I. GUIMAUVE
Keiko Terunosuke, nasceu como filha Ășnica de Tadayoshi Terunosuke, sacerdote responsĂĄvel por um antigo santuĂĄrio dedicado a proteger a humanidade dos Furukimonos, criaturas ancestrais que se alimentavam do sangue humano. Durante geraçÔes, a responsabilidade de eliminar essas entidades passou de mĂŁe para filha. Antes de falecer, sua mĂŁe foi a Ășltima caçadora do clĂŁ Terunosuke, e, apĂłs sua morte, esse fardo recaiu sobre Keiko ainda muito jovem.
Enquanto crescia, Keiko acreditava levar uma vida relativamente comum. Frequentava o ensino mĂ©dio durante o dia, era conhecida por sua personalidade distraĂda e pela dificuldade em perceber comentĂĄrios ou demonstraçÔes de afeto dirigidas a ela. Sua rotina incluĂa passar todas as manhĂŁs no Guimauve, um pequeno cafĂ© ao lado do santuĂĄrio. Como nem ela nem o pai possuĂam qualquer talento culinĂĄrio, o proprietĂĄrio do estabelecimento, Fumito Nanahara, fazia questĂŁo de preparar seu cafĂ© da manhĂŁ e seu almoço, sempre lhe oferecendo o doce que dava nome ao cafĂ©.
à noite, porém, sua realidade mudava completamente.
Treinada desde a infĂąncia pelo pai, Keiko tornou-se a Ășltima guardiĂŁ da linhagem Terunosuke. Empunhando a katana herdada por sua famĂlia, enfrentava Furukimonos espalhados pela cidade, impedindo que novos desaparecimentos acontecessem. Apesar de seu porte delicado, sua força fĂsica sempre superou o esperado para alguĂ©m de sua idade. Conseguia enfrentar criaturas muito maiores que ela tanto utilizando sua espada quanto improvisando armas com qualquer objeto resistente que encontrasse, caso fosse necessĂĄrio.
Sua habilidade como espadachim era resultado de anos de treinamento rigoroso. Embora jamais revelasse o estilo exato que dominava, seus movimentos eram precisos e eficientes, permitindo que derrotasse a maioria de seus inimigos com poucos golpes. Em combate, sua mente permanecia extremamente analĂtica, identificando rapidamente padrĂ”es, pontos fracos e mudanças no comportamento dos adversĂĄrios para adaptar sua estratĂ©gia.
Seu corpo tambĂ©m parecia desafiar os limites humanos. Mesmo apĂłs sofrer ferimentos que seriam fatais para qualquer pessoa comum, Keiko continuava lutando atĂ© concluir sua missĂŁo. Essa resistĂȘncia extraordinĂĄria sempre foi tratada por seu pai como uma herança de sangue da famĂlia, embora ele nunca explicasse completamente sua origem.
Quando seus olhos assumiam uma intensa coloração vermelha, algo dentro dela despertava. Nesse estado, seus movimentos tornavam-se mais råpidos, sua força aumentava drasticamente e toda a sua postura mudava, substituindo sua habitual distração por uma frieza quase sobrenatural.
Com o passar do tempo, porĂ©m, acontecimentos estranhos começaram a abalar tudo aquilo em que acreditava. Os ataques dos Furukimonos tornaram-se cada vez mais frequentes, chegando a ocorrer em plena luz do dia e atĂ© mesmo dentro da escola. Ao mesmo tempo, Keiko passou a sofrer fortes dores de cabeça, visĂ”es desconexas e lembranças fragmentadas que pareciam nĂŁo pertencer Ă sua vida. Rostos desconhecidos, corredores metĂĄlicos, luzes artificiais e vozes distantes surgiam em sua mente como ecos de uma existĂȘncia esquecida.
A verdade era muito mais cruel do que imaginava.
Sua vida nunca havia sido real.
II. PARANOIA
O santuĂĄrio, a cidade, os Furukimonos, sua famĂlia e todas as pessoas que conhecia eram parte de uma gigantesca simulação criada para mantĂȘ-la confinada. Cada lembrança havia sido construĂda para moldĂĄ-la, cada combate servia como um teste, e cada perda reforçava o ciclo do qual ela jamais deveria escapar.
As falhas na simulação tornaram-se cada vez mais frequentes atĂ© que Keiko começou a enxergar alĂ©m da ilusĂŁo. Aos poucos, aprendeu a distinguir o que era programação daquilo que realmente existia. Utilizando a mesma capacidade analĂtica que tantas vezes a salvou em batalha, encontrou brechas no sistema e rompeu o confinamento apĂłs anos vivendo dentro daquela realidade fabricada.
O despertar, entretanto, foi devastador.
O mundo real era completamente diferente da sociedade em que havia aprendido a viver. Não existiam sacerdotes, monstros ou linhagens destinadas à caça. Existiam hospitais, cidades caóticas, pessoas comuns e dores que não podiam ser resolvidas com uma espada.
Sem ter para onde voltar e carregando memĂłrias que ninguĂ©m acreditaria, Keiko decidiu reconstruir sua vida do zero. As habilidades adquiridas na simulação, sua calma diante do perigo, rapidez para tomar decisĂ”es, resistĂȘncia fĂsica e capacidade de agir sob extrema pressĂŁo, encontraram um novo propĂłsito.
III. TEMPO-REAL
Hoje, Keiko trabalha como enfermeira em um hospital de urgĂȘncia e emergĂȘncia. Em vez de tirar vidas para proteger outras, dedica-se a salvĂĄ-las. Sua precisĂŁo durante procedimentos, a serenidade em situaçÔes crĂticas e a habilidade de improvisar diante do inesperado fizeram dela uma profissional excepcional.
