecionadas e enviadas de volta à superfície.
Duas hélices duplas de luz desceram em alta velocidade até a parte traseira do carro, enchendo o interior do veículo de luz.
O sinal provocou uma transformação em Agumon e Gabumon. As informações de suas formas foram reescritas, e até sua massa foi reconstruída.
“Agumon… digivolve para…!”
“Gabumon… digivolve para…!
O porta-malas do carro em alta velocidade se abriu, e de dentro da explosão de luz surgiu aquilo que antes era Agumon.
Antes mesmo de tocar o chão, seu corpo já havia crescido várias vezes o seu tamanho.
“Greymon!”
Em seguida, aquilo que antes era Gabumon saltou para fora e se transformou em uma grande criatura semelhante a um lobo.
“Garurumon!”
As duas formas atacaram o Digimon semelhante a um pássaro que vinha pela retaguarda. O inimigo tentou reagir com suas garras e bater as asas enormes para afastá-los, conseguindo se livrar de Greymon, mas—
“Mega Flame!”
Da boca de Greymon foi disparada uma esfera de fogo que atingiu em cheio o alvo. O pássaro cambaleou e começou a cair em direção às montanhas.
Sobre ele, Garurumon saltou. De sua boca, expeliu chamas azuis.
“Fox Fire!”
O ataque de fogo foi evitado por pouco. Ainda assim, o próprio corpo de Garurumon colidiu com o inimigo, e ambos se enroscaram e caíram juntos dentro da floresta.
Greymon também avançou em seguida, entrando na mata. Ao fundo, a batalha continuava: várias árvores eram arrancadas, e flashes de fogo e luz escapavam entre a vegetação, indicando o confronto intenso que se desenrolava ali.
Mesmo do ponto da estrada que fazia uma grande curva ao redor da encosta da montanha, era possível ver a luz da batalha. Taichi percebeu que aquilo não iria se resolver tão rápido.
“Um no nível Perfeito, hein…”
Yamato respondeu sem tirar as mãos da direção:
“Vamos evoluir mais uma etapa?”
“Não, espera.”
O Digimon em forma de pássaro saiu da floresta. Sua postura estava instável, mas parecia não ter sofrido muitos danos. Ele subiu até uma altura fora do alcance de Greymon e dos outros, então virou-se novamente.
As garras de ambas as asas começaram a emitir uma luz escura.
“Isso é ruim! Desvia, Greymon!”
A energia disparada carbonizou instantaneamente uma parte da floresta.
Mas Greymon e Garurumon já não estavam mais naquele ponto.
Dois contra-ataques vieram de lados opostos da floresta incendiada: uma esfera de fogo e chamas azuis avançando em direção ao Digimon pássaro.
O histórico de cooperação entre Greymon e Garurumon era longo.
Com ataques vindos de duas direções quase impossíveis de evitar, o Digimon em forma de pássaro sofreu danos na asa direita e nas penas da cauda. Cambaleando, começou a cair em espiral.
Mas então, o espaço onde ele estava caindo se distorceu e passou a refletir outra paisagem.
Do outro lado havia um cenário iluminado pela luz do dia.
“Um portal.”
Enquanto Taichi observava, o Digimon pássaro mergulhou naquela abertura luminosa. Porém, o portal não se fechou.
Ele se ergueu suavemente ao longo da encosta da montanha, aproximando-se do carro de Taichi.
“Yamato, isso é ruim!”
“Eu sei!”
O carro avançava em alta velocidade, enquanto Greymon e os outros corriam ao lado.
Nesse ritmo, não deveriam conseguir ser alcançados pelo portal.
Mas, de repente, o portal que vinha pelo lado se deslocou rapidamente e apareceu à frente do veículo.
Do outro lado da estrada noturna, via-se um espaço claro — e dentro dele, o sol era visível.
O carro e Greymon não conseguiram parar a tempo.
E acabaram sendo engolidos pelo portal.
Aos poucos, os olhos se acostumaram à luz.
Ele olhou ao redor.
Era um deserto.
Exceto por algumas elevações e algumas estruturas que não se podia identificar ao longe, tudo o que havia até onde a vista alcançava era areia. O sol brilhava intensamente sobre a paisagem.
“Que lugar é esse?”
1
“Naquela época foi bem complicado…”
Claro que eles sabiam que aquele deserto era o DigiMundo. Mas mesmo assim, o DigiMundo era vasto — não havia como saber em que parte exatamente estavam.
No entanto, eles pensaram de forma tranquila que, se conseguissem contatar Koushiro e os outros, não haveria problema.
“Acabou levando três dias, né.”
Pensando que já tinham se passado dois anos desde então, Taichi levou o copo de chá gelado à boca.
“Bem, nós também passamos por muita coisa.”
Do outro lado de Taichi, Inoue Miyako segurava um copo de suco de acerola. Talvez combinasse com o macacão vermelho cheio de bolsos que ela usava.
“Ainda não está totalmente claro por que a conexão com o DigiMundo foi interrompida… e provavelmente algum tipo de prenúncio do terremoto que aconteceu depois teve influência nisso."
Na orla oposta de Odaiba, em um canto do distrito de armazéns de Shibaura, havia um depósito um pouco menor do que os demais, mas de aparência robusta. Ao observar com atenção, via-se uma placa dizendo “Instituto Izumi”.
Era o instituto de pesquisa dirigido por Izumi Koushiro.
Taichi estava na sala de recepção desse lugar.
Miyako ainda era universitária e, oficialmente, não era funcionária do instituto, mas sim uma trabalhadora de meio período. No entanto, como o diretor e o outro pesquisador viviam imersos em seus estudos, ela acabava assumindo praticamente todas as tarefas administrativas.
Ela nunca se separava de uma bolsa transversal cheia de ferramentas e equipamentos.
A sala de recepção, que antes tinha uma aparência fria e sem vida, agora era relativamente aconchegante graças a ela, que cuidou da decoração e da iluminação.
“Mesmo que tenham dito que o tremor veio depois de várias horas… ainda assim é estranho que a conexão tenha sido afetada antes disso.”
