Mantenha-se a uma distância segura.
Imagine que sou feita da fumaça dos incensos, da névoa que chega com o frio.
Seja cego. Seja surdo. Seja mudo.
Não me toque.
Há coisas que só existem enquanto permanecem intocadas.
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Mantenha-se a uma distância segura.
Imagine que sou feita da fumaça dos incensos, da névoa que chega com o frio.
Seja cego. Seja surdo. Seja mudo.
Não me toque.
Há coisas que só existem enquanto permanecem intocadas.

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Queria escrever uma poesia sobre o meu nome, mas soa autocentrado demais.
Foda é que é um nome lindo.
Sobre como ele soa quando me chamam com raiva, desejo, pressa, saudade. Sobre como ele muda dependendo da boca que o diz.
Sobre como ele nasce no mundo, cada vez que o dizem.

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Queria escrever uma poesia sobre o meu nome, mas soa autocentrado demais.
Foda é que é um nome lindo.
Sobre como ele soa quando me chamam com raiva, desejo, pressa, saudade. Sobre como ele muda dependendo da boca que o diz.
Queria escrever uma poesia sobre o meu nome, mas soa autocentrado demais.
Foda é que é um nome lindo.
O ordinário, comum e banal, corriqueiro e natural, segue seu curso ancestral, tal qual um animal.
Selvagem e habitual, instinto fundamental, transforma o excepcional em gesto casual.
Faz do sagrado algo normal, do milagre, ritual, do divino, um sinal tão simples quanto o vendaval.
Porque nada nasce especial. Tudo começa igual: barro, carne e temporal, matéria bruta e mortal.
E talvez seja esse o final: o mistério essencial — ver o eterno e celestial escondido no trivial.
Café quente, palavras doces, um nome em mente, desejo ardente.
Macabéa.

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Há certa sorte em ter alguém como você.
A.
A Arte de Destruir o Que Ainda Não Toquei
Tenho a arte de destruir o que ainda não toquei.
Algumas coisas parecem partir apenas por serem desejadas.
Tudo me parece prestes a ceder:
o cristal fino, o floco de neve perfeito, a teia da senhora aranha sustentando o mundo por um único fio.
Olho para as coisas belas como quem observa um milagre ameaçado.
E recuo.
Às vezes basta o olhar. Às vezes basta a expectativa.
Talvez por medo. Talvez por excesso de cuidado. Talvez porque certas pessoas aprendam cedo demais que tudo o que amam pode desaparecer.
Será isso um pecado?
Será essa a maldição que herdei?
Ou será apenas a forma que encontrei de atravessar o mundo sem tocar em nada que possa sangrar?
Por que é tão difícil amar sem deixar marcas?
Por que até a ternura parece carregar o risco da ruína?
Não sei.
Só sei que às vezes me sinto feita da mesma matéria dos desastres.
E que há noites em que penso que minha verdadeira maldição não é destruir o que amo.
É acreditar que inevitavelmente o farei.
Eu sou etérea.
Feita de névoa e de clarão, de sonho antigo e imensidão, leve demais para permanecer, jovem demais para tanto compreender.
Talvez por isso eu traga comigo um sentimento estranho, antigo: a sensação, difícil de explicar, de já não ter para onde voltar.
Não porque a vida perdeu a cor, nem por cansaço, nem por dor. Mas porque cedo aprendi a ver o quanto tudo pode desaparecer.
Cresci depressa. Nem vi acontecer. Casei cedo, cedo aprendi a perder. Tive paixões que valeram por cem, e os que eu amava partiram também.
Tenho apenas vivido pouco tempo, mas algumas saudades desafiam os anos. Carrego despedidas no coração que chegaram antes da estação.
Desde então caminho devagar, como quem aprende a escutar os passos suaves da solidão atravessando o próprio coração.
Há dias em que o céu é abrigo, há dias em que pesa o vazio antigo. Há noites em que a saudade vem e se senta em silêncio, sem dizer amém.
Talvez eu guarde mais despedidas do que caberiam nos meus planos, e mais lembranças adormecidas do que caberiam nos meus anos.
Mas continuo a seguir, sem medo de partir. Porque existe alguma beleza na delicada natureza
das flores que insistem em nascer mesmo sabendo que vão morrer, dos rios que correm para o mar sem nunca pensar em regressar.
A morte não me assombra mais. Ela apenas existe, como existem os finais. Não como castigo ou escuridão, mas como outra curva da imensidão.
Por isso vivo.
Vivo com calma, sem exigir que o mundo permaneça aqui. Vivo aceitando a impermanência como quem aceita a própria essência.
Sou feita de ausências e claridade, de memória, perda e eternidade. Carrego no peito o que ficou de tudo aquilo que o tempo levou.
Eu sou etérea.
Leve, delicada, quase irreal, um breve brilho celestial. Mas enquanto houver céu sobre o caminho, seguirei cantando baixinho,
porque a vida, apesar da partida, ainda pulsa, ainda convida. E talvez o segredo seja este: amar profundamente o que é triste.
Não porque a tristeza seja meu lugar, mas porque aprendi a enxergar que até o que parte sem avisar deixa alguma forma de amar.
A ruína mais doce e delícia que existe
Então talvez exista certa sorte em ser vista assim.
O barro mais ordinário que existe.
Foi dele que nasceram os santos,
os tiranos,
os poetas,
os assassinos
e aqueles que passaram pelo mundo sem deixar sequer um nome.
A matéria nunca foi o mistério.
O mistério sempre foi o que cada um faz
com as próprias rachaduras.

