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The lovers

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Um brinde à cotidianidade!
Epílogo
Quantos dias faltam para o fim? Uma vida? Uma contagem de estrelas? As páginas finais de um livro antigo e pesado? O começo de um filme de comédia?
(Você não tem como saber, mas…)
Tenho medo que talvez o meu mundo acabe hoje ou amanhã (também tenho medo que ele demore para acabar), pois eu sempre me questiono: como ficaram os sonhadores como eu?
Nunca andarei de balão ou verei uma baleia de perto, meus livros ainda continuaram inacabados e eu adiei escrever aquele poema para o meu pai, nunca pedirei desculpas àquela velha amiga, não farei a mínima ideia de como é a neve, nunca sairei do país, não terminarei de ler aquele livro preso na estante, nunca saberei como é romântico um beijo em meio a chuva ou uma declaração ao som das cachoeiras, não cantarei junto ao meu irmão, meu sobrinho não saberá por mim como se fala meu nome, não desculparei aquela estranha que um dia foi uma grande amiga, terei medo (até o fim) de mudar minha aparência, não direi para meu sobrinho pessoalmente o quanto eu o amo… meus sonhos acabariam todos arquivados junto ao meu peito frio.
Claro… não pensei que serei apenas melancólica em ditar tudo aquilo que nunca fiz, tenho de admitir que teria muito o que contar para aquela que vem me buscar na calada do dia, afinal… eu me mudei, passei na prova, escrevi poemas de amor (e de dor também), fiz aulas de teatro, me apaixonei, tive o coração partido e quebrei corações, li um número maior de livros do que o número de invernos vividos, encontrei o amor da minha vida, escrevi um poema para minha mãe, fiz amigos ao longo da jornada, tatuei uma borboleta e trovões, fiz feitiços bons (vou deixar os ruins escondidos no fim do armário), plantei uma árvore e comi os frutos, aprendi a desenhar, fui em um estádio em dia de jogo e em uma exposição em um museu, fiz tortas de limão e digeri, finalmente, quem sou eu…
Será que é esse o sentido da vida? Ter uma lista de prazeres e um longo catálogo de arrependimentos? Saber que vivi o máximo que pude e que, ainda sim, não foi o bastante para aproveitar tudo que gostaria?
Vou aceitar o silêncio como um sim.
Que venha, mas demore para chegar e que me deixe diminuir e, então, aumentar a lista daqueles doces arrependimentos tolos…
(Senhora morte, que você venha devagar e, também, saiba aproveitar sua jornada até mim)
Meus inúteis (muito úteis) motivos para continuar:
A forma como a chuva banha o céu;
O cheiro das tempestades;
Café gelado em manhãs quentes;
Livros que nunca são o que parecem ser;
Músicas calmas que contam apenas um lado das histórias de amor;
Filmes de romance com caminhadas lentas;
Risadas altas de palavras inesperadas;
Poemas tristes de romances sem final;
Sorrisos genuínos;
Dançar quando sente vontade de gritar;
Alaranjar róseo do céu nos inícios e finais de dias;
Palavra novas em línguas que não são a minha;
Aprender algo que ninguém perto de mim sabe;
A sensação gostosa de se sentir importante;
Escrever cartas que sei que nunca vão ter respostas;
Assassinatos fajutos em filmes de terror;
O riso que brota do peito quando estamos nervosos demais para segurá-lo;
Banhos gelados no verão;
Cheiro de limão siciliano em uma tarde de primavera;
O som das ondas do mar batendo contra as pedras enquanto seus pés se enfiam bem junto a areia da praia;
O balançar das árvores;
O frio do vento gelado de chuva;
Os trovões que cortam o ar em dias escuros de tempestades;
Fotos de máquinas de shopping;
Aquela imensa vontade de transformar todas as coisas da vida em uma espécie de filosofia sobre encontrar a arte…
Calmas tardes
São naquelas calmas tardes que a falta finalmente dói.
Quando você, sem perceber, se encontra sentado na beirada da cama com as mãos agarradas no estrado de madeira avermelhado e (entre gritos ensurdecedores) a Perda te segura calidamente pelo colarinho… exigindo memória, exigindo lembranças, exigindo … dor.
