clara verdade q vc aprendeu com seu pai esse negócio de perguntar pra quem vc tá se relacionando se vcs precisam ser alguma coisa?
Pesou.

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sabia que sua mae ficou com loiros no passado dela criminoso ne
Péssimo mesmo. Foi o que levou ao meu pai ao estado de viado coitadinho.
you and i walk in a fragile line; full moon
@wolfiekb
Clara respirou fundo uma, duas, três vezes. Observava o alerta de tornado no celular, um pouco descrente de que aquilo estava acontecendo com ela. De tantos lugares que poderia estar estava ali. Por dentro da casca grossa que exibia, sentia seu interior se contorcer em vergonha e arrependimento. Estaria presa no estúdio com a equipe de trabalho - e Wolfie, por longas horas. Sem pensar muito e fugindo do que havia adiado por tantos anos, saiu de fininho de onde todo mundo estava e foi até a sala onde guardavam os vestuários, se sentando no chão, sem se importando de se quer acender a luz. "Kill me now, please." Jogou para o universo com uma vontade genuína, apoiando a cabeça na parede e fechando os olhos com força.
Um tornado, sério? Wolfie ainda estava meio descrente na verdade. Claro, lembrava de seus pais comentarem algo sobre um tornado na época que eram mais jovens, mas nunca pensou que viveria algo assim. Estava até bem de boa, considerando tudo e na verdade só se levantou realmente porque seu sinal estava oscilando e queria muito falar com Stormi - a única que não tinha dado notícias ainda. Nem notou muito pra onde estava indo, Wolfie abriu uma porta qualquer, notando que o local era muito escuro e logo acendendo as luzes. Piscou algumas vezes, até notar outra pessoa no recinto. "Oh," disse surpreso, acabando por soltar a porta. "Clara," murmurou, não sabendo se a chamava ou se somente constatava que era ela. "Is, uh... do you need anything?" Perguntou cauteloso, ainda segurando seu celular em sua mão esquerda.
Poderia ficar ali no quarto escuro por horas. Era um tipo de terapia permanecer no escuro onde não enxergava nada e não era vista. Mas é claro que ele precisava aparecer ali e acender a luz. Poético e trágico. "Ah." Levantou o olhar lhe encarando por um tempo, tentando formular a frase na cabeça, enquanto seu corpo se readaptava luz a presença de Wolfie ali. "Nah, I'm good." Limpou a garganta, "Só vim usar o sinal do celular." Disfarçou pegando o celular do colo. "Você precisa de algo?"
A presença de Clara era uma montanha russa viva em seu estômago. Ao mesmo tempo que ficava confuso e surpreso, Wolfie não deixava de se sentir saudoso, nostálgico de um tempo onde foi feliz, mesmo que para a menina tudo não passasse de uma mentira. E Wolfie era feliz hoje em dia, mesmo, mas era diferente com Clara. Ela sempre seria diferente. "Vim fazer o mesmo que você," respondeu calmo, mostrando o celular em sua mão. "Stormi não disse nada ainda e estou preocupado. Tudo bem com seu irmão? Seus pais? Seus primos?" Quase se amaldiçoou por falar demais, mas a verdade é que se importava e gostaria de saber se todos estavam bem em meio aquele tornado.
Não sabia, sinceramente, o quanto um tornado poderia mudar o clima de uma cidade. Não sabia que um tornado poderia diminuir a quantidade de oxigênio presente no ar. Sentia os ossos de seu tórax comprimir seu pulmão, e o ar faltar em sua corrente sanguínea; puxava o ar devagar e de forma ritmada, como se não estivesse a ponto de colapsar na frente de Wolfie. “Ah.” Respondeu simplesmente, pensando que deveria ter procurado outro lugar para fugir. “Você já tentou ligar? As vezes é mais fácil que mensagem.” Respondeu de forma genérica, tentando se manter calma e indiferente. “Sim, todo mundo bem. Já passou a histeria coletiva no grupo e todo mundo já avisou que está bem e seguro.” Olhou para a tela do celular observando as notificações pipocarem, uma atrás da outra. “Seus pais e seus irmãos estão bem?” Seu coração parecia doer de forma aguda. Odiava tanto tudo aquilo, tinha tanta vergonha. Queria apenas fechar os olhos e sumir dali tão rápido como chegou.
Wolfie assentiu para a pergunta, um pouco alheio pela preocupação que apertava seu coração - sua irmã mais nova provavelmente estava bem, certo? "Já, mas fica dando fora de área e eu sei que ela está na universidade, mas não cons-" foi interrompido por uma mensagem de Stormi e todo seu corpo relaxou, sentiu que até mesmo poderia cair. "Ela está bem!" Disse empolgado, um sorriso enorme em seu rosto ao olhar para Clara. Não que ela se importasse, é claro, mas precisava colocar seu alívio pra fora do peito. "Mike e Remy provavelmente estão juntos, certo? De certo imaginando que estão vivendo um filme apocalíptico," disse rindo, lembrando com carinho dos primos de sua ex namorada. "Sim, está todo mundo bem, só faltava mesmo a Stormi falar algo..." olhou melhor para Clara, de repente então sentindo todo o desconforto dela. "Eu, uhm, vou indo então, ok?" Guardou seu celular no bolso, passando nervosamente uma de suas mãos por seus fios curtos e rosados. Quando virou para abrir a porta, porém, não conseguiu abri-la. "Shit."
"Good, really good." Respondeu feliz, em um sorriso fraco. Estava feliz pela irmã de Wolfie estar bem, feliz por ele estar bem e ter recebido a notícia que esperava. Mas Clara não sabia se portar na presença do outro. Por mais que fingisse e agisse com naturalidade e indiferença, falsas, Clara nunca tinha ideia do que fazer. "Estão juntos, no hipotético bunker deles." Revirou os olhos ao usar o termo que eles haviam inventadl para a sala de estar do apartamento que dividiam. Apenas assentiu em resposta a Wolfie, sentindo um gosto amargo na boca. Não queria que ele se afastasse, mas não era exatamente confortável continuar com ele ali daquela forma. "Shit?" Repetiu em tom de pergunta conforme o olhava confusa. "This isn't happening." Sentiu seu coração parar ao se dar conta do que poderia estar acontecendo. Se levantou de forma rápida e caminhou até a porta, sem pensar duas vezes a forçou para abri-la mas nada aconteceu. "Shit." Continuava a balançar a maçaneta descontroladamente, como se ela fosse ceder a algum momento. Seria ela ou a Clara que cederiam naquela tarde.
Wolfie sabia, é claro, que deveria detestar Clara. Todo o tempo que passou com ela, a felicidade e o amor que compartilhou com a menina de olhos azuis - não passava somente de uma aposta, algo que ela achou de bom tom fazer. Ainda assim, Wolfie não conseguia odiá-la. Demorou tanto tempo pra ficar bem de novo e seu coração partido precisou ser remendado com cuidado, mas não tinha sentimentos ruins por Clara - era estranho. "É claro que sim," respondeu com naturalidade, conseguindo inclusive imaginar os dois primos de Clara vivendo exatamente aquela situação; sentia falta deles, assim como sentia da família dela, assim como sentia falta dela.
Sem saber muito o que fazer, Wolfie olhava de Clara para a porta e vice-versa. Ela claramente estava nervosa, certa? e Wolfie não era exatamente a melhor pessoa do mundo para ajeitar uma porta. Como se estivesse lidando com um animal arisco, ele se aproximou devagar, afastando as mãos nervosas de Clara da maçaneta. "Assim você pode acabar quebrando," disse com delicadeza. "Melhor você sentar... eu vou chamar ou ligar pra alguém. Vai ficar tudo bem," assegurou.
Poucas coisas haviam sido tão dolorosas em sua vida como o peso de suas próprias escolhas. Ainda que tivesse feito o que fez na melhor das intenções, as consequências daquilo assombravam sua vida por muito tempo. Ele não merecia aquilo. Merecia que Clara tivesse o mínimo de discernimento e pensasse melhor. "Óbvios e previsíveis, huh?!" Riu sem humor.
Ao sentir o toque de Wolfie em sua mão, Clara sentiu como se estivesse encostando em um fio desencapado. Sentiu o choque físico em seus braços, soltando a maçaneta automaticamente, esticando e retraindo os dedos, como se precisasse se dar conta de que o choque havia sido real. Olhou para ele por alguns segundos, sem ter coragem de responder a gentileza que ele havia feito. Ela não merecida isso. Apenas assentiu e voltou a se sentar no chão, como um cão encolhido. "No signal now." Disse baixinho enquanto percebia que a mensagem de socorro endereçada ao seu irmão não chegava. "We could use the air tubes." Olhou para a saída de ar no teto, pensando que Remy ou Mike a achariam genial por aquilo.
Wolfie riu um pouco. "Eu ia dizer engraçados, como sempre." E era verdade, ele mesmo tinha uma família grande e sabia bem como algumas coisas podiam ser caóticas, mas sempre achara divertida a relação de Clara com seu irmão e seus primos.
Verdade seja dita, ele não fazia a menor ideia do que deveria fazer. Claramente não tinham sinal algum e não era possível avisar alguém que estava ali, mas precisava fazer algo, especialmente porque Clara parecia bastante nervosa. "Right," passou as mãos por seus fios raspados, tentando pensar em algo. "I mean, it's not that bad of idea, but I'm not sure..." falou enquanto olhava para a saída de ar - e se ficassem presos lá? Era melhor não. "Ah, já sei." Procurou por um pedaço de papel, escrevendo que duas pessoas estavam presas ali dentro e passando o bilhete por baixa da porta. "Eventualmente alguém vai passar e ver, certo? Agora só nos resta esperar." Sentou do outro lado.
"Se você acha." No fundo sabia que sim, os primos eram engraçados e tinham o seu valor. Mas era algo que sempre optava para guardar para si; como muitas outras coisas na sua vida, pensou tristemente.
Sabia que a chance do ar começar a faltar naquele ambiente era pequena, quase mínima, mas seus pulmões não entendia daquela forma. O ar parecia se tornar uma substância um pouco viscosa, incapaz de preencher seu corpo, como deveria. Precisava focar no que Wolfie estava falando, tentando controlar sua respiração como poderia. Não se permitiria a passar mais essa vergonha, poderia lutar mais uma vez contra a ansiedade, só mais uma vez. Balançou a cabeça positivamente, como se entendesse o que ele estivesse falando, deixando seus olhos prestarem atenção no papel passado por de baixo do vão da porta. "Yeah," Suspirou olhando para a porta. "Vai dar certo, né?" A voz saiu um pouco fraca, quase como se faltasse força para dizer algo enquanto tentava se controlar.
Apoiado com as costas na parede oposta a Clara, Wolfie se permitiu observar melhor sua ex namorada. Ela estava diferente. Claro, tinham se passado alguns anos e ela estava mais madura, mais adulta, mas não era só isso. Antes, Clara era cheia de luz, energia, um sorriso arteiro presente mais vezes do que não em seu rosto, seus lábios sempre prontos para soltarem as maiores pérolas do mundo - Wolfie particularmente gostava muito de ouvi-la falando, o som de sua risada, a forma como ela escondia o rosto em seu ombro. Agora, no entanto, era quase como se a menina quisesse se encolher dentro de si mesma, não querendo ser notada, mal interagindo com o mundo exterior. Ela parecia cansada, triste e perceber aquilo causava um mal estar em Wolfie. Deveria ter raiva dela, sabia disso, mas não conseguia. Com o tempo, deixou que tudo de ruim passasse, no fundo só guardando coisas boas que sentiu em relação a ela. Não achou que a veria novamente, muito menos que se preocuparia com ela, mas lá estava ele. "Yeah, of course," disse suave. Sem conseguir se conter e sabendo que deveria fazer algo, deixou seu lugar, se aproximando com calma de onde Clara estava. "Hey," falou baixo, arriscando colocar uma mão no joelho dela. "You're okay?"
