A Flor dos Becos nasceu de uma conversa com Humberto, amigo de meu pai. Entre recordações, ele me contou sobre Rosa, um amor que nunca chegou a ser vivido. A vida os conduziu por caminhos distintos e, com o passar dos anos, ele nunca mais soube dela.
Este poema não é a história de Humberto e Rosa, tampouco pretende reconstituir suas vidas. É uma obra de ficção inspirada na delicadeza e na melancolia de um sentimento que permaneceu incompleto — desses que o tempo não consuma, mas também não apaga.
A Humberto, por confiar-me essa lembrança; e a Rosa, onde quer que a vida a tenha levado, dedico este poema.
Flor de beleza rara e seios generosos,
de negros cabelos, em ondas caprichosas;
trazia no andar a graça dos ventos ociosos,
e nos olhos, noites fundas, febres silenciosas.
Seu corpo, moço e vivo, buscava-me sem tino
pelos becos esquecidos do velho Rio de Janeiro;
cidade de lampiões, de pecado peregrino,
de serestas tardias e luar boêmio, feiticeiro.
Eu, por minha vez, vagava feito sombra sem descanso,
farejando o teu perfume nas esquinas da Lapa;
seguia cada mosaico, cada pedra, cada avanço,
como quem persegue um sonho que jamais se desacata.
Eras quimera de carne, de perfume mortuário,
rosa que aprendia a florescer sobre sepulcros e altares;
tinhas o riso profano e o silêncio do rosário,
e escondias teus milagres entre bares e sobrados seculares.
As calçadas portuguesas, em desenhos sinuosos,
ziguezagueavam meus passos como velhas profecias;
cada curva prometia teus contornos luminosos,
cada esquina desmentia minhas pobres fantasias.
Ao longe, alguém derramava a voz num samba antigo;
o cavaquinho chorava sob a lua de fevereiro.
Parecia que o próprio amor mendigava abrigo
nos balcões enfumaçados daquele bairro boêmio e feiticeiro.
Tu paravas por instantes, como quem ainda espera
que um destino menos cruel reescrevesse a própria sorte;
mas o canto enfraquecia, morria na atmosfera,
e a saudade orvalhava teus olhos com sabor de morte.
Então voltavas sozinha para a casa silenciosa,
onde a noite, por costume, te servia de coberta;
e eu ficava entre os lampiões, alma febril e desditosa,
feito um santo sem milagres diante da igreja deserta.
Caído à calçada, um pobre beija-flor embriagado
balbuciava teu nome entre soluços de aguardente;
como se soubesse o peso de um peito enamorado,
que vive da tua ausência e te procura inutilmente.
Ah, minha bela flor, interdito dos meus dias,
meu vinho, meu veneno, minha eterna perdição;
teu beijo era o verão que sobrevivia aos frios,
teu perfume, a última missa do meu pobre coração.
Necessito do teu feitiço, da tua voz, do teu encanto;
não para fazer-te minha — negou-mo a sorte, afinal —;
basta que teu nome adormeça o fervor do meu pranto,
como a brisa acalma as ondas revoltas do litoral.
Que fiquemos separados pelas ruas cariocas:
tu, flor que ao luar floresce e jamais se deixa colher;
eu, boêmio de copo vazio e esperanças barrocas,
a perder-te em cada esquina sem jamais te esquecer.
Se Deus houver piedade dos que vivem de saudade,
talvez nos una um instante antes do último adeus;
até lá, guardarei teu nome com a mais terna lealdade,
como quem guarda um milagre sem jamais pedir aos céus.