Não é fácil perceber, pois, ela chega quando a casa está, finalmente, vazia e te afaga gentilmente o rosto – como aquela risada engraçada com ronquinho de porquinho que você nunca mais vai poder ouvir. E então, como um soco bem-dado na boca do estômago, silencia sua mente (que não para de proferir um grito de socorro arrastado) e se debruça sobre as paredes da inconsciência… estraçalhando-a…
Você respira bem fundo e percebe (aturdido) que você não consegue levantar. As mãos voam para o peito vazio e bate com força contra aquela caixa torácica que resolveu parar de funcionar. Seu corpo se enverga diante da Perda, puxando o ar que falta em algum lugar que você não reconhece mais e então você se dá conta que as lágrimas se foram.
Se foram ao lado de mais uma antiga paixão.
(E já se foram tantas…)
Aquele filme bobo que vocês não paravam de assistir naquelas tardes de domingo. Aquele livro que te tirou mais sonos do que sorrisos bobos. Aquela amizade que te fez jurar que era “para sempre” sem nunca compreender o que “para sempre” deveria ser. Aquele sabor de sorvete que você descobriu em uma tarde qualquer naquela sorveteria que nem existe mais. Aquela música decorada lentamente durante horas e horas e horas. Aquele amor que te fez pensar saber o que significava o eterno…
Todos se desprendendo (vomitados e mal digeridos) de seu peito doloroso e se distanciando no acastanhado céu das memórias que valsam junto a Perda – como aranhas brancas presas em teias cristalinas de lágrimas que você nunca mais poderá tocar…
A perda dói em um dia claro que se ensurdece em meio às memórias. Quando você senta na beirada da cama para calçar seu tênis e olha para o lado se perguntando sobre aquela meia de gatinhos a muito esquecida… Naquele momento estranho que você percebe que perdeu mais uma parte de si… É então que sua última lágrima se debruça por seu rosto e corre pelo bem delineado caminho de sua sorridente lembrança… e você lentamente levanta da cama.
São sempre naquelas calmas tardes.
(07.04.19)
Carta 13 – A morte
A Morte é aquela conversa boa, regada a risadas soltas e uma saudade pulsante, onde você deixa para trás todas as coisas que aprendeu e se joga de cabeça na escuridão da novidade. É aquele “finalmente” dito de forma arrastada ao final do dia cansativo de trabalho, quando tudo que você quer é deitar-se junto daquela que ama e esquecer que amanhã é um novo dia. É abrir mão do que te sufoca e fechar lentamente todas as feridas abertas em seu peito.
A morte é uma perda lenta, delirante e dolorosa de tudo que te machucou… e, ao mesmo tempo, uma rápida despedida de tudo aquilo que você maculou no mundo. É a memória te deixando em meio a um fala desconexa que você nunca consegue compreender o porque começou. É aquele “Olá!” animado que você não esperava ouvir naquela calma tarde de abril…

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Os dias bons tem cor e cheiro
Nada mais bonito do que ver o sol se pôr...
Ruptura
A primeira ruptura no eu frágil criado pela infância se instaurou em mim vindo de meu irmão e seu constante hábito de fugir de qualquer lugar por essas folhas brancas e amareladas que me ensinaram tanto sobre universos e amores imensuráveis. Amores esses que se enraiaram em meu coração e sussurraram-me sentenças assim como faziam os anjos que caem nos romances sombrios que aquela velha e já esquecida amiga de adolescência me incentivava a escrever.
A segunda vez que ouvi aquele barulho estranho de algo quebrando dentro de mim eu já estava mais velha e as certezas (aquelas pequenas bruxas demonicamente fúteis) já começavam a enraizar em meu coração como grandes roseiras desenhadas na beirada de provas e livros, enquanto tudo que minha mente conseguia buscar eram as novas formas de concentrar mais de meu tempo nas séries de televisão e nas conversas com os amigos de escola que hoje em dia já nem sei mais com que se parecem. Foi naquele tempo em que pensei saber de mim mais do que qualquer outra pessoa e manifestava (sem vergonha ou qualquer pudor) meu eu mais chamativo e infantil, que aprendi a olhar mais para as estrelas e mentir menos para mim mesma. Tudo que meu eu havia aprendido estava lentamente caindo no chão enquanto eu caminhava para o escuro da minha auto aceitação.