Taichi pensava que, se nem Koushiro e os outros conseguiam encontrar a causa, ele certamente também não conseguiria entender. Para começar, ele nem sabia ao certo como a comunicação com o DigiMundo funcionava.
“Mas pelo menos foi bom ter conseguido resgatar Iori e aquele garoto em segurança.”
O portal aberto por Iori foi imediatamente detectado por Koushiro, que conseguiu contatar a equipe de recepção. Foi logo depois disso que a conexão caiu.
“O Izumi-senpai… quer dizer, o diretor ainda está incomodado com isso. Ele fica irritado quando não consegue descobrir a causa.”
“Bom, isso é a cara dele mesmo.”
Agora mesmo, ele ainda estava preso no meio de uma pesquisa e não podia ser interrompido.
“Depois do tremor, não tinha mais como manter a conexão…”
Miyako continuou o relato como quem revive uma lembrança. Taichi também ficou sabendo daquilo depois.
Naquele dia, dois anos atrás.
Algumas horas depois de Taichi, Yamato e os outros terem se perdido no deserto do DigiMundo, uma catástrofe atingiu este mundo.
Um grande terremoto ocorreu de Kanto até Tohoku, acompanhado de tsunamis.
Naquele momento, o instituto em Shibaura ainda havia sido recém-inaugurado.
Com telefones e redes de transporte se tornando instáveis, Sora Takenouchi, Kido Jou e Ichijouji Ken se reuniram ali.
Eles discutiram o que deveriam fazer.
Quem defendeu que deveriam sair imediatamente para ajudar as pessoas afetadas pelos desastres foi Tachikawa Mimi, que por acaso havia acabado de voltar dos Estados Unidos.
Ela havia vivido um grande incidente em Nova Iorque, em 2001, dez anos antes. Naquele momento, crianças com parceiros Digimon de todo os Estados Unidos se reuniram e ajudaram no resgate de pessoas sob os escombros.
Embora Koushiro tivesse se comunicado com eles online, ele não tivera a oportunidade de conhecer seus amigos americanos pessoalmente até então. Era desnecessário dizer que os Digimon possuem poderes que humanos comuns não têm. Por isso, eles se reuniram na esperança de poder ajudar de alguma forma.
“Talvez, olhando de forma geral, não tenha feito tanta diferença… mas o importante foi que todos tentaram fazer o que podiam. Foi isso que a Mimi-san disse.”
Mimi estava ansiosa, sentindo que também precisava fazer algo naquele momento.
No entanto, os Digimon de todos eles estavam justamente no DigiMundo naquela época.
Os Digimon não podem permanecer no mundo humano por muito tempo; aos poucos, sua condição física começa a piorar. Por isso, eles precisam retornar periodicamente ao DigiMundo.
Embora existam limites claros para o que podem fazer sozinhos, tudo seria diferente se tivessem seus Digimon com eles. O problema era justamente que não conseguiam entrar em contato com esses Digimon.
Kido Jou defendia uma postura mais cautelosa. Ir naquele momento não mudaria muito o que eles poderiam fazer. Mesmo que fossem atuar como voluntários sem depender dos Digimon, ainda assim precisariam de preparação adequada e meios de transporte. Ir apenas por impulso poderia não só ser inútil, como também atrapalhar. Além disso, no fim das contas, eles eram apenas estudantes.
Enquanto discutiam isso, começaram a chegar notícias sobre os danos causados pelo tsunami.
O poder que eles tinham adquirido através dos Digimon… seria incapaz de fazer qualquer coisa em momentos como aquele?
Eles foram tomados por uma sensação de impotência e frustração.
“Naquele momento… se o Taichi-san ou o Daisuke-kun estivessem aqui, acho que o clima entre todos teria sido um pouco diferente.”
Motomiya Daisuke e Takaishi Takeru tinham ido ao DigiMundo para resgatar Iori e o garoto, enquanto Yagami Hikari dava suporte à operação.
“Quando finalmente conseguimos voltar, todo mundo estava meio abatido…”
Taichi lembrava daquilo com uma expressão um pouco complexa. Ele e Yamato também tinham passado por situações difíceis naquele período — mas isso já era outra história.
“E então… aquele desastre.”
“Isso, isso. Independente de vocês, Taichi-san, seria impossível alguém no Japão não saber disso — ainda mais estando em Tohoku.”
“Mas ele disse que não sabia.”
Miyako estava falando sobre a pessoa que havia aparecido ali no dia anterior.
“E não foi só isso… tem várias coisas estranhas nele. Ou melhor, coisas que chamam atenção, como se estivessem meio fora do lugar.”
“Mas, ainda assim, não foi a primeira vez que você encontrou esse cara, foi?”
“Foi por volta desta época no ano passado… só uma vez. Bem, ninguém da geração de vocês, Taichi-san, chegou a encontrar essa pessoa, certo?”
Os únicos que tinham tido contato com esse indivíduo eram Miyako, Daisuke, Takeru, Ken, Hikari e Iori.
“Nós também não o vimos mais depois daquela vez… e agora que ele apareceu de novo, tem algo estranho.”
As memórias do encontro do ano passado divergiam bastante entre o grupo e o próprio rapaz.
“Eu, o Daisuke-kun e os outros lembramos mais ou menos da mesma coisa… só ele que conta uma versão diferente. Mas também seria estranho simplesmente ignorar isso só porque somos maioria. E, pelo que ele diz, nem conseguimos encontrar o endereço do lugar onde ele supostamente vivia.”
“Então foi por isso que o Takeru levou ele até lá… até Tohoku?”
“Sim, porque o irmão mais velho do Jou-senpai mora naquela região.”
“Ah, o Shuu-san. O Takeru parece se dar surpreendentemente bem com ele.”
“Bem… não foi só por isso que o Takeru-kun decidiu levá-lo até lá.”
2
Embora a neve já tivesse diminuído bastante, Aomori ainda estava fria.
