capítulo 1 (preview do que vai para o wattpad)
ESCURECEU E OS BASTARDOS ENCONTRARAM O CAMINHO DE CASA. É o Cazz em mais um sábado pra zerar a vida. Estamos no Centro Histórico da cidade e, por todos os lados, uma névoa de fumaça deixa o clima meio cinza, mas isso já faz parte da identidade do covil. Embrenhando-se pelos becos e vielas, um misto de Malboro red e tinta fresca penetram até as vísceras. Picharam a fachada de um prédio de quase cem anos com um gigantesco “GOD SAVE CAZZ”, como se aquela placa de mármore na parede não tivesse a menor importância. Essas crianças anarquistas... Ignoram a relevância do tempo e deterioram seu patrimônio. Para elas, só o momento presente existe e, no presente, esse imponente edifício chama-se HALL, onde rola a lendária festa que fez tudo acontecer.
A trinta minutos do reduto anticoxinha, havia um garoto pensando sobre desaparecer. Jogado no chão, com os olhos vidrados no nada e a boca entreaberta, ele torturava-se com questões inadequadas para um moleque de dezesseis anos. Samir sentia tanto. Sentia o corpo e a mente tomados por um cansaço genuíno e sem explicação. Cansou da insônia, de filmes de comédia que não fazem rir, das mesmas músicas em reprodução viciosa. Cansou de tudo e de todos, da cara de enxaqueca do irmão mais velho, da mãe estressada e do pai hipócrita. Cansou de si mesmo. De não saber o que fazer, de ter que responder sobre isso, da sensação de perda. Procurar respostas significava perde-se de si mesmo, violentar sua índole. Então era como se ele negociasse com a sua própria consciência, queria respirar, queria uma janela aberta com vista para o horizonte, um resquício de vida, uma visão que fosse! Mas a realidade claustrofóbica o sucumbia naquele cenário sufocante: um quarto confinado cheirando a café, cheirando a morte lenta.
Samir sofria de um tédio e de um vazio existencial sem cura. Era capaz de ficar horas naquela mesma posição, a portas trancadas, como se estivesse morto. Porque era assim que ele se sentia. Pelo menos nos sábados à noite. Embora o garoto negasse veementemente o desejo de estar em outro lugar e justificasse o seu comportamento arredio como importante característica do tipo de pessoa que ele se autodefinia cheio de orgulho, aos sábados à noite, quando até os cachorros do vizinho latiam em companhia, Sam se sentia um ser menos interessante e mais deprimente. E nessas horas, quando falta uma palavra amiga de incentivo, a tal memória prova sua imortalidade.
"Okay. Morrissey faria isso", o moleque disse em voz alta, e de repente estava em pé, procurando seus calçados. Em menos de cinco minutos o adolescente de aparência inofensiva atravessou uma montanha de papéis recém-rabiscados e deu o fora do casulo. Ele saiu sem chaves, mas deixou um bilhete avisando que estava tudo bem. Anaís era extremamente meticulosa com o filho mais novo, tratava-o como se ele ainda fosse aquele bebê prematuro que os médicos estimaram apenas oito horas de vida. Ela concentrava todas as expectativas nele, sobretudo nesses últimos dois anos e meio. Era um cuidado sufocante. Samir preferiu fugir a enfrentar a reação dela quando o visse saindo de casa disposto a levar a vida de um adolescente normal, pois o filho caçula é o avesso dessa palavra.
Embora pareça banal uma garota charmosa virar a cabeça de um menino pueril, nem Samir estava imune. O nome dela? Ana Julia, uma morena de sorriso meigo que o encantara. Ela meio que marcou um encontro com ele no Cazz, e não teria outra oportunidade, pois Sam era novo nisso e achou que pegaria mal impor condições ao primeiro encontro. Por que aquilo era um Encontro, sabe? A porra de um Encontro no Cazz. Simplesmente não dava pra imaginar o desfecho dessa bizarrice. Samir saiu peregrinando pelo bairro, até que teve a arriscada ideia de matar o tempo no apartamento do seu professor.
– Meu gênio pueril! – Um cara barbudo abriu a porta.
Jimi Joyer, a lenda. Samir fitou o professor esperando uma reação nada afetuosa, mas foi exatamente o contrário. Jimi estava alterado demais para preocupar-se com seus próprios termos de acesso. Sim, todas as regras foram previamente estabelecidas entre eles. Aparentemente, aparecer no seu aposento, do nada, num sábado à noite, era falta gravíssima.