O momento que senti que meu ego já nem existia em mim eu estava no fundo do mar escuro e sangrento, naquele mesmo lugar onde o universo esqueceu os dinossauros, pedindo implorando para que qualquer pessoa pudesse ver por detrás dos poemas doloridos e me estendesse a mão… Quando joguei meu ego no lugar mais lamacento daquele fundo de poço eu arrastei-me da forma mais degradante que alguém poderia fazer para poder voltar para os braços que eu desejei sempre estar, os meus próprios.
Eu não tinha mais ego, quando a chuva caia forte em minhas costas e o espelho, quebrado no chão, apenas servia-me de um retrato infiel daquelas memórias mais doces – eu segurei com força meu próprio abraço e me busquei no fim da estrada. Pedaço por pedaço minúsculo meu eu mais interno surgiu devagar. Como devagar nasce uma flor num campo primaveril.
Foi inevitável a felicidade solitária que me banhou quando percebi que eu estava novamente ali. Cicatrizada, bonita e reconstruída em minha forma mais confortável, minha forma mais verdadeiramente original. Por vezes um pedaço do ego ainda cai, ferido pela sociedade… noutras ele racha, atormentado pelas memórias… mas, agora eu sei como concertar cada uma dessas pequenas falhas e transformar elas para nunca mais me deixar cair tão fundo no mar tempestuoso que banha nossa vida.
Me sinto indo para longe… sempre longe de tudo que já fui e que já conheci…. Por isso eu guardo as memórias e, também, um pouco de cada um daqueles que caminham comigo para que assim eles sempre estejam caminhando comigo para sempre. Presos entre o ser e o não ser de minha alma mais que espectral.
No meio da noite
Meu coração, essa criatura vil e volátil, bate forte e apressado em meio peito pequeno e insignificante, enquanto o tiquetaquear do relógio ressoa em todo o meu ser… e as horas (esses seres imaculados) vão sempre para frente e jamais para trás.
Mas nunca é para frente rápido demais. É sempre devagar. Sempre lentamente. Como um monstro brincando com uma presa muito fraca. E eloquentemente rindo daquele desespero animalesco. E fazendo-a enlouquecer. Implorar para que fosse mais rápido. Mas… ele nunca vai mais rápido. Caminha sempre devagar..
Um
Dois
Três
Meu coração, tolo e trêmulo, bate cada vez mais e mais rápido em um tumtumtum ensurdecedor que afastou as visitas e, também, os pequenos filhotes resgatados de mim. E as horas… passam cada vez mais lentas…
Tic
Tac
Tic
Tac
Tic
Tac
A ansiedade, companheira de data muito longa, consome cada vez mais os meus desprotegidos dias, mas as horas (pequenas bruxas espectrais) vão ficando cada segundo mais longas e parece que o tempo não passa.
E eu fico ali… no meio do caminho entre a lentidão das horas e a rapidez do meu coração.
Você e eu
Faz agora um longo tempo desde a primeira vez que te vi. Você me olhou como se tudo tivesse valido a pena (o que era esse tudo, eu nunca saberei) e eu te olhei como se só você existisse para mim (meu lugar seguro para sempre). Eu sei que teve outro antes de mim e que depois de mim seguiu-se mais uma para te partir em três, mas, naquele pequeno momento em que nos vimos pela primeira vez sempre será apenas você e eu.
E depois do primeiro olhar vieram, então, tantas outras primeiras vezes entre nós que nem sei por onde começar a lembrar… teve a primeira vez que te chamei desesperada, com medo de que você fosse embora e me abandonasse sozinha nesse planeta inóspito que tu insistes em chamar de lar. Teve, também, aquele primeiro passo vacilante em tua direção, onde meu medo de cair só era superado pelo teu entusiasmo genuíno em me ver andar até ti. Teve, um pouco depois, uma porção de cartas mal escritas, desenhos mal feitos e rimas desbotadas que você só gostou porque seu amor independia de meu talento não lapidado… Teve vários outros momentos em que o mundo ficava de lado e nos tornávamos apenas você e eu.
