“Ah, a gente controla eles. E nenhum deles vai encostar em você, Alaleh querida, eu te protejo.” Para combinar com a frase, novamente envolveu o corpo da moça com ambos os braços e a apertou em um abraço sem aviso, sorrindo alegremente com o gesto. Sabia sobre a natureza pacifista da moça e seria o primeiro a candidatar-se para protegê-la da violência ao seu redor caso fosse necessário. “Sim, sim, rabanada! É pão, leite e ovos. Não parece muito, mas é uma coisa incrível! Uns semideuses brasileiros vieram e começaram a fazer, então virou moda. Alguma comida do seu país também poderia virar moda. Você sabe cozinhar? O que vocês costumam comer?” Indagou, rapidamente, parecendo uma criança demasiadamente curiosa. “É uma ótima confraternização entre chalés, realmente.” Assegurou. Antes do Acampamento, as lembranças natalinas de Trigger não eram muito boas. Na verdade, ele as guardava em forma de borrão no fundo da mente, não querendo acessá-las novamente tão cedo. Sua família, por assim dizer, nunca fora a mais normal, e no natal não seria diferente. “Hum… É? Talvez um chá de camomila depois. Verdade, você nunca mente… Eu poderia ter utilizado esse pedido de forma mais conveniente… Enfim, que se dane. Pois é, eu que não tenho paciência para quem está começando. Poxa, às vezes eu esqueço que você não bebe. Desculpa aí.” Ele, de fato, se esquecia com frequência de coisas básicas que já havia perguntado para a filha de Deméter. Admirava sua paciência em explicá-las novamente, sem nunca se alterar. A habilidade de conseguir não perder a calma em momento algum era coisa que não possuía, mas classificava como enorme força de vontade. Contudo, a gentileza exacerbada era o que lhe fazia pensar no quão destrutiva ela poderia ser se ficasse com raiva. Duvidava que veria isso tão cedo, mas seria um evento marcante, tinha certeza. “Ah… Como eu vou negar com você pedindo desse jeito, Alaleh? Pode fazer o que quiser comigo, por favor. Meu corpo é seu.” Não necessariamente havia quaisquer outros sentidos na frase, apenas dissera algo sem pensar. Contudo, não pensou em tomar de volta. A expressão de Alaleh contribuiu para a culpa do homem, mas continuou firme em sua decisão. Uma mentirinha não iria fazer a relação toda desmoronar, certo? Ou iria…? Eram nestes momentos que Trigger começava a ficar paranoico. “Você só ia se entristecer com o cenário. Claro, suas habilidades poderiam ter sido úteis na área hospitalar, mas já tínhamos filhos de Apolo bastante capacitados. Era para ser assim, Alaleh. Não era para você sofrer com essas cenas, assim como era para a maioria do Acampamento sobreviver a isso e se fortalecer. Hum… Eu também estou. Apesar de estar estragadaço de birita.” Deu de ombros, admitindo com um sorriso tímido. “Parece legal. Só um pouco triste por você comemorar sozinha. Comemorar sozinha não tem graça. Posso te fazer companhia na próxima. Tipo, sem participar se eu não puder. Só comer uma esfiha enquanto você faz o que tem que fazer. Com todo o respeito e pans…” Semicerrou os olhos, não sabendo exatamente se explicar. Acabou preferindo deixar para lá. “Hum… Eu devo saber, quando o álcool não está no meu cérebro. Mas que coisa chata! Você não pode mentir para eles e dizer que está noiva, sei lá? Chamar um amigo e fazer que nem naquelas comédias românticas?” Sugeriu, sem deduzir que a pequena Alaleh provavelmente nunca seria capaz de enganar sua família dessa forma. Escondeu o riso com o rosto vermelho da garota. “Ok, ok, só porque foi você que pediu.”