Não soube quanto tempo se pegou encarando o teto, perdida no que nada lhe dizia e tampouco lhe acalmava, sendo sincera. Não era como se tivesse problemas claustrofóbicos, mas a sensação de impotência a atormentava. Não soube mesmo se em algum momento se perdeu nos próprios pensamentos autodestrutivos que não percebeu que Wolfie a olhava de maneira quase analítica; sentiu seu estomago se revirar. "Yeah." Respondeu devagar, tentando controlar a respiração. "I'm just..." Gesticulou as mãos, sentindo a pele do joelho queimar por baixo da calça. Sabia que a noite, quando retirasse a pele, estaria a marcada a mão do rapaz, com os cinco dedos marcos sobre a sua pele. Provavelmente em algum conto religioso, existia a história de quando alguma criatura sagrada tocava o profano, deixava uma marca de seu toque. Clara sabia que era aquilo que estava acontecendo. "....heavy. The air." Puxou a respiração devagar. Talvez ela fosse mesmo claustrofóbica, pensando bem. "I'm okay." Mentiu. "Kinda frustrating been locked up here. It's just too small."
Wolfie não era bom em tantas coisas que se fosse fazer uma lista provavelmente nem saberia por onde começar. Há muito tinha se passado o tempo que ele deixava aquilo o atormentar, mas ali preso com Clara sentiu um peso diferente em seu peito - ele não era bom em confortar ninguém, nunca tinha sido. De todos seus irmãos Evie era o sinônimo de conforto, não ele e era até engraçado, porque sua irmã mais velha era bastante explosiva. Sempre tinha se sentia inadequado ao ser colocado naquela posição, seus ombros eram muito magros e nada adequados para alguém se apoiar e nenhuma palavra que ele pudesse pensar parecia ser boa, por mais que Stormi sempre parecesse gostar de seu abraço. Pensando na irmã mais nova, Wolfie se apoiou na parede ao lado de Clara, sua mão que antes repousava no joelho da ex agora tomava a mão dela, a apoiando contra seu próprio peito. "You can count my hearbeats, I heard it helps." Qualquer coisa que ajudasse Clara a pensar em outra coisa. "So, uhm... do you want to tell me about the project?" Se ela falasse sobre o trabalho talvez tirasse sua cabeça de coisas ruins.
Por um bom tempo, Clara se martirizou e se culpou pelo que havia feito. Tinha sido uma decisão impulsiva e precipitada, apesar de suas boas intenções. Havia consequências boas e ruins em tudo aquilo, e Clara, depois de muito sofrimento, compreendeu que sujar as mãos e sacrificar algo bonito em prol de outra pessoa era uma forma de amor. Apesar de tudo, ela sabia que tinha agido pensando no melhor para Wolfie, ainda que de maneira muito torta. No entanto, toda a maturidade que havia adquirido sobre o assunto pareceu se esvair de seus dedos quando ficou presa com ele naquela pequena sala. Talvez a adrenalina tivesse bagunçado seus sentimentos; vê-lo ali trouxe tudo à tona. Agora, com o toque tão zeloso de sua mão, parecia que tudo se dissolvia sob sua pele. Clara balançou a cabeça em sinal positivo, sentindo as pontas dos dedos formigarem sobre o peito quente do outro; reconhecendo, mesmo através do tecido, a textura que havia por baixo. "One," disse entre soluços, tentando organizar os números e palavras em sua mente. "two," continuou, sentindo uma pressão crescer em seu peito. "Wolfie," murmurou, tudo acontecendo tão rápido quanto as palavras que saíam de sua boca. "I'm sorry." Não sabia exatamente pelo que estava se desculpando. Era tanto, que não havia começo ou fim. Mas ali, no âmago de suas emoções, sabia que precisava.
Parando pra pensar talvez deixar Clara contar seus batimentos cardíacos não fosse a melhor das opções. Wolfie geralmente era bem calmo e contido, muitos até diziam nunca ter escutado o rapaz falar, mas era só seu jeito. E ainda assim, tudo parecia se esvair na presença da única pessoa que Wolfie jurou, por muito tempo, ser quem lhe entendia melhor. Seu coração se apertava e acelerava na mesma medida, a nostalgia e a saudade tomando conta de seu peito. Fazia muito tempo, era verdade, e a ferida não mais machucava, mas por que Wolfie ainda sentia tanto? "It's alright, Clara," murmurou em resposta, ajeitando seus dedos entre os dela, o movimento tão familiar e natural como o ato de respirar. Não sabia ao certo o que estava bem, se afirmava que eles sairiam dali com segurança, ou se dizia que tudo que tinha acontecido anos antes já estava curado. Não mentia, há muito se permitiu cicatrizar feridas difíceis e por mais que toda a história tenha o machucado terrivelmente, Wolfie não via mais Clara como a vilã de sua história. Obviamente não entendia os motivos dela, mas tinha feito paz com o fato de que jamais entenderia. "Don't think about it too much, okay? You'll be fine."
O que sentia era algo similar a sensação de afogamento; já havia experimentado o terror de sentir a água entrando pelo seu nariz e sua boca para afirmar que era uma sensação muito semelhante. A realidade e o desespero iam lhe tomando por completo a deixando sem ar. "You don't understand." Choramingou, sentindo o seu peito arfar. A aproximidade entre os dois eram como inflamar o próprio fogo, sal na própria ferida. "I'm sorry for everything." Disse entre soluços secos, e sua mão segurar firme a do outro. "I'm not a bad person. Not really."
Se permitiu escutar, mesmo estranhamente confuso com tudo aquilo. Sua mão livre acariciava as costas da menina, tentando passar qualquer conforto, mesmo que parecesse improvável diante de tudo. "Hey now, of course you're not. I know this, alright?" Disse com calma, procurando pelos olhos claros dela. "You're thinking way too much. It's alright, Clara." Sua fala era mansa, seu tom de voz baixo e a cadência de suas palavras devagar.
Wolfie não entendia. Provavelmente jamais entenderia os motivos de Clara; afinal, por mais que fossem repletos de boas intenções, a loira havia agido da pior forma possível. Passaram-se anos, e Wolfie ainda acreditava no que ela havia feito, então não havia a menor possibilidade de ele entender ou realmente achar que Clara era uma boa pessoa. Soltou um suspiro pesado, tentando se recompor e parar de desempenhar aquele papel tão embaraçoso. "Maybe you're thinking way too little," disse em meio a uma risada sem humor, forçando uma respiração ritmada e profunda. "It's alright." Repetiu, tentando fixar a mensagem em seus pensamentos. Engoliu em seco, levando a mão ao rosto para limpar as lágrimas que queimavam sua pele. Sentiu o celular voltar a vibrar com as mensagens que pipocavam na tela de seu celular; "Thank God." Disse em um suspiro quase assustado.
Não entendia, essa era a verdade. Se tudo não tinha passado de uma aposta, se Clara nunca tinha sentido nada por ele, então por que ela parecia pensar e se importar muito mais com aquilo do que o próprio Wolfie? Confuso, o rapaz de fios rosados decidiu se virar para ela. “Why do you care so much, Clara?” Questionou sem nenhum julgamento, somente curiosidade genuína. Se calou ao vê-la mexer no celular, ajeitando um pouco seu corpo. “Everything okay?”
A pergunta soou como um soco em seu estômago. O olhou com cuidado, se permitindo, pela primeira de vez de verdade, ver os traços mais maduros que Wolfie tinha ganhado com o tempo e como o tom rosa de seus cabelos o valorizavam ainda mais. "Who knows, huh?!" Disse em uma risada sem humor e limpando o rosto, tentando tirar aquela aflição terrível. "Acho que sim." Tentou se convencer. "Estão vindo destravar a porta." Mostrou a mensagem da maquiadora em seu celular.
"You're sure you're okay?" Perguntou cauteloso, não sabendo exatamente como deveria agir naquela situação, preso em um lugar apertado com uma pessoa que um dia jurou conhecer melhor do que a si mesmo, mas que agora não passava de um fantasma de seu passado. Assentiu, ainda mantendo o olhar nela. "Acho que talvez seja melhor você ir pra casa..." disse devagar, ignorando quando ouviu a porta abrindo. "Seu irmão pode vir te buscar?"
Não estava bem, mas apenas balançou a cabeça de forma positiva, da maneira mais convincente que podia; já havia se envergonhado demais naquele curto espaço de tempo que passara com Wolfie. "Eu vou", respondeu de forma pesada, ainda sentindo como se houvesse tijolos sobre seu peito. "Você também", completou, puxando o ar devagar. "Sua família está bem? Você tem como ir embora?" Seus olhos ardiam um pouco, mas não tanto quanto seu estômago. "Sim, já deve estar chegando." Thomas podia, sempre podia.
Wolfie se sentia meio atônito, sem saber muito o que deveria fazer. Clara não parecia estar bem, isso era fato, mas o que ele poderia fazer? Sequer era lugar dele fazer alguma coisa? Pensava que não. “Sim, está todo mundo bem. O Theo está com um amigo que tem carro e disse que pode vir me buscar depois de buscar a Stormi. Você quer que eu espere com você até seu irmão chegar?”
Limpava as mãos repetidamente na calça, sentindo o corpo suar de tanta tensão. Era tão patética quanto julgava seu irmão; conseguiam ser interligados até mesmo na forma como o sofrimento se manifestava fisicamente. "E a Evie? Seus pais?" Arriscou perguntar, mesmo sabendo que não deveria e que não era de sua conta, mas não conseguiu evitar a preocupação. "Não, não. Está tudo bem." Ofereceu um sorriso fraco e sem graça, pensando que talvez já tivesse atingido seu limite e que não sabia o que mais poderia acontecer se continuassem juntos. "Thanks... Take care."
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@wolfiekb
Clara respirou fundo uma, duas, três vezes. Observava o alerta de tornado no celular, um pouco descrente de que aquilo estava acontecendo com ela. De tantos lugares que poderia estar estava ali. Por dentro da casca grossa que exibia, sentia seu interior se contorcer em vergonha e arrependimento. Estaria presa no estúdio com a equipe de trabalho - e Wolfie, por longas horas. Sem pensar muito e fugindo do que havia adiado por tantos anos, saiu de fininho de onde todo mundo estava e foi até a sala onde guardavam os vestuários, se sentando no chão, sem se importando de se quer acender a luz. "Kill me now, please." Jogou para o universo com uma vontade genuína, apoiando a cabeça na parede e fechando os olhos com força.
Um tornado, sério? Wolfie ainda estava meio descrente na verdade. Claro, lembrava de seus pais comentarem algo sobre um tornado na época que eram mais jovens, mas nunca pensou que viveria algo assim. Estava até bem de boa, considerando tudo e na verdade só se levantou realmente porque seu sinal estava oscilando e queria muito falar com Stormi - a única que não tinha dado notícias ainda. Nem notou muito pra onde estava indo, Wolfie abriu uma porta qualquer, notando que o local era muito escuro e logo acendendo as luzes. Piscou algumas vezes, até notar outra pessoa no recinto. "Oh," disse surpreso, acabando por soltar a porta. "Clara," murmurou, não sabendo se a chamava ou se somente constatava que era ela. "Is, uh... do you need anything?" Perguntou cauteloso, ainda segurando seu celular em sua mão esquerda.
Poderia ficar ali no quarto escuro por horas. Era um tipo de terapia permanecer no escuro onde não enxergava nada e não era vista. Mas é claro que ele precisava aparecer ali e acender a luz. Poético e trágico. "Ah." Levantou o olhar lhe encarando por um tempo, tentando formular a frase na cabeça, enquanto seu corpo se readaptava luz a presença de Wolfie ali. "Nah, I'm good." Limpou a garganta, "Só vim usar o sinal do celular." Disfarçou pegando o celular do colo. "Você precisa de algo?"
A presença de Clara era uma montanha russa viva em seu estômago. Ao mesmo tempo que ficava confuso e surpreso, Wolfie não deixava de se sentir saudoso, nostálgico de um tempo onde foi feliz, mesmo que para a menina tudo não passasse de uma mentira. E Wolfie era feliz hoje em dia, mesmo, mas era diferente com Clara. Ela sempre seria diferente. "Vim fazer o mesmo que você," respondeu calmo, mostrando o celular em sua mão. "Stormi não disse nada ainda e estou preocupado. Tudo bem com seu irmão? Seus pais? Seus primos?" Quase se amaldiçoou por falar demais, mas a verdade é que se importava e gostaria de saber se todos estavam bem em meio aquele tornado.
