A vivência no plano mundano mostrara-se, até o momento presente, de uma certa improdutividade para a filha de Lúcifer. A figura feminina convivia naquele meio há um tempo considerável, pelo menos aos olhos humanos, e não fora capaz de obter ou vivenciar algo que aparentasse ser de alguma utilidade para si ou para seu progenitor, fato de relevância e necessidade ainda maiores por apresentar a base da justificativa para a permanência da garota naquele ambiente. Lúcifer em um raro momento de lucidez e senso de responsabilidade que não era comum à figura infernal resolveu por retornar aos seus domínios como governante do Inferno, posto este que ele abandonara há tempos atrás com rumo à Los Angeles por ter entediado-se com a vida levada na outra dimensão. Guerras normalmente significavam que certos sacrifícios seriam necessários de se fazer e retornar ao seu famigerado posto foi o do arcanjo, que se viu na obrigação de regressar por conta do recente e intenso fluxo de novos habitantes merecedores do fogo eterno. Para que a não-tão-nova-experiência se tornasse um tanto menos maçante e tornasse a despertar seu desinteresse, o também chamado Diabo resolveu por levar sua fiel consorte e protetora Mazikeen de voltar ao lar, deixando apenas sua prole para trás. Apesar de sua onisciência, uma habilidade necessária para alguém em sua posição, embates envolvendo a Terra — quer seus habitantes sejam os únicos envolvidos nestes ou não — normalmente significavam uma quantidade de trabalho acima do normal e, consequentemente, mais necessários de atenção. Lilith, então, surgiu como uma maneira de retirar do Anjo Caído mais essa responsabilidade uma vez que ele não possuía condições de fiscalizar em presença e não poderia depositar tal tarefa nas mãos de qualquer ser. O ofício em si de nada apresentava uma dificuldade acima do normal, o trabalho era extremamente simples se parado para analisar, mas as implicações poderiam ser catastróficas dependendo do encarregado. Uma informação transpassada de maneira errônea ou imparcial poderia guiar ou até mesmo arruinar de uma vez por todas os planos de Lúcifer. Somado a tudo isso existia um fator que transformava a jovem na candidata ideal: a necessidade de treinamento. Após séculos na companhia dos pais a garota já experimentara de diversas coisas e já possuía um certo domínio de suas habilidades, mas seria necessário mais do que isso se quisesse assumir o controle do Inferno no futuro.
Não estivera presente no primeiro grande evento do Instituto, que ainda era chamado de Bishop, e poucas situações se mostraram dignas de notificação desde então. Eventos isolados ocorreram, eles sempre se faziam presente, mas não passavam de rumores e palavras ditas corredores à fora. Nada passível de nota quando o indivíduo em questão era o senhor do Inferno. Ficou com alguns eventos que poderiam ter implicações no futuro: o ritual de ligação com outros membros do agora também seu Coven, por exemplo, afinal também era de seu interesse qualquer incremento em suas habilidades. Teria comunicado da morte de Parrish, alguém com quem veio a criar um vínculo tempos depois, mas ele veria com seus próprios olhos a presença do filho de Loki. O garoto em si, apesar de poderoso, não era exatamente alguém na qual Lúcifer teria em sua lista de prioridades, ou pelo menos não era antes de sua ressurreição. A mudança de endereço do Instituto fruto da infestação de um vírus extraterrestre e a chegada do famigerado Coringa foram devidamente comunicadas, a primeira por incluir um dos palcos da guerra que assolava o país e a outra por tratar de um indivíduo possuidor de uma atenção deveras especial por parte do arcanjo. Sua insatisfação com seu desempenho nos afazeres da qual fora incumbida não perdurou por um longo tempo, no entanto. Para sua completa surpresa, semanas após comunicar da chegada do palhaço, Lúcifer se fez presente em corpo e sangue — ou ao menos o tanto quanto era possível em seu caso. Não querendo lhe dizer o motivo de sua presença como o grande apreciador de dramas e mistérios que era, apenas compartilhou que em breve conversariam e que o assunto a tratar era de extrema importância. Preferiu por não insistir, sabendo que de nada adiantaria perdurar em tal assunto. Não havia grandes motivos para se preocupar, afinal ele deixara seu território nas mãos de ninguém menos que sua mãe. Não havia ninguém mais confiável e capaz de cuidar do lugar como ela.