– Sei que não posso aparecer sem avisar. – Sam admitiu com embaraço.
Um espaço mínimo foi cedido para que o moleque adentrasse na intimidade mais-que-privada do seu professor (?). Jimi se envaidecia com esse encargo, sentia-se levado a sério como poucas vezes na vida. Só que os dois apenas conversavam, fumavam e tiravam um som – eventualmente também criavam em parceria. JJ temia que sua má influência contagiasse o garoto e o fizesse um reflexo do que ele mesmo já fora um dia: o maior inimigo de si mesmo.
– Chegou bastante coisa, hein? – O moleque simulou casualidade enquanto passava por cima de embrulhos lacrados do Correios.
O apartamento de Jimi tinha ares de templo. Amplo, acústico e iluminado. Os olhos de Samir ainda estranhavam aquela overdose castanha. Piso e móveis de madeira maciça, poucos, abarrotados por caixas e mais caixas de correspondência. Presentes, materiais para serem avaliados, compras. Embalagens de pizza e garrafas de bebida largadas como se já fizessem parte da decoração denunciavam que a faxineira não passou por lá. Jimi não se importava com a desordem, enquanto Samir organizava o lixo, separava-os seletivamente e liberava espaço para os humanos. Tudo mentalmente, é claro. Ele não ousaria tocar em nada. Questão de educação apenas, pois Jimi não tinha apego por coisas materiais, somente o quarto grande que ele transformou em escritório/estúdio estava a salvo. Lá Samir guardava a bateria Ludwig que comprou economizando o dinheiro que o pai depositava para outros fins, uma guitarra Fender e um banjo – agrados do professor ao pupilo, um violão de seis cordas, uma gaita e o baixo Rickenbacker que trocou pelos seus presentes de aniversário e natal: um Play Station 4 e um Xbox One, respectivamente. Na verdade, Sam não dava a mínima para videogame, mas por algum motivo seu padrasto e o resto da humanidade fazia essa imagem dele. Agradar o pueril é como atirar corretamente um bumerangue. Para muitos, impossível, para caras como Jimi, nem tanto.
– Qual é o rolo? – o professor quis saber de antemão, empurrando a garrafa que segurava no meio do peito de Samir, dando-lhe ordens – Ei, ei. Antes experimente isso.
Samir recuou e segurou o negócio. Estava cansado de saber que aquele cara era doido de pedra. Em todo e qualquer sentido. Jimi é um cabeludo de porte mediano com umas tatuagens loucas de serpentes e revólveres nos antebraços e se veste como qualquer roqueiro depois dos quarenta. Naquela noite, por sinal, usava apenas uma calça de moletom preta. Samir preferia colocar em segundo plano o constrangimento daquela imagem. O garoto foi esperto e burro por preocupar-se em farejar a garrafa antes. Jimi censurou nitidamente.
– Pexote. – Resmungou chacoalhando a cabeça.
Pexote mesmo. Calouro. Esse Samir. Quanta inexperiência. Ainda fez cara de enjoo depois do primeiro gole. O outro tencionou a mandíbula numa reação natural de contrariedade. Sam franziu o cenho antes de soltar a pérola da noite.
– Tem gosto de acetona. – Disse.
JJ ameaçou um faniquito. O cara é um roqueiro incurável, um sobrevivente da geração H, ex-vocalista de uma das maiores bandas de rock do país – da qual foi expulso pelos recorrentes transtornos causados pelo vício. Hoje Jimi pode jurar que está limpo, vive uma vida careta num senhor apartamento dentro do centro da cidade. Mas nunca se livrará daquela cara de gangster que acabou de puxar um – talvez porque ele realmente puxe, talvez. Samir desacreditaria do rock caso encontrasse um dos seus ídolos sendo um cara qualquer. E Jimi era quase que sua referência paterna, o típico faça o que eu digo, mas não faça o que eu faço/fiz. Tanta personalidade que por pouco não devorou o estudante com o seu arroubo de indignação.
– Ah, cara, me respeite. Você interrompe meu sábado pra dizer que vodka tem gosto de acetona?
