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Não te pouparei das carícias desmedidas. Quero que sintas como me dói o ar só por dizer o teu nome. Quero que sintas igualmente o sangue do silêncio. Tu que te derramas em mim com a palidez de um lírio sabe que meu peito desvanece com teu sentimento sombrio de terra seca. Tu dizes saber de mim, eu que não sei quem sou. Que tu saberás? Sabes da minha morte sem olhos? Sabes do pranto contínuo? Sabes do riso sonolento que disfarça a mágoa? Tu podes cantar um beijo sem ternura que eu jamais conseguirei esmiuçar as tuas verdades. Chegarás com os pelos eriçados de encontro aos meus dedos despreparados. Por minha causa? Eu que não sei. Há coisas que pertencem egoistamente somente para nós. Sigo, enamorado. As asas ensanguentadas. Perto do chão, longe da concretude. Vivendo do inferno recôndito deste teu sorriso.
Enzo Fonseca
- Esta aqui também é boa - disse. - Veja só esta frase: ‘O homem devia orgulhar-se da dor; toda dor é uma manifestação de nossa elevada estirpe.’ Magnífico! Oitenta anos antes de Nietzche! Mas não é esta a passagem que eu pensava mostrar-lhe… Espere, aqui está. Ouça: ‘A maioria dos homens não quer nadar antes que o possa fazer.’ Não é engraçado? Naturalmente, não querem nadar. Nasceram para andar na terra e não para a água. E, naturalmente, não querem pensar: foram criados para viver e não para pensar! Isto mesmo! E quem pensa, quem faz do pensamento sua principal atividade, pode chegar muito longe com isso, mas sem dúvida estará confundindo a terra com a água, e um dia morrerá afogado.
Hermann Hesse - O Lobo da Estepe.
Não invoque meu nome em vão.
Suas palavras são serpentes, que me envolvem e matam lentamente. Seu sorriso é a representação carnal do céu, mas seus olhos são a profundidade devassa do inferno. Curvas que são a estrada mais rápida para a perdição, em um labirinto onde encontrarei os prazeres da luxúria. Do seu corpo exala o perfume que me causa excitação, e me deparo com minhas pupilas dilatadas ao olhar para o espelho e constatar: droguei-me novamente com seu veneno. Poderia aos céus clamar por proteção, ou quem sabe redenção acerca dos pelos de minha pele que eriçam ao leve anúncio de seu toque. Mas não, sou escravo de sua vulgaridade e ostentação. Deleito-me de suas insinuações discretas, saboreio suas falas secretas, e me torno cada vez mais pagão ao saborear seu pecado. Não diga meu nome sem alguma intenção. Não faça o desejo percorrer todas minhas entranhas para depois dizer não. Pois a força que carrego em meu íntimo se desarma ao ver suas maças coradas, e como anjo iludido caio em suas investidas calculadas. Não faça com que eu lhe entregue minha alma e coração. Pois sua voz é armadilha da sedução, e se meu nome escorregar ligeiramente de seus lábios de fel, me lanço de olhos fechados no seu inferno cruel.
Severinar.
considerações sobre o grito:
nem tudo que sai da minha boca faz sentido. nem tudo que sai é em bom tom. nem tudo que sai é puro. e, eu juro, sei bem quando devo aumentar o tom, mas é que às vezes eu perco esse dom.

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Para conseguir enxergar a pagina dos sonhos que ainda não li, tive que me permitir novamente dormir. Um sono que sonho sonolento em dormir para sonhar. E o que limita meus pés de andar, está além de olhar para frente e esticar o braço para agarrar o que lá está. E o infinito em baixo dos meus pés não se pode enxergar por cima do meu andar, nos fortes passos dados em busca do livro dos sonhos que sonhei sonolento em sonhar. E a vida que faz as manhãs virarem noites, também faz com que minha noite seja dia, e que só de dia eu sinta o sono da noite, e a saudade da minha cama. E todos os jornais que não trazem informações e que leio no café, é o mesmo que me faz lembrar daquelas imagens em mosaico entristecidas como a bela borboleta estática pairando no ar, desafiando as leis gravitacionais. E alias, do que é composto este texto? Borboletas desafiadoras da gravidade? Sonhos sonolentos não sonhados? Andar em cima do infinito? Talvez esse texto não faça o mínimo sentido, ou talvez seja multi-temático, ou talvez seja simplesmente pensamentos, turbilhões deles. Ou talvez não seja nada… só um trecho das paginas dos sonhos que não sonhei.
