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@clorofilarosa

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Essa caixa já não me serve mais.
Fico falando e falando para manter isso aqui, porque um dia foi meu lugar favorito. Mas, no momento em que tentei limpar o entulho mental que se acumulou, quando quis ser minimamente coerente, quando quis transformar esse espaço em algo que não me causasse vergonha — ele já tinha deixado de funcionar.
Antes, era estranho. Moldado pelo impulso. Vivo. Agora, tudo aqui opera de forma artificial. É um lugar morto, reanimado. Eu preciso emular algo que antes simplesmente acontecia. E dá mais trabalho performar a si mesma do que simular ser qualquer outra pessoa. Sempre há algo que entrega: você se observando de fora, mesmo sem plateia.
Eu queria tanto continuar aqui. Sinto tanta falta dela, de quem eu era com ela. Mas não dá mais. É tudo um simulacro.
Eu estou cansada de ficar morrendo.
Preciso de um espaço para mim. Escrever, ou ao menos registrar, é a minha maneira de lutar contra a dissociação. O Tumblr foi o único lugar onde consegui não amenizar a minha bizarrice mental. Mas, de novo, o que eu ainda faço aqui? Seja o que for, não vou amortecer nada.
No início de 2024, fiz uma postagem no Instagram que era uma espécie de síntese deste blog. Me senti exposta. Pensava que iriam julgar as dificuldades da minha filha a partir de mim: criança esquisita porque a mãe também é esquisita. Mas, por fidelidade à minha própria filha, precisei enfrentar esse receio. Eu só queria postar algo de que gostasse, mas ensaiei por semanas. Depois, tive duas crises de ansiedade. Hoje olho para essa postagem e não vejo nada que me deixe inquieta; inclusive fiz outras duas muito “piores”, um compilado para o @post-nuclear-ophelia e outro para o @she-is-under-glass. Nem acho que eu seja “freak” de verdade. Talvez seja só uma sensibilidade exagerada, mas ainda fico muito desconfortável em me expor.
Uma vez tentei “assumir” o Tumblr, mas meus irmãos teriam um chilique porque expus nossa família. É que eu perdoei meu pai. Só que, para mim, perdoar exige ter consciência de cada coisa que me machucou. Preciso falar dos meus pais porque as coisas aconteceram como aconteceram. Sei que sou extremamente sensível e facilmente traumatizável. Não é uma escolha minha. A memória é nítida demais. Em alguns momentos, o passado ainda está presente em mim.
Em 2008, meu pai me trancou em casa por semanas e me tirou todos os meios de comunicação para que eu terminasse um relacionamento. Me ameaçou, depois ameaçou meu namorado. Ele tinha arma de fogo; não duvidei. Fez com que um médico me sedasse. O argumento era que eu estava estranha, deixando de ser eu mesma, me comportando de maneira preocupante. E eu havia mesmo mudado, mas foi como nestes últimos três anos: fiquei menos contida. O problema é que a vida inteira ele me conheceu como eu não era. E, toda vez que o gato preto espreitava pelas minhas pupilas, a reação dos meus pais era, no mínimo, de aversão.
Eu não contei que ele, em um momento, deixou de lado o desgosto por esse mesmo relacionamento e, depois de fazer tudo o que estava ao alcance dele para nos separar, passou a me levar de carro até a cidade onde meu namorado morava, do outro lado do estado. Mas tudo isso teve um custo enorme, para mim e também para ele.
Do meu lado, deixei o cabelo crescer, clareei os fios e mantive uma aparência feminina impecável. Recuperei o peso perdido durante a crise. Mas sustentar o personagem enquanto geria a fragmentação da minha psique fez com que eu me afastasse de tudo o que me lembrava a mim mesma. As pessoas pensam que, quando você morre por dentro, algum tipo de brilho no olhar se esvai. Amadores. Eu já havia passado por esse processo inúmeras vezes e sobrevivido. O segredo não é tentar se esconder das outras pessoas, mas de si mesmo. Se enterrar tão fundo, em lugares tão obscuros, que nem você conseguiria se encontrar.
O único indício de mim mesma foi a gata preta que adotei em 2010. E foi assim, me vendo renovada e longe de “interferências malignas”, mas obstinadamente fiel aos meus sentimentos, que meu pai considerou que era seguro, enfim, rever sua decisão.