Então, os anos passaram e nosso ‘você e eu’ foram ficando mais raros… medrosos… distantes… foram tempos difíceis em busca de algo voltado tanto para o ‘eu’ que esqueci de contar que você (com natais fora de época, apoio incondicional, experimentos gastronômicos estranhos e risonhos, aquela mão que me dava força em meio a cada doença, aquelas piadas ruins, a canção de ninar que me acalentava durante a febre, a palavra que me impulsionava mais para frente…) ainda era meu lugar seguro para sempre. Quando olho para trás eu percebo o quanto esqueci de te mostrar a importância que tinha em minha vida e em minha formação como a pessoa que fui e que serei, e, me arrependo de não ter sabido contar para a pessoa que me assistiu dançar mal e cantar desafinadamente naquele palco mal decorado e escuro por 10 minutos (acredite em mim isso é MUITO tempo…) que era ela e só ela para sempre.
Quando entendi que independente da queda do mundo era tu quem me acolheria eu sinto que perdi um longo tempo longe… mas tu me acolheste de braços abertos e me ofereceu tua mais sincera amizade enquanto caminhávamos fazendo planos para todos os lugares que queremos conhecer (de motorhome ou a pé) e todos os bares nos quais queremos beber até termos mais e mais histórias para contar. Entendi que independe de entender-me ou não, tu lutou e luta cada uma das batalhas ao meu lado… obrigada por tentar entender minhas escolhas tortas e certas. Ao teu lado eu sou feliz.
Faz agora um longo tempo desde a primeira vez que te vi e anseio que falte um tempo mais longo ainda para a última, e, espero que nesse intervalo ainda existam muitos momentos em que sejam apenas você e eu… (moldando e transformando nossos corações por meio de emoções coloridas)
Te amo mais que tudo que existe em mim. Obrigada por nunca ter desistido ou ido embora e que o tudo seja realmente Tudo... minha mãe.
(03.05.22)

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Num pedaço caído de Sol
Sinto meu corpo estagnar na beira daquela estrada fria e bem iluminada.
Os carros passam velozes por mim, sem nunca oferecer um aceno se quer.
Sempre cheios demais… sempre atrasados… sempre sem tempo para nada…
É o que escrevem naqueles letreiros brilhantes e coloridos que ficam em cima de suas cabeças.
Recostada, sozinha, naquele ponto de ônibus, não os julgo nem por um instante
(mesmo que por vezes tenha vontade de fazê-lo)
Sei o quanto aquela estrada é estressante…
Uma van passa por mim e ouço um trovão ao longe.
Fecho os olhos tentando lembrar-me aquele mantra que aquela garotinha me ensinou
Durante a tempestade devastadora de anos atrás…
Mas,
Só consigo me recordar daquele sorrisinho de esquilo que ela sempre tinha para mim…
Arrependo-me da lembrança na mesma hora que o relâmpago ilumina o céu.
Digo a mim mesma que foi a muitas chuvas atrás…
Balanço a cabeça e olho a estrada com seus carros brilhantes
Espero quele fusca azulado que me oferecerá uma carona aconchegante
E me levará até a próxima estrada mais a frente.
Enquanto espero, vejo alguns carros que já andei passarem por mim
Sem oferecerem nenhum sinal de reconhecimento.
Meu corpo tenta rejeitar a sensação de abandono que abarca meu peito.
E tento me convencer que quem pulou do carro fui eu.
Que não posso agir como se tivesse sido o cachorro abandonado na mudança…
Ou eu fui?
(uma voz sussurrava confusa contra meu ouvido)
Nego com a cabeça qualquer outro comentário e questionamento…
A culpa (se é que existe) sempre ficará sem dono naquelas estradas passadas …
Sinto a chuva se aproximar cada vez mais veloz.
Me pergunto se sou eu quem deveria pedir carona
Ou esperar esse tal carro “encantado” me oferecer uma.
Balanço minhas pernas nervosas
Com medo de que parem de funcionar de algum modo bizarro
Paranoica
Cutuco uma pedra e a vejo rolar até os carros
Que a ignoram como se não a vissem.
Eu deveria esperar ou pedir carona?
Finalmente alguns carros…
ao ver que a chuva se aproximar violenta
… param oferecendo carona.
Nenhum é um fusca de cor azul…
Mas, sou sempre educada, sem dizer diretamente ‘não’ as suas gentilezas
… mas…
sinto-me decepcionada com minhas próprias expectativas.
Demoro a decidir e alguns vão embora...
Decepcionados em suas próprias expectativas sobre mim.
Por fim
(relutante e temerosa)
Aceito a carona de uma lambreta amarela e engraçada.