Borboletas de um sonho não sonhado - D C Monroe
A esfera da poesia não se encontra fora do mundo, qual fantástica impossibilidade de um cérebro de poeta: ela quer ser exatamente o oposto, a indisfarçada expressão da verdade, e precisa, justamente por isso, despir-se do atavio mendaz daquela pretensa realidade do homem civilizado. O contraste entre essa autêntica verdade da natureza e a mentira da civilização a portar-se como a única realidade é parecido ao que existe entre o eterno cerne das coisas, a coisa em si, e o conjunto do mundo fenomenal; e assim como tragédia, com o seu consolo metafísico, aponta para a vida perene daquele cerne da existência, apesar da incessante destruição das aparências, do mesmo modo o simbolismo do coro satírico em um símile a relação primordial entre coisa em si e o fenômeno.
Friedrich Nietzsche
Existem os que usam a cafeína para afetar o humor ou o comportamento. Outros para organizar melhor as turbulências da mente. Em maior escala, os que usam a droga psicoativa pelo simples fato não cientifico de sentir-se em paz. O mesmo com o tabaco. A nicotina faz efeito apenas 10 segundos depois da fumaça ser inalada, e o cigarro é mais eficiente do que a cocaína para aprisionar um dependente. E os que fumam somente querem encontrar no ato relaxante a paz. Morrer cerca de 10 anos antes do normal, devido ao tabagismo, parece um preço barato demais a se pagar por alguns segundos de plenitude interna. O homem é movido por seus vícios, e a morte lenta e gradual causada pelos mesmos é quase imperceptível para quem é morto interiormente há tempos, sobrevivendo somente de um exoesqueleto portador de um cigarro em uma mão, e uma xícara fumegante em outra. A fumaça que entra no organismo e destrói os pulmões ou a cafeína que estimula o sistema nervoso, não são tão nocivas quanto às angústias causadas por suas abstinências. Vícios, tóxicos e estimulantes são combustíveis diários para manter a máquina viva. Bebe-se para não fechar os olhos e ser capaz de sonhar com algo que não se pode alcançar. Fuma-se para deixar a fumaça densa encobrir a realidade. Os vícios mais comuns servem para retardar o processo doloroso de confrontar os pensamentos. E tudo que é fuga, é convidativo e se requer cada vez mais. É extremamente aceitável acelerar o que já está sentenciado a ter um fim. A fumaça tem duas faces. Uma letal, outra vital. Nunca se sabe realmente, quando ela está a matar ou a salvar. Certos de que em algum momento ela fará apenas um sem avisos prévios, e sabemos qual será. A aceitação é um passo a mais para o vício eminente. Morrer decorrente a ele deixa de ser uma preocupação, e passa a ser uma certeza, aceitável e considerada inocente. Talvez morrer de algo que trouxe a paz ao que antes não surtia nenhum efeito agradável, seja melhor que morrer por algo que apenas torturou até o último minuto. O fim do rastro da fumaça, apagou-se a última faísca de fogo, o último suspiro falou e ultimo gole de café foi ingerido.
Severinar e Calígrafo
dê-me um átomo do abismo em que você desfaz suas lágrimas, e eu farei do teu suor, licor. o disparo de um último trovão. atrito. chuva de verão. dê-me o último movimento de uma estátua de sossegada existência, estática diante do estado de arrependimento. o desprendimento de tudo, menos do céu em decomposição, que chove o sangue ácido de nebulosas. paredes gastas pela ansiedade. pegadas sobre o chão sujo da rodoviária. saguão vazio. viagem em direção ao inverno. dias frios, de caudalosas saudades. no peito, uma cidade aguda, comprimida entre a agulha e o disco que você mais gosta.