Saindo do carro que haviam parado um pouco mais acima da cidade, em direção à montanha, Shuu — o irmão mais velho de Kido Jou— pisou em um campo vazio e se virou.
“É aqui mesmo, certo?”
O endereço que você mencionou… o lugar onde disse que morava.
Comparado a Jou, que ainda mantinha um ar um tanto frágil e desajeitado, Shuu era mais robusto e também mais alto. Seu casaco, apesar de parecer leve, tinha uma excelente proteção contra o frio. Era ideal para trabalho de campo. Nos bolsos internos, carregava um caderno grande e resistente, embora isso não fosse perceptível à primeira vista.
Logo atrás dele, Takaishi Takeru também se virou. Sua roupa parecia leve — um casaco fino sobre uma camiseta de manga longa mais grossa —, mas suas botas eram firmes e adequadas.
“Sim… é aqui. Rui-kun?”
O jovem que havia aparecido no instituto no dia anterior, Owada Rui, permanecia parado ao lado do carro, completamente atônito.
Não havia o menor vestígio, naquele campo à frente, de que ali algum dia tivesse existido a casa dos parentes onde ele dizia ter vivido.
3
“Não é só sobre o desastre… as memórias dele de quando conheceu a Miyako e os outros, e até mesmo as lembranças anteriores de Hikarigaoka, já eram estranhas desde o início.”
Depois de finalmente sair do laboratório e ir até a sala de recepção, Izumi Koushiro tomou um gole de chá e começou a explicar.
“Ele disse que sempre viveu em Hikarigaoka, não foi?”
Taichi estava tomando café. Na verdade, preferia estar bebendo uma cerveja, mas decidiu esperar até ouvir toda a explicação de Koushiro. Enquanto escutava, ainda pensava se sequer havia cerveja naquele instituto.
“Isso. Até dez anos atrás, em 2003. E mesmo assim… ele diz que a primeira vez que viu um Digimon lutando foi na primavera daquele mesmo ano, pela televisão.”
Um ano antes, quando Rui encontrou Miyako, Ken e Daisuke pela primeira vez, um enorme Digitama havia aparecido perto da Tokyo Tower.
Rui e Daisuke entraram naquele Digitama.
“E então ele viu a Hikari e eu quando éramos pequenos.”
Dentro do Digitama, Daisuke havia assistido a imagens do passado de Hikarigaoka.
“Por isso, o Daisuke-kun achou que o mundo dentro daquele Digitama era Hikarigaoka em 1995.”
Depois disso, ele também viu cenas da família de Rui e do momento em que Rui conheceu um Digimon.
“Mas ele não sabe nada sobre o Greymon e o Parrotmon.”
“A próxima lembrança que o Rui-kun tem envolvendo Digimon que não têm relação direta com ele são notícias de Odaiba — a batalha contra Armagemon, na primavera de 2003. Nesse intervalo, ele não sabe nada sobre a luta entre Mammothmon e Birdramon em Hikarigaoka no verão de 1999, nem sobre outro confronto que também aconteceu lá no fim de 2002.”
“Isso já parece forçado demais. Nessa época ele já devia estar no final do ensino fundamental, não? Ou ele não estava realmente em Hikarigaoka… ou estava em uma versão de Hikarigaoka de outro mundo.”
“Também há outra interpretação possível.”
“Ah é? Qual?”
“O Ukkomon de que o Rui-kun falou… a habilidade de conceder a todas as pessoas um Digimon parceiro.”
Segundo Rui, o Digimon que se tornou seu parceiro em 1995, Ukkomon, decidiu realizar o desejo dele dando um Digimon parceiro a toda a humanidade.
“É uma capacidade grande demais para um Digimon comum… mas nós também não conhecemos tudo sobre os Digimon, então não é impossível. Ainda assim, isso é apenas algo que o Rui-kun ouviu — não há nenhuma evidência que sustente.”
Depois de acrescentar que nem mesmo era certo se Ukkomon poderia ser considerado um Digimon “comum”, Koushiro continuou:
“Sabemos que existe um mundo onde desejos podem ser realizados… ou melhor, materializados.”
No final de 2002, o lugar onde Daisuke e os outros enfrentaram BelialVamdemon era exatamente esse tipo de espaço.
Algo parecido também era lembrado por Koushiro e os outros. Quando foram ao DigiMundo pela primeira vez, ocorreram fenômenos estranhos — como um computador ligar em um lugar sem qualquer fonte de energia, ou um chapéu macio se tornar rígido. Ainda assim, dentro de toda a natureza misteriosa do DigiMundo, isso não parecia tão fora do comum.
“Essa ideia de realizar desejos é muito vaga… mas, se for algo no nível de criar Digimon, não dá para dizer que seja totalmente impossível.”
Eles já tinham encontrado diversos Digimon com habilidades muito além do que se poderia imaginar.
“Mas isso provavelmente exigiria uma quantidade absurda de energia. E, se for para produzir em massa, então seria um trabalho completamente fora de escala. Não parece algo que um único Digimon conseguiria fazer.”
“Seria mais plausível alguém simplesmente fazer o Rui-kun acreditar que foi ele quem fez isso.”
“Então ele foi enganado?”
Depois de dizer isso, Taichi percebeu que essa explicação também soava um pouco estranha.
Se a ideia fosse de engano, então fazer Rui acreditar que o aumento dos parceiros Digimon era resultado de seu próprio poder seria parte disso. No entanto, naquele momento ainda não existiam Digimon assim. Seria necessário prever com certeza que eles aumentariam depois.
“Talvez… as memórias dele tenham sido ligeiramente alteradas.”
“Alteradas em quê?”
“Primeiro, na linha do tempo.”
“Daqui em diante é só uma hipótese”, continuou Koushiro.
Em vez de saber que os Parceiros Digimon ainda iriam aumentar, se alguém já soubesse que eles estavam começando a aumentar, seria mais fácil prever que continuariam crescendo depois.
Uma das coisas mais difíceis de alterar nas memórias de Rui seria sua data de nascimento: 29 de fevereiro, um ano bissexto. Como ele é da mesma turma que Daisuke e os outros, deveria ter nascido em 1992.