Não sabia, sinceramente, o quanto um tornado poderia mudar o clima de uma cidade. Não sabia que um tornado poderia diminuir a quantidade de oxigênio presente no ar. Sentia os ossos de seu tórax comprimir seu pulmão, e o ar faltar em sua corrente sanguínea; puxava o ar devagar e de forma ritmada, como se não estivesse a ponto de colapsar na frente de Wolfie. “Ah.” Respondeu simplesmente, pensando que deveria ter procurado outro lugar para fugir. “Você já tentou ligar? As vezes é mais fácil que mensagem.” Respondeu de forma genérica, tentando se manter calma e indiferente. “Sim, todo mundo bem. Já passou a histeria coletiva no grupo e todo mundo já avisou que está bem e seguro.” Olhou para a tela do celular observando as notificações pipocarem, uma atrás da outra. “Seus pais e seus irmãos estão bem?” Seu coração parecia doer de forma aguda. Odiava tanto tudo aquilo, tinha tanta vergonha. Queria apenas fechar os olhos e sumir dali tão rápido como chegou.
Wolfie assentiu para a pergunta, um pouco alheio pela preocupação que apertava seu coração - sua irmã mais nova provavelmente estava bem, certo? "Já, mas fica dando fora de área e eu sei que ela está na universidade, mas não cons-" foi interrompido por uma mensagem de Stormi e todo seu corpo relaxou, sentiu que até mesmo poderia cair. "Ela está bem!" Disse empolgado, um sorriso enorme em seu rosto ao olhar para Clara. Não que ela se importasse, é claro, mas precisava colocar seu alívio pra fora do peito. "Mike e Remy provavelmente estão juntos, certo? De certo imaginando que estão vivendo um filme apocalíptico," disse rindo, lembrando com carinho dos primos de sua ex namorada. "Sim, está todo mundo bem, só faltava mesmo a Stormi falar algo..." olhou melhor para Clara, de repente então sentindo todo o desconforto dela. "Eu, uhm, vou indo então, ok?" Guardou seu celular no bolso, passando nervosamente uma de suas mãos por seus fios curtos e rosados. Quando virou para abrir a porta, porém, não conseguiu abri-la. "Shit."
"Good, really good." Respondeu feliz, em um sorriso fraco. Estava feliz pela irmã de Wolfie estar bem, feliz por ele estar bem e ter recebido a notícia que esperava. Mas Clara não sabia se portar na presença do outro. Por mais que fingisse e agisse com naturalidade e indiferença, falsas, Clara nunca tinha ideia do que fazer. "Estão juntos, no hipotético bunker deles." Revirou os olhos ao usar o termo que eles haviam inventadl para a sala de estar do apartamento que dividiam. Apenas assentiu em resposta a Wolfie, sentindo um gosto amargo na boca. Não queria que ele se afastasse, mas não era exatamente confortável continuar com ele ali daquela forma. "Shit?" Repetiu em tom de pergunta conforme o olhava confusa. "This isn't happening." Sentiu seu coração parar ao se dar conta do que poderia estar acontecendo. Se levantou de forma rápida e caminhou até a porta, sem pensar duas vezes a forçou para abri-la mas nada aconteceu. "Shit." Continuava a balançar a maçaneta descontroladamente, como se ela fosse ceder a algum momento. Seria ela ou a Clara que cederiam naquela tarde.
Wolfie sabia, é claro, que deveria detestar Clara. Todo o tempo que passou com ela, a felicidade e o amor que compartilhou com a menina de olhos azuis - não passava somente de uma aposta, algo que ela achou de bom tom fazer. Ainda assim, Wolfie não conseguia odiá-la. Demorou tanto tempo pra ficar bem de novo e seu coração partido precisou ser remendado com cuidado, mas não tinha sentimentos ruins por Clara - era estranho. "É claro que sim," respondeu com naturalidade, conseguindo inclusive imaginar os dois primos de Clara vivendo exatamente aquela situação; sentia falta deles, assim como sentia da família dela, assim como sentia falta dela.
Sem saber muito o que fazer, Wolfie olhava de Clara para a porta e vice-versa. Ela claramente estava nervosa, certa? e Wolfie não era exatamente a melhor pessoa do mundo para ajeitar uma porta. Como se estivesse lidando com um animal arisco, ele se aproximou devagar, afastando as mãos nervosas de Clara da maçaneta. "Assim você pode acabar quebrando," disse com delicadeza. "Melhor você sentar... eu vou chamar ou ligar pra alguém. Vai ficar tudo bem," assegurou.
Poucas coisas haviam sido tão dolorosas em sua vida como o peso de suas próprias escolhas. Ainda que tivesse feito o que fez na melhor das intenções, as consequências daquilo assombravam sua vida por muito tempo. Ele não merecia aquilo. Merecia que Clara tivesse o mínimo de discernimento e pensasse melhor. "Óbvios e previsíveis, huh?!" Riu sem humor.
Ao sentir o toque de Wolfie em sua mão, Clara sentiu como se estivesse encostando em um fio desencapado. Sentiu o choque físico em seus braços, soltando a maçaneta automaticamente, esticando e retraindo os dedos, como se precisasse se dar conta de que o choque havia sido real. Olhou para ele por alguns segundos, sem ter coragem de responder a gentileza que ele havia feito. Ela não merecida isso. Apenas assentiu e voltou a se sentar no chão, como um cão encolhido. "No signal now." Disse baixinho enquanto percebia que a mensagem de socorro endereçada ao seu irmão não chegava. "We could use the air tubes." Olhou para a saída de ar no teto, pensando que Remy ou Mike a achariam genial por aquilo.
Wolfie riu um pouco. "Eu ia dizer engraçados, como sempre." E era verdade, ele mesmo tinha uma família grande e sabia bem como algumas coisas podiam ser caóticas, mas sempre achara divertida a relação de Clara com seu irmão e seus primos.
Verdade seja dita, ele não fazia a menor ideia do que deveria fazer. Claramente não tinham sinal algum e não era possível avisar alguém que estava ali, mas precisava fazer algo, especialmente porque Clara parecia bastante nervosa. "Right," passou as mãos por seus fios raspados, tentando pensar em algo. "I mean, it's not that bad of idea, but I'm not sure..." falou enquanto olhava para a saída de ar - e se ficassem presos lá? Era melhor não. "Ah, já sei." Procurou por um pedaço de papel, escrevendo que duas pessoas estavam presas ali dentro e passando o bilhete por baixa da porta. "Eventualmente alguém vai passar e ver, certo? Agora só nos resta esperar." Sentou do outro lado.
"Se você acha." No fundo sabia que sim, os primos eram engraçados e tinham o seu valor. Mas era algo que sempre optava para guardar para si; como muitas outras coisas na sua vida, pensou tristemente.
Sabia que a chance do ar começar a faltar naquele ambiente era pequena, quase mínima, mas seus pulmões não entendia daquela forma. O ar parecia se tornar uma substância um pouco viscosa, incapaz de preencher seu corpo, como deveria. Precisava focar no que Wolfie estava falando, tentando controlar sua respiração como poderia. Não se permitiria a passar mais essa vergonha, poderia lutar mais uma vez contra a ansiedade, só mais uma vez. Balançou a cabeça positivamente, como se entendesse o que ele estivesse falando, deixando seus olhos prestarem atenção no papel passado por de baixo do vão da porta. "Yeah," Suspirou olhando para a porta. "Vai dar certo, né?" A voz saiu um pouco fraca, quase como se faltasse força para dizer algo enquanto tentava se controlar.
Apoiado com as costas na parede oposta a Clara, Wolfie se permitiu observar melhor sua ex namorada. Ela estava diferente. Claro, tinham se passado alguns anos e ela estava mais madura, mais adulta, mas não era só isso. Antes, Clara era cheia de luz, energia, um sorriso arteiro presente mais vezes do que não em seu rosto, seus lábios sempre prontos para soltarem as maiores pérolas do mundo - Wolfie particularmente gostava muito de ouvi-la falando, o som de sua risada, a forma como ela escondia o rosto em seu ombro. Agora, no entanto, era quase como se a menina quisesse se encolher dentro de si mesma, não querendo ser notada, mal interagindo com o mundo exterior. Ela parecia cansada, triste e perceber aquilo causava um mal estar em Wolfie. Deveria ter raiva dela, sabia disso, mas não conseguia. Com o tempo, deixou que tudo de ruim passasse, no fundo só guardando coisas boas que sentiu em relação a ela. Não achou que a veria novamente, muito menos que se preocuparia com ela, mas lá estava ele. "Yeah, of course," disse suave. Sem conseguir se conter e sabendo que deveria fazer algo, deixou seu lugar, se aproximando com calma de onde Clara estava. "Hey," falou baixo, arriscando colocar uma mão no joelho dela. "You're okay?"
Não soube quanto tempo se pegou encarando o teto, perdida no que nada lhe dizia e tampouco lhe acalmava, sendo sincera. Não era como se tivesse problemas claustrofóbicos, mas a sensação de impotência a atormentava. Não soube mesmo se em algum momento se perdeu nos próprios pensamentos autodestrutivos que não percebeu que Wolfie a olhava de maneira quase analítica; sentiu seu estomago se revirar. "Yeah." Respondeu devagar, tentando controlar a respiração. "I'm just..." Gesticulou as mãos, sentindo a pele do joelho queimar por baixo da calça. Sabia que a noite, quando retirasse a pele, estaria a marcada a mão do rapaz, com os cinco dedos marcos sobre a sua pele. Provavelmente em algum conto religioso, existia a história de quando alguma criatura sagrada tocava o profano, deixava uma marca de seu toque. Clara sabia que era aquilo que estava acontecendo. "....heavy. The air." Puxou a respiração devagar. Talvez ela fosse mesmo claustrofóbica, pensando bem. "I'm okay." Mentiu. "Kinda frustrating been locked up here. It's just too small."
Wolfie não era bom em tantas coisas que se fosse fazer uma lista provavelmente nem saberia por onde começar. Há muito tinha se passado o tempo que ele deixava aquilo o atormentar, mas ali preso com Clara sentiu um peso diferente em seu peito - ele não era bom em confortar ninguém, nunca tinha sido. De todos seus irmãos Evie era o sinônimo de conforto, não ele e era até engraçado, porque sua irmã mais velha era bastante explosiva. Sempre tinha se sentia inadequado ao ser colocado naquela posição, seus ombros eram muito magros e nada adequados para alguém se apoiar e nenhuma palavra que ele pudesse pensar parecia ser boa, por mais que Stormi sempre parecesse gostar de seu abraço. Pensando na irmã mais nova, Wolfie se apoiou na parede ao lado de Clara, sua mão que antes repousava no joelho da ex agora tomava a mão dela, a apoiando contra seu próprio peito. "You can count my hearbeats, I heard it helps." Qualquer coisa que ajudasse Clara a pensar em outra coisa. "So, uhm... do you want to tell me about the project?" Se ela falasse sobre o trabalho talvez tirasse sua cabeça de coisas ruins.
Por um bom tempo, Clara se martirizou e se culpou pelo que havia feito. Tinha sido uma decisão impulsiva e precipitada, apesar de suas boas intenções. Havia consequências boas e ruins em tudo aquilo, e Clara, depois de muito sofrimento, compreendeu que sujar as mãos e sacrificar algo bonito em prol de outra pessoa era uma forma de amor. Apesar de tudo, ela sabia que tinha agido pensando no melhor para Wolfie, ainda que de maneira muito torta. No entanto, toda a maturidade que havia adquirido sobre o assunto pareceu se esvair de seus dedos quando ficou presa com ele naquela pequena sala. Talvez a adrenalina tivesse bagunçado seus sentimentos; vê-lo ali trouxe tudo à tona. Agora, com o toque tão zeloso de sua mão, parecia que tudo se dissolvia sob sua pele. Clara balançou a cabeça em sinal positivo, sentindo as pontas dos dedos formigarem sobre o peito quente do outro; reconhecendo, mesmo através do tecido, a textura que havia por baixo. "One," disse entre soluços, tentando organizar os números e palavras em sua mente. "two," continuou, sentindo uma pressão crescer em seu peito. "Wolfie," murmurou, tudo acontecendo tão rápido quanto as palavras que saíam de sua boca. "I'm sorry." Não sabia exatamente pelo que estava se desculpando. Era tanto, que não havia começo ou fim. Mas ali, no âmago de suas emoções, sabia que precisava.