Era vodka, caramba. E pura. Samir apenas sorri. Aquele sorriso de ludibriar qualquer um que não o conheça o suficiente para perceber que ele não está sendo inteiramente sincero. Às vezes Samir parece mais ingênuo do que é, mas ele não tem culpa por seu ar angelical, tampouco pelo sorriso com dentes pequenos e uma ameaça de covinha nas suas bochechas rosadas. Sam tinha cara de bebê num corpo incompatível, quase um e oitenta, sem projeção muscular, apenas aquele corpo esticado esperando uma definição. Por enquanto não dava pra enquadrá-lo em nada. Não tinha pelos no rosto, logo não era homem, mas também não tinha mais tamanho infantil. Estava na droga do meio termo. Até isso.
– Vai, conta o que te tirou do semiaberto, criança.
Parecia piada Jimi Joyer ironizando o isolamento de alguém, fala sério! Desde que o conhecera, há dois anos, Samir nunca presenciou momentos de socialização do professor, porém ele não seria louco de questionar as excentricidades do Homem. Os códigos estavam realmente estabelecidos, não é balela.
– Saí antes que a minha mãe chegasse e fizesse mil perguntas. – Revelou o pueril.
– Por quê? – JJ indagou quase sem esperar o outro terminar a frase.
– Porque ela pensa diferente de você. – Samir contrapôs acelerado.
O roqueiro não processou a situação com clareza. Samir e sua enlouquecedora mania de sempre responder evasivamente. É que o moleque odeia falar sobre si, sobre as suas coisas. Não por acaso, sentia-se estudado, como se do outro lado tivesse alguém traçando conclusões psicológicas em todos os detalhes. E ele achava que nada sobre ele fosse necessário para qualquer pessoa, porém Jimi se aproximava com um olhar estranho, quase perplexo.
– Isso significa que você vai viver? – Perguntou ameaçando sorrir.
– Tenho um encontro às 23hr. Não sei o que significa isso.
Jimi expôs seus dentes desbotados num imenso sorriso. A essa altura Samir encarava o relógio a cada segundo. Se a ideia era não ficar ansioso, o professor não estava colaborando.
– Porra, uma Massimo! – JJ brincou. – Você vai precisar disso, cara. Confia em mim.
E empurrou outra vez a garrafa de vodka. Samir deu outro gole forçado. Ele considerava Jimi a ponto de engolir álcool puro mesmo desconfiando que não fosse tão puro assim. A amizade entre eles começou no velho IRC, onde o roqueiro tinha um canal sobre música, quase nunca se manifestava, mas selecionava minuciosamente seus participantes. Samir era um dos escolhidos, usava apenas um apelido, como quase todos na época, sem foto de perfil ou qualquer outra pista que levasse ao seu mundo fora da rede. O garoto só tinha 13 anos e trocava ideia sobre música com outros anônimos, tirava dúvidas e discutia sobre seus ídolos. Alguns enviavam experimentos para ouvir opiniões, no caso de Samir, sempre as mais pertinentes. Jimi observava silenciosamente o moleque, gostava do ponto de vista original dele, por isso teve que descer do pedestal e pedir publicamente o contato do prodígio. Para a completa ira do professor, Samir desapareceu e só veio a responder seu email meses depois. A razão que desconectou Sam foi a mais tragicômica possível, mas o importante é que dois anos depois a dupla estava cada vez mais entrosada.
– Noite de estreia! Isso merece um brinde! – Jimi ergueu-se fazendo festa.
– Calma. – Samir tentou preservar o estágio real dos fatos.
– Calma o quê, moleque? Tá atrasado já! – O mentor ignorou.
– Não é assim, professor!
– Não me desaponta, Samir. – JJ voltou a sentar perto do garoto. – Tem camisinha aí?
– Vai perguntar se eu sei colocar também? – O moleque perguntou ferino.
Jimi abriu e fechou a boca umas três vezes. Samir riu com os dedos cravados no meio da testa, o mais velho adiou a vontade de apertar o pescoço desse puto atrevido e decidiu simplesmente dar risada de si mesmo. Os dois se zoavam infantilmente, lado a lado naquele sofá de couro preto. De repente o professor esquisitão refletiu sobre o que tinha de mais profundo naquela conversa: Como Samir estava levando a vida. Ele tocou o ombro do garoto antes de lançar suas ponderações.
– Você sabe o que eu acho, não é?
