Querido David: Os dias passam e continuo a escrever cartas que você prefere não responder, se é que chega a abrir. Comecei a pensar que, na verdade, escrevo essas linhas só para mim, para matar a solidão e poder acreditar que, pelo menos por um instante, ainda tenho você perto de mim. Todos os dias pergunto a mim mesma o que terá sido feito de você, e o que estará fazendo. Às vezes, penso que foi embora de Barcelona para nunca mais voltar e imagino você em algum lugar estranho, rodeado de estranhos, começando uma vida nova que nunca poderei conhecer. Outras, penso que ainda me odeia, que destrói as cartas que escrevo e preferia nunca ter me conhecido. Não o culpo. É curioso como é fácil contar, sozinha diante de um pedaço de papel, aquilo que não me atreveria a dizer-lhe frente a frente. As coisas não são fáceis para mim. (...) Acabei ontem de ler um de seus livros. Pedro tem todos eles e gosto de lê-los pois é a única maneira de me sentir perto de você. Era uma história triste e estranha, de dois bonecos quebrados e abandonados em um circo ambulante que, pelo espaço de uma noite, ganhavam vida, sabendo que morrerão ao amanhecer. Enquanto a lia, tive a impressão de que estava falando de nós dois. Há algumas semanas, sonhei que voltava a vê-lo, que nos esbarrávamos na rua e você não se lembrava de mim. Sorria e perguntava como eu me chamava. Não sabia nada de mim. Não me odiava. Todas as noites, quando Pedro dorme a meu lado, fecho os olhos e imploro aos céus que me permita sonhar esse sonho de novo. Amanhã, ou talvez depois, vou escrever de novo para dizer que o amo, embora isso não signifique mais nada para você.