Parando pra pensar talvez deixar Clara contar seus batimentos cardíacos não fosse a melhor das opções. Wolfie geralmente era bem calmo e contido, muitos até diziam nunca ter escutado o rapaz falar, mas era só seu jeito. E ainda assim, tudo parecia se esvair na presença da única pessoa que Wolfie jurou, por muito tempo, ser quem lhe entendia melhor. Seu coração se apertava e acelerava na mesma medida, a nostalgia e a saudade tomando conta de seu peito. Fazia muito tempo, era verdade, e a ferida não mais machucava, mas por que Wolfie ainda sentia tanto? "It's alright, Clara," murmurou em resposta, ajeitando seus dedos entre os dela, o movimento tão familiar e natural como o ato de respirar. Não sabia ao certo o que estava bem, se afirmava que eles sairiam dali com segurança, ou se dizia que tudo que tinha acontecido anos antes já estava curado. Não mentia, há muito se permitiu cicatrizar feridas difíceis e por mais que toda a história tenha o machucado terrivelmente, Wolfie não via mais Clara como a vilã de sua história. Obviamente não entendia os motivos dela, mas tinha feito paz com o fato de que jamais entenderia. "Don't think about it too much, okay? You'll be fine."
O que sentia era algo similar a sensação de afogamento; já havia experimentado o terror de sentir a água entrando pelo seu nariz e sua boca para afirmar que era uma sensação muito semelhante. A realidade e o desespero iam lhe tomando por completo a deixando sem ar. "You don't understand." Choramingou, sentindo o seu peito arfar. A aproximidade entre os dois eram como inflamar o próprio fogo, sal na própria ferida. "I'm sorry for everything." Disse entre soluços secos, e sua mão segurar firme a do outro. "I'm not a bad person. Not really."
Se permitiu escutar, mesmo estranhamente confuso com tudo aquilo. Sua mão livre acariciava as costas da menina, tentando passar qualquer conforto, mesmo que parecesse improvável diante de tudo. "Hey now, of course you're not. I know this, alright?" Disse com calma, procurando pelos olhos claros dela. "You're thinking way too much. It's alright, Clara." Sua fala era mansa, seu tom de voz baixo e a cadência de suas palavras devagar.
Wolfie não entendia. Provavelmente jamais entenderia os motivos de Clara; afinal, por mais que fossem repletos de boas intenções, a loira havia agido da pior forma possível. Passaram-se anos, e Wolfie ainda acreditava no que ela havia feito, então não havia a menor possibilidade de ele entender ou realmente achar que Clara era uma boa pessoa. Soltou um suspiro pesado, tentando se recompor e parar de desempenhar aquele papel tão embaraçoso. "Maybe you're thinking way too little," disse em meio a uma risada sem humor, forçando uma respiração ritmada e profunda. "It's alright." Repetiu, tentando fixar a mensagem em seus pensamentos. Engoliu em seco, levando a mão ao rosto para limpar as lágrimas que queimavam sua pele. Sentiu o celular voltar a vibrar com as mensagens que pipocavam na tela de seu celular; "Thank God." Disse em um suspiro quase assustado.
Não entendia, essa era a verdade. Se tudo não tinha passado de uma aposta, se Clara nunca tinha sentido nada por ele, então por que ela parecia pensar e se importar muito mais com aquilo do que o próprio Wolfie? Confuso, o rapaz de fios rosados decidiu se virar para ela. “Why do you care so much, Clara?” Questionou sem nenhum julgamento, somente curiosidade genuína. Se calou ao vê-la mexer no celular, ajeitando um pouco seu corpo. “Everything okay?”
A pergunta soou como um soco em seu estômago. O olhou com cuidado, se permitindo, pela primeira de vez de verdade, ver os traços mais maduros que Wolfie tinha ganhado com o tempo e como o tom rosa de seus cabelos o valorizavam ainda mais. "Who knows, huh?!" Disse em uma risada sem humor e limpando o rosto, tentando tirar aquela aflição terrível. "Acho que sim." Tentou se convencer. "Estão vindo destravar a porta." Mostrou a mensagem da maquiadora em seu celular.
"You're sure you're okay?" Perguntou cauteloso, não sabendo exatamente como deveria agir naquela situação, preso em um lugar apertado com uma pessoa que um dia jurou conhecer melhor do que a si mesmo, mas que agora não passava de um fantasma de seu passado. Assentiu, ainda mantendo o olhar nela. "Acho que talvez seja melhor você ir pra casa..." disse devagar, ignorando quando ouviu a porta abrindo. "Seu irmão pode vir te buscar?"
Não estava bem, mas apenas balançou a cabeça de forma positiva, da maneira mais convincente que podia; já havia se envergonhado demais naquele curto espaço de tempo que passara com Wolfie. "Eu vou", respondeu de forma pesada, ainda sentindo como se houvesse tijolos sobre seu peito. "Você também", completou, puxando o ar devagar. "Sua família está bem? Você tem como ir embora?" Seus olhos ardiam um pouco, mas não tanto quanto seu estômago. "Sim, já deve estar chegando." Thomas podia, sempre podia.
you and i walk in a fragile line; full moon
@wolfiekb
Clara respirou fundo uma, duas, três vezes. Observava o alerta de tornado no celular, um pouco descrente de que aquilo estava acontecendo com ela. De tantos lugares que poderia estar estava ali. Por dentro da casca grossa que exibia, sentia seu interior se contorcer em vergonha e arrependimento. Estaria presa no estúdio com a equipe de trabalho - e Wolfie, por longas horas. Sem pensar muito e fugindo do que havia adiado por tantos anos, saiu de fininho de onde todo mundo estava e foi até a sala onde guardavam os vestuários, se sentando no chão, sem se importando de se quer acender a luz. "Kill me now, please." Jogou para o universo com uma vontade genuína, apoiando a cabeça na parede e fechando os olhos com força.
Um tornado, sério? Wolfie ainda estava meio descrente na verdade. Claro, lembrava de seus pais comentarem algo sobre um tornado na época que eram mais jovens, mas nunca pensou que viveria algo assim. Estava até bem de boa, considerando tudo e na verdade só se levantou realmente porque seu sinal estava oscilando e queria muito falar com Stormi - a única que não tinha dado notícias ainda. Nem notou muito pra onde estava indo, Wolfie abriu uma porta qualquer, notando que o local era muito escuro e logo acendendo as luzes. Piscou algumas vezes, até notar outra pessoa no recinto. "Oh," disse surpreso, acabando por soltar a porta. "Clara," murmurou, não sabendo se a chamava ou se somente constatava que era ela. "Is, uh... do you need anything?" Perguntou cauteloso, ainda segurando seu celular em sua mão esquerda.
Poderia ficar ali no quarto escuro por horas. Era um tipo de terapia permanecer no escuro onde não enxergava nada e não era vista. Mas é claro que ele precisava aparecer ali e acender a luz. Poético e trágico. "Ah." Levantou o olhar lhe encarando por um tempo, tentando formular a frase na cabeça, enquanto seu corpo se readaptava luz a presença de Wolfie ali. "Nah, I'm good." Limpou a garganta, "Só vim usar o sinal do celular." Disfarçou pegando o celular do colo. "Você precisa de algo?"
A presença de Clara era uma montanha russa viva em seu estômago. Ao mesmo tempo que ficava confuso e surpreso, Wolfie não deixava de se sentir saudoso, nostálgico de um tempo onde foi feliz, mesmo que para a menina tudo não passasse de uma mentira. E Wolfie era feliz hoje em dia, mesmo, mas era diferente com Clara. Ela sempre seria diferente. "Vim fazer o mesmo que você," respondeu calmo, mostrando o celular em sua mão. "Stormi não disse nada ainda e estou preocupado. Tudo bem com seu irmão? Seus pais? Seus primos?" Quase se amaldiçoou por falar demais, mas a verdade é que se importava e gostaria de saber se todos estavam bem em meio aquele tornado.
Não sabia, sinceramente, o quanto um tornado poderia mudar o clima de uma cidade. Não sabia que um tornado poderia diminuir a quantidade de oxigênio presente no ar. Sentia os ossos de seu tórax comprimir seu pulmão, e o ar faltar em sua corrente sanguínea; puxava o ar devagar e de forma ritmada, como se não estivesse a ponto de colapsar na frente de Wolfie. “Ah.” Respondeu simplesmente, pensando que deveria ter procurado outro lugar para fugir. “Você já tentou ligar? As vezes é mais fácil que mensagem.” Respondeu de forma genérica, tentando se manter calma e indiferente. “Sim, todo mundo bem. Já passou a histeria coletiva no grupo e todo mundo já avisou que está bem e seguro.” Olhou para a tela do celular observando as notificações pipocarem, uma atrás da outra. “Seus pais e seus irmãos estão bem?” Seu coração parecia doer de forma aguda. Odiava tanto tudo aquilo, tinha tanta vergonha. Queria apenas fechar os olhos e sumir dali tão rápido como chegou.
Wolfie assentiu para a pergunta, um pouco alheio pela preocupação que apertava seu coração - sua irmã mais nova provavelmente estava bem, certo? "Já, mas fica dando fora de área e eu sei que ela está na universidade, mas não cons-" foi interrompido por uma mensagem de Stormi e todo seu corpo relaxou, sentiu que até mesmo poderia cair. "Ela está bem!" Disse empolgado, um sorriso enorme em seu rosto ao olhar para Clara. Não que ela se importasse, é claro, mas precisava colocar seu alívio pra fora do peito. "Mike e Remy provavelmente estão juntos, certo? De certo imaginando que estão vivendo um filme apocalíptico," disse rindo, lembrando com carinho dos primos de sua ex namorada. "Sim, está todo mundo bem, só faltava mesmo a Stormi falar algo..." olhou melhor para Clara, de repente então sentindo todo o desconforto dela. "Eu, uhm, vou indo então, ok?" Guardou seu celular no bolso, passando nervosamente uma de suas mãos por seus fios curtos e rosados. Quando virou para abrir a porta, porém, não conseguiu abri-la. "Shit."
"Good, really good." Respondeu feliz, em um sorriso fraco. Estava feliz pela irmã de Wolfie estar bem, feliz por ele estar bem e ter recebido a notícia que esperava. Mas Clara não sabia se portar na presença do outro. Por mais que fingisse e agisse com naturalidade e indiferença, falsas, Clara nunca tinha ideia do que fazer. "Estão juntos, no hipotético bunker deles." Revirou os olhos ao usar o termo que eles haviam inventadl para a sala de estar do apartamento que dividiam. Apenas assentiu em resposta a Wolfie, sentindo um gosto amargo na boca. Não queria que ele se afastasse, mas não era exatamente confortável continuar com ele ali daquela forma. "Shit?" Repetiu em tom de pergunta conforme o olhava confusa. "This isn't happening." Sentiu seu coração parar ao se dar conta do que poderia estar acontecendo. Se levantou de forma rápida e caminhou até a porta, sem pensar duas vezes a forçou para abri-la mas nada aconteceu. "Shit." Continuava a balançar a maçaneta descontroladamente, como se ela fosse ceder a algum momento. Seria ela ou a Clara que cederiam naquela tarde.
Wolfie sabia, é claro, que deveria detestar Clara. Todo o tempo que passou com ela, a felicidade e o amor que compartilhou com a menina de olhos azuis - não passava somente de uma aposta, algo que ela achou de bom tom fazer. Ainda assim, Wolfie não conseguia odiá-la. Demorou tanto tempo pra ficar bem de novo e seu coração partido precisou ser remendado com cuidado, mas não tinha sentimentos ruins por Clara - era estranho. "É claro que sim," respondeu com naturalidade, conseguindo inclusive imaginar os dois primos de Clara vivendo exatamente aquela situação; sentia falta deles, assim como sentia da família dela, assim como sentia falta dela.
Sem saber muito o que fazer, Wolfie olhava de Clara para a porta e vice-versa. Ela claramente estava nervosa, certa? e Wolfie não era exatamente a melhor pessoa do mundo para ajeitar uma porta. Como se estivesse lidando com um animal arisco, ele se aproximou devagar, afastando as mãos nervosas de Clara da maçaneta. "Assim você pode acabar quebrando," disse com delicadeza. "Melhor você sentar... eu vou chamar ou ligar pra alguém. Vai ficar tudo bem," assegurou.