O adolescente imediatamente travou e apenas assentiu cabisbaixo. JJ prosseguiu com aquele repetitivo sermão.
– Você só tem 16 anos, moleque. Enfia isso na tua cabeça. Sai da porra da moldura.
Samir suspirou forte antes de argumentar com a maior honestidade do mundo.
– Não faço questão de andar em comboio, Jaime. – ele tinha uma séria dificuldade com apelidos – E me recuso a fazer qualquer coisa pra dar satisfação aos outros. Eu sou esse aqui, não estou fazendo tipo, nem nada.
Uma tensão óbvia invadiu a atmosfera anterior. Jimi não se conformava com as escolhas de Samir, Samir não aceitava que ninguém interferisse na sua vida, em nenhum grau, e muito menos com tanta aporrinhação. Esse era o grande ponto de conflito entre os dois. JJ levantou numa tentativa inconsciente de intimidação.
– O teu mal é esse orgulho que não te deixa enxergar que eu estou querendo te ajudar, moleque. O que muitos dão o sangue pra ter, eu estou entregando nas tuas mãos e você torce o nariz.
– Eu tenho a impressão que você sempre dá um jeito de voltar nesse assunto. Eu não sou desse meio, cara. Eu não quero ser como aquelas pessoas.
– Você não pode falar isso. – JJ pontuou nervosinho. – Não conhece o meio, não conhece as pessoas, tudo o que você rejeita é fruto do seu preconceito. As pessoas não são rasas, seu julgamento que é.
A última frase atingiu como um soco na boca. Samir ficou em silêncio. Talvez concordasse, mas jamais admitiria em voz alta. Jimi não conhecia nada sobre livre-arbítrio, era autoritário e prepotente, por outro lado, paternal em relação ao pupilo e, sobretudo, visionário a respeito do talento dele – o mais complicado de digerir.
– Com todo o respeito, professor, esquece essa ideia. Eu nunca vou ser o que o senhor espera de mim. Não é o meu sonho. – O garoto despejou calmamente.
– Também não era o sonho do Chorão, nem do Kurt Cobain, nem do Keith Moon.
– E deu merda com todos eles, se você não percebeu.
– Com todo respeito, meu amigo, é esse o seu medo? – O roqueiro desdenhou imitando a fala anterior de Samir. – Pois saibas que se você morrer hoje terá passado pela vida em branco.
Jimi parecia uma metralhadora de frases incômodas. Samir não queria brigar com ele, mas também não era obrigado a ouvir o que deveria fazer. Entre as duas escolhas, optou por mudar de assunto.
– Você vai gostar de saber que estou indo ao Cazz agora.
– É, ela me chamou pra ver um show.
– Nunca pensei que fosse dizer isso, mas admiro essa Massimo.
Carlos Massimo era o nome da escola de Samir, a mais tradicional da cidade. O pai dele bancava a mensalidade, mesmo sem nunca tê-lo visitado após a separação, seis anos atrás. Samir era o caçula de uma família de dois irmãos, sendo o primogênito um baita irresponsável e vadio. Restou aos pais apostarem no filho inteligente, a esperança de ter o que exibir nos eventos sociais que o caçula abominava. As pessoas envelhecem e de repente sentem a necessidade de provar a si mesmo e aos outros que construíram alguma coisa valorosa. Sam jamais aceitaria ser o troféu de alguém. Quando a conversa com Jimi estava caminhando para o intolerável, ele decidiu que precisava ir.
– Tchau, professor. E obrigado pela acet...Vodka.
Jimi enforcou Samir de brincadeira. Levou o estudante até a porta e gritou da janela.
Samir fingiu que não era com ele, ainda que um sorriso tímido escapasse do seu rosto. E ele estava ridiculamente excitado para vê-la, a garota do terceiro ano (!) que conseguiria fazê-lo colocar os pés no Cazz. Era totalmente anti-Samir isso tudo. Definitivamente nada estava confortável como Jimi acusara em seu discurso. O moleque atravessava a brisa fria da noite, mãos dentro casaco, passos largos, luzes incandescentes. Não sabia direito chegar lá, até que numa esquina escura ouviu um barulho inconfundível. Era o Cazz. Samir examinou ao redor como se estivesse prestes a cometer um crime, não parecia racional se meter naquele abismo de sombras rumo ao melhor e pior lugar para descobrir a vida.