eu estive alguns dias fora de órbita. lá onde eu estava, ouvia pessoas falarem de coisas que me entretinham e outras que me fascinavam. eu saí e vi as luzes da cidade - possuíam o glamour que as propagandas afirmavam; também as pessoas com quem esbarrei tinham coisas legais na bagagem, coisas que cobicei e algumas até tive. e então eu construí o meu castelo, ele era grande e alto e dentro possuía todos os bens e adereços que antes eu só via nas vitrines. chamei algumas pessoas para dentro, fizemos festas que iam até o amanhecer. o problema era só que - eu sabia - amanhecia. e no outro dia as coisas não eram bem como eu recordava, então só desejava que a noite viesse mais uma vez e trouxesse o seu brilho capaz de mascarar e as vozes que abafavam o silêncio. não sei bem dizer quando, não houve um dia específico, mas as manhãs começaram a desmoronar. quando eu descia da cama não havia mais tanto deslumbre, se encontrava alguém a minha voz não evocava a força de antes. o que me pareceu foi que as conversas, os goles, os tragos, não supriam mais. quando me deitava havia uma espiral que se resumia numa pergunta única: e eu, a quem pertenço? e o buraco só crescia. as pessoas sempre perguntam quantos anos você tem, se estuda, trabalha, o que possui. eles só nunca perguntam se você é feliz. me lembro bem que nesse tempo eu pensei que ia vencer por causa do que tinha e de como tinha sabido chegar até ali. era a minha astúcia o meu triunfo, afinal. mas foi só quando me achei jogado no chão do banheiro que percebi que de nada adiantava se eu não sabia mais o que eu era. vaguei por aí e nesse tempo a tristeza foi uma nuvem espessa que ameaçou me engolir por inteiro. todas as noites o breu do meu quarto me lembrava de que não importava quantas pessoas eu colocasse ao meu lado, era naquele momento que a verdade se revelava. e eu vi a angústia nascer nos meus olhos até se tornar grande de mais para eu carregar sozinho. quando ela despencou, arrancou minha esperança e meu vigor, mas não só isso. e quando percebi era como se fosse lama o que me rodeasse. abaixei a cabeça porque não tinha mais para onde olhar, e em fechar os olhos foi que me lembrei de alguém que sempre trazia um sorriso. fiz então a minha prece de lábios cerrados e coração desmoronando, que se Ele ainda me visse, que por favor, por favor me tirasse dali. não só me viu, mas tão certo como pude sentir, me levantei e fui.
a minha bênção foi o seu amor, que de tamanha misericórdia, me recebeu de volta em casa. quando o avistei senti em mim toda a dor de ter partido, mas não encontrei em sua face condenação a me expulsar. apenas se pôs a correr e me abraçou no caminho, e foram seus braços que desfizeram todos os nós e danos que eu mesmo causei. nos seus olhos inundados de graça eu pude constatar: nunca houveram castelos ou riquezas que se comparassem ao seu amor, Deus. e jamais haverão luzes capazes de ofuscar o Sol da Justiça. traz cura em suas asas, tens amor por mim.
sempre que ouço a minha alma perguntar, tenho agora o que dizer sorrindo: e eu, a quem pertenço? eu pertenço ao meu Amor. eu pertenço a Deus. eu pertenço a Deus.