“Mas se isso estiver deslocado em um ano, ele passaria a ter nascido em 1996. Se esse for o caso… algumas coisas ficam muito mais fáceis de explicar.”
Se ele tivesse nascido em 1996, não haveria nada de estranho em ele não saber nada sobre 1995 ou 1999. O caso de 2002 no fim do ano ainda seria ambíguo, mas mesmo assim ele teria apenas seis anos.
“Então o que o Daisuke viu em 1995, aquele cenário de Hikarigaoka…”
“Se o Daisuke foi usado como testemunha para aplicar um truque em nós…”
“Um truque?”
“Antes de mais nada, aquilo que ele viu dentro do Digitama era apenas uma projeção de imagens do passado. E parece que os materiais foram selecionados justamente para serem vistos pelo Daisuke-kun.”
“As notícias sobre a batalha contra o Armagemon em 2003 provavelmente ele realmente viu na televisão. Talvez tenha sido isso que desencadeou o aparecimento de Ukkomon, e então Ukkomon surgiu diante do Rui-kun… o que pode ter levado à alteração de suas memórias.”
“Mas essa hipótese não tem nenhuma prova, certo?”
“Há mais uma coisa que sabemos com certeza sobre as memórias do Rui-kun: seus pais não estão vivos. E isso envolve um caso com possível natureza criminal — se pesquisar, você vai encontrar registros.”
Koushiro operou um tablet com o símbolo de um abacaxi e exibiu uma matéria de jornal de 2003.
O artigo relatava que os corpos de um homem acamado e de sua esposa, exausta pelo cuidado constante, foram encontrados. O filho único deles havia sido localizado com ferimentos nos olhos, mas ainda vivo.
“Não há mais registros de continuação, então não sabemos os detalhes.”
O fato de o filho ter ferimentos sugere que pode ter havido uma tentativa de homicídio seguido de suicídio.
Na memória de Rui, isso teria ocorrido quando ele tinha onze anos. Mas, se isso recuar quatro anos, ele teria apenas sete — e o impacto psicológico seria imensamente maior. Nesse momento, também seria muito mais fácil manipular suas memórias.
Talvez Ukkomon tenha sido apresentado a ele como algo que sempre esteve ao seu lado desde muitos anos antes.
“E então ele teria sido induzido a ir para o mundo que era a casa dos pais em Tohoku, vivendo de uma forma que disfarçava a diferença de idade em relação a este mundo. Claro, como eu disse antes, também existe a possibilidade de que a versão dele esteja correta — de que ele realmente veio de um mundo assim. As duas hipóteses têm o mesmo peso.”
Mas não havia um fator decisivo.
“Só que, para nós, dentro deste mundo, é mais fácil aceitar uma explicação que justifique por que ele não sabia nada sobre os eventos de 1999…”
Miyako escutava com admiração. Quando Taichi e Koushiro conversavam, o ritmo era rápido demais; ambos tinham raciocínio ágil e alta capacidade de compreensão. Se não tomasse cuidado, era fácil ficar para trás.
Finalmente surgiu a oportunidade de acrescentar um ponto.
“Eu achei que o Rui-kun parecia bem mais magro do que alguém da mesma série do Daisuke-kun e do Ken-kun… Se ele for mais novo que o Iori, isso faria mais sentido.”
“Então ele acha que tem mais de vinte anos…”
Taichi ainda não tinha visto Rui pessoalmente. E outra dúvida começava a surgir em sua mente.
Por que Ukkomon teria feito aquilo…?
4
“Há uma lenda chamada Mayoiga.”
Enquanto dirigia, Kido Shuu continuava explicando.
“Ela ficou conhecida pelo Tono Monogatari, de Yanagita Kunio, mas é uma história que aparece em toda a região entre Kanto e Tohoku.”
Uma casa ilusória que aparece nas montanhas.
“Não é exatamente isso, mas o lugar onde fomos antes… Hachinohe, em Aomori. Você conhece os nomes dessas cidades, certo? De Ichinohe, Ninonohe, Sannohe, depois Yononohe, e assim por diante até Hachinohe, Kunohe… e o último, Tonohe (Herai). ‘Herai’ lembra ‘Hebrai’, não lembra? Existe até uma teoria de que Cristo teria vindo ao Japão…”
“Shuu-san.”
Takeru interrompeu do banco traseiro.
“Ah, tudo bem, tudo bem. Eu não vou fugir do assunto.”
“Entre Ichinohe e Kunohe, existe uma lacuna curiosa: não há ‘Shinohe’ (Quatro-Nohe). Depois de Sannohe, o próximo nome já passa para Gonohe.”[1]
“Eu morava em Shinohe”, Rui havia dito.
“Parece que esse nome teria desaparecido no período Edo. A explicação mais aceita é que foi apenas uma divisão administrativa de território que acabou apagando o nome. Existe uma justificativa histórica para isso… mas ainda assim dá uma sensação estranha, não acha?”
Ele continuou:
“Além disso, mesmo hoje em dia ainda aparecem relatos — ou melhor, testemunhos de experiências — sobre esse tal ‘Shinohe que não deveria existir’. Essa foi uma das razões desta nossa investigação.”
Shuu era um pesquisador de folclore, acostumado a investigações de campo sobre tradições e lendas.
“Você acabou de virar assistente, e já está tão ocupado assim.”
“O salário é baixo também. Por isso não consigo trocar esse carro nem tão cedo.”
“Mas mesmo assim…”
Takeru comentou, ainda um pouco preocupado com Rui.
“Realmente não havia nada ali em Shinohe, não é?”
“Além da área que vimos antes, há também as ruínas de um castelo chamado Shinohe-jo. Como fica no caminho, vamos passar por lá de qualquer forma.”
5
“Entendo. Então já conseguimos entender um pouco sobre o Rui.”
A conversa de Taichi e dos outros continuava na sala de recepção do instituto.
“Mas, se falarmos apenas do problema das memórias…”
Koushiro disse, mantendo o olhar um pouco baixo.