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Tenho a filosofia de que todo ser humano nasce vazio, um abismo escuro, assim como era o mundo antes da Criação. Ou do Big Bang, não me meterei em assuntos metafísicos. Somos uma lacuna a ser suprida, seja de amor, ódio, tristeza, alegria, ou qual for o sentimento. Para algumas pessoas esse vazio se mostra inexpugnável, inexorável, indomável; há pessoas que são cheias de vazio. Mas há aqueles que encaram este hiato com um terreno, adubam-no, regam-no, faz-no o mais belo jardim, casa de esplêndidas flores. O meu vazio termina onde minha arte começa. Que me desculpe Freud, mas quando encontro com as palavras elas me inundam, me completam. Meu espírito levita, meu coração arqueja, meu corpo se eletriza e eu me afundo no mais sereno estado d’alma. A plenitude me saúda. As palavras saem de mim, eu as organizo, dou-lhes sentidos. Mas em momento algum sou senhora delas, que eu nunca me engane ou esqueça: as palavras me governam. E toda vida que transborda do meu vazio é proveniente do que as palavras me causam. Porque eu sou um ser causado, tocado e quebrantado pela arte das palavras. Sou súdita, submissa, serva e dependente. Sem elas eu não seria nada.
H. Conrado, Meu vazio termina onde minha arte começa.
Eu grito um caos quando você sussurra minha calma. Teu sopro me toca e eu respiro mais ar do que cabe em meu pulmão. Da brasa, vejo a ponta dos dedos e a fumaça que toma o quarto. Não consigo fechar os olhos. O ato é a inércia. Sentir que tua voz entra em meus ouvidos e aos poucos me recomponho, em lágrimas. Falta de sentido me faz frágil, e não sou. Inexisto agora. Sou eu o culpado, amor. As injustiças da vida são vistas de um espelho velho, e acreditamos mais nas ranhuras dele do que a nossa visão pode ver. Eu sei que entende. Teus lábios tocam as pálpebras cansadas e salgadas do meu eu derretido, quebram as traves me fazendo fechá-los no teu doce. Me foge a culpa e todas as palavras, fico perdido em silêncio. Teu olhar permanece, teus dedos em minha face como se desligasse o mundo inteiro de mim. Você se põe calma enquanto é caos. Tua metamorfose fica em meus olhos. Teu sentir no meu sentir. Tua calma, em minha calma.
John
O silêncio é a linguagem dos mudos. O silêncio é a linguagem de quem tem vergonha, de quem já falou demais, de quem não sabe o que dizer. O silêncio é a linguagem de quem quer ser entendido e não consegue explicar, de quem acabou de ser surpreendido, de quem não quer falar para não chorar, de quem já chorou muito, de quem está explodindo. O silêncio é o grito que está preso, é a verdade difícil de ser ouvida, é o pedido de ajuda. O silêncio é a linguagem de quem está em paz consigo mesmo, de quem não tem o que reclamar, de quem sabe o que é estar feliz. O silêncio é a linguagem dos ignorantes, dos inteligentes, dos que não se importam. Há quem não entenda, e não há palavra alguma que o explique.
O silêncio é a linguagem mundial.
Trágico o fim que espera todos os que dormentemente vivem nessa escura terra de homens e mulheres, bichos e outros incontáveis seres que não sofrem de igual injúria. A sombra ausente de luz faz com que o descanso seja bom. Nem velas rogam mais pelo aconchego do homem debaixo da terra. Ideia insatificável essa de ter de adorar o morto, por ele em altar, levar flores, recitar palavras doces, melodiosas, cantar para o surdo que fica inerte em uma caixa de madeira e posteriormente será enterrado com palmos de terra em sua cabeça para se decompor, virar alimento para minhocas, cobras, ratos, e até mesmo outros homens. O que não entendo são os motivos para se complicar o curso natural da vida, afinal, aprendi na escola que as pessoas nascem, crescem, se reproduzem ou não e morrem. Essa seria a completude. Nada fala de nascer, fazer festa, crescer, fazer festa, se reproduzir, fazer festa, morrer, calar-se. Nada. A cultura é uma sina que dá dó. Claro, não nego que como um ser que anseia conhecimento preciso saber digerir essas loucuras com respeito mas não preciso ser posto nessa idolatria mundana de que os seres humanamente defectivos devem ser aperfeiçoados depois que estão daquele jeito, inertes em uma caixa de madeira esperando apenas a hora de começarem a pensar em sua ausência eterna. A sonolência traz a lágrima e arrisco dizer ainda, a tristeza profunda. O que seriam os homens senão um amontoado de órgãos em funcionamento que para e é trocada? Não, não seria mculturalmente trocados, portanto, postos em pedestais de bronze, ouro, prata ou metais mais preciosos que a própria necessidade ver. O que digo não fica claro, pois escrevo não para a mortalidade, mas para que digam que o que disse faz parte de um conjunto de ideias daqueles que ficam loucos com a iminência do fim. Não deem ouvidos para mim, nem olhos para minha literatura sombria. Sou apenas eu, um morto, quem está falando as mais intoleráveis mentiras. Não engula. Cuspa. Vomite em mim todas as suas verdades absolutas sobre a não existência do homem.
Ontológico e Eufemizador (Agradeço ao ontológico por ter estudado minha patológica falta de estímulo. Obrigado pela parcial solução de meus dilemas infantis)

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O que me atrai na nudez é o possível toque sorrateiro e preciso dos corpos em massa, como ímãs invisíveis de polos carregados de desejo, de pensamentos, de imagens carnais. A roupa caída faz o proibido parecer certo e quando enfim as carnes se tocam e os líquidos molham o assoalho, parece que finalmente o lacre foi rompido, o silêncio devorado e a vergonha posta debaixo do tapete, como poeira varrida em dia de preguiça. O ar devia ser nublado para o chão frio ser esquentado pelos corpos aquecidos pelos fagulhas que ameaçam carbonizar, ainda vivas, as almas cheias da desgraça de um pecado já consumado. Mas não há maldição mais doce do quê aquela sofrida apenas pela ânsia de ter um pouco de felicidade física inundando um corpo também físico que satisfaz uma vontade física de ter um ser, ainda mais físico, dotando de movimento o que antes era um prazer semanticamente solitário e cheio de culpa, com dores que permeavam a vergonha e passavam pela dor absurda que estourava os ouvidos e cegava os olhos. Não posso viver mais sem todas essas vontades saciadas na hora que o desejo começa apontar, assim que a intimidade faz do erro aparente uma janela aberta pronta para uma fuga pouco estratégica. O fungar no pescoço deixando úmido o canto escondido entre nuca e orelha já molhada pela saliva de um momento que se contorce sobre as almofadas, o tecido escuro de uma poltrona empoeirada, cheia das mesmas partículas de terra que fazem companhia à vergonha debaixo do tapete e olham de relance com curiosidade para o sobe e desce que arranca gritos e gemidos de um alguém que antes se comportava como humano perfeitamente anormal. Isso que fazem é o que completa os estigma dos instintos e faz o homem ver que na verdade é apenas um maço de desejos insatisfeitos e vontades inacabadas, só esperando o momento oportuno para mostrar suas facetas sujas e deploráveis na borda de um copo ainda meio cheio de um vinho seco retirado de uvas esbranquiçadas pelo ar úmido. Melhor saborear os ácidos do corpo que já se fazem presentes inundando o ar de um cheiro de mofo e um perfume que inspira a consumação de um casamento não abençoado por mãos certas. As únicas partes envolvidas são essas duas. Um homem que sorri e uma mulher que também sorri. Mas apenas o faz por um segundo, no outro os sorrisos desaparecem e enfim os desejos se reiniciam deixando um ao outro, plenos em uma nuvem parda de satisfação e rostos sérios. O meu agrado pela nudez começa no amor e culmina nos taciturnos desejos da derme. Calados em um instante. Mudos no outro e prontos para sucumbir a histeria em um terceiro momento. Perceba, nascemos nus, morrermos sem roupa e aproveitamos a vida presos em tecidos e mais tecidos que escondem a verdadeira natureza do bicho homem. Veja bem, bicho homem e digníssima dama, mulher.
Eufemizador
Dizem as más línguas que água é vida Mas o filho de Maria Casada com José Irmã de Cotia Prima de Bartirda Brincava perto do rio e caiu A água levou Os outros correram A chuva começou O menino sumiu Dizem que morreu Talvez a água tenha acreditado na mentira de quê é vida Estava com fome Estava com inveja da vida do menino Sugou dez anos da vida do filho de Maria Casada com José E com uma família que não vê a água como sinônimo de vida Onde há água, para esses, não há mais tanta vida
Eufemizador