— Ay Allah, o que seria dessa pobre e indefesa donzela sem um corajoso guerreiro para protegê-la? — Brincou, rindo com a cabeça baixa. Surpreendeu-se com o abraço, mas não deixou de envolver o tronco de Trigger com os braços finos, deixando que a cabeça se encostasse em seu peito. Estava um pouco envergonhada, obviamente: a presença do outro era um fator para que se sentisse mais tímida nos últimos tempos, mas acima de tudo, McGuinness era seu amigo e adorava tê-lo por perto, mesmo que estivesse bêbado. — Parece simples, mas julgando pelo seu entusiasmo, deve ser realmente muito bom. Me lembre de experimentar esse ano, sim? É uma boa ideia, mas a culinária iraniana é meio... Estranha para quem nunca comeu. Temos bastante ervas e frutas como ameixa e romã. Arroz é praticamente indispensável e costumamos usar carne de cordeiro, peixe ou frango com cebolas também. Particularmente, meu prato favorito é Āsh-e anār, que é uma sopa feita de sementes e suco de romã, ervilhas amarelas, hortelã, pimenta preta, salsinha e espinafre. Pode ter carne também, mas sou vegetariana. — Tentou explicar e, por alguns momentos, tornou-se distante, com os pensamentos regressando nas grandes refeições feitas com a família inteira reunida há anos atrás. Eram sempre muito alegres e, felizmente, fartos depois das colheitas. Doía relembrar aqueles tempos, mas também a lembrava de quem era e, consequentemente, a fazia mais forte. — Certo, combinado feito. Pois é, se tivesse pensado mais um pouco... Mas tudo bem, assim você me conhece melhor, certo? Ah, não tem problema, Trigger. A maioria não está acostumado. — Deu de ombros, realmente nem um pouco preocupada. Tinha paciência o suficiente para explicar seus hábitos diferenciados aos demais, mesmo que levasse várias vezes para fazê-lo. Chegava a ser engraçado o quanto Alaleh e Trigger poderiam contrastar em alguns momentos: além do desapego do homem à religião e a devoção notável da filha de Deméter, ela tinha uma calma quase infinita, enquanto Trigger poderia se enfurecer com facilidade se quisesse. — Não preciso do seu corpo inteiro, só quero o ombro emprestado por alguns minutos, certo? — Riu da escolha de palavras de Markus, não encontrando malícia nelas, mas simplesmente achando engraçada a forma que ele dizia. — Mesmo assim, eu tenho certeza que poderia ser útil em algo... É tão triste ver todo mundo desse jeito, sabe? Preocupados, com medo de perder mais alguém ou se machucar, revoltados... Se eu soubesse que tudo ficaria pior nesses últimos meses, teria ficado por aqui e, não sei... Me esforçado para fazer alguma coisa. — Ela suspirou, desapontada consigo mesma. Era incomum que ficasse daquele jeito, já que Alaleh procurava sempre transpassar positividade aos outros e acreditar que coisas melhores viriam, mas tinha uma abertura maior com Trigger para demonstrar sua insegurança e sabia que ele poderia entendê-la. — Estragadaço de birita? Nada responsável — o murmúrio escapou dos lábios da filha de Deméter com um riso. — É muito legal, sim, e melhor ainda em família. Você poderia mesmo? De verdade? Digo, sei que não entende direito assuntos ligados à religião, então se não for da sua vontade, eu o compreenderei, mas... Seria incrível, Trigger! É claro que pode participar, acho que consigo te ensinar algumas coisas e... Fico muito feliz mesmo se aceitar. Sério. — Se estava triste anteriormente, com certeza não era mais perceptível: o rosto inteiro de Alaleh se iluminara com a mera ideia de passar uma celebração típica de sua crença com Trigger, desde o sorriso enorme até os olhos brilhantes, que observavam o mais alto. — Eu odeio que mintam para mim, então não gostaria de mentir para eles. Acho que é melhor admitir que continuo solteira, por mais chato que seja. — Disse, pensativa. — Enfim, acontece e... Por favor, pense bem sobre o Eid al-Adha. Falo sério, Trigger, sua companhia é o melhor presente que poderia me dar. — Sem nem perceber, acabou voltando ao assunto anterior, empolgada demais para que pudesse se conter.