Permaculturar a educação - Por Gabriela Amorim
Alpestre fica no oeste do Rio Grande do Sul, tem alguns poucos mil habitantes e uma barragem. Até há alguns meses atrás, eu nunca tinha ouvido falar dela, nem jamais tinha passado pela minha cabeça que um dia eu teria que descobrir como chegar lá. Alpestre agora – com todas as suas casas, gentes, águas e caminhos – existe também no meu coração.
Um cabôco, que também mora no meu coração, mandou uma mensagem num dia abençoado: "Marcos Ninguém vai fazer um PDC de graça lá perto de Florianópolis”. (PDC = Permacultural Design Course) Eu já era fã do trabalho desse cabôco Ninguém, um dos melhores permacultores que há por aí nesse mundo, e corri pra conseguir uma vaga no curso. Até então não tinha feito um PDC, só um ou outro curso de bioconstrução, fossa de bananeira, captação de água da chuva… Já tinha lido algumas coisas e me encantado de um sistema que me apresentou ferramentas para pôr em prática meus sonhos de um mundo mais harmônico (quem ainda não conhece a permacultura, sugiro um passeio pelo site da Rede Permacultura Social Brasileira).
Consegui a vaga e inclui uma passagem por Alpestre como disciplina obrigatória do meu doutorado livre. Não esqueçam que na flor da permacultura tem uma pétala em que se lê: educação e cultura. E eu já ia há um tempo mesmo buscando maneiras de permaculturar a educação. O PDC +23, espécie de aula-inaugural da sede do Instituto Marcos Ninguém de Permacultura, me apareceu como espaço perfeito para isso.
A tal barragem de que falei lá encima alagou boa parte do povoado Dom José, em Alpestre, expulsando muitos de seus moradores. Daí que a escola local ficou sem estudantes suficiente, e a prefeitura se viu na iminência do fechamento desse espaço. Fechou a escola municipal e abriu em seu lugar um outro espaço de ensinagem-aprendizagem, um instituto de permacultura (assista aqui o mini-doc sobre essa história). Marcos e Clairton, o Japa, que hoje tocam esse sonho-realizado que é o Instituto, nasceram por ali mesmo em Alpestre e foi lá que aprenderam a ver semente virar árvore e onde primeiro entenderam que é preciso amar a terra que nos nutre. Rodaram o mundo e viraram referência no que fazem pra poderem voltar pra casa, pro ponto de partida e recomeçar, de um outro jeito.
Me orgulho em dizer que vi o Instituto abrir as portas e dar seus primeiros passos na construção de uma sede física, reinventando um espaço de educação. Diz a permacultura que o problema é a solução. E, ao entrar naquele prédio construído a partir de uma perspectiva educacional conservadora, encontramos os problemas e vivenciamos as soluções. O fazer da educação na permacultura é com a mão na massa: aprende-se a construir, construindo; aprende-se a plantar, plantando; aprende-se a adubar, fazendo o adubo e adubando; aprende-se a dançar, dançando. Porque, se não for divertido, não é sustentável. Então, pra pisar o barro que vai virar um forno de pizza, a gente canta uma ciranda e dança.
A permacultura, enquanto prática pedagógica diante dos desafios do mundo, não traz UMA solução para os problemas da humanidade, mas aponta princípios, uma ética que deve balizar a busca por soluções viáveis. Assim, diante de cada problema que se apresenta, deve-se buscar uma solução que respeite essa ética. E quando digo isso, lembro-me de José Pacheco e Paulo Freire, queridos mestres da educação, dizendo que não criaram pedagogias para serem seguidas à risca, mas que cada educador/a deve observar o espaço educacional, a palavra-mundo em que está inserido/a, para construir a melhor prática pedagógica para aquele contexto determinado. Respeitando sempre uma ética da práxis educacional, em que educadores e educandos devem ser percebidos, sentidos, como protagonistas de suas histórias.
Em Alpestre, pude aprender com alguns dos permacultores mais respeitados do mundo, incluindo nessa conta Marsha Hanzi e o próprio David Holmgren. E também foram meus educadores d. Lenir, agricultora de Dom José, a pequena Zoey, com dois anos de vida e incondicional amor por gatos, Marcos e Aline, magos da gastronomia vegana, e mais uma centena de sonhadores que estão, neste exato momento, cada um a sua maneira, permaculturando o mundo.
Saí do PDC +23 com uma imensa bagagem de conhecimentos e, principalmente, mapas para construir novos conhecimentos sobre uma agricultura mais sustentável e harmônica, uma arquitetura mais humana, uma educação mais amorosa, uma alimentação mais saudável, uma forma de convivência humana mais respeitosa – e a lista se estende quase que infinitamente. Além disso, vi muitas redes serem tecidas – e ajudei nessa tecelagem também! –, todas com o intuito de disseminar um tipo de conhecimento conectado com as diversas realidades locais e reconhecendo diversas formas de saberes, dos mais tradicionais às mais avançadas tecnologias informáticas.
Voltei pra casa com a sensação viva de que esse foi apenas um primeiro passo no meu caminho de permaculturar a educação. Tenho a impressão de que ainda escreverei mais por aqui sobre isso ;)
PS: Minha imensa gratidão a todos os irmãos e irmãs que (re)encontrei em Alpestre. Nos vemos por esses caminhos, amores e amoras <3