Da última vez, em 2012, ele já estava com a saúde debilitada. Era hipertenso, diabético e tinha uma ferida na perna que não cicatrizava nunca. Eu vivia trocando as bandagens para ele. O rim provavelmente já estava falhando. Chegando aqui, que é onde moro agora, ele passou a semana inteira inchado e letárgico. Quando voltamos, poucos dias depois, começou a perder a visão: os dois olhos tiveram derrames. Alguns meses depois, começou a fazer hemodiálise.
Dei o nome de Júlia para minha filha, que ele nunca conheceu, por causa dele. Meu pai faleceu em 2016.
Well, I've locked my actions in the grooves of routine.
So I may never be free of this apathy.
But I wait for a letter that is coming to me.
She sends me pictures of the ocean in an envelope.
So there still is hope.
Yes, I can be healed.
There is someone looking for what I've concealed
in my secret drawer, in my pockets deep,
you will find the reasons that I can't sleep and you will still want me.
But will you still want me? Will you still want?...
Well, I say come for the week.
You can sleep in my bed.
And pass through my life like a dream through my head.
It will... it will be easy. I'll make it easy.
But all I have for the moment is a song to pass the time.
Abril e setembro são meses estranhos. O clima começa a virar, e meu cérebro antecipa essa mudança como algo emocional. Queria que isso fosse algo bonito e poético, mas tem sido um transtorno. Mémorias intensas, e ao mesmo tempo confusas, vão se acumulando em mim. Muitas delas nunca aconteceram, mas são emocionalmente reais.
Em abril, é como se alguém tivesse terminado comigo, mas nunca terminaram comigo. Ainda assim, eu conheço essa sensação porque a sinto ano após ano. Em setembro, começo a superar e me levanto de uma cama onde passei meses. Eu amo o inverno, então ele não significa necessariamente que estive triste todo esse tempo. Mesmo assim, abril é sempre uma espécie de fim doloroso, com uma dor no estômago e uma vontade infinita de chorar. Porém, fico muito feliz ao sentir que o calor vai acabar.
Eu não sei explicar. Tem algo no fundo do meu cérebro me comunicando coisas que não vivi, mas que reconheço como lembrança. Em setembro, vou sentir algo paradoxalmente diferente e intenso, mais positivo, enquanto, na realidade, estarei triste porque o verão vai voltar.
“April is the cruellest month, breeding
Lilacs out of the dead land, mixing
Memory and desire, stirring
Dull roots with spring rain.”

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Eu queria poder deitar na cama e ouvir o prrru prrru dela, sentir aquelas cabeçadinhas no meu rosto… O nariz dela sempre ficava molhado quando ronronava. Depois, ela se deitava de forma inconveniente por cima de mim.
Deitada no sofá ouvindo Death Cab e morrendo tal qual em 2006, porém não estou de fato deitada no sofá pois preciso trabalhar.
A primeira vez que ouvi a banda foi na sala de espera do ginecologista; coloquei Transatlanticism no meu MP3, e essa foi minha companhia. Minha mãe tinha arquitetado um subterfúgio para descobrir se eu ainda era virgem.
Eu era.
Por volta dessa época, no ano passado, eu estava num surto de criatividade e hiperatividade mental, criando duas caixas diferentes. O @post-nuclear-ophelia surgiu simultaneamente à leitura de Preliminary Materials; eu lia e encontrava conexões que, em parte, pareciam já ter sido feitas aqui. Fragmentos isolados e peculiares, sem ornamento com o resto, acabaram tomando forma dentro de um conceito. Por isso estou sumindo com eles desse espaço, já que encontrei outro lugar pra habitarem. Mas deveria mesmo fazer isso? Esse espaço será sempre um rascunho de outros?
O @she-is-under-glass foi semelhante, mas criá-lo foi menos prazeroso. Percebi que estava indo por um caminho mais obscuro e que precisava mentir mais do que a Young-Girl: fazer a verdade se passar por ficção para poder conhecê-la, por mim mesma. Quis acessar memórias e falar delas, mas precisei encontrar um padrão estético entre elas; caso contrário, minha mente não se soltava. Foi tão intenso que precisei parar abruptamente. Pensei que havia terminado e comecei a tomar medicação, já que outra “febre” parecia se formar. Até que, um dia, revi o primeiro post e a simetria inconclusa me incomodou. O simbolismo do vampiro foi ressuscitado em mim através de uma música, e o que parecia ter sido mencionado de forma aleatória no início do blog, retornou: era a peça que faltava. Está feito. É minha caixa favorita, apesar de tudo.
Nunca faço coisas aleatórias, mesmo quando acho que estou fazendo. Sou um sistema funcionando sem plena consciência, mas ainda assim um sistema.