“Na verdade, nós também não nos lembrávamos muito de 1995, sabe.”
“Bem, faz sentido. Eu mesmo ainda estava no primeiro ano da escola primária.”
Taichi e os outros só haviam recuperado aquelas lembranças de forma repentina quando voltaram a Hikarigaoka em 1999.
Miyako também se lembrava do que Ken havia dito.
“O Ken-kun também fala que não consegue se lembrar muito bem da época em que estava… no lado errado. Mas ele diz que também há coisas antes disso…”
Pelo que parecia, Ken certa vez comentou com Miyako que tinha a sensação de ter lutado ao lado de outro garoto com um Digimon parceiro.[2]
Koushiro também tinha a impressão de já ter ouvido algo parecido.
“Isso é realmente um problema de memória… ou será que…”
Uma mulher que havia saído do laboratório entrou na conversa.
“…eles vieram de um mundo exatamente como o das memórias deles para este mundo atual?”
“Ah, Menoa-san também está numa posição parecida, né?”
Ao lado de Miyako, a mulher de cabelo curto chamada Menoa — vestindo o mesmo uniforme de trabalho do instituto de Koushiro — sentou-se e continuou a falar.
Assim como Rui, ela também era alguém que possuía memórias diferentes das de Taichi e dos outros.
Ela tinha a mesma idade de Taichi, mas se tornou uma professora universitária nos Estados Unidos, pesquisando Digimon. E acabou envolvida em uma das batalhas que também afetaram Taichi e os demais. Apenas ela se lembrava disso.
“Mas no mundo que eu me lembro…”
Ela fez uma pausa.
“A maior diferença… claro, é se MorphoMon existia ou não.”
“O Digimon parceiro da Menoa-san…”
“Uma pessoa que conseguiu, junto com esse Digimon, até dar um salto acadêmico e virar professora universitária… e nesse mundo o Izzy nem sequer percebeu a existência dela.”
“Por favor, pare de me chamar de ‘Izzy’…”
Koushiro finalmente conseguiu intervir.
“Ah, é verdade. Desculpe, senhor presidente.”
“E esse ‘presidente’ também não…”
“Isso, isso, neste mundo ele é o diretor do instituto. Mas na minha memória, o Izzy… ou melhor, Izumi Koushiro, era o presidente de uma empresa. Ainda não me acostumei.”
Era óbvio que ela fazia de propósito, mas esse parecia ser mesmo o jeito de Menoa.
“E não era só você, Menoa-san, que dizia que o Izumi-senpai era presidente.”
“Diretor ou presidente… não havia como uma pessoa como eu não ser notada ou desconhecida por ele. Pelo menos na minha memória, isso era impossível. Depois de trabalhar aqui com ele, entendi isso ainda mais claramente. A capacidade dele de coletar informações é de outro nível.”
“Bem, este próprio instituto só pôde ser fundado graças à Menoa-san.”
Koushiro dizia isso talvez como forma de disfarçar a própria timidez. Na prática, metade do capital inicial de criação havia sido financiado por Menoa, e, na realidade, ela era praticamente uma cofundadora. Ainda assim, quem ocupava oficialmente o cargo de diretor era Koushiro — e isso também foi ideia da própria Menoa.
“Seja virar presidente ou não, eu já estava ganhando dinheiro com royalties de patentes como no mundo das minhas memórias, então essa parte não está errada. Mas além disso…”
Menoa havia parado de falar tanto sobre o passado, mas a chegada de Rui pareceu trazer à tona algumas lembranças. Depois de citar alguns exemplos — como a existência de um assistente suspeito e outras partes até mesmo nebulosas em sua própria memória — ela continuou:
“O mais estranho é que eu não consigo me lembrar de como tive certas ideias… ou de como cheguei a certas conclusões.”
Menoa baixou levemente o olhar.
“Coisas como: ‘quando você cresce, suas possibilidades se estreitam’…”
“Mas, falando nisso…”
Taichi interrompeu a conversa.
“Seu japonês melhorou muito, Menoa.”
“Não é?”
Menoa respondeu com um sorriso.
“Isso mesmo, não é só o diretor… vocês também, Taichi e os outros.”
Yamato, Jou, Mimi — e Sora, mesmo que naquela época ela não estivesse presente.
“As pessoas que eu conhecia, as pessoas das minhas memórias… e vocês de agora têm uma diferença decisiva. O mesmo vale para Daisuke e Miyako. Isso foi algo que eu também disse ontem, quando ouvi a história do Rui-kun.”
6
“Se fossem as pessoas daqui, naquela época…”
Menoa havia dito isso a Rui no dia anterior.
No momento em que ele colocou um ponto final na situação envolvendo aquilo que deveria ter sido seu próprio Digimon parceiro.
“Com certeza teriam buscado outra solução. Provavelmente também fariam isso no seu caso.”
Rui se lembrava dessas palavras.
Na área das ruínas do Castelo de Shinohe — também chamado de ruínas do Castelo de Kindaichi — não havia nenhum vestígio de que ele tivesse realmente vivido ali.
Então… onde ele esteve até agora?
O que aconteceu no ano passado, quando encontrou Daisuke e os outros e aquilo ocorreu… até que ponto aquilo era real?
Ou melhor… quanto das memórias da época em que acreditava que seus pais estavam vivos era de fato verdade?
Enquanto ele pensava nisso, Takeru se aproximou e falou:
“Quando eu conheci o Patamon, meu parceiro Digimon, pela primeira vez…”
“Foi exatamente assim.”
Ele viveu muitas experiências diferentes. No entanto, neste mundo, tudo aquilo havia durado apenas alguns dias.
“Na minha percepção pessoal, parecia ter sido mais de meio ano… ou até mais. Tinha uma diferença enorme. Depois disso, por um tempo, eu nem conseguia conversar direito com os colegas da minha classe.”
Talvez a mudança tenha sido mais psicológica do que temporal.
“Eu ficava pensando coisas como… ‘será que aquilo tudo foi um sonho?’ Mas não, não podia ser um sonho… e, no fundo, eu nem queria que fosse. Foi difícil em muitos momentos, mas também houve coisas boas.”