Ainda assim, algumas noites sĂŁo inquietas. Ăs vezes, seus olhos parecem refletir um vermelho discreto diante de situaçÔes extremas. Outras vezes, ela sonha com um santuĂĄrio que talvez nunca tenha existido e com pessoas que, embora artificiais, continuam ocupando um lugar real em sua memĂłria.
Conforme as lembranças retornavam, Keiko finalmente compreendeu a verdade que lhe havia sido escondida durante toda a sua existĂȘncia.
Ela jamais fora apenas humana.
IV. ORIGEM
Sua mĂŁe, a sacerdotisa responsĂĄvel por proteger o santuĂĄrio, havia quebrado o maior dos tabus ao poupar a vida de um Furukimono consciente, uma criatura rara que conservava parte de sua humanidade e recusava-se a alimentar-se de pessoas inocentes. Da uniĂŁo entre ambos nasceu Keiko, a primeira hĂbrida conhecida entre humanos e Furukimonos.
Seu nascimento foi considerado uma anomalia.
Enquanto o sangue humano lhe concedia empatia, racionalidade e livre-arbĂtrio, o sangue Furukimono transformava seu corpo em algo muito alĂ©m dos limites naturais. Sua resistĂȘncia extraordinĂĄria, sua força desproporcional, sua velocidade sobre-humana e sua capacidade de continuar lutando mesmo gravemente ferida jamais foram fruto de treinamento; eram consequĂȘncias diretas da natureza que herdara do pai. O estado em que seus olhos assumiam uma coloração vermelha era, na realidade, a manifestação parcial de sua herança Furukimono, um mecanismo biolĂłgico que despertava em situaçÔes de extremo estresse para ampliar exponencialmente suas capacidades fĂsicas e cognitivas.
Foi justamente por esse potencial que Keiko jamais pĂŽde viver em liberdade.
Antes que pudesse compreender sua prĂłpria origem, uma organização conhecida apenas como Sangue C descobriu sua existĂȘncia. Seus pesquisadores acreditavam que um hĂbrido como ela representava a chave para criar uma nova espĂ©cie capaz de sobreviver a qualquer ambiente e conflito. Incapazes de controlar diretamente alguĂ©m tĂŁo poderosa, decidiram moldĂĄ-la desde a infĂąncia.
Em vez de aprisionarem apenas seu corpo, aprisionaram sua mente.
V. BLOOD C
Keiko foi colocada em uma simulação neurobiolĂłgica extremamente sofisticada, construĂda para parecer um JapĂŁo tradicional onde ela acreditaria ser a Ășltima caçadora de Furukimonos. O mundo artificial foi cuidadosamente projetado para obrigĂĄ-la a lutar diariamente contra versĂ”es recriadas digitalmente das criaturas que compartilhavam seu prĂłprio sangue. Cada batalha servia para registrar seus reflexos, medir seus limites fĂsicos, observar a evolução de suas habilidades regenerativas e estudar como seu lado Furukimono reagia sob diferentes estĂmulos emocionais.
Seu pai, sua mĂŁe, o santuĂĄrio, a escola, os colegas, Fumito e atĂ© mesmo os Furukimonos que derrotava eram partes daquele gigantesco experimento. Alguns eram pessoas reais conectadas temporariamente ao sistema; outros eram inteligĂȘncias artificiais desenvolvidas exclusivamente para interagir com ela e manter a ilusĂŁo consistente.
Os cientistas acreditavam que, ao fazĂȘ-la acreditar que estava protegendo a humanidade, conseguiriam despertar todo o potencial de sua herança sem que ela jamais percebesse estar sendo estudada.
Mas cometeram um erro.
Por possuir uma mente hĂbrida, Keiko nĂŁo processava a realidade da mesma forma que um ser humano comum. Seu cĂ©rebro era capaz de reconhecer padrĂ”es, inconsistĂȘncias e alteraçÔes na prĂłpria estrutura da simulação. As dores de cabeça, os sonhos recorrentes e as lembranças desconexas nĂŁo eram falhas de memĂłria, mas o resultado de sua consciĂȘncia tentando romper as barreiras impostas pelo sistema.
Quanto mais forte seu lado Furukimono se tornava, mais inståvel a simulação ficava.
AtĂ© que, durante uma das inĂșmeras reinicializaçÔes do programa, Keiko enxergou o mundo alĂ©m da ilusĂŁo. Pela primeira vez, percebeu que os monstros que sempre acreditou caçar eram apenas sombras de sua prĂłpria origem. Combinando a inteligĂȘncia estratĂ©gica adquirida em anos de combate com o poder latente de seu sangue hĂbrido, ela sobrecarregou o sistema por dentro, rompeu os protocolos de contenção e despertou no mundo real.
Sua fuga representou o fracasso definitivo do Sangue C.
Desde entĂŁo, Keiko vive escondida entre os humanos. Oficialmente, Ă© apenas uma enfermeira em um hospital de urgĂȘncia e emergĂȘncia. Extraoficialmente, continua sendo a Ășnica hĂbrida conhecida entre humanos e Furukimonos, uma existĂȘncia que jamais deveria ter sobrevivido e que ainda Ă© procurada por aqueles que desejam concluir o experimento iniciado dĂ©cadas atrĂĄs.
Keiko nunca descobriu quem a aprisionou naquela simulação, nem por qual motivo foi escolhida. Mas uma coisa ela sabe: se conseguiu escapar uma vez, talvez existam outras pessoas presas em realidades falsas esperando para serem encontradas.