Era incrivelmente desengonçada
E quase derrubou as três pessoas que carregava clandestinamente.
Mas, ela foi
(de todas as outras)
Minha carona mais memorável.
(26/04/2022)
Eclipse Solar
Puxei aquele seu chapel rosa escuro para frente do meu rosto, bloqueando os raios de sol que insistiam em buscar-me como alento às suas desorientações. Sorri enquanto observava seus cabelos voarem junto ao vento (bloqueando, vez ou outra, sua visão de si mesma) e me recostei na porta velha enquanto uma banda de rock alternativo vazava pelas janelas baixas do fusca alugado que você insistiu que deveríamos pegar… Da mesma forma que insistiu para dirigi-lo até ali… Eu deveria ter previsto que péssima (excelente) ideia seria.
Gargalhei quando tropeçou numa raiz qualquer e abracei meu corpo, protegendo-me do vento frio daquele amanhecer que brincava por entre os campos levando o aroma das flores daquele lugar esquecido pelos deuses do destino nunca pronunciado ao templo da mais bela senhora da lua! Ouvi você chamar meu nome e levantei o rosto enquanto acenava, minha mão de repente trêmula com a magnitude de tua presença.
De costa para as cores quentes do sol nascente, com os braços abertos em um coração torto e um sorriso claro como o sol que nascia (e bem mais bonito). Senti que tua presença iluminava meus olhos escuros e fazia meu coração tremular de um amor fraternal e puro nunca antes pronunciado. Seu vestido azul clarinho estava repleto de margaridas brancas lembrando-me um estranho céu estrelado, com inspiração puxei o celular da bolsa jogada no banco e gritei seu nome como uma provocação a qualquer coisa que usava. O dedo do meio e o all star sujo de lama ornamentaram a foto onde escrevi (muitas noites mais tarde) o título desse poema.
Joguei o celular de volta para dentro do carro e me desfiz de qualquer outra parte do mundo que não você, a qual continuou dançando no meio do campo enlameado naquela manhã fria onde batemos aquele carro velho num salgueiro nada lutador e onde tudo que eu conseguia pensar era que eu já não era uma garota perdida pela terra do nunca… Eu havia me encontrado por entre os tortuosos caminhos da vida e a Lua era realmente minha melhor amiga.
Ouvi sua voz ao longe, reproduzindo aquela canção chiclete que concordávamos ser horrível — mas — que não saia de nossa cabeça, enquanto se perdia cada vez mais em sua própria beleza e magnitude.
Suspirei feliz.
Acho que a lua nunca mais vai se esconder do sol.
(17/03/2022)
Brontide
O universo parecia (finalmente) silencioso e calmo, como o céu azul e sem nuvens antes da tempestade avassaladora (a qual, provavelmente, receberia um bonito e chamativo nome de mulher). Segurei com força a caneca alaranjada e apoiei-me na janela alta, ouvindo o som baixo de um trovão distante vibrar por entre as árvores frondosas como um uivo desapegado que destruiria tudo em segundos. Sei que em algum lugar do quarto fechado meu celular tocava insistentemente, mas, me neguei a sucumbi a realidade pelos próximos longos minutos.
A parte assustadora da resposta é que ela vai gerar mudança independente da variação que ela tome. Suspirei consternada e deixei que o silêncio se estendesse por tudo, como uma manta bonita que se estira na varanda para aproveitar aquele sentimento gostoso do calor do sol no inverno. O café (quente e sem açúcar) esquentou meu corpo enquanto eu tentava manter minha mente presa apenas nas cores distantes da tempestade acastanhada que manchava o horizonte.
Todas as decisões nunca tomadas se acumulavam por entre os goles amargos do meu café, enquanto observo você correr atrapalhada do uber até o prédio, ou melhor, enquanto vejo o cachorro da casa vizinha latir uma saudação ao passo que você acariciava as orelhas dele (mesmo sabendo que o atraso pode te deixar encharcada). Desvio meus olhos para os longínquos trovões, desejando (como fez Peter Pan ao ir para a terra do nunca) viajar para luares distantes e nunca mais me preocupar com nada que possa, minimamente, tirar-me de minha dourada paz infantil dos sonhos.