Poucas coisas haviam sido tão dolorosas em sua vida como o peso de suas próprias escolhas. Ainda que tivesse feito o que fez na melhor das intenções, as consequências daquilo assombravam sua vida por muito tempo. Ele não merecia aquilo. Merecia que Clara tivesse o mínimo de discernimento e pensasse melhor. "Óbvios e previsíveis, huh?!" Riu sem humor.
Ao sentir o toque de Wolfie em sua mão, Clara sentiu como se estivesse encostando em um fio desencapado. Sentiu o choque físico em seus braços, soltando a maçaneta automaticamente, esticando e retraindo os dedos, como se precisasse se dar conta de que o choque havia sido real. Olhou para ele por alguns segundos, sem ter coragem de responder a gentileza que ele havia feito. Ela não merecida isso. Apenas assentiu e voltou a se sentar no chão, como um cão encolhido. "No signal now." Disse baixinho enquanto percebia que a mensagem de socorro endereçada ao seu irmão não chegava. "We could use the air tubes." Olhou para a saída de ar no teto, pensando que Remy ou Mike a achariam genial por aquilo.
Wolfie riu um pouco. "Eu ia dizer engraçados, como sempre." E era verdade, ele mesmo tinha uma família grande e sabia bem como algumas coisas podiam ser caóticas, mas sempre achara divertida a relação de Clara com seu irmão e seus primos.
Verdade seja dita, ele não fazia a menor ideia do que deveria fazer. Claramente não tinham sinal algum e não era possível avisar alguém que estava ali, mas precisava fazer algo, especialmente porque Clara parecia bastante nervosa. "Right," passou as mãos por seus fios raspados, tentando pensar em algo. "I mean, it's not that bad of idea, but I'm not sure..." falou enquanto olhava para a saída de ar - e se ficassem presos lá? Era melhor não. "Ah, já sei." Procurou por um pedaço de papel, escrevendo que duas pessoas estavam presas ali dentro e passando o bilhete por baixa da porta. "Eventualmente alguém vai passar e ver, certo? Agora só nos resta esperar." Sentou do outro lado.
"Se você acha." No fundo sabia que sim, os primos eram engraçados e tinham o seu valor. Mas era algo que sempre optava para guardar para si; como muitas outras coisas na sua vida, pensou tristemente.
Sabia que a chance do ar começar a faltar naquele ambiente era pequena, quase mínima, mas seus pulmões não entendia daquela forma. O ar parecia se tornar uma substância um pouco viscosa, incapaz de preencher seu corpo, como deveria. Precisava focar no que Wolfie estava falando, tentando controlar sua respiração como poderia. Não se permitiria a passar mais essa vergonha, poderia lutar mais uma vez contra a ansiedade, só mais uma vez. Balançou a cabeça positivamente, como se entendesse o que ele estivesse falando, deixando seus olhos prestarem atenção no papel passado por de baixo do vão da porta. "Yeah," Suspirou olhando para a porta. "Vai dar certo, né?" A voz saiu um pouco fraca, quase como se faltasse força para dizer algo enquanto tentava se controlar.
Apoiado com as costas na parede oposta a Clara, Wolfie se permitiu observar melhor sua ex namorada. Ela estava diferente. Claro, tinham se passado alguns anos e ela estava mais madura, mais adulta, mas não era só isso. Antes, Clara era cheia de luz, energia, um sorriso arteiro presente mais vezes do que não em seu rosto, seus lábios sempre prontos para soltarem as maiores pérolas do mundo - Wolfie particularmente gostava muito de ouvi-la falando, o som de sua risada, a forma como ela escondia o rosto em seu ombro. Agora, no entanto, era quase como se a menina quisesse se encolher dentro de si mesma, não querendo ser notada, mal interagindo com o mundo exterior. Ela parecia cansada, triste e perceber aquilo causava um mal estar em Wolfie. Deveria ter raiva dela, sabia disso, mas não conseguia. Com o tempo, deixou que tudo de ruim passasse, no fundo só guardando coisas boas que sentiu em relação a ela. Não achou que a veria novamente, muito menos que se preocuparia com ela, mas lá estava ele. "Yeah, of course," disse suave. Sem conseguir se conter e sabendo que deveria fazer algo, deixou seu lugar, se aproximando com calma de onde Clara estava. "Hey," falou baixo, arriscando colocar uma mão no joelho dela. "You're okay?"
Não soube quanto tempo se pegou encarando o teto, perdida no que nada lhe dizia e tampouco lhe acalmava, sendo sincera. Não era como se tivesse problemas claustrofóbicos, mas a sensação de impotência a atormentava. Não soube mesmo se em algum momento se perdeu nos próprios pensamentos autodestrutivos que não percebeu que Wolfie a olhava de maneira quase analítica; sentiu seu estomago se revirar. "Yeah." Respondeu devagar, tentando controlar a respiração. "I'm just..." Gesticulou as mãos, sentindo a pele do joelho queimar por baixo da calça. Sabia que a noite, quando retirasse a pele, estaria a marcada a mão do rapaz, com os cinco dedos marcos sobre a sua pele. Provavelmente em algum conto religioso, existia a história de quando alguma criatura sagrada tocava o profano, deixava uma marca de seu toque. Clara sabia que era aquilo que estava acontecendo. "....heavy. The air." Puxou a respiração devagar. Talvez ela fosse mesmo claustrofóbica, pensando bem. "I'm okay." Mentiu. "Kinda frustrating been locked up here. It's just too small."
Wolfie não era bom em tantas coisas que se fosse fazer uma lista provavelmente nem saberia por onde começar. Há muito tinha se passado o tempo que ele deixava aquilo o atormentar, mas ali preso com Clara sentiu um peso diferente em seu peito - ele não era bom em confortar ninguém, nunca tinha sido. De todos seus irmãos Evie era o sinônimo de conforto, não ele e era até engraçado, porque sua irmã mais velha era bastante explosiva. Sempre tinha se sentia inadequado ao ser colocado naquela posição, seus ombros eram muito magros e nada adequados para alguém se apoiar e nenhuma palavra que ele pudesse pensar parecia ser boa, por mais que Stormi sempre parecesse gostar de seu abraço. Pensando na irmã mais nova, Wolfie se apoiou na parede ao lado de Clara, sua mão que antes repousava no joelho da ex agora tomava a mão dela, a apoiando contra seu próprio peito. "You can count my hearbeats, I heard it helps." Qualquer coisa que ajudasse Clara a pensar em outra coisa. "So, uhm... do you want to tell me about the project?" Se ela falasse sobre o trabalho talvez tirasse sua cabeça de coisas ruins.
Por um bom tempo, Clara se martirizou e se culpou pelo que havia feito. Tinha sido uma decisão impulsiva e precipitada, apesar de suas boas intenções. Havia consequências boas e ruins em tudo aquilo, e Clara, depois de muito sofrimento, compreendeu que sujar as mãos e sacrificar algo bonito em prol de outra pessoa era uma forma de amor. Apesar de tudo, ela sabia que tinha agido pensando no melhor para Wolfie, ainda que de maneira muito torta. No entanto, toda a maturidade que havia adquirido sobre o assunto pareceu se esvair de seus dedos quando ficou presa com ele naquela pequena sala. Talvez a adrenalina tivesse bagunçado seus sentimentos; vê-lo ali trouxe tudo à tona. Agora, com o toque tão zeloso de sua mão, parecia que tudo se dissolvia sob sua pele. Clara balançou a cabeça em sinal positivo, sentindo as pontas dos dedos formigarem sobre o peito quente do outro; reconhecendo, mesmo através do tecido, a textura que havia por baixo. "One," disse entre soluços, tentando organizar os números e palavras em sua mente. "two," continuou, sentindo uma pressão crescer em seu peito. "Wolfie," murmurou, tudo acontecendo tão rápido quanto as palavras que saíam de sua boca. "I'm sorry." Não sabia exatamente pelo que estava se desculpando. Era tanto, que não havia começo ou fim. Mas ali, no âmago de suas emoções, sabia que precisava.
Parando pra pensar talvez deixar Clara contar seus batimentos cardíacos não fosse a melhor das opções. Wolfie geralmente era bem calmo e contido, muitos até diziam nunca ter escutado o rapaz falar, mas era só seu jeito. E ainda assim, tudo parecia se esvair na presença da única pessoa que Wolfie jurou, por muito tempo, ser quem lhe entendia melhor. Seu coração se apertava e acelerava na mesma medida, a nostalgia e a saudade tomando conta de seu peito. Fazia muito tempo, era verdade, e a ferida não mais machucava, mas por que Wolfie ainda sentia tanto? "It's alright, Clara," murmurou em resposta, ajeitando seus dedos entre os dela, o movimento tão familiar e natural como o ato de respirar. Não sabia ao certo o que estava bem, se afirmava que eles sairiam dali com segurança, ou se dizia que tudo que tinha acontecido anos antes já estava curado. Não mentia, há muito se permitiu cicatrizar feridas difíceis e por mais que toda a história tenha o machucado terrivelmente, Wolfie não via mais Clara como a vilã de sua história. Obviamente não entendia os motivos dela, mas tinha feito paz com o fato de que jamais entenderia. "Don't think about it too much, okay? You'll be fine."
O que sentia era algo similar a sensação de afogamento; já havia experimentado o terror de sentir a água entrando pelo seu nariz e sua boca para afirmar que era uma sensação muito semelhante. A realidade e o desespero iam lhe tomando por completo a deixando sem ar. "You don't understand." Choramingou, sentindo o seu peito arfar. A aproximidade entre os dois eram como inflamar o próprio fogo, sal na própria ferida. "I'm sorry for everything." Disse entre soluços secos, e sua mão segurar firme a do outro. "I'm not a bad person. Not really."
Se permitiu escutar, mesmo estranhamente confuso com tudo aquilo. Sua mão livre acariciava as costas da menina, tentando passar qualquer conforto, mesmo que parecesse improvável diante de tudo. "Hey now, of course you're not. I know this, alright?" Disse com calma, procurando pelos olhos claros dela. "You're thinking way too much. It's alright, Clara." Sua fala era mansa, seu tom de voz baixo e a cadência de suas palavras devagar.
Wolfie não entendia. Provavelmente jamais entenderia os motivos de Clara; afinal, por mais que fossem repletos de boas intenções, a loira havia agido da pior forma possível. Passaram-se anos, e Wolfie ainda acreditava no que ela havia feito, então não havia a menor possibilidade de ele entender ou realmente achar que Clara era uma boa pessoa. Soltou um suspiro pesado, tentando se recompor e parar de desempenhar aquele papel tão embaraçoso. "Maybe you're thinking way too little," disse em meio a uma risada sem humor, forçando uma respiração ritmada e profunda. "It's alright." Repetiu, tentando fixar a mensagem em seus pensamentos. Engoliu em seco, levando a mão ao rosto para limpar as lágrimas que queimavam sua pele. Sentiu o celular voltar a vibrar com as mensagens que pipocavam na tela de seu celular; "Thank God." Disse em um suspiro quase assustado.
Não entendia, essa era a verdade. Se tudo não tinha passado de uma aposta, se Clara nunca tinha sentido nada por ele, então por que ela parecia pensar e se importar muito mais com aquilo do que o próprio Wolfie? Confuso, o rapaz de fios rosados decidiu se virar para ela. “Why do you care so much, Clara?” Questionou sem nenhum julgamento, somente curiosidade genuína. Se calou ao vê-la mexer no celular, ajeitando um pouco seu corpo. “Everything okay?”
A pergunta soou como um soco em seu estômago. O olhou com cuidado, se permitindo, pela primeira de vez de verdade, ver os traços mais maduros que Wolfie tinha ganhado com o tempo e como o tom rosa de seus cabelos o valorizavam ainda mais. "Who knows, huh?!" Disse em uma risada sem humor e limpando o rosto, tentando tirar aquela aflição terrível. "Acho que sim." Tentou se convencer. "Estão vindo destravar a porta." Mostrou a mensagem da maquiadora em seu celular.