Em uma noite, as garotas que compartilhavam do mesmo quarto que Lilith aparentavam estar dormindo profundamente, a morena ouviu alguém chamar por seu nome em algo próximo de um sussurro. Não sabia se era real ou não já que descansava juntamente das outras, mas nem por isso o barulho cessou. O que começou em um tom praticamente inaudível foi ficando cada vez mais agudo e imperativo. Quando obteve a confirmação pessoal de que aquilo que vivenciava não era apenas uma alucinação, moveu as pestanas de súbito. Encontrou em pé, ao lado de sua cama, uma figura feminina escondida pela escuridão. Não era necessário perguntar quem era, saberia discerni-la a quilômetros de distância. Mazikeen possuía uma aura especial, uma aura familiar para sua prole. Talvez fosse a ligação que compartilhavam, tendo a mais nova vinda diretamente da mulher, ou os anos habituando-se à sua mágica e habilidades, mas o certo era que nenhuma palavra precisava ser dita para reconhecer a presença ali. E nada precisava ser dito também quanto ao que fazer. Levantou-se e seguiu a outra em direção à porta sem se preocupar em trocar suas vestes ou se era permitido aos estudantes fazer tal coisas. Certos assuntos eram mais importantes do que as triviais regras mundanas. Fechou a porta, buscando evitar de produzir algum som para não acordar os demais estudantes, e virou-se para a mãe. Maze não usava sua máscara, aquela que trajava durante sua estadia no plano terrestre a fim de conter sua natureza demoníaca, dando a ideia de que ela já não era mais necessária, ao menos não agora que era a comandante do Inferno. O olhar da criatura era obstinado, talvez até mesmo perigoso, levando a menina a concluir que era melhor não cumprimentar a mãe através do toque. Talvez ela nem ao menos estivesse ali. Talvez tivesse preferido por mandar apenas uma projeção. “Mãe.” Usou de um aceno de cabeça, a fim de acelerar o processo e evitar que falsas formalidades se fizessem presentes. “Lilith.” Sua voz, apesar de clara e em alto som, parecia abafada, confirmando que a mulher não estava realmente presente. “Sinto por não poder ficar mais tempo, mas tenho pressa. Seu pai pode ter se retirado mas o trabalho só tem a aumentar.” Firme em seu discurso, como se tivesse ensaiado, não parecia contente com as palavras que proferia. Não seria peculiar se estivesse aborrecida com o cargo. A tortura favorita do Inferno, como seu pai a chamara algumas vezes, nunca tivera entre seus interesses ser a responsável por um lugar de tamanhas proporções. Diversão, satisfação de prazeres e terror eram o que realmente lhe agradavam, mas não havia nada a fazer quando o próprio Diabo lhe fazia um pedido. “Lhe incumbirei de uma tarefa, criança, e é de suma importância que ela se torne sua prioridade. Achas que é capaz?” Vinda de qualquer outra pessoa a pergunta lhe seria de extrema ofensa, mas não da mãe. A entidade demoníaca gostava de lhe pressionar, fazer com que ela se superasse e fosse além de seu potencial. Ao contrário do Anjo Caído, que não escondia seu orgulho e afeto quando o assunto era Lilith, ela era do tipo sentimental, ou pelo menos não era de seu feitio demonstrar afeto. “Obviamente que sim, mãe. Farei todo o necessário.” Esperava que a mãe possuísse confiança em sua resposta. “Lúcifer está aqui, convivendo com os mortais, e você já sabe disso. Deve ter encontrado com ele em algum momento.” Lilith concordou com a cabeça sem proferir som algum, deixando que a outra terminasse a fala. “Seu pai possui um problema, Lilith. Ele não sabe se comportar entre os humanos. Ele se perde, esquece de quem é e qual é a sua verdadeira função. Confunde seus interesses e deveres com a fascinação que insiste em manter por essas criaturas e isso pode ser fatal. Ele é imprudente, irresponsável. Um tolo. Sua visão fica deturpada quando as envolve, tendo uma delas como seu bichinho especial. Chloe Decker. Não subestime a capacidade que ela possui de cegar ele, nunca.” Um pouco chocada com a fala da mãe, já que nunca pensou que os humanos pudessem ter tal efeito sobre o temido Diabo, não respondeu nada, apenas a encarando. Não esperando por uma resposta, continuou. “Preciso que seja a protetora dele enquanto não posso fazer o trabalho eu mesma. Cuide ele, defenda-o e principalmente mantenha-no longe de problemas. Quando envolve-se em excesso com esses indivíduos a linha que os separa tende a tornar-se cada vez mais tênue até que não consiga mais haver um diferença. Até mesmo a imortalidade dele entra em risco. Você precisa fazer com que ele não cometa o mesmo erro novamente. Posso confiar em você?” Agora sim ela contava com uma resposta. A imagem da mulher já começava a perder a força, ficando mais e mais translúcida a medida que o tempo passava e chegando até mesmo a desaparecer por alguns segundos. Ela não possuía muito tempo. Respirou fundo antes de dar sua resposta, era uma questão de extrema delicadeza. “Sabe que sim.” Havia seriedade em seu rosto mas, ao ver o sorriso se formar nos lábios alheios sabia que não era de todo mal. A mulher se despediu, então, prometendo visitá-la em breve e assim como surgira, partira. A experiência deixara Lilith mais abalada que o esperado, a tarefa não aparentava ser de nenhuma dificuldade. E não era essa a questão. A tarefa era fácil, mas Lúcifer não. Conhecia o progenitor e sabia que ele faria o que quisesse independente da opinião alheia. Cabia a ela, agora, colocar juízo na mente de uma das criaturas menos controláveis de toda a crença popular.