Quando a tempestade (finalmente) caiu, uma espécie de alívio e medo tomou conta de todo meu corpo. Saí de perto da janela alta e andei lentamente até o quarto, os trovões estavam alto demais para serem ignorados e a agitada tempestade escorreu para dentro de minha mente, revirando minha sanidade e me trazendo de volta à realidade – lugar assustador, sombrio e escuro. Acendi a lâmpada amarela, a qual já pedi tantas vezes para ser trocada, e, enfim, atendi o incansável celular.
Acho que em algum momento todos tem de sucumbir a vida adulta… mesmo que ela seja seu pior pesadelo.
(19/02/2022)
Trigéssimo primeiro encontro
Foi saindo daquele bar à meia-noite que entendi a forma como meu coração (criatura vil e ardilosa) se esgueirou por aquele proibido jardim ederiano e acomodou-se junto as mortas flores de róseo cristal, como uma criatura dócil e de fácil domesticação em tuas mãos.
Assustada como um felino preso em uma armadilha, me segurei no corrimão molhado e, como uma fervorosa defensora do “eu”, tentei impedi-lo e repreendê-lo (como vi tantas vezes fazer minha mãe comigo), mas, tudo em mim já havia se evadido por entre o azul do teu líquido destino, transformando-me em algo preso entre a paixão e o medo.
Com medo que eu caísse por conta da bebida, você segurou minha cintura sem se quer cogitar a ideia de que uma parte de mim já havia vestido a armadura reluzente e valentemente guerreava com aqueles demônios sujos que se prendiam contra tua alma amarelada para, dessa forma, ganhar espaço em teu coração maltratado.
Fechei meus olhos e, como uma desastrada, naufraguei sem rumo em meio ao esverdeado mar de minhas próprias lágrimas, questionando todos os caminhos – com receio que todos me levassem ao passado e a aquela indescritível dor que ainda me atormentava nas sextas-feiras calmas e nas manhãs de segunda muito felizes.
Você chamou meu nome de forma preocupada e eu, como uma criança, me segurei medrosamente contra minha solidão sem cor, apenas para, assim que abrisse os olhos (como se nenhum questionamento tormentoso tivesse afligido meu corpo fraco), perder-me de forma (in)experiente em teus coloridos desejos que faziam cócegas contra o meu âmago mais sofrido.
Sem perceber um sorriso de canto já tomava conta de minha boca como um tolo, meu corpo vagando mais uma vez por teus campos roxos – (re)marcando teu nome em minha memória esquecida – como se nunca tivesse saído de lá, enquanto você arrancava sem saber todos aqueles avermelhados cadeados de minha mais ingênua e pura felicidade e descobria, em meio a uma explosão de cores, um eu nunca antes descrito.
(15/02/22)
Abissal
A primeira vez que te vi estávamos na beira de um abismo alto, o qual eu havia escalado com as mãos nuas e me esforçado verdadeiramente para superá-lo a cada novo passo. Sentamos naquele sofá antigo onde você me contou sua jornada e conversamos por horas enquanto me neguei a olhar para baixo, com medo que o fundo me trouxesse vertigens e a tontura me fizesse cair mais uma vez.
No fim daquela tarde nós nos beijamos fervorosamente e eu me detive a olhar apenas para cima, contemplando o brilho das estrelas distantes e planejando aquele futuro que nunca teremos. Quando a manhã nascia sonolenta, você me empurrou lá de cima com as mãos espalmadas em meu peito e um sorriso doce nos lábios, como se não percebesse que me matava devagar naquela queda infinita.
Mas, já me machuquei o suficiente para saber que a queda não me mataria daquela vez e que (mais uma vez) eu teria de escalar aquele precipício com as mãos nuas, preparando meu peito para mais um daqueles empurrões delicadamente macios e cheios de sorrisos esperançosos, como se a minha queda pudesse lhes entregar um par de asas que eu não poderia ver.
Desde a primeira vez que te vi eu deveria ter ido embora…
(12/02/2022)

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Finalmente o encontrei
Foi parada (no meio do quarto mal iluminado por mais um final de tarde escuro) que senti pela primeira vez as mão do Destino acariciarem meu corpo, gelado como uma cobra e forte como um soco bem dado na parte alta de meu estômago. Uma longa lágrima rolou por meu rosto e um soluço choroso deixou meus lábios de forma sofrida. Tampei minha boca e me neguei a deixar que qualquer outra pessoa soubesse daquela certeza que me apavorava.