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@wolfiekb
Clara respirou fundo uma, duas, três vezes. Observava o alerta de tornado no celular, um pouco descrente de que aquilo estava acontecendo com ela. De tantos lugares que poderia estar estava ali. Por dentro da casca grossa que exibia, sentia seu interior se contorcer em vergonha e arrependimento. Estaria presa no estúdio com a equipe de trabalho - e Wolfie, por longas horas. Sem pensar muito e fugindo do que havia adiado por tantos anos, saiu de fininho de onde todo mundo estava e foi até a sala onde guardavam os vestuários, se sentando no chão, sem se importando de se quer acender a luz. "Kill me now, please." Jogou para o universo com uma vontade genuína, apoiando a cabeça na parede e fechando os olhos com força.
Um tornado, sério? Wolfie ainda estava meio descrente na verdade. Claro, lembrava de seus pais comentarem algo sobre um tornado na época que eram mais jovens, mas nunca pensou que viveria algo assim. Estava até bem de boa, considerando tudo e na verdade só se levantou realmente porque seu sinal estava oscilando e queria muito falar com Stormi - a única que não tinha dado notícias ainda. Nem notou muito pra onde estava indo, Wolfie abriu uma porta qualquer, notando que o local era muito escuro e logo acendendo as luzes. Piscou algumas vezes, até notar outra pessoa no recinto. "Oh," disse surpreso, acabando por soltar a porta. "Clara," murmurou, não sabendo se a chamava ou se somente constatava que era ela. "Is, uh... do you need anything?" Perguntou cauteloso, ainda segurando seu celular em sua mão esquerda.
Poderia ficar ali no quarto escuro por horas. Era um tipo de terapia permanecer no escuro onde não enxergava nada e não era vista. Mas é claro que ele precisava aparecer ali e acender a luz. Poético e trágico. "Ah." Levantou o olhar lhe encarando por um tempo, tentando formular a frase na cabeça, enquanto seu corpo se readaptava luz a presença de Wolfie ali. "Nah, I'm good." Limpou a garganta, "Só vim usar o sinal do celular." Disfarçou pegando o celular do colo. "Você precisa de algo?"
A presença de Clara era uma montanha russa viva em seu estômago. Ao mesmo tempo que ficava confuso e surpreso, Wolfie não deixava de se sentir saudoso, nostálgico de um tempo onde foi feliz, mesmo que para a menina tudo não passasse de uma mentira. E Wolfie era feliz hoje em dia, mesmo, mas era diferente com Clara. Ela sempre seria diferente. "Vim fazer o mesmo que você," respondeu calmo, mostrando o celular em sua mão. "Stormi não disse nada ainda e estou preocupado. Tudo bem com seu irmão? Seus pais? Seus primos?" Quase se amaldiçoou por falar demais, mas a verdade é que se importava e gostaria de saber se todos estavam bem em meio aquele tornado.
Não sabia, sinceramente, o quanto um tornado poderia mudar o clima de uma cidade. Não sabia que um tornado poderia diminuir a quantidade de oxigênio presente no ar. Sentia os ossos de seu tórax comprimir seu pulmão, e o ar faltar em sua corrente sanguínea; puxava o ar devagar e de forma ritmada, como se não estivesse a ponto de colapsar na frente de Wolfie. “Ah.” Respondeu simplesmente, pensando que deveria ter procurado outro lugar para fugir. “Você já tentou ligar? As vezes é mais fácil que mensagem.” Respondeu de forma genérica, tentando se manter calma e indiferente. “Sim, todo mundo bem. Já passou a histeria coletiva no grupo e todo mundo já avisou que está bem e seguro.” Olhou para a tela do celular observando as notificações pipocarem, uma atrás da outra. “Seus pais e seus irmãos estão bem?” Seu coração parecia doer de forma aguda. Odiava tanto tudo aquilo, tinha tanta vergonha. Queria apenas fechar os olhos e sumir dali tão rápido como chegou.
Wolfie assentiu para a pergunta, um pouco alheio pela preocupação que apertava seu coração - sua irmã mais nova provavelmente estava bem, certo? "Já, mas fica dando fora de área e eu sei que ela está na universidade, mas não cons-" foi interrompido por uma mensagem de Stormi e todo seu corpo relaxou, sentiu que até mesmo poderia cair. "Ela está bem!" Disse empolgado, um sorriso enorme em seu rosto ao olhar para Clara. Não que ela se importasse, é claro, mas precisava colocar seu alívio pra fora do peito. "Mike e Remy provavelmente estão juntos, certo? De certo imaginando que estão vivendo um filme apocalíptico," disse rindo, lembrando com carinho dos primos de sua ex namorada. "Sim, está todo mundo bem, só faltava mesmo a Stormi falar algo..." olhou melhor para Clara, de repente então sentindo todo o desconforto dela. "Eu, uhm, vou indo então, ok?" Guardou seu celular no bolso, passando nervosamente uma de suas mãos por seus fios curtos e rosados. Quando virou para abrir a porta, porém, não conseguiu abri-la. "Shit."
"Good, really good." Respondeu feliz, em um sorriso fraco. Estava feliz pela irmã de Wolfie estar bem, feliz por ele estar bem e ter recebido a notícia que esperava. Mas Clara não sabia se portar na presença do outro. Por mais que fingisse e agisse com naturalidade e indiferença, falsas, Clara nunca tinha ideia do que fazer. "Estão juntos, no hipotético bunker deles." Revirou os olhos ao usar o termo que eles haviam inventadl para a sala de estar do apartamento que dividiam. Apenas assentiu em resposta a Wolfie, sentindo um gosto amargo na boca. Não queria que ele se afastasse, mas não era exatamente confortável continuar com ele ali daquela forma. "Shit?" Repetiu em tom de pergunta conforme o olhava confusa. "This isn't happening." Sentiu seu coração parar ao se dar conta do que poderia estar acontecendo. Se levantou de forma rápida e caminhou até a porta, sem pensar duas vezes a forçou para abri-la mas nada aconteceu. "Shit." Continuava a balançar a maçaneta descontroladamente, como se ela fosse ceder a algum momento. Seria ela ou a Clara que cederiam naquela tarde.
Wolfie sabia, é claro, que deveria detestar Clara. Todo o tempo que passou com ela, a felicidade e o amor que compartilhou com a menina de olhos azuis - não passava somente de uma aposta, algo que ela achou de bom tom fazer. Ainda assim, Wolfie não conseguia odiá-la. Demorou tanto tempo pra ficar bem de novo e seu coração partido precisou ser remendado com cuidado, mas não tinha sentimentos ruins por Clara - era estranho. "É claro que sim," respondeu com naturalidade, conseguindo inclusive imaginar os dois primos de Clara vivendo exatamente aquela situação; sentia falta deles, assim como sentia da família dela, assim como sentia falta dela.
Sem saber muito o que fazer, Wolfie olhava de Clara para a porta e vice-versa. Ela claramente estava nervosa, certa? e Wolfie não era exatamente a melhor pessoa do mundo para ajeitar uma porta. Como se estivesse lidando com um animal arisco, ele se aproximou devagar, afastando as mãos nervosas de Clara da maçaneta. "Assim você pode acabar quebrando," disse com delicadeza. "Melhor você sentar... eu vou chamar ou ligar pra alguém. Vai ficar tudo bem," assegurou.
Poucas coisas haviam sido tão dolorosas em sua vida como o peso de suas próprias escolhas. Ainda que tivesse feito o que fez na melhor das intenções, as consequências daquilo assombravam sua vida por muito tempo. Ele não merecia aquilo. Merecia que Clara tivesse o mínimo de discernimento e pensasse melhor. "Óbvios e previsíveis, huh?!" Riu sem humor.
Ao sentir o toque de Wolfie em sua mão, Clara sentiu como se estivesse encostando em um fio desencapado. Sentiu o choque físico em seus braços, soltando a maçaneta automaticamente, esticando e retraindo os dedos, como se precisasse se dar conta de que o choque havia sido real. Olhou para ele por alguns segundos, sem ter coragem de responder a gentileza que ele havia feito. Ela não merecida isso. Apenas assentiu e voltou a se sentar no chão, como um cão encolhido. "No signal now." Disse baixinho enquanto percebia que a mensagem de socorro endereçada ao seu irmão não chegava. "We could use the air tubes." Olhou para a saída de ar no teto, pensando que Remy ou Mike a achariam genial por aquilo.
Wolfie riu um pouco. "Eu ia dizer engraçados, como sempre." E era verdade, ele mesmo tinha uma família grande e sabia bem como algumas coisas podiam ser caóticas, mas sempre achara divertida a relação de Clara com seu irmão e seus primos.
Verdade seja dita, ele não fazia a menor ideia do que deveria fazer. Claramente não tinham sinal algum e não era possível avisar alguém que estava ali, mas precisava fazer algo, especialmente porque Clara parecia bastante nervosa. "Right," passou as mãos por seus fios raspados, tentando pensar em algo. "I mean, it's not that bad of idea, but I'm not sure..." falou enquanto olhava para a saída de ar - e se ficassem presos lá? Era melhor não. "Ah, já sei." Procurou por um pedaço de papel, escrevendo que duas pessoas estavam presas ali dentro e passando o bilhete por baixa da porta. "Eventualmente alguém vai passar e ver, certo? Agora só nos resta esperar." Sentou do outro lado.
"Se você acha." No fundo sabia que sim, os primos eram engraçados e tinham o seu valor. Mas era algo que sempre optava para guardar para si; como muitas outras coisas na sua vida, pensou tristemente.
Sabia que a chance do ar começar a faltar naquele ambiente era pequena, quase mínima, mas seus pulmões não entendia daquela forma. O ar parecia se tornar uma substância um pouco viscosa, incapaz de preencher seu corpo, como deveria. Precisava focar no que Wolfie estava falando, tentando controlar sua respiração como poderia. Não se permitiria a passar mais essa vergonha, poderia lutar mais uma vez contra a ansiedade, só mais uma vez. Balançou a cabeça positivamente, como se entendesse o que ele estivesse falando, deixando seus olhos prestarem atenção no papel passado por de baixo do vão da porta. "Yeah," Suspirou olhando para a porta. "Vai dar certo, né?" A voz saiu um pouco fraca, quase como se faltasse força para dizer algo enquanto tentava se controlar.
Apoiado com as costas na parede oposta a Clara, Wolfie se permitiu observar melhor sua ex namorada. Ela estava diferente. Claro, tinham se passado alguns anos e ela estava mais madura, mais adulta, mas não era só isso. Antes, Clara era cheia de luz, energia, um sorriso arteiro presente mais vezes do que não em seu rosto, seus lábios sempre prontos para soltarem as maiores pérolas do mundo - Wolfie particularmente gostava muito de ouvi-la falando, o som de sua risada, a forma como ela escondia o rosto em seu ombro. Agora, no entanto, era quase como se a menina quisesse se encolher dentro de si mesma, não querendo ser notada, mal interagindo com o mundo exterior. Ela parecia cansada, triste e perceber aquilo causava um mal estar em Wolfie. Deveria ter raiva dela, sabia disso, mas não conseguia. Com o tempo, deixou que tudo de ruim passasse, no fundo só guardando coisas boas que sentiu em relação a ela. Não achou que a veria novamente, muito menos que se preocuparia com ela, mas lá estava ele. "Yeah, of course," disse suave. Sem conseguir se conter e sabendo que deveria fazer algo, deixou seu lugar, se aproximando com calma de onde Clara estava. "Hey," falou baixo, arriscando colocar uma mão no joelho dela. "You're okay?"
Não soube quanto tempo se pegou encarando o teto, perdida no que nada lhe dizia e tampouco lhe acalmava, sendo sincera. Não era como se tivesse problemas claustrofóbicos, mas a sensação de impotência a atormentava. Não soube mesmo se em algum momento se perdeu nos próprios pensamentos autodestrutivos que não percebeu que Wolfie a olhava de maneira quase analítica; sentiu seu estomago se revirar. "Yeah." Respondeu devagar, tentando controlar a respiração. "I'm just..." Gesticulou as mãos, sentindo a pele do joelho queimar por baixo da calça. Sabia que a noite, quando retirasse a pele, estaria a marcada a mão do rapaz, com os cinco dedos marcos sobre a sua pele. Provavelmente em algum conto religioso, existia a história de quando alguma criatura sagrada tocava o profano, deixava uma marca de seu toque. Clara sabia que era aquilo que estava acontecendo. "....heavy. The air." Puxou a respiração devagar. Talvez ela fosse mesmo claustrofóbica, pensando bem. "I'm okay." Mentiu. "Kinda frustrating been locked up here. It's just too small."
