Como havia dito, seria aqui registrado um pouquinho da história de alguns dos colaboradores principais na materialização deste projeto de blog.
Será contado, pelas reminiscências de minha memória viva, como acabamos vindo a nos conhecer e a “co-lavorar” juntos. Unindo propósitos comuns, partilhando alegrias , afinando as comunicações, traçando alguns objetivos e desenhando sonhos, manifestando projetos do etéreo ao palpável, explorando novas possibilidades. Num natural processo de co-criação, de partilha, das paixões comuns e de uma forma de vida em sintonia.
Há um lado cômico neste encontro com a oficina 6 - que mais tarde vim a saber que era o Beto!
A Manu, grande amiga da Lelê, veio-me as vésperas do aniversário de seu namorado, Curió, pedir uma indicação de shaper, pois queria lhe oferecer uma prancha de presente. Pediu-me recomendações de alguém que fizesse uma prancha que se encaixasse no perfil que ela estava à procura, algo que tocasse o “retrô”, mas ao mesmo tempo tivesse um “q” de moderno-performático. Fiz minha busca, no arquivo interno e no que se dispõe nas mídias webs e afins... Tinha algumas referências possíveis (e me surpreendeu não ter encontrado tantas) - seria falta de repertório, ou uma real falta de ofertas? - num país tão grande, tão criativo, tão abundante... - só poderia ser...😊 Enquanto partilhava algumas das referências enconradas, ela parecia não se satisfazer realmente com nenhuma em específico, até o momento em que ela vem até mim e pergunta-me: “ o que achas da Oficina 6?” – até então nunca tinha ouvido falar, assim como certamente desconheço uma infinidade de talentosos shapers espalhados por esse imenso país. Imaginem: de norte a sul deste vasto território, quantas mãos e mentes não estão esculpindo suas obras de arte, das mais variadas formas e modelos... questão de curiosidade e trabalho de pesquisa, e obviamente sincronismos.
Fato é que nunca ouvira falar na Oficina 6, menos ainda que se encontrava numa cidade que até então era me praticamente, quase que absolutamente desconhecida, especialmente aos olhos nus e pés pisando em suas ruas e vielas, a grande cidade de São Paulo. Bref, Manu me passou a página de instagram e fui lá expandir minha busca, meus horizontes, me aventurando na web... as fotos eram super bem feitas, tinha um lado clean, de trabalho detalhista, com certa “simetria” digna de designers (lembrou-me muito o projeto da FlyBlackBird do Pedro Falcão), Os modelos e outlines me pareceram realmente coerentes , as combinações de cores das pranchas, os detalhes e acabamentos, tudo vibrava um extremo bom gosto e possuía traços de originalidade e refinamento (digo parecer pois no virtual nunca se sabe realmente né?). Não aguentei e dei aquela “reagida”, aquela piscadela de olhos despretensiosa, do tipo : “estou de olho no teu trampo, que bonito!’ – e obviamente toda ação gera uma reação...
Começamos a trocar ideias, papo vai papo vem, e ele gentilmente, generosamente, e até cero ponto, surpreendentemente me propõe algo:” se a Oficina 6 fizesse uma prancha pra ti, qual modelo escolherias?” Por naturalidade, fiquei super entusiasmado e ao mesmo tempo perdido, que pergunta difícil pra se fazer né? - Cada escolha uma renúncia – Tá, mas qual?
Naquele momento, vinha dum duro processo de inflamação, pós covid, e estava realmente fora de forma. Lembro-me de na véspera ter surfado um mar bem tubular no posto 8 de Ipanema, e, por falta de remada, prancha, ter perdido alguns bons tubos possíveis. Estávamos nos aproximando do Outono e sabia que iria começar a temporada de ondas mais consistentes, e pensei que uma prancha que facilitasse esse processo de “volta à base” seria necessária. Lembrei-me igualmente do comentário do Cabeça, dizendo que gostava de me ver surfar em monoquilhas, o que soava como grande elogio e incentivo. (Cabeça é um surfista muito inspirador, com estilo e personalidade única, alguém que forte admiro e respeito) Nessa dada conjuntura, pensei: vou tentar “combinar todos esses fatores: uma prancha com remada, que tenha segurança num mar maior ou em ondas tubulares, que combine com esse surfe mais “clássico”, uma prancha harmônica ... e naquele vasto “menu” de possibilidades, identifiquei especialmente com o nome do modelo: “Gyspy Mid”. (tinha uma foto de uma 7´´ lindíssima)
Começou o processo de devaneios e detalhes, ajustes no outline e medidas, set up de quilhas, a questão das cores, logos, laminação, polimentos, ... bom, aquele “árduo” e divertido processo de criação, ponderando as tais das escolhas e renúncias, sintonizando, pesquisando, sentindo, experimentando - tudo que pode envolver a concepção de uma prancha!
Chegamos afinal nesta 7’2, Gypsy Model.
Beto deu-me o prazo. Meu lado “zen” dizia: sem pressa, no teu tempo, sem stress, faz tranquilo, leve o tempo que levar; e meu lado “ser-humano-comum-ordinário-como qualquer um-como eu mesmo” dizendo: não aguento mais! quero ver essa prancha! Vê-la, tocá-la, senti-la, quero surfar com ela, pegar tubo, dar cutback, deslizar, viver e sonhar... foi aquele processo de lidar com a expectativa e ansiedade... Obviamente, covid time é covid time, e no caminho tiveram as suspeitas de corona, o que fez atrasar um pouquinho, o resfriado do laminador (já estou meio que inventando e/ou exagerando). Verdade é que nem ligava pro calendário, a vida que seguia, e o Beto sempre muito atencioso e paciente, (mantendo-me sempre informado sobre as etapas do processo), mais que shaper quase um terapeuta. Eu ali, respirando fundo, respirando pela “barriguinha”, exercitando e procurando colocar em prática todos os recursos disponíveis nos meus “iogues saberes” e outras técnicas.
Claro que a história sempre tem seus “desvios de órbita”.
Fui para São Paulo, e “coincidentemente”, o espaço onde o Beto “real” estava desenvolvendo suas pranchas era no mesmo bairro onde vivia minha namorada. Já por ali passara, frente a “Shaper´s Co,” algumas vezes antes da porta ser aberta e então acontecer este encontro. Por fim nos conhecemos, vi algumas das pranchas que estavam ali disponíveis para pronta entrega, falamos sobre um pouco de tudo, surfe e pranchas predominantemente, e no final quase “levei a Gypsy Mid branca 7´que tava na foto do instagram. Mas contive a ansiedade e esperaria mais o tempo necessário pra 7´2 ficar pronta, do jeitinho que fora pensada e projetada.
Acabei saindo com uma prancha pra testar, uma singlefin bem maneira, sem longarina, uma espécie de egg que já era usada, mas parecia como nova. Fiz um ensaio fotográfico no meio de são Paulo com ela, de encantado que estava: pendurei-a nas árvores da babilônia, no meio das avenidas e concretos, carros e prédios - passeava com aquela prancha “oficina 6” feliz e contente! Surfando de alegria com a “prancha que não era a minha”.
A história se alonga, pois abri o baú da memória e não estou colocando filtros, apesar de deixar detalhes pra traz, como de certo! Levei-a até Ilha Bela e acabei não a levando pra água. Passamos o fim de semana por aquelas bandas, mas nem mesmo a experimentei! Tudo isso pra dizer que conheci o Beto, trocamos altas ideias, peguei uma prancha pra passear enquanto esperava a “Gypsy” ficar de fato pronta. (tem o episódio dela ter voado do rack no dia que chegou pronta da laminação, estória quase novelesca, totalmente inesperada, mas possível – pois de fato ocorreu, um leve “acidente de percurso pra carregar ainda mais a história desta prancha, tão esperada, enfrentando covid times, ventos e ventanias, e toda uma série de eventos..)
Estava lá a prancha, intacta, sólida, caprichada! Carregando nela todos os detalhes desta história, desde a primeira mensagem que trocamos até aquele real encontro, fiquei encantado. Vi nela toda a dedicação e o carinho colocado pelo Beto naquela obra. Estava no meio de São Paulo já surfando nas ondas da imaginação, imaginando quais quilhas poderia usar, qual mar iria estrear, que linhas poderia vir a fazer... ela viajou até o Rio e a estreei num Grumari pequeno mas bem perfeitinho. Desde a primeira onda já a senti-a no pé, percebi que ela era exatamente aquilo que idealizamos juntos, e ali estava materializando-se. Num momento de desfrute, numa marola com amigos queridos, a Gypsy sob meus pés, cortando as ondas, planando sobre as faces móveis daquele instante.
Como é a vida, é ... da mensagem que a Manu me mandou até o próximo swell. Quantos encontros e desencontros, quantas aventuras, quantas linhas e curvas, sonhos, realidades, pessoas, um amontoado de experiências... a corrente não acaba, o fluxo continua, novas e outras estórias, outras pranchas, outros projetos, outros encontros, fica essa foto, num dia grande do pontão do Leblon, feita pelo Luis Blanco, feliz de ter vivido isso tudo, feliz por ter conhecido o Beto, a Oficina 6 e tudo mais que se sucedeu, vem se sucedendo... ao infinito, ao eterno... além