'Que nada' 'Acha que não sou capaz?' 'Eu sei que você é capaz. Mas sei me proteger.' Riu com seu velho jeito maldoso. 'De mim, não.'
ELENA FERRANTE, HISTÓRIA DE QUEM FOGE E DE QUEM FICA, 2013, P.19
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'Que nada' 'Acha que não sou capaz?' 'Eu sei que você é capaz. Mas sei me proteger.' Riu com seu velho jeito maldoso. 'De mim, não.'
ELENA FERRANTE, HISTÓRIA DE QUEM FOGE E DE QUEM FICA, 2013, P.19

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Em vez disso, ir embora. Escapar definitivamente, para longe da vida que tÃnhamos experimentado desde o nascimento. Fixar-se em territórios bem organizados, onde realmente tudo era possÃvel. E de fato foi o que fiz. Mas só para descobrir, nas décadas seguintes, que eu tinha me enganado, que se tratava de uma corrente com anéis cada vez maiores: o bairro remetia à cidade, a cidade, à Itália, a Itália, à Europa, a Europa, a todo o planeta. E hoje eu vejo assim: não é o bairro que está doente, não é Nápoles, é o globo terrestre, é o universo, ou os universos. E a habilidade consiste em ocultar e esconder para si o real estado das coisas. Falei a respeito disso com Lila naquela tarde, no inverno de 2005, como para fazer uma reparação. Queria reconhecer que ela havia compreendido tudo desde pequena, sem jamais ter saÃdo de Nápoles.
ELENA FERRANTE, HISTÓRIA DE QUEM FOGE E DE QUEM FICA, 2013, P.18
(...) mas eu não tinha a força para encontrar as palavras, e ela - a quem talvez não faltasse força - não tinha a vontade, nem via utilidade nisso.
ELENA FERRANTE, HISTÓRIA DE QUEM FOGE E DE QUEM FICA, 2013, P.13
Viewed from the top floor down through the fragments of a once-conventional apartment or office space, the structure possessed a sort of reflective quality, resembling a surface-as though it were just an accumulation of images (of the spaces below)
Corinne Diserens in Phaidon Press Limited, Gordon Matta-Clark, 2003, p.6
(...) ao mesmo tempo, tudo isso estava tão longe do passado que eu não sabia exatamente o que sentir nem se havia ainda nessa garrafa um significado qualquer pra mim; mas naquele instante havia um para ela e era o suficiente (...)
GRÉGOIRE BOUILLIER, O CONVIDADO SURPRESA, 2004, P.109

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(...) pela primeira vez se podia ver numa tela a impossÃvel demanda das mulheres e a impossÃvel aquiescência dos homens e essa fatalidade que os separa e que todos conhecemos e carregamos como uma miséria nos braços (...)
GRÉGOIRE BOUILLIER, O CONVIDADO SURPRESA, 2004, P.105
a atividade literária, no que ela tem de especÃfico como disciplina de espÃrito, não pode ter outra justificação a não ser iluminar certas coisas para si próprio ao mesmo tempo que elas se tornam comunicáveis para outrem, e que um dos objetivos mais elevados [...] é restituir por meio das palavras certos estados intensos, concretamente experimentados e tornados significativos para serem postos assim em palavras
MICHEL LEIRIS IN GRÉGOIRE BOUILLIER, O CONVIDADO SURPRESA, 2004, P.50Â
(...) naquele momento compreendi que ela não estava ligada à cafeteira mas ao fato de ela não funcionar e isso mudava tudo e abria perspectivas incrÃveis sobre ela e talvez sobre tudo o que vai mal a todo instante no planeta (...)
GRÉGOIRE BOUILLIER, O CONVIDADO SURPRESA, 2004, P.92
(...) e na frente do espelho por pouco não me acabei de rir diante do meu reflexo e diante do mundo que insiste em resolve problemas a partir deles mesmos, sem nunca se preocupar com o significado que eles têm e devem ter para nós.
GRÉGOIRE BOUILLIER, O CONVIDADO SURPRESA, 2004, P.91-92
(...) e sorri como não desejo sorrir a ninguém em toda a sua existência.
GRÉGOIRE BOUILLIER, O CONVIDADO SURPRESA, 2004, P.50Â

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(...) milhares de emoções e sensações me submergiram e todas buscavam adivinhar se ela havia escolhido esse vestido para me agradar e me seduzir e me torturar, como se diz, ou para me fazer compreender que ela agora pertencia a outro mundo e aos desejos de outro homem e as duas coisas eram possÃveis e talvez até ela só buscasse exercer um poder de sedução sobre todos e sobre ninguém em particular, sim, como todo mundo eu sabia que uma mulher nunca se veste ao acaso (...)
GRÉGOIRE BOUILLIER, O CONVIDADO SURPRESA, 2004, P.48Â
Ninguém prestava atenção em mim e tudo acontecia enfim como na realidade: de maneira enigmática sem que isso se veja nem se saiba.
GRÉGOIRE BOUILLIER, O CONVIDADO SURPRESA, 2004, P.45Â
(...) senti claramente que ao entrar ali eu entrara ao mesmo tempo num personagem que um segundo antes não estava presente e agora assumia o seu papel e me compunha um rosto para me proteger e me defender dos olhares (...)
GRÉGOIRE BOUILLIER, O CONVIDADO SURPRESA, 2004, P.44
(...) e se eu esperava sentir algo de extraordinário não foi o que aconteceu, ou pelo menos não tive acesso a isso, a terra não tremeu e foi mesmo desconcertante o quanto a presença dela me pareceu imediatamente familiar e ao mesmo tempo incongruente (...)
GRÉGOIRE BOUILLIER, O CONVIDADO SURPRESA, 2004, P.43
(...) meu gesto não encontrou eco e foi como se ele não tivesse nenhum resultado e não tivesse sequer acontecido e eu mesmo simplesmente não existisse e por uma fração de segundo tudo começou a tremer diante dos meus olhos e a afundar, sim, como é que o silêncio podia continuar reinando quando tudo em mim dizia que eu acabara de fazer um gesto estrondoso?
GRÉGOIRE BOUILLIER, O CONVIDADO SURPRESA, 2004, P.42

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(...) quando recebemos um presente, sim, o abrimos e numa fração de segundo pressentimos a fraude e somos tomados pelo desgosto e a tristeza e procuramos logo sorrir e agradecer para entrar no mais fundo do nosso ser o dissabor de nunca nos oferecerem nada de inesperado na vida e essa alegria sempre frustrada continua sendo para nós mesmos incompreensÃvel.
GRÉGOIRE BOUILLIER, O CONVIDADO SURPRESA, 2004, P.32-33
mas em toda parte só via mercadorias e mercadorias e nada que tivesse outro valor senão o que a sociedade atribuÃa em série, por mais que procurasse eu não via em lugar nenhum o objeto que me desse a sensação de encarnar outra coisa que não vantagem e lucro (...)
GRÉGOIRE BOUILLIER, O CONVIDADO SURPRESA, 2004, P.32