“Ah… se não se importar…”
Rui falou pela primeira vez em várias horas.
“Você poderia me contar mais sobre isso?”
“Ah… claro, não tem problema.”
“Temos bastante tempo.”
Shuu falou do banco do motorista.
“De qualquer forma, vamos até Tóquio com esse carro — vai demorar bastante. Talvez nem cheguemos a tempo do jantar.”
“Sim.”
“Além disso, eu só ouvi partes da história pelo Jou e pelo meu irmão. Gostaria de ouvir tudo de forma organizada.”
“Ah, entendi. Então… posso falar do meu ponto de vista. Se isso estiver tudo bem.”
Takeru tomou um gole de água da garrafa PET antes de começar a falar.
“No começo era um acampamento de verão. A escola do meu irmão ia para as montanhas nas férias, e nossos pais acabaram se falando por alguma razão. Foi assim que eu também acabei participando.”
Rui começou a ouvir a história daquele verão que parecia, ao mesmo tempo, longo e curto.
7
“E Genebra, como foi?”
Koushiro perguntou.
Taichi respondeu enquanto apoiava as mãos atrás da cabeça e olhava para cima.
“Ah, aquilo lá… aqueles velhotes espertalhões. Mas bem, a família da Catherine-san ajudou a contornar a situação.”
Catherine era uma mulher que Taichi conheceu no final de 2002, quando foi a Paris pela primeira vez. Ela tinha Floramon como Digimon parceiro e parecia vir de uma família com influência no meio político e econômico francês.
Taichi havia acabado de voltar após ser chamado como testemunha para uma comissão de direitos humanos da ONU.
O número de crianças com parceiros Digimon crescia em ritmo de duplicação a cada ano.
Quando ainda eram poucos, foi possível criar áreas de convivência dentro de propriedades de famílias ricas de Partner Humans — especialmente nos Estados Unidos e na Índia — usando grandes jardins e fazendas como locais de moradia.
Antes que a atenção pública se tornasse inevitável, esses espaços foram gradualmente sendo transferidos para o próprio DigiMundo.
Provavelmente, o DigiMundo tinha uma extensão semelhante à da Terra. Nele não havia humanos, mas existiam diversas estruturas utilizáveis. Dependendo da localização, era possível acomodar um grande número de pessoas sem problemas de moradia, água ou alimento.
Embora houvesse casos em que Digimon perigosos se aproximavam dessas áreas, ali estavam apenas crianças acompanhadas por seus parceiros Digimon. No mínimo, sua própria segurança podia ser garantida.
Assim, surgiram algumas zonas de proteção. E, com o passar das gerações após Daisuke e os outros, aqueles que já estavam na faixa da universidade passaram a se revezar na administração desses locais.
Como esses jovens também não viviam constantemente com seus parceiros Digimon, havia um aspecto positivo: podiam ir ao DigiMundo com frequência e passar tempo com eles, o que trazia satisfação.
Com o aumento do número de crianças resgatadas, as atividades de resgate de Taichi e dos outros começaram a atrair atenção, ainda que de forma discreta.
Do ponto de vista da sociedade humana, surgiram até suspeitas de que eles seriam sequestradores. Nesse contexto, houve contato da ONU, e Taichi acabou indo como representante a uma reunião secreta do comitê de direitos humanos.
E, de alguma forma, conseguiram o reconhecimento da ONU — ainda que de forma não oficial.
“Mas, ficar lá tendo que usar roupa formal o tempo todo também era bem sufocante…”
Agora Taichi estava com seu habitual visual descontraído de moletom.
“E ainda tinha toda a parte de ter que ficar parado no avião na ida e na volta por horas…”
“Pois é, normalmente vocês sempre vão e voltam pelo portal do DigiMundo, né.”
Miyako respondeu, pensando que, apesar de ele reclamar como se fosse um incômodo, no fim era bem a cara do Taichi conseguir lidar com aqueles adultos complicados e dar um jeito neles.
“Mas voltando àquela história…”
Taichi direcionou o olhar levemente para Koushiro e Menoa.
“Já perdeu a conta? Quantas pessoas vieram dizer que tinham parceiros Digimon antes de nós?”
“Pessoalmente que encontramos, cinco. Só ouvimos falar de mais três… não, talvez quatro.”
“Não é muito preciso pra alguém como você, Koushiro.”
“É que, somando tudo, passa de oito pessoas. Nossa geração tem oito. Mas, ao calcular pelo aumento posterior, o número antes disso deveria ser sete.”
Koushiro fez uma pausa, como se o próprio dado não encaixasse completamente.
Koushiro e Taichi haviam encontrado os Digimon em 1999. Naquele ano, apenas os oito deles surgiram como novos PHs (Partner Humans). Depois disso, o número vinha dobrando a cada ano: em 1998 eram quatro, no ano anterior dois, e em 1996 apenas um — totalizando sete pessoas no passado.
“Mas se o número passa de oito, então a conta já não fecha… e, além disso, até o próprio ano em que dizem ter conhecido os Digimon já é estranho.”
“Foi por isso que o Izzy sugeriu a hipótese de que talvez nós tenhamos vindo de mundos paralelos.”
Menoa completou a ideia.
“Pode ser que eu e as outras pessoas também venhamos de mundos diferentes entre si.”
“Se dizem que o primeiro encontro com Digimon foi antes de 1995, isso entra em conflito com o que temos aqui.”
O exemplo citado por Koushiro não se referia a Menoa ou Rui, mas a outras pessoas.
“E se forem quatro pessoas, isso complica ainda mais.”
“Na prática, só uma pessoa realmente afirma isso.”
E uma dessas “quatro pessoas” de que Taichi falava estava, naquele momento, em um quarto de hospital, ao lado de outra pessoa que dormia profundamente.
8
Um sanatório localizado em uma colina em uma península na província de Kanagawa. Cercado por floresta e um tanto isolado da cidade, poucas pessoas o visitam. Embora seja chamado de “sanatório”, trata-se apenas de um nome informal; o local possui um nome oficial de hospital, mas, há muito tempo, os idosos que frequentam o lugar continuam chamando-o assim.
