Onde você estaria se pudesse estar em qualquer lugar do mundo? Seria um lugar novo ou familiar? Se desafiaria ou apostaria no conforto? Silêncio ou vozes? Viver algo pela primeira vez ou reviver algo que dá saudades? Com quem você estaria se pudesse estar com qualquer pessoa do mundo? Ou prefere conhecer mais pessoas novas, outras histórias interessantes? E qual é a intersecção entre todas as resposta?
Há um mês escrevi sobre o que eu não parava de pensar, entre todas as possibilidades do mundo, qual faz meu coração vibrar com mais força? “Tenho pensado muito e sentido pouco”. Escrevi antes de dormir e decidi não pensar, nem escrever mais. Sabia que encontrar as respostas vivendo a cada dia.
Todas as opções são possíveis. A liberdade é um estado de mente. Deixo minha mente livre e já não busco planejar o dia-a-dia, mas viajar nunca foi leviano e um norte é preciso pelos objetivos maiores que vem por trás. Eu sofro com o frio, mas é um desafio que me chama. As montanhas são uma espécie de terapia, um processo de cura. Eu pensei em ir para o Alaska. Alguns dias depois um menino de lá me deu carona na estrada e falamos sobre o monte Denalí. Ele confirmou que ficava aberto no inverno. Eu tive certeza que o universo estava me mandando pra lá
Dias depois escutava a conversa de 4 canadenses do lado francês e senti vontade de aprender francês. Talvez eu devesse ir pro Canada. A cada dia ficava mais frio e me pegava tremendo em frente ao fogo. Talvez o Alaska fique pro verão. No Hawai também tem montanhas. Eu passaria um verão dos sonhos no meio do pacífico. Lá tem surf, mergulho, vulcões. Talvez seja racional ir para o Hawai. Ainda que decisões racionais não sejam meu forte, essa era interessante. E se eu for até o Hawai estarei mais perto da Ásia, mas quando surgiu essa ideia de passar uma temporada em uma ilha na Tailândia se eu queria ir para a América Latina depois que o visto acabasse?
Eu queria significa que eu ainda quero? Os dias tem sido densos demais, informações demais, eu me sinto cansada. A ideia de trocar de base, ou estar um tempo sem base, entender novas cidades, novos transportes públicos, fazer novos amigos, aprender novas gírias e descobrir que uma língua que achava conhecida ainda tem tanto mistério, me causou mais ansiedade que tranquilidade.
A ideia de andar sem olhar no mapa, de saber o nome das linhas de ônibus e todas suas paradas, de dormir confortável, comer em pratos, abraçar, sorrir e chorar em silêncio com alguém que não necessite de palavras porque a conexão já transcendeu me trouxe paz. Ainda que o amor não signifique presença ele se manifesta de tal forma. Pensar causa ansiedade, amar traz leveza. Pessoas são insubstituíveis, lugares são estáticos. O novo sempre vai ser novo, o que já conhecemos se modifica a cada dia. Pessoas não são eternas.
Às vezes eu me sinto feliz, às vezes não (e tudo bem), mas eu sorri muito durante os últimos anos. Eu vivi intensamente cada dia, tentando ser melhor, aprender e compreender.
Eu, muitas vezes, falhei porque evolução não é uma constância. Aprendo a me perdoar e lidar com essas falhas. Eu subi montanhas e vulcões, chorei pro sol que nascia no deserto, abracei todas ideias malucas que surgiram, passei uma temporada no Kenya e outra na Itália. -
Aprendi línguas, ganhei uns euros, gastei tudo. Vivi um tempo de pizza e outro com uma alimentação regulada e bebendo chá de gengibre em jejum. Conheci lugares que sempre sonhei e descobri outros lugares dos sonhos, dirigi na mão inglesa e peguei algumas caronas. Bebi vinho em Paris e leite não-pasteurizado em Morogoro. Dividi uma casa com 16 pessoas e tive meu studio em Portugal. Surfei, mas deixei minha prancha pra trás. Nunca perdi um vôo, mas tenho costume de me atrasar.
Ir foi a melhor decisão que já tive, mas voltar é preciso para assimilar tudo que vivi. Escolho retornar sem dúvidas, pois escolho com o coração. Retorno ciente que a partida será breve, mas eu já não tenho pressa para viver.
Texto que escrevi há um ano quando decidi voltar pro Brasil depois de 2 anos e 4 meses viajando. Já estou na estrada de novo, com saudades sempre. Escrevo o que encontrei viajando o mundo e dentro de mim no https://www.instagram.com/culturanavegavel/
Texto de Maria Fernanda Romero.Lindo e reflexivo texto sobre nós e o que queremos da vida.Assim encerro o ano 2020 com esperança que 2021 seja o melhor ano de minha vida até aqui e o desejo disso é pra todos.