era quase meio dia. ele não esperava ser trocado de time em tão pouco tempo na unidade administrativa – muito menos voltar para a gestão de seu antigo chefe –, mas o que mais lhe surpreendera fora o fato de ter sido colocado no time de tecnologia do hospital. ele não era habilidoso na área, o que o fazia concluir que o único motivo de ter sido transferido era o fato de estarem sem profissionais para as atividades documentais.
e isso, especificamente, não era surpresa, pra ser sincero. não era novidade pra ninguém não haver qualquer pessoa disposta a encarar o desafio de conviver com uma pessoa tão insuportável quanto schmidt. era um absurdo que alguém tão estúpido, incompetente e moralmente detestável como ele fosse gerente de uma das unidades organizacionais. william comera dobrado na mão dele no ano anterior, sendo alvo de piadas, microagressões morais e excessos de demanda por parte do homem apenas por não corroborar com nenhuma de suas duvidosas decisões gerenciais – que claramente usavam "quem não está comigo, está contra mim" como base filosófica. como não podia ser demitido sem provas de mal comportamento ou incompetência, a única saÃda de schmidt era infernizar a vida do kang, até que o mesmo desistisse.
o problema para ele, claro, fora que william – apesar de nada resiliente ou paciente – era um homem competitivo e claramente orgulhoso. jamais pediria demissão por um ser humano tão inferior quanto ele, tampouco permitiria que lhe afetasse tanto a ponto de prejudicar seu desempenho. podia odiar o que fazia pra viver, mas isso jamais justificaria fazê-lo mal-feito. e essa constância e disciplina simplesmente consolidaram a derrota de schmidt, pelo menos contra esse oponente especÃfico. a mudança de william ocorrera justamente porque não era alguém fácil de dobrar ou prejudicar.
entretanto, ao chegar no novo setor, o kang teve total certeza do porquê não estar sofrendo qualquer tipo de represália: schmidt tinha um novo alvo. foram necessárias apenas quatro horas após sua apresentação diante à equipe para que percebesse a forma como jaeho – ou jay, como parecia ser chamado – vez ou outra era tirado para cristo, ou como schmidt o testava, assim como fazia com ele anteriormente. isso o irritara profundamente, principalmente porque jay parecia pouco reativo, o que podia dar a impressão de uma maior liberdade de schmidt perante suas atitudes.
"como eu disse, deverÃamos comer fora hoje!" enquanto automatizava algumas planilhas, o kang acompanhava o convite do gerente se estender à equipe. "wayams, ramirez, brida, lee, o que vocês acham? podemos ir à quele restaurante chinês da terceira avenida. soube que eles tem uma carne de porco incrÃvel. não recusem meu convite, estou dizendo que irei pagar tudo! e sarah, não precisa se preocupar com a dieta dessa vez. todos podem dizer que o seu peso está indo pro lugar que deve ir." a animação na voz grave era aparente, tanto quanto a malÃcia, e isso deixou william enjoado, mesmo que a equipe houvesse rido e ignorado o desconforto da única mulher no grupo. "kang, deveria ir com a gente dessa vez, deixe de ser entojado. essa sua cara feia me deixa estressado." ralhou, ainda que bem humorado, como se tivesse muita graça. quando perguntado, jaeho fez-se presente na sala, com caixas. provavelmente eram os notebooks e computadores novos a serem distribuÃdos – o que provavelmente não era função dele, desde que tinham estagiários para realizarem as trocas de hardware. "ah, você está aÃ, hwang. estamos saindo pra almoçar. até te convidaria, mas aposto que você deve estar cansado da comida do seu pessoal lá." fez um gesto de tanto faz com a mão, provavelmente deixando jay confuso. o kang sentiu as orelhas e a nuca queimarem de ódio. "além do mais, você tem que entregar esses equipamentos nos setores. tem bastante trabalho pra fazer, então é melhor não ficar aà sentado de frente pro computador fazendo corpo mole. é por isso que está com a sua agenda atrasada? tudo que você tem feito é isso, você vai sentar na graxa se continuar assim." a ameaça disfarçada de conselho foi a gota d'água. "kang, levante essa bunda daà e vamos almoçar."
william realmente levantou, mas não pra almoçar. tentando não demonstrar toda a perturbação que schmidt teve a capacidade de causar em menos de cinco minutos, o homem calmamente abriu os botões da camisa social e arregaçou as mangas nos antebraços até os cotovelos. caminhando até jay e ignorando o gerente, pegou seis das caixas retangulares que estavam empilhadas em uma das mesas, fruto de duas viagens que jaeho havia feito para trazer tudo. "como você disse, tem bastante trabalho a fazer. pelo menos alguém da equipe deveria ajudar ele a fazer um trabalho que ele mesmo não deveria estar fazendo, não? até onde eu sei, a agenda do hwang não estaria atrasada se essa demanda não aparecesse do nada no meio da checklist dele. são seus estagiários que deveriam estar fazendo isso." ele prometera a si mesmo que não iria criar problemas com os outros durante aquele ano, mas as palavras que escolhia e a forma com a qual elas saÃam de sua boca sempe o traÃam. a vermelhidão no rosto de schmidt denunciou a indignação dos fatos apontados. william soube ali que escutaria depois.
"tanto faz, kang. não ligo se vem ou se fica aà com seu novo amigo. me chamem pro casamento." o tom grave ainda saÃra afetado, possesso pela insubordinação indireta. "vamos, temos horário de almoço pra cumprir." basicamente intimou a equipe, com todos saindo ao seu encalço. "vamos conversar mais tarde, garoto."
"porco nojento, imbecil incompetente." assim que schmidt e a equipe não se encontravam mais na sala, william praguejou, mesmo que na frente de jaeho. com as caixas ainda em mãos, encarou o hwang. "você. não deixa esse cara tentar pisar em você desse jeito, se ele se acostumar, vai ser o seu fim. você sabe que esse não é seu trabalho, peça aos estagiários dele pra fazerem as entregas." franziu o cenho de leve. "com o tempo, vai perceber que não vale o esforço ser prestativo com ele. schmidt não vai te reconhecer, e nem vai te trazer pro lado dele se você não o bajular e dizer amém pra tudo o que ele diz e faz." explicou, incomodado com a situação. se ele era o tipo de cara bonzinho, ia sofrer ainda mais. "então se você não é esse tipo de pessoa, não tente. você faz mais por você mesmo se armando de razão e cordialidade." suspirou, negando com a cabeça, num sinal de que deveriam esquecer aquilo. talvez o primeiro ele próprio tivesse, mas não poderia seguir o conselho que ele mesmo havia dado porque cordialidade não era bem seu forte, ainda mais quando estava irritado. "agora me diga pra onde devemos ir. vou te ajudar." disse, a última parte bem mais baixo. ele realmente deveria parar de se meter em problemas.



