Mas então, o que está acontecendo aqui? Não suporto estar de olhos fechados, ainda mais quando não sinto um fluxo me atravessando e me conduzindo. Não consigo saber se havia coincidência, sentido ou verdade. Tenho sido consumida pela dúvida. Não consigo parar de pensar que meu excesso de interpretação pode estar me levando por um caminho tortuoso, talvez perigoso.
Quando você produz coincidências sem querer, o que isso significa? Elas existiriam se eu não estivesse prescrutando?
Sonhei com algo sobre isso esta noite. Algo que só tomava forma quando era observado. Eu olhava, movida pelas minhas repetições, e então a visão se organizava em padrão, e eu acreditava que esse padrão era intrínseco a ela.
Sei que estou beirando a loucura, mas não há mais nenhum remédio que eu possa usar contra isso.
Tem alguma peça faltando aqui?
Esse espaço ainda é muito útil para acompanhar meu ciclo menstrual. No post fixado, fui marcando ovulação (💚) e menstruação (❤️) com certa regularidade, apesar de algumas falhas. Passo por períodos de desconexão total, mas, em geral, estou muito hiperconsciente do processo desde que aconteceu pela primeira vez, aos 12 anos. É o mínimo controle que posso exercer sobre meu corpo e as mudanças intensas que ocorrem no meu cérebro. Desde então, foi meu método de previsibilidade sobre mim mesma.
Este ciclo durou apenas 21 dias. Está fora do meu padrão. Foram dias difíceis, com muito mais dor do que o normal. Não à toa, recorri à medicação. Recorri à bebida. Cheguei a me preocupar por ter que dormir assim. Quando disse que estava aberta a temporada de disforia, ela já havia começado dias antes; aquilo foi, na verdade, uma escalada. Minha fase folicular foi curta e não pude aproveitar, mal deu tempo. Vivo para a fase folicular, e, quando a ovulação chega, me sinto capaz de qualquer coisa. Eu sou capaz de qualquer coisa.
Não sei como as pessoas não percebem as espirais circulando vertiginosamente dentro das minhas pupilas.
(É coincidência eu ter sentido uma compulsão de voltar justamente agora? Foi exatamente quando a fase lútea começou.)
Me sinto como um caranguejo eremita buscando uma nova concha para habitar. Ainda não sei onde ou como vou me acomodar. Estou vulnerável nesse processo e não sei se faz sentido continuar aqui. Acho que gosto de investigar padrões, só isso. O que eu sei é que, quando um assunto aparentemente aleatório passa pelo meu radar, eu recolho aquele fragmento e, meses ou até anos depois, ele começa a se encaixar numa rede de significados. É como se essas coisas ficassem em suspensão até encontrarem onde se conectar. Isso é meio estranho, e não sei exatamente como funciona. Mas me fascina. Retroativamente, dá a sensação de que conheço o passado, o presente e o futuro.

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Queria ser perturbadora mas sou só perturbada.
Está aberta a temporada de disforia pré-menstrual. Minhas pernas estão com hematomas e arranhões (não auto infligidos) medonhos; minha acne está descontrolada; sinto vontade de chorar toda vez que alguém me interrompe enquanto ouço música. O clima varia o tempo todo, mas nunca fica suficientemente frio.
Mas qualquer brisa meio gélida que afaste o calor, dando um leve choque na temperatura, me faz ter um vislumbre de uma memória. Tem que ser exatamente a sensação do calor se dissipando no vento frio… e a memória ameaça submergir, mas fica nisso. Ah, e só acontece durante o dia! Ainda não sei o que é. Pode ser só uma estímulo físico tatuado no meu sistema de processamento sensorial, que insiste em converter tudo em emoção.
Eu não aguento mais sentir sentimentos e estou me rendendo aos analgésicos pra poder dormir e acordar.
É difícil atravessar o dia a dia enquanto toda a minha libido permanece absorta na elaboração simbólica da vida.
A morte não produziu os resultados esperados. Após um procedimento de necromancia realizado esta semana, retornei à atividade normal de gata preta:
- aparecer silenciosamente ao lado do espelho,
- permanecer longos períodos olhando para o meu próprio reflexo,
- lembrar de coisas que aconteceram antes do meu nascimento.
Eu não estou mais aqui.
Aqui também não:
"I’m looking for the face I had before the world was made."
Nem aqui:
"Je est un autre"

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Excerpt from mini kuš! #51 ‘Mirror Stage’ by Jaakko Pallasvuo.
“Who’s in the middle when the two sides of your face are side by side, as they are, in the mirror.”