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O paraíso é minha boca percorrendo o teu corpo. Teu gosto permanece em mim, feito abrigo e conforto. É tudo o que queremos, sem pressa, sem aviso; teu corpo sobre o meu, meu eterno paraíso.
Um quarto escuro.
Eu, uma cama e a antiga sensação de estar sendo observada.
O arrepio atravessa a pele antes mesmo que eu compreenda o motivo. A ansiedade vem silenciosa, caminhando pelos cantos do quarto como uma criatura sem rosto. O silêncio pesa sobre tudo.
Então a porta se abre.
Sem ruído.
Apenas uma silhueta.
A silhueta de um homem que conheço.
Um homem feito de vontades, de pensamentos perigosos e daquelas ausências que permanecem mesmo quando ele não está.
Como se eu já esperasse sua chegada, permaneci imóvel. Havia algo ritualístico naquela espera, algo antigo. Os dedos ainda guardavam o brilho dourado do mel, e a noite parecia suspensa entre o sonho e a vigília.
Ele se aproxima.
Lentamente.
Há algo felino em seus movimentos. Não a pressa de um caçador faminto, mas a paciência de quem sabe exatamente onde encontrar aquilo que procura. Um leão observando o horizonte antes do salto.
E eu gosto disso.
Gosto da atenção absoluta.
Gosto da maneira como sua presença transforma o ar.
Quando ele alcança a cama, o mundo parece menor.
O colchão afunda sob seu peso. O movimento é mínimo, mas percorre meu corpo inteiro. O lençol desliza alguns centímetros sobre minha pele. O ar parece mais quente agora.
Ou talvez seja apenas a consciência brutal de sua proximidade.
Seu corpo inclina-se sobre o meu como uma sombra quente.
Não há espaço para o acaso.
Apenas a estranha perfeição de duas formas que se reconhecem.
Seus lábios encontram os meus.
De leve.
Como quem testa um feitiço.
Nossos narizes se tocam num gesto quase inocente, contradizendo tudo o que vibra sob a superfície. Minha mão encontra sua nuca. Os dedos se perdem entre os fios do cabelo. A outra desliza por suas costas, sentindo a tensão dos músculos sob a pele.
As mãos dele repousam sobre minha cintura.
Depois sobre minha coxa.
E o simples toque parece alterar a temperatura da noite.
Há um instante suspenso entre nós.
Um segundo longo demais.
Curto demais.
O tipo de silêncio que faz o coração parecer barulhento.
Então percebo.
Meu peito contra o dele.
O compasso acelerado dos nossos corpos.
Dois corações separados por tão pouco espaço que quase parecem buscar o mesmo ritmo.
Por um momento, não sei distinguir qual batimento é o meu e qual pertence a ele.
Talvez não importe.
Talvez seja exatamente isso que me assusta.
E me encanta.
Lá fora, o mundo continua existindo.
Aqui dentro, não.
Aqui dentro existe apenas o som da respiração compartilhada.
O calor.
A expectativa.
A distância ínfima entre o desejo e a rendição.
Havia algo sagrado naquele instante.
Como se estivéssemos diante de uma porta que jamais deveria ser aberta.
Incapazes de nos afastar dela.
Porque há algo de proibido em sua presença.
Algo que se parece com um segredo guardado durante tempo demais.
Um mistério.
Uma porta que jamais deveria ter sido aberta.
Então descubro.
O gosto do pecado não está no pecado.
Está em quem o oferece.
Está na curva de um sorriso.
Na promessa silenciosa de um olhar.
Na certeza de que algumas pessoas despertam em nós versões que passamos a vida tentando esconder.
— Quero o proibido.
A confissão escapa entre suspiros, quase inaudível.
Ele escuta.
Claro que escuta.
E naquele instante compreendo que não pertenço à noite.
Nem ao sonho.
Nem ao medo.
Pertenço ao momento.
À vertigem.
À possibilidade.
Sou a ferida e a cura.
A penitência e a tentação.
A presa que permanece imóvel não porque foi capturada.
Mas porque escolheu ficar.
A