Apesar de o prédio ser relativamente pequeno, há quartos de internação. No entanto, há dois anos, apenas um único homem permanece ali, deitado em uma cama, em estado de inconsciência contínua.
“O quê? O que você acabou de dizer?!”
Himekawa Maki apertava o botão do chamado de enfermagem enquanto falava com o homem na cama, Nishijima.
A porta do quarto se abriu de repente, e uma enfermeira de cabelo arrepiado, mal preso sob uma touca, entrou apressada.
“O que aconteceu?”
“Ele falou agora. Parece que recuperou a consciência.”
“Vou chamar o médico!”
A enfermeira saiu apressada, mas a consciência de Nishijima não voltou imediatamente.
Aquele homem, Nishijima, teria sido o professor da turma de Taichi quando eles estavam no ensino médio. Mas aquela era apenas uma identidade falsa; na verdade, ele era um investigador ligado a uma agência governamental. Ele também já tivera um parceiro Digimon.
Após o longo incidente em que Taichi e os outros se envolveram, ele deveria estar morto.
Quem contou isso foi a mulher de roupa simples que vinha acompanhando-o o tempo todo, Himekawa Maki. Ela também pertencia à mesma organização e igualmente tinha tido um parceiro Digimon. Segundo ela, havia mais duas pessoas — ao todo quatro “Digiescolhidos”.
Mas o que Maki relatava sobre o passado entrava em conflito com a hipótese de Koushiro.
Mesmo que o número de quatro pessoas antes da geração de Taichi estivesse correto, havia um problema: a diferença de idade era grande demais, superior a cinco anos.
Alguns anos atrás, Himekawa havia desaparecido na escuridão, e sua memória havia sido interrompida naquele ponto. Quando sua consciência retornou, não havia mais qualquer registro de uma organização à qual ela pertencesse — mas ela descobriu que Nishijima, que acreditava estar morto, ainda estava vivo. Porém, ele estava em estado de coma.
Ao relatar tudo o que sabia no hospital onde ele estava, não ficou claro por qual caminho a informação se espalhou, mas acabaram sugerindo que ela fosse transferida para aquele sanatório. Ela mesma passou a alugar um pequeno quarto nas proximidades e a visitá-lo regularmente.
Ela não sabia se suas memórias eram reais ou se havia sido deslocada para outro mundo muito semelhante. De qualquer forma, a chave para entender tudo estava em Nishijima — e apenas o fato de ele despertar poderia trazer respostas. Assim, ela apenas esperava por esse momento.
O sanatório não era antigo apenas em sua estrutura; o próprio diretor era bastante idoso. O médico jovem que havia vindo junto com Nishijima assumira a posição de vice-diretor e mantinha o funcionamento principal do local.
“É sério isso, Motomiya-kun?”
Kido Shin, o irmão mais velho de Kido Jou e vice-diretor do sanatório, girava parcialmente na cadeira, olhando de lado sem se levantar.
Ajustando levemente o ângulo de seu gorro de enfermeira — um acessório que já era pouco visto hoje em dia —, Motomiya Jun, irmã de Motomiya Daisuke, respondeu.
“É verdade mesmo!! É o quarto 104, rápido—”
“Antes disso.”
Shin apontou para um canto da sala.
“Você pode pedir para o seu Digimon não ficar andando por aí?”
“Ah~~~ Codochan!”
Jun pegou o Digimon no colo.
“Mesmo que quase não venham pessoas aqui, ainda assim tem pacientes que se assustam ou ficam incomodados, e começam a surgir rumores estranhos…”
“Sim, sim, eu entendi!”
“Não é que ele seja um mau Digimon, é só… a aparência dele, sabe.”
Era um Digimon ainda pequeno, mas com formato de aranha.
“Isso! Ele não é um mau garoto! Então fica quietinho aqui, tá?”
Jun o escondeu debaixo de uma prateleira e fechou a tampa. Quando se virou novamente, Shin já estava com um smartphone na mão.
“De qualquer forma, preciso entrar em contato com Jou.”
9
“Ele disse pra eu ir direto para o sanatório.”
Kido Jou falou com Gomamon dentro da grande bolsa que carregava.
“Bem, se foi o Shin nii-san que chamou, não tem muito o que fazer, né? Mas… pra quê será?”
“Parece que o Nishijima-san pode ter acordado.”
“Aquele cara que estava em coma esse tempo todo?”
“Bom, hoje nem está tão corrido assim, então até que foi bom.”
Jou era médico residente. Como trabalhava no hospital do pai, tinha certa flexibilidade — ou melhor, seu pai organizava as coisas de forma a facilitar esse tipo de deslocamento, pensando nele como um dos Partner Humans e tentando dar algum suporte dentro do possível.
“Queria chegar antes do anoitecer…”
Ele ajustou a bolsa no ombro e seguiu em direção à estação.
10
“Disseram que o Nishijima-san recuperou a consciência.”
Em uma das áreas de proteção existentes no DigiMundo — uma construção de concreto isolada em um planalto tranquilo — Takenouchi Sora falou isso para Yagami Hikari.
Sora vestia um boné esportivo azul, camiseta de manga longa em tom rosa claro sobre outra camiseta, além de jeans e um casaco de manga longa amarrado na cintura. Tudo parecia preparado para ser emprestado a alguém caso fosse necessário em uma emergência.
Hikari usava um moletom tipo vestido, com um Digivice dentro de uma pequena bolsa presa ao corpo. À primeira vista era simples, mas por baixo havia uma blusa de três quartos e um short saia, então até mesmo o vestido poderia ser usado como manta se precisasse.
O edifício onde estavam parecia pequeno de longe, mas ao se aproximar revelava-se surpreendentemente grande — como se várias construções diferentes tivessem sido unidas.
