Era uma noite chuvosa aquela em que percebi o quão contraditório podia ser a sociedade em sua essência. Com um pensamento que surgiu do nada, após lembrar de uma conversa que tive com um amigo, comecei aquele brainstorm horrendo.
Nossa prosa era como a de sempre, falando sobre qualquer coisa, de qualquer forma, sem se preocupar se aquilo levaria a algum lugar. Do nada um nome de um terceiro, que era nosso aigo em comum, surgiu e a partir de coisas que aconteceram com ele, discorremos. A vida do rapaz estava uma bagunça, ele, que como nós é estudante e está longe dos pais, se colocou diante de varias adversidades para aprender a ser o que queria: um jornalista que não só dê a notícia, mas também possa influenciar de maneira positiva aqueles que estão ao seu redor.
Em resumo, era pra ser apenas um comentário do quão difícil isso seria, mas logo que isso aconteceu, nos deparamos com não apenas as dificuldades futuras que ele enfrentaria, mas também ass que ele já estava passando, tanto pessoais quanto as que o ambiente lhe proporcionava.
Cara, como sentimos pena dele, tanta coisa de ruim que aconteceu com ele em apenas um ano, sinceramente não entendíamos como ele suportava todo o fardo que havia se acumulado. O fato de sermos ambos íntimos desse terceiro, nos proporcionava conhecimento sobre sua vida e então começamos a enumerar o que havia acontecido com ele que iam desde o fato de ele ter tido que fazer cinco mudanças em um único ano, sendo que a última ele teria sido expulso do lugar que estava morando, por motivos totalmente sem nexo. "Até aí tudo bem né?" eu pensei, até porque é algo que dá pra se resolver, certamente ele tem pessoas do lado dele que podem ajudá-lo com esse problema.
Mas então meu amigo apontou novamente o fato de ele não estar perto da sua família, que isso seria muito mais fácil de superar, caso seus pais pudessem o acolher. Ponderei um pouco antes de falar algo, acabei apenas concordando. Por mais alguns minutos discutimos sobre esse cara e daí em diante vimos o quanto as coisas só se apertavam para ele, surgiram então tais questões: "Fiquei sabendo também que os pais dele não estão numa condição financeira muito boa", "Ele deve ficar arrasado pelo fato de saber disso e ainda assim não conseguir ir bem na faculdade ou então não conseguir um emprego", "Ele me disse que várias noites ficou sem dormir pensando nessas coisas, cara", "Ah é, os pais da namorada odeiam ele", e por aí vai, foram vários assuntos que eu prefiro não ficar lembrando.
Enfim, após muito tempo falando e falando, consigo voltar a falar apenas daquela noite chuvosa novamente. Eu sei que provavelmente o prólogo vai ser maior que a história em si, mas em certo ponto eu acho que ambos se fundem, tudo que eu estou falando pode ter um pouco dessa característica.
Nessa noite chuvosa, deitado ao lado da minha namorada, vendo ela dormir – agora me lembro! Foi assim que minha mente virou pra essa conversa. Pensei e acabei empacando numa dúvida: Por que esse meu amigo nunca veio me pedir ajuda quanto a todos esses problemas, mesmo tendo falado várias e várias vezes sobre eles comigo? Como ele não pede ajuda pras pessoas próximas dele? Será que ele não confia em ninguém?
A fragilidade é algo um tanto complexo, a partir disso eu entendi o que acontecia com ele, aliás, com ele e muitas outras pessoas as quais eu não conheço: Medo. E esse medo, de onde vinha? De se expor? Não exatamente, esse medo vinha de toda uma pressão imposta desde sempre a esse meu amigo. Na visão dele é inaceitável o erro. E é incrível, porque eu já conheci tantos outras pessoas, de gêneros, raças e orientações sexuais diferentes, mas o que a maioria dessas pessoas tinha em comum era que todas estavam na mesma faixa de idade, eram todas de uma mesma geração, com problemas diferentes, mas todas com uma cobrança em comum, todas com a cobrança de serem melhores do que os mais velhos. Caramba, é incrível como os mais velhos querem isso, mas não tentam acompanhar as melhorias. É de uma hipocrisia sem tamanho...
Ai ai, lá se vai mais uma noite minha, pensando nisso, de forma acelerada e desenfrada, cara, acho que nesse ponto eu e o meu amigo temos muito mais em comum do que eu imaginei.