Wolfie não era bom em tantas coisas que se fosse fazer uma lista provavelmente nem saberia por onde começar. Há muito tinha se passado o tempo que ele deixava aquilo o atormentar, mas ali preso com Clara sentiu um peso diferente em seu peito - ele não era bom em confortar ninguém, nunca tinha sido. De todos seus irmãos Evie era o sinônimo de conforto, não ele e era até engraçado, porque sua irmã mais velha era bastante explosiva. Sempre tinha se sentia inadequado ao ser colocado naquela posição, seus ombros eram muito magros e nada adequados para alguém se apoiar e nenhuma palavra que ele pudesse pensar parecia ser boa, por mais que Stormi sempre parecesse gostar de seu abraço. Pensando na irmã mais nova, Wolfie se apoiou na parede ao lado de Clara, sua mão que antes repousava no joelho da ex agora tomava a mão dela, a apoiando contra seu próprio peito. "You can count my hearbeats, I heard it helps." Qualquer coisa que ajudasse Clara a pensar em outra coisa. "So, uhm... do you want to tell me about the project?" Se ela falasse sobre o trabalho talvez tirasse sua cabeça de coisas ruins.
Por um bom tempo, Clara se martirizou e se culpou pelo que havia feito. Tinha sido uma decisão impulsiva e precipitada, apesar de suas boas intenções. Havia consequências boas e ruins em tudo aquilo, e Clara, depois de muito sofrimento, compreendeu que sujar as mãos e sacrificar algo bonito em prol de outra pessoa era uma forma de amor. Apesar de tudo, ela sabia que tinha agido pensando no melhor para Wolfie, ainda que de maneira muito torta. No entanto, toda a maturidade que havia adquirido sobre o assunto pareceu se esvair de seus dedos quando ficou presa com ele naquela pequena sala. Talvez a adrenalina tivesse bagunçado seus sentimentos; vê-lo ali trouxe tudo à tona. Agora, com o toque tão zeloso de sua mão, parecia que tudo se dissolvia sob sua pele. Clara balançou a cabeça em sinal positivo, sentindo as pontas dos dedos formigarem sobre o peito quente do outro; reconhecendo, mesmo através do tecido, a textura que havia por baixo. "One," disse entre soluços, tentando organizar os números e palavras em sua mente. "two," continuou, sentindo uma pressão crescer em seu peito. "Wolfie," murmurou, tudo acontecendo tão rápido quanto as palavras que saíam de sua boca. "I'm sorry." Não sabia exatamente pelo que estava se desculpando. Era tanto, que não havia começo ou fim. Mas ali, no âmago de suas emoções, sabia que precisava.
Parando pra pensar talvez deixar Clara contar seus batimentos cardíacos não fosse a melhor das opções. Wolfie geralmente era bem calmo e contido, muitos até diziam nunca ter escutado o rapaz falar, mas era só seu jeito. E ainda assim, tudo parecia se esvair na presença da única pessoa que Wolfie jurou, por muito tempo, ser quem lhe entendia melhor. Seu coração se apertava e acelerava na mesma medida, a nostalgia e a saudade tomando conta de seu peito. Fazia muito tempo, era verdade, e a ferida não mais machucava, mas por que Wolfie ainda sentia tanto? "It's alright, Clara," murmurou em resposta, ajeitando seus dedos entre os dela, o movimento tão familiar e natural como o ato de respirar. Não sabia ao certo o que estava bem, se afirmava que eles sairiam dali com segurança, ou se dizia que tudo que tinha acontecido anos antes já estava curado. Não mentia, há muito se permitiu cicatrizar feridas difíceis e por mais que toda a história tenha o machucado terrivelmente, Wolfie não via mais Clara como a vilã de sua história. Obviamente não entendia os motivos dela, mas tinha feito paz com o fato de que jamais entenderia. "Don't think about it too much, okay? You'll be fine."
O que sentia era algo similar a sensação de afogamento; já havia experimentado o terror de sentir a água entrando pelo seu nariz e sua boca para afirmar que era uma sensação muito semelhante. A realidade e o desespero iam lhe tomando por completo a deixando sem ar. "You don't understand." Choramingou, sentindo o seu peito arfar. A aproximidade entre os dois eram como inflamar o próprio fogo, sal na própria ferida. "I'm sorry for everything." Disse entre soluços secos, e sua mão segurar firme a do outro. "I'm not a bad person. Not really."
Se permitiu escutar, mesmo estranhamente confuso com tudo aquilo. Sua mão livre acariciava as costas da menina, tentando passar qualquer conforto, mesmo que parecesse improvável diante de tudo. "Hey now, of course you're not. I know this, alright?" Disse com calma, procurando pelos olhos claros dela. "You're thinking way too much. It's alright, Clara." Sua fala era mansa, seu tom de voz baixo e a cadência de suas palavras devagar.
Wolfie não entendia. Provavelmente jamais entenderia os motivos de Clara; afinal, por mais que fossem repletos de boas intenções, a loira havia agido da pior forma possível. Passaram-se anos, e Wolfie ainda acreditava no que ela havia feito, então não havia a menor possibilidade de ele entender ou realmente achar que Clara era uma boa pessoa. Soltou um suspiro pesado, tentando se recompor e parar de desempenhar aquele papel tão embaraçoso. "Maybe you're thinking way too little," disse em meio a uma risada sem humor, forçando uma respiração ritmada e profunda. "It's alright." Repetiu, tentando fixar a mensagem em seus pensamentos. Engoliu em seco, levando a mão ao rosto para limpar as lágrimas que queimavam sua pele. Sentiu o celular voltar a vibrar com as mensagens que pipocavam na tela de seu celular; "Thank God." Disse em um suspiro quase assustado.
you and i walk in a fragile line; full moon
@wolfiekb
Clara respirou fundo uma, duas, três vezes. Observava o alerta de tornado no celular, um pouco descrente de que aquilo estava acontecendo com ela. De tantos lugares que poderia estar estava ali. Por dentro da casca grossa que exibia, sentia seu interior se contorcer em vergonha e arrependimento. Estaria presa no estúdio com a equipe de trabalho - e Wolfie, por longas horas. Sem pensar muito e fugindo do que havia adiado por tantos anos, saiu de fininho de onde todo mundo estava e foi até a sala onde guardavam os vestuários, se sentando no chão, sem se importando de se quer acender a luz. "Kill me now, please." Jogou para o universo com uma vontade genuína, apoiando a cabeça na parede e fechando os olhos com força.
Um tornado, sério? Wolfie ainda estava meio descrente na verdade. Claro, lembrava de seus pais comentarem algo sobre um tornado na época que eram mais jovens, mas nunca pensou que viveria algo assim. Estava até bem de boa, considerando tudo e na verdade só se levantou realmente porque seu sinal estava oscilando e queria muito falar com Stormi - a única que não tinha dado notícias ainda. Nem notou muito pra onde estava indo, Wolfie abriu uma porta qualquer, notando que o local era muito escuro e logo acendendo as luzes. Piscou algumas vezes, até notar outra pessoa no recinto. "Oh," disse surpreso, acabando por soltar a porta. "Clara," murmurou, não sabendo se a chamava ou se somente constatava que era ela. "Is, uh... do you need anything?" Perguntou cauteloso, ainda segurando seu celular em sua mão esquerda.
Poderia ficar ali no quarto escuro por horas. Era um tipo de terapia permanecer no escuro onde não enxergava nada e não era vista. Mas é claro que ele precisava aparecer ali e acender a luz. Poético e trágico. "Ah." Levantou o olhar lhe encarando por um tempo, tentando formular a frase na cabeça, enquanto seu corpo se readaptava luz a presença de Wolfie ali. "Nah, I'm good." Limpou a garganta, "Só vim usar o sinal do celular." Disfarçou pegando o celular do colo. "Você precisa de algo?"
A presença de Clara era uma montanha russa viva em seu estômago. Ao mesmo tempo que ficava confuso e surpreso, Wolfie não deixava de se sentir saudoso, nostálgico de um tempo onde foi feliz, mesmo que para a menina tudo não passasse de uma mentira. E Wolfie era feliz hoje em dia, mesmo, mas era diferente com Clara. Ela sempre seria diferente. "Vim fazer o mesmo que você," respondeu calmo, mostrando o celular em sua mão. "Stormi não disse nada ainda e estou preocupado. Tudo bem com seu irmão? Seus pais? Seus primos?" Quase se amaldiçoou por falar demais, mas a verdade é que se importava e gostaria de saber se todos estavam bem em meio aquele tornado.
Não sabia, sinceramente, o quanto um tornado poderia mudar o clima de uma cidade. Não sabia que um tornado poderia diminuir a quantidade de oxigênio presente no ar. Sentia os ossos de seu tórax comprimir seu pulmão, e o ar faltar em sua corrente sanguínea; puxava o ar devagar e de forma ritmada, como se não estivesse a ponto de colapsar na frente de Wolfie. “Ah.” Respondeu simplesmente, pensando que deveria ter procurado outro lugar para fugir. “Você já tentou ligar? As vezes é mais fácil que mensagem.” Respondeu de forma genérica, tentando se manter calma e indiferente. “Sim, todo mundo bem. Já passou a histeria coletiva no grupo e todo mundo já avisou que está bem e seguro.” Olhou para a tela do celular observando as notificações pipocarem, uma atrás da outra. “Seus pais e seus irmãos estão bem?” Seu coração parecia doer de forma aguda. Odiava tanto tudo aquilo, tinha tanta vergonha. Queria apenas fechar os olhos e sumir dali tão rápido como chegou.
Wolfie assentiu para a pergunta, um pouco alheio pela preocupação que apertava seu coração - sua irmã mais nova provavelmente estava bem, certo? "Já, mas fica dando fora de área e eu sei que ela está na universidade, mas não cons-" foi interrompido por uma mensagem de Stormi e todo seu corpo relaxou, sentiu que até mesmo poderia cair. "Ela está bem!" Disse empolgado, um sorriso enorme em seu rosto ao olhar para Clara. Não que ela se importasse, é claro, mas precisava colocar seu alívio pra fora do peito. "Mike e Remy provavelmente estão juntos, certo? De certo imaginando que estão vivendo um filme apocalíptico," disse rindo, lembrando com carinho dos primos de sua ex namorada. "Sim, está todo mundo bem, só faltava mesmo a Stormi falar algo..." olhou melhor para Clara, de repente então sentindo todo o desconforto dela. "Eu, uhm, vou indo então, ok?" Guardou seu celular no bolso, passando nervosamente uma de suas mãos por seus fios curtos e rosados. Quando virou para abrir a porta, porém, não conseguiu abri-la. "Shit."
"Good, really good." Respondeu feliz, em um sorriso fraco. Estava feliz pela irmã de Wolfie estar bem, feliz por ele estar bem e ter recebido a notícia que esperava. Mas Clara não sabia se portar na presença do outro. Por mais que fingisse e agisse com naturalidade e indiferença, falsas, Clara nunca tinha ideia do que fazer. "Estão juntos, no hipotético bunker deles." Revirou os olhos ao usar o termo que eles haviam inventadl para a sala de estar do apartamento que dividiam. Apenas assentiu em resposta a Wolfie, sentindo um gosto amargo na boca. Não queria que ele se afastasse, mas não era exatamente confortável continuar com ele ali daquela forma. "Shit?" Repetiu em tom de pergunta conforme o olhava confusa. "This isn't happening." Sentiu seu coração parar ao se dar conta do que poderia estar acontecendo. Se levantou de forma rápida e caminhou até a porta, sem pensar duas vezes a forçou para abri-la mas nada aconteceu. "Shit." Continuava a balançar a maçaneta descontroladamente, como se ela fosse ceder a algum momento. Seria ela ou a Clara que cederiam naquela tarde.
