Conrad riu baixinho quando percebeu sobre o que se tratava a história. “Shut up, you’re just telling our story”, disse em meio sorriso, embora logo tenha voltado a se calar para escutar o resto da narrativa. Achou divertida a forma como Lola escolhera falar sobre eles e, particularmente cuidadosa, a seleção das palavras, como jabuticaba, por exemplo. Depois, voltou a rir. O londrino não se achava teimoso, sempre se vira mais como alguém decidido ou prático, porém, era engraçado descobrir que a mais nova tinha aquela percepção dele. “Você esqueceu de dizer que a torre principal estava fechada e que ele precisou recorrer ao plano ‘b’”, brincou, apesar de se sentir preenchido de alegria por ela ter recebido aquele gesto dele de forma tão positiva. Quando ela terminou de falar, o londrino permaneceu alguns segundos em silêncio antes de respondê-la. A luz da madrugada adentrava o quarto e a tornava toda sombra e ângulos, parecendo ainda mais angelical do que normalmente era. “You say the little boy is special…but let me tell you a secret. And you have to keep this only between us. Under the stars, he prays to the universe to be at least half as especial as the beautiful and magical girl is”, sussurrou, sustentando o olhar de Lola para que ela pudesse ver a seriedade do que dizia. A vizinha tinha um algo no fundo de seus olhos que aparecia toda vez que ela descansava ou contemplava o nada, quando pensava que ninguém estava prestando atenção. Poucas vezes Conrad conseguiu perceber aquilo, mas sabia, estava lá. Era um misto de tristeza e resistência, uma fragilidade misturada com bravura. Como se as lembranças difíceis, ainda que escondidas sob riqueza e luxo, tivessem sido abraçadas por ela como parte de sua história e ela encarasse o futuro com o queixo forte: no more, not again.
Uma risadinha baixa escapou dos lábios da loira depois do adendo dele à história, e ela continuou olhando pela janela até senti-lo se mexendo sobre si, voltando o olhar para o rosto de Conrad e tento seus olhos presos aos dele assim que estes se encontraram. A expressão abrandou-se aos poucos enquanto escutava o que ele dizia, ao mesmo tempo em que sentia o a pulsação acelerar diante das palavras alheias. Sustentou seu olhar mesmo quando o silêncio predominara entre os dois, e eram em momentos como aquele que Lola sabia que ele enxergava-a de verdade. Não a postura que ela lutava para manter, ou a impressão que sempre tentava passar, mas via quem ela realmente era, ultrapassando com facilidade qualquer muro que ainda pudesse existir para proteger aquela parte de si. Não havia por quê esconder-se de Conrad, afinal, e mesmo se tentasse, sabia que nunca conseguiria. Inconscientemente apertou os dedos contra os fios do cabelo dele, e naquele momento, uma frase de três palavras tentou subir pela sua garganta, mas Lola engoliu-a tão rapidamente quanto ela foi em tentar atingir sua voz para sair por seus lábios. “You affect me as fuck.” O tom não passava de um sussurro, e apesar de aquilo não ser exatamente o que ela queria dizer, sabia que era o mais próximo que poderia chegar de expressar o que queria sem estremecer as coisas entre eles. Lola sabia que era mais que afetação, mas admitir aquilo -- para si mesma ou para ele -- carregava um peso tão grande que com certeza iria mudar a dinâmica dos dois, e não sabia ainda se era de uma forma boa ou ruim. Por isso, era mais seguro permanecer na segurança do ‘você me afeta’, do que arriscar um passo em falso no outro conjunto de três palavras que tiraria-os da bolha harmônica e feliz que vinham vivendo ao longo daqueles meses. Ela não sabia mais o que era viver fora daquela bolha.