Escrevia as cartas como quem estava escrevendo um diário: com um grande anseio de colocar tudo pra fora, de direcionar mil mensagens para mil e uma pessoas, mas que somente ele leria e ninguém mais. Palavras ao vento, em vão. Não que fosse o lugar mais apropriado para se fazer isso, céus, estava num bar de quinta, com uma iluminação pobre e com um cheiro de cigarro barato que contaminava o lugar em cada canto. O karaokê rolava solto, com vocais sofridos e melodias erradas, só que em sua cabeça não havia lugar melhor para se estar e não fazia questão alguma, também, de procurar por algo mais fino ou decente.
Quando terminou todas as suas cartas sem remetentes suspirou profundamente, olhando para o lado apenas para ver um cartaz jogado sobre o balcão do bar: “Perigo!”, dizia as letras chamativas e personalizadas do papel, “Assassino à solta!”. Sorriu, um assassinato seria a melhor coisa que poderia acontecer em sua miserável vida, mas Deus não lhe concederia tal honra tão facilmente assim. Perder a sua vida randomicamente por algum sádico e com problemas psicológicos, provavelmente com alguma questão emocional relacionada à infância... nada seria mais clichê e patético do que isso. E, definitivamente, não precisava de uma humilhação ridícula dessas.
De repente, a qualidade da cantoria no karaokê se alterou; uma voz grave e melodiosa ecoou pelo bar escuro. Era impossível não se sentir curioso para saber quem havia trazido tanta drasticidade ao ambiente. Os olhos negros do jovem garoto se fixaram num cantor misterioso. O sombrio vocalista era alto, forte, um típico padrão de beleza que despertaria a atenção do seu ao redor por ser a réplica de cem mil outros, mas a cópia do que costuma tremer a alma e proporcionar a criação de momentos platônicos absurdos e fictícios. O jovem garoto sorriu. O cantor, quase que no mesmo instante e por coincidência, talvez, lhe direcionou o olhar e sorriu de volta. Olhos familiares com a mesma dor que se encontram e se reconhecem, se saúdam.
- Oh, quem diria - pensou o garoto imediatamente. Encontrar um conterrâneo de dor e de sofrimento. Ao mesmo tempo, porém, se questionou qual outro lugar poderia proporcionar tal encontro de miseráveis.
O cantor desceu do palco após seu impecável e inacreditável espetáculo vocal, dirigindo-se até o jovem garoto, parando bem ao seu lado no balcão. Não trocaram palavras, apenas olhares e uma nova rodada de sorrisos discretos. Sem precisar de mais nada, o garoto tomou o último gole do seu whisky e se levantou, encaminhando-se em direção a algum dormitório destrancado no andar de cima. Não precisou de palavras para que o vocalista pálido o acompanhasse alguns segundos depois, atuando em uma saída que não convenceria a ninguém senão ao seu próprio desejo.
Minutos depois, ambos estavam dentro de um quarto escuro e bagunçado, esfregando corpos que se desejavam com a intensidade de um incêndio, mas que se desconheciam por completo. O jovem garoto, menor que o seu par, beijava o homem com voracidade; queria lhe devorar cada pedaço e saborear da beleza que se matizava na escuridão. O homem, em resposta, utilizava de toques e pegadas violentas, como quem queria trazer o jovem garoto para dentro de si a todo custo. O toque de corpos era bruto, selvagem, mas era exatamente o que precisavam naquele momento, ainda que por razões completamente diferentes.
Roupas caíram pela madeira do chão, sexos eretos se tocavam furiosamente, e a penetração de partes e orifícios enfim ocorreu. A transa desesperada era inspirada inicialmente pela simbologia do número quatro; transaram inspirados no preenchimento de dezenas de orgasmos; transaram depois como a cena de um filme de faroeste, em que o herói-caubói cavalga rumo ao vasto horizonte do sexo; tudo isso enquanto o jovem garoto era enforcado como se tivesse uma corda em seu pescoço, suspendendo-o ao espaço do eterno prazer.
Após um prazer mundano, a aniquilação do tesão, o jovem garoto estava despido sobre a cama, fumando seu cigarro. O homem, aliviado e satisfeito, olhou para si e sentiu a grande necessidade de confessar.
- Sou o assassino da cidade.
O jovem garoto lhe direcionou um olhar de espanto que rapidamente se desmanchou em indiferença. A ausência de reação deixou que a surpresa fosse a única reação do homem que recém havia confessado seus crimes recentes.
Com um riso debochado, o jovem garoto apenas se limitou a dizer:
- Por que deveria? Se um dia perguntarem, diga que eu fui o melhor sexo da sua vida.
O homem lhe direcionou um último sorriso, dessa vez não discreto, mas descarado, puramente sincero. Caminhou e sentou ao lado do jovem garoto. A vontade que sentia, desesperada, de estrangulá-lo havia passado e fora substituída. Seria um crime, um crime de verdade, deixar marcas tão fatais em uma pessoa tão peculiar. Dessa forma, apenas apanhou um travesseiro e lentamente deitou o jovem garoto, pressionando fortemente o saco de penas de ganso sobre a face de sua vítima.