Wolfie sabia, é claro, que deveria detestar Clara. Todo o tempo que passou com ela, a felicidade e o amor que compartilhou com a menina de olhos azuis - não passava somente de uma aposta, algo que ela achou de bom tom fazer. Ainda assim, Wolfie não conseguia odiá-la. Demorou tanto tempo pra ficar bem de novo e seu coração partido precisou ser remendado com cuidado, mas não tinha sentimentos ruins por Clara - era estranho. "É claro que sim," respondeu com naturalidade, conseguindo inclusive imaginar os dois primos de Clara vivendo exatamente aquela situação; sentia falta deles, assim como sentia da família dela, assim como sentia falta dela.
Sem saber muito o que fazer, Wolfie olhava de Clara para a porta e vice-versa. Ela claramente estava nervosa, certa? e Wolfie não era exatamente a melhor pessoa do mundo para ajeitar uma porta. Como se estivesse lidando com um animal arisco, ele se aproximou devagar, afastando as mãos nervosas de Clara da maçaneta. "Assim você pode acabar quebrando," disse com delicadeza. "Melhor você sentar... eu vou chamar ou ligar pra alguém. Vai ficar tudo bem," assegurou.
Poucas coisas haviam sido tão dolorosas em sua vida como o peso de suas próprias escolhas. Ainda que tivesse feito o que fez na melhor das intenções, as consequências daquilo assombravam sua vida por muito tempo. Ele não merecia aquilo. Merecia que Clara tivesse o mínimo de discernimento e pensasse melhor. "Óbvios e previsíveis, huh?!" Riu sem humor.
Ao sentir o toque de Wolfie em sua mão, Clara sentiu como se estivesse encostando em um fio desencapado. Sentiu o choque físico em seus braços, soltando a maçaneta automaticamente, esticando e retraindo os dedos, como se precisasse se dar conta de que o choque havia sido real. Olhou para ele por alguns segundos, sem ter coragem de responder a gentileza que ele havia feito. Ela não merecida isso. Apenas assentiu e voltou a se sentar no chão, como um cão encolhido. "No signal now." Disse baixinho enquanto percebia que a mensagem de socorro endereçada ao seu irmão não chegava. "We could use the air tubes." Olhou para a saída de ar no teto, pensando que Remy ou Mike a achariam genial por aquilo.
Wolfie riu um pouco. "Eu ia dizer engraçados, como sempre." E era verdade, ele mesmo tinha uma família grande e sabia bem como algumas coisas podiam ser caóticas, mas sempre achara divertida a relação de Clara com seu irmão e seus primos.
Verdade seja dita, ele não fazia a menor ideia do que deveria fazer. Claramente não tinham sinal algum e não era possível avisar alguém que estava ali, mas precisava fazer algo, especialmente porque Clara parecia bastante nervosa. "Right," passou as mãos por seus fios raspados, tentando pensar em algo. "I mean, it's not that bad of idea, but I'm not sure..." falou enquanto olhava para a saída de ar - e se ficassem presos lá? Era melhor não. "Ah, já sei." Procurou por um pedaço de papel, escrevendo que duas pessoas estavam presas ali dentro e passando o bilhete por baixa da porta. "Eventualmente alguém vai passar e ver, certo? Agora só nos resta esperar." Sentou do outro lado.
"Se você acha." No fundo sabia que sim, os primos eram engraçados e tinham o seu valor. Mas era algo que sempre optava para guardar para si; como muitas outras coisas na sua vida, pensou tristemente.
Sabia que a chance do ar começar a faltar naquele ambiente era pequena, quase mínima, mas seus pulmões não entendia daquela forma. O ar parecia se tornar uma substância um pouco viscosa, incapaz de preencher seu corpo, como deveria. Precisava focar no que Wolfie estava falando, tentando controlar sua respiração como poderia. Não se permitiria a passar mais essa vergonha, poderia lutar mais uma vez contra a ansiedade, só mais uma vez. Balançou a cabeça positivamente, como se entendesse o que ele estivesse falando, deixando seus olhos prestarem atenção no papel passado por de baixo do vão da porta. "Yeah," Suspirou olhando para a porta. "Vai dar certo, né?" A voz saiu um pouco fraca, quase como se faltasse força para dizer algo enquanto tentava se controlar.
Apoiado com as costas na parede oposta a Clara, Wolfie se permitiu observar melhor sua ex namorada. Ela estava diferente. Claro, tinham se passado alguns anos e ela estava mais madura, mais adulta, mas não era só isso. Antes, Clara era cheia de luz, energia, um sorriso arteiro presente mais vezes do que não em seu rosto, seus lábios sempre prontos para soltarem as maiores pérolas do mundo - Wolfie particularmente gostava muito de ouvi-la falando, o som de sua risada, a forma como ela escondia o rosto em seu ombro. Agora, no entanto, era quase como se a menina quisesse se encolher dentro de si mesma, não querendo ser notada, mal interagindo com o mundo exterior. Ela parecia cansada, triste e perceber aquilo causava um mal estar em Wolfie. Deveria ter raiva dela, sabia disso, mas não conseguia. Com o tempo, deixou que tudo de ruim passasse, no fundo só guardando coisas boas que sentiu em relação a ela. Não achou que a veria novamente, muito menos que se preocuparia com ela, mas lá estava ele. "Yeah, of course," disse suave. Sem conseguir se conter e sabendo que deveria fazer algo, deixou seu lugar, se aproximando com calma de onde Clara estava. "Hey," falou baixo, arriscando colocar uma mão no joelho dela. "You're okay?"
Não soube quanto tempo se pegou encarando o teto, perdida no que nada lhe dizia e tampouco lhe acalmava, sendo sincera. Não era como se tivesse problemas claustrofóbicos, mas a sensação de impotência a atormentava. Não soube mesmo se em algum momento se perdeu nos próprios pensamentos autodestrutivos que não percebeu que Wolfie a olhava de maneira quase analítica; sentiu seu estomago se revirar. "Yeah." Respondeu devagar, tentando controlar a respiração. "I'm just..." Gesticulou as mãos, sentindo a pele do joelho queimar por baixo da calça. Sabia que a noite, quando retirasse a pele, estaria a marcada a mão do rapaz, com os cinco dedos marcos sobre a sua pele. Provavelmente em algum conto religioso, existia a história de quando alguma criatura sagrada tocava o profano, deixava uma marca de seu toque. Clara sabia que era aquilo que estava acontecendo. "....heavy. The air." Puxou a respiração devagar. Talvez ela fosse mesmo claustrofóbica, pensando bem. "I'm okay." Mentiu. "Kinda frustrating been locked up here. It's just too small."
Wolfie não era bom em tantas coisas que se fosse fazer uma lista provavelmente nem saberia por onde começar. Há muito tinha se passado o tempo que ele deixava aquilo o atormentar, mas ali preso com Clara sentiu um peso diferente em seu peito - ele não era bom em confortar ninguém, nunca tinha sido. De todos seus irmãos Evie era o sinônimo de conforto, não ele e era até engraçado, porque sua irmã mais velha era bastante explosiva. Sempre tinha se sentia inadequado ao ser colocado naquela posição, seus ombros eram muito magros e nada adequados para alguém se apoiar e nenhuma palavra que ele pudesse pensar parecia ser boa, por mais que Stormi sempre parecesse gostar de seu abraço. Pensando na irmã mais nova, Wolfie se apoiou na parede ao lado de Clara, sua mão que antes repousava no joelho da ex agora tomava a mão dela, a apoiando contra seu próprio peito. "You can count my hearbeats, I heard it helps." Qualquer coisa que ajudasse Clara a pensar em outra coisa. "So, uhm... do you want to tell me about the project?" Se ela falasse sobre o trabalho talvez tirasse sua cabeça de coisas ruins.
Por um bom tempo, Clara se martirizou e se culpou pelo que havia feito. Tinha sido uma decisão impulsiva e precipitada, apesar de suas boas intenções. Havia consequências boas e ruins em tudo aquilo, e Clara, depois de muito sofrimento, compreendeu que sujar as mãos e sacrificar algo bonito em prol de outra pessoa era uma forma de amor. Apesar de tudo, ela sabia que tinha agido pensando no melhor para Wolfie, ainda que de maneira muito torta. No entanto, toda a maturidade que havia adquirido sobre o assunto pareceu se esvair de seus dedos quando ficou presa com ele naquela pequena sala. Talvez a adrenalina tivesse bagunçado seus sentimentos; vê-lo ali trouxe tudo à tona. Agora, com o toque tão zeloso de sua mão, parecia que tudo se dissolvia sob sua pele. Clara balançou a cabeça em sinal positivo, sentindo as pontas dos dedos formigarem sobre o peito quente do outro; reconhecendo, mesmo através do tecido, a textura que havia por baixo. "One," disse entre soluços, tentando organizar os números e palavras em sua mente. "two," continuou, sentindo uma pressão crescer em seu peito. "Wolfie," murmurou, tudo acontecendo tão rápido quanto as palavras que saíam de sua boca. "I'm sorry." Não sabia exatamente pelo que estava se desculpando. Era tanto, que não havia começo ou fim. Mas ali, no âmago de suas emoções, sabia que precisava.
Parando pra pensar talvez deixar Clara contar seus batimentos cardíacos não fosse a melhor das opções. Wolfie geralmente era bem calmo e contido, muitos até diziam nunca ter escutado o rapaz falar, mas era só seu jeito. E ainda assim, tudo parecia se esvair na presença da única pessoa que Wolfie jurou, por muito tempo, ser quem lhe entendia melhor. Seu coração se apertava e acelerava na mesma medida, a nostalgia e a saudade tomando conta de seu peito. Fazia muito tempo, era verdade, e a ferida não mais machucava, mas por que Wolfie ainda sentia tanto? "It's alright, Clara," murmurou em resposta, ajeitando seus dedos entre os dela, o movimento tão familiar e natural como o ato de respirar. Não sabia ao certo o que estava bem, se afirmava que eles sairiam dali com segurança, ou se dizia que tudo que tinha acontecido anos antes já estava curado. Não mentia, há muito se permitiu cicatrizar feridas difíceis e por mais que toda a história tenha o machucado terrivelmente, Wolfie não via mais Clara como a vilã de sua história. Obviamente não entendia os motivos dela, mas tinha feito paz com o fato de que jamais entenderia. "Don't think about it too much, okay? You'll be fine."
O que sentia era algo similar a sensação de afogamento; já havia experimentado o terror de sentir a água entrando pelo seu nariz e sua boca para afirmar que era uma sensação muito semelhante. A realidade e o desespero iam lhe tomando por completo a deixando sem ar. "You don't understand." Choramingou, sentindo o seu peito arfar. A aproximidade entre os dois eram como inflamar o próprio fogo, sal na própria ferida. "I'm sorry for everything." Disse entre soluços secos, e sua mão segurar firme a do outro. "I'm not a bad person. Not really."
you and i walk in a fragile line; full moon
@wolfiekb
Clara respirou fundo uma, duas, três vezes. Observava o alerta de tornado no celular, um pouco descrente de que aquilo estava acontecendo com ela. De tantos lugares que poderia estar estava ali. Por dentro da casca grossa que exibia, sentia seu interior se contorcer em vergonha e arrependimento. Estaria presa no estúdio com a equipe de trabalho - e Wolfie, por longas horas. Sem pensar muito e fugindo do que havia adiado por tantos anos, saiu de fininho de onde todo mundo estava e foi até a sala onde guardavam os vestuários, se sentando no chão, sem se importando de se quer acender a luz. "Kill me now, please." Jogou para o universo com uma vontade genuína, apoiando a cabeça na parede e fechando os olhos com força.
Um tornado, sério? Wolfie ainda estava meio descrente na verdade. Claro, lembrava de seus pais comentarem algo sobre um tornado na época que eram mais jovens, mas nunca pensou que viveria algo assim. Estava até bem de boa, considerando tudo e na verdade só se levantou realmente porque seu sinal estava oscilando e queria muito falar com Stormi - a única que não tinha dado notícias ainda. Nem notou muito pra onde estava indo, Wolfie abriu uma porta qualquer, notando que o local era muito escuro e logo acendendo as luzes. Piscou algumas vezes, até notar outra pessoa no recinto. "Oh," disse surpreso, acabando por soltar a porta. "Clara," murmurou, não sabendo se a chamava ou se somente constatava que era ela. "Is, uh... do you