Os três irmãos que tinham Shakomon como Digimon parceiro, vindos de Hong Kong, disseram que o lugar parecia uma espécie de “edifício labiríntico em ruínas” que eles conheceram antes de terem idade para se lembrarem, e passaram a chamá-lo assim.
“Cidade Murada de Kowloon.”
A construção lembrava isso.
O trabalho de trazer água de um grande lago localizado um pouco acima do planalto teria exigido normalmente muitas pessoas, mas graças ao esforço dos três irmãos e dos Shakomon, foi concluído em um período surpreendentemente curto.
Isso acelerou o transporte de crianças do mundo real para essa área de proteção.
Era algo que ocasionalmente acontecia no DigiMundo: aquele prédio também podia utilizar energia de origem desconhecida, cuja procedência ninguém conseguia explicar bem.
Graças a isso, cerca de trinta pessoas que viviam ali podiam levar uma vida relativamente estável.
No entanto, como a estabilidade ainda era questionável, foram instalados painéis solares e baterias de armazenamento, além de um computador para comunicação com o mundo real, que ficava naquela sala.
“Parece que ele voltou ao normal bem rápido…”
“Se for sobre o Nishijima-san, acho que é melhor avisar a Mei-san.”
“É verdade… afinal, eles são do mesmo grupo.”
Mochizuki Meiko, conhecida como Mei, tinha a mesma idade de Sora. Ela não possuía um parceiro Digimon, mas havia se estabelecido nessa área de proteção e cuidava das crianças que viviam ali.
Ela tinha memórias em comum com Himekawa Maki e Nishijima Daigo. Segundo essas lembranças, eles teriam vivido diversas experiências junto com Taichi e os outros. Porém, Sora e Hikari não possuíam nenhuma recordação disso.
“Então… vou chamá-la agora.”
“Ah, espera. Sobre o Nishijima-san…”
Sora a interrompeu.
“Só… transmite uma coisa pra ele. O Nishijima-san disse…”
Sora parecia hesitar — algo raro, o que Hikari percebeu imediatamente. E logo entendeu o motivo.
“O Oceano Negro…”
“Isso… quer dizer… o Oceano Negro mesmo… não é…?”
Hikari não conseguiu se mover de imediato.
11
“Se for aquele oceano…”
Rui, que até então apenas ouvira a longa conversa dentro do carro, finalmente falou.
“Eu acho que também já fui lá. Ou melhor… tenho a sensação de que fui. Não consigo lembrar com clareza.”
A história que Takeru contava — sobre sua experiência na infância — já se situava no segundo grande incidente, em 2002. Era um período que ia da primavera até o fim do ano. Agora, no início do verão, ele falava sobre quando foram a um lugar que não era o DigiMundo comum.
“Eu também só fui lá uma vez, na prática… mas fiquei com uma sensação muito ruim o tempo todo. Naquela época, o portal se abriu de um jeito totalmente irregular.”
Uma cidade à beira-mar envolta em névoa constante, como se estivesse sempre sob uma luz apagada.
“Não fomos só eu e a Hikari-san… o Ken também teria ido antes disso, mas ele também diz que não lembra direito. Acho que o Daisuke e os outros só viram através do portal, não chegaram a atravessar de verdade.”
“Um lugar que não é aqui… e também não é o DigiMundo. Será que existem outros mundos assim?”
“Talvez a cidade onde você deveria ter vivido também faça parte disso.”
Shuu entrou na conversa a partir do banco do motorista.
“Se for isso, até fico um pouco com inveja. Eu só fui uma vez ao DigiMundo… e mesmo assim foi bem rápido.”
Rui ficou surpreso.
“Eh? Shuu-san também foi ao DigiMundo?”
“Sim, mas foi coisa de nada. Bem pouco mesmo.”
“Shuu-san, essa história vai complicar as coisas. Melhor deixarmos isso pra depois.”
Takeru puxou a conversa de volta ao rumo principal.
“Posso continuar a história? Naquele Oceano Negro tinha um Digimon bem estranho… ou melhor, nem sei se aquilo era realmente um Digimon.”
A fala de Takeru era calma, quase tranquila demais, como se estivesse escondendo algo por trás disso. Mas Rui apenas continuou ouvindo em silêncio.
A história que Takeru contava — sobre Taichi, Agumon e os outros — era suficientemente envolvente para prendê-lo por completo.
Mas então… e ele?
E aquilo que ele próprio havia vivido.
E suas memórias.
(Escute mais um pouco.)
Uma voz soou dentro da sua cabeça.
(Vai chegar um momento de pausa. Fazer perguntas depois disso ainda vai ser cedo demais.)
Essa não era a primeira vez. Há alguns dias, aquela voz vinha aparecendo de tempos em tempos — e foi guiado por ela que Rui acabou indo até o laboratório de Koushiro.
“Quem… é você?”
(Olha, agora é a melhor parte. Você vai entender sobre Ichijouji Ken.)
Era isso mesmo. Até então, o Ken que aparecia na história de Takeru era bem diferente do Ken que Rui conhecia — alguém sempre calmo, gentil, quase distante de qualquer conflito.
E agora essa diferença parecia prestes a atingir um ponto de virada importante.
As perguntas poderiam esperar.
Rui apenas ouviu.
[1] O trecho explora um jogo de palavras baseado na sequência numérica presente em topônimos com “-nohe” na região de Aomori. A ausência de “Shinohe” (四戸) se relaciona à leitura “shi” (morte), frequentemente evitada em japonês. Além disso, “Herai” é associado foneticamente a “Hebrai” (hebraico), sugerindo de forma especulativa uma conexão com lendas locais sobre a vinda de Cristo ao Japão.
[2] Ichijouji Ken, de Digimon Adventure 02, aparece em Digimon Adventure 02: Tag Tamers em uma versão anterior à de sua fase como Imperador Digimon, sendo retratado ainda como um gênio solitário e batalhando contra Ryo Akiyama.
O texto completo em japonês está no blog do Kakudou e pode ser encontrado aqui.
Hip hip hooray, Reina✨✨
Dangerous Fandom Ep#29
Beatbreak episode 26:
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Hatsune Terriermikumon