EU tenho um sonho.
Ainda trêmula, sentei-me na beirada da cama e agarrei-me aquele presente como se ele fosse uma boia de salvação. Mordi meus lábios para conter meu choro cada momento mais alto, reflexo do medo atormentante de que minha paixão não fosse o suficiente para fazê-lo sobreviver ao desassossego da vida real e a todos os nãos, noites de choro e “idas ao lixo” que o mundo ainda nos presentearia ao longo do tempo.
Eu TENHO um sonho.
Gargalhei surpresa, feliz comigo mesma ao entender a certeza que eu finalmente tinha em minhas próprias mãos a bússola certa para o caminho que eu deseja trilhar para sempre. Larguei um pouquinho o aperto e proferi um ‘obrigado’ de forma baixa, só para ele ouvir e, dessa forma, entender que ele era tudo que eu tinha buscado por toda a minha vida.
Eu tenho UM SONHO.
Olhando para o teto mal iluminado eu não sabia se ria ou chorava. As mãos contra o peito e o ar gelado entrando pela janela em toda a grandeza daquela segunda-feira chuvosa de fevereiro (onde o baque das gotas contra o prédio alaranjado simulava o furacão dentro de meu peito) me fazia questionar cada pequeno passo que dei ou darei. O medo de não conseguir me tirando o ar e fazendo meus ombros tremerem ansiosos enquanto uma onda elétrica me felicitava pela certeza a muito perdida e pedida a grande lua.
Eu (finalmente) tinha o meu próprio sonho.
(12/02/2022)
... eu sei
Parei em meio aquela escura encruzilhada esquecida, o choro engatado na garganta. Meu peito subindo e descendo dolorosamente, como se nunca mais fosse conseguir respirar corretamente. Eu havia fugido por tanto tempo e, independente de todas as escolhas que (não) fiz, não havia mais para onde fugir. O Tempo me exigindo sua resposta mais sincera sobre aquele assunto qualquer que eu ainda não tinha me entendido.
Coloquei a mão contra a garganta, arranhado a pele como se pudesse criar uma válvula de escape para toda aquela dor engarrafa que me vendiam como milagroso remédio celestial e solucei de um irracional medo sem nome. Senti meus joelhos vacilarem e meu corpo pender para frente, prestes a atingir o chão, mas – com sobressalto – afastei todas as mãos estendidas em apoio, sem me importar com os ferimentos posteriores. Tampei os ouvidos, sujando-os de sangue e recusando-me a ouvir qualquer outra dor que não a minha própria – esquecida e negligenciada pelo barulho cego da de tantos outros.
Todos os caminhos, brilhantes e enlameados, exigiam-me respostas que eu não poderia dar e o choro (minha companhia mais antiga e irracional) engatou com mais força em minha garganta, como se ele próprio sofresse os tormentos da indecisão que emudece a alma e deixa sem resposta todas aquelas valorosas perguntas de milhões que o Destino não poderia mais responder sozinho. Olhei para todos os lados em busca de qualquer coisa que pudesse me guiar em meio a neblina, entretanto apenas os passos distante de cada pessoa seguindo seu caminho enchia meus ouvidos.
Perguntei baixinho se era a única parada naquela encruzilhada indecisa, mas nunca obtive uma resposta que pudesse calar os rios tormentosos de minha própria alma e não haviam mais formas de enganar o Destino e apenas seguir em frente sem me preocupar com a aventura final. Entretanto, em algum momento da caminhada a Vida (cruel e indiferente) exige coisas que não sei como dar ou, apesar de tentar desesperadamente, responder corretamente… se é que a resposta correta existiu em algum momento do mundo.
Respirei ainda mais forte, a pressão (amiga cruel de longa data) esmagou meu coração contra o chão frio da consciência e um grito rosnou dentro de minha cabeça dolorida. Eu nunca soube exatamente o que deveria fazer, nunca tive uma grande inspiração que me guiasse para o caminho certo ou… ignorei todas as que tive, engavetando-as em caixas coloridas que etiquetei com o nome de hobbies.
Queria poder pensar que ninguém sabe o que fazer, até ser tarde demais e então, de uma forma triste e melancólica, …
(06/02/2022)