*Elementos impulsionadores da necessidade de refundamentação da Educação Popular
- A materialidade da crise vivida
há duas proposições principais e diferenciadas sob a nova ordem mundial. (1) ainda vivemos numa sociedade industrial, que a exploração do sobre trabalho (manual e também intelectual) é central no empobrecimento, que a luta de classes ainda existe, que o protagonismo das classes populares é fundamental para garantir e ampliar direitos, que a identificação de interesses na esfera da produção continua, embora não exclusivamente, sendo importante para a formação das identidades, para a compreensão da dinâmica dos conflitos e para viabilizar estratégias de superação. (2) vivemos numa sociedade pós-industrial ou do conhecimento, que a esfera da produção perdeu seu poder explicativo, que a dinâmica do movimento social não mais reside na lógica do conflito capital x trabalho, que a esfera da produção e do trabalho perdem a centralidade e outras dimensões passam a ser mais importantes para a constituição de identidades dos sujeitos sociais, como gênero, idade, religião, ecologia etc.; que a solidariedade de interesses se organizaria independente das condições materiais e que a ação coletiva resultaria não de ações de classe, mas da manifestação de movimentos sociais voltados para questões pós-materiais. (...) É o movimento da realidade e a transformação dos contextos, portanto, um dos fatores indicados pelos documentos e textos, que impulsionam a necessidade de ressignificação/refundamentação da Educação Popular, mostrando a indissociabilidade entre Educação Popular e processos históricos e sociais.
a problemática vivida pela Educação Popular, ou melhor, pelos sujeitos individuais e coletivos/instituições que a assumem, a partir das décadas de 1980/1990, não pode ser dissociada dos problemas vivenciados pelo Campo Popular latino-americano
Os Campos Populares, constituíram-se como movimentos contra-hegemônicos e orientaram-se por utopias de transformação social, às quais foram atribuídas as mais diversas denominações, dentre as quais se podem citar, a partir das leituras, como exemplos: projeto histórico; projeto libertador; novo contrato social; nova sociedade; sociedade justa, democrática, participativa e solidária; projeto alternativo de sociedade; sociedade sem oprimidos e sem opressores; sociedade socialista. (...) a ressignificação/refundamentação da Educação Popular e a sua maior ou menor incidência concreta está, também, diretamente relacionada com a refundamentação e ressignificação do Campo Popular.
- Elementos gerais dos projetos que estão sendo ressignificados/refundamentados pelos educadores populares e pelo Campo Popular – cujas buscas e aprofundamentos precisam ser impulsionados:
a leitura da realidade = Os documentos e textos demonstram o trânsito de uma leitura cuja primazia era da classe social, da esfera da economia e da política no sentido restrito, para uma leitura na qual, além da dimensão do econômico, na qual incidem as necessidades e direitos básicos como teto, terra, trabalho, saúde e educação, ganham primazia a leitura política em seu sentido ampliado, a cultural, a ambiental, a religiosa, a geracional, a sexual, a ética e a estética.
Afirma-se a necessidade da continuidade da construção do poder popular, do protagonismo popular, da democracia radical e substantiva, de uma forma ética de fazer política. Nega-se o vanguardismo, o doutrinarismo, exalta-se a diversidade, o respeito a subjetividade etc. De qualquer modo, ao lado desta convicção afirmada e reafirmada da necessidade de transformação da sociedade atual e do alargamento dos referenciais da sociedade desejada – democracia substantiva econômica, cultural e política –, não há o indicativo claro da tradução disso em um projeto político para este momento histórico, capaz de se apresentar como alternativa ao hegemônico.
- Novos espaços e sujeitos que constroem, os sujeitos e as estruturas de mediação e o papel da organização política e autônoma do povo
sujeitos que constroem processos transformadores: Quem são mesmo estes sujeitos? Será que hoje, para o Campo Popular, ainda existem os sujeitos históricos e que estes sujeitos são mesmo as classes populares?
Afirmar a autonomia e o protagonismo popular, portanto, entre outros aspectos, significa repensar as esferas sociais (pastoral, popular, administrações populares, sindical, partidos, ...), os sujeitos que delas participam e como devem ser as relações entre elas e o papel dos sujeitos que as constituem.
o processo de refundamentação tem e ganha um outro sentido, porque ele é feito desde uma determinada direção, de um determinado norte, que é o compromisso histórico, ético, político e pedagógico da Educação Popular com a formação humana emancipatória das classes populares, com a sua autonomia e protagonismo e com um projeto de futuro para a humanidade, o que só será possível com a transformação do atual. Precisamos seguir em frente, praticando e formulando, a partir do que foi (re)afirmado. Este parece ser o grande desafio
Educação Popular: dialogando com redes latino-americanas (2000-2003) Conceição Paludo
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