Tentativas e decisões difíceis, e como falhei em todas elas
Talvez a coisa que mais fiz em toda a minha vida tenha sido tentar.
Tentei agir menos estranha quando criança, e assim eu poderia ter amigas, deu certo por um tempo, até entender que nunca fui querida ou bem vinda, e tal percepção só foi alcançada quando o destino me quis longe delas, e eu me vi pela primeira vez como sempre fui: sozinha.
Tentei ser uma ótima filha após perceber que não, eu não teria escolhas sobre meu cabelo, roupas ou fases esquisitas que adolescentes geralmente tem. Continuei tirando boas notas como sempre fiz, queimava a cabeça em um lugar onde não me queriam, calada como eu deveria ser, não parecia tão difícil. Até a primeira recuperação aos 13 anos e ver tudo ir por água abaixo, vendo que falhei na única coisa que fazia bem, na minha única obrigação.
Tentei ficar mais bonita, afinal, eu deveria ser válida em algum âmbito da minha vida curta. E então, eu desenvolvi anorexia aos 14 e nunca mais soube como realmente é o meu corpo na frente do espelho. Falhei porque, por mais que viva atuando uma autoestima inabalável, todas as vezes em que me arrumo para sair de casa, sinto que estou apenas passando batom em um porco, o mais feio do mundo. E provavelmente hoje esse seja o menor dos meus problemas.
Tentei ser uma adulta brilhante, mas a indecisão pareceu fechar meus olhos aos 17 e talvez a minha principal falha tenha sido ao atingir os 18, no momento em que percebi que a endometriose realmente tinha potencial de me incapacitar, e aí me culpei por não tê-la descoberto antes. A lembrança de dar adeus a um emprego que consegui tão facilmente em apenas dois dias talvez nunca me deixe em paz. Falhei também em todas as tentativas seguintes de um trabalho.
Tentei sair do pior momento da minha depressão sozinha, no fundo eu sabia que aquilo não seria possível, mas não é como se eu tivesse outra escolha. Tentei fugir de tudo o que maltratava a minha mente e achei que tinha conseguido. Mas a verdade é que não dá pra simplesmente sair do inferno antes de lidar com os demônios que consomem sua mente. Acreditar nessa fuga apenas prolongou meu sofrimento até eu perceber que não havia ido embora daquele inferno em que eu vivia, agora eu estava o carregando comigo e ele me acompanha até os dias de hoje.
Na verdade, acredito que minha maior falha tenha sido lá atrás, desde o meu nascimento. Crescer e pensar como uma adulta foi me fazendo entender que minha mãe não quis uma filha, quis mais uma tentativa de ter meu pai e criar a família que ela sempre sonhou, a família que ele estragou quando não pensou duas vezes antes de engravidar outra mulher enquanto ela mesma passava uma gestação difícil. Deve ter sido terrível casar, engravidar e logo depois se contentar com migalhas de afeto e ser a outra da pessoa a qual você confiou suas primeiras vezes, seus sonhos e até sua família, enquanto o assiste transformar sua amante em esposa e mãe de sua grande família. Mas o quão cruel é confiar o conserto de uma família estraçalhada que talvez nunca tenha existido fora de um imaginário a uma criança que cresceria com o carma de ser fruto de uma confusão? Se meu irmão não foi suficiente para que ele pensasse duas vezes, por que eu seria tantos anos depois?
Obviamente, minha história não tem vilões, eu estou longe ser uma mocinha. Isso não existe na vida real, e se Deus existe, ele provavelmente sabia o quanto eu questionaria sua existência e ações desde criança na igreja, então me castigou me fazendo nascer de um pecado e crescer em meio a mentiras, assim eu mesma encontraria formas de estragar a minha vida, porque fazer tudo errado é mais fácil quando se nasce para falhar. Mas é fácil pensar simples assim e meus pensamentos nunca foram simples. Eu, na verdade, quando descobri a verdade achava que Deus não gostava de mim, eu nasci da desordem afinal, da traição. Hoje em dia eu não acredito em religião, mas se Deus é real, provavelmente ele não gosta de mim pela minha origem, mas acho que Jesus me acolheria.
Felizmente, de alguma forma, aprendi a não terceirizar minhas culpas. Minha falhas são minhas, as tentativas frustradas também e lidar com elas é o que me resta, ainda que reconheça que minha maior falha não venha de uma tentativa minha, mas de decisões tomada antes de eu nascer. E o que me resta é lidar com esse inferno que acompanha os meus passos até o dia em que eu consiga dar um fim nele, ou recorrer ao caminho mais fácil dar um fim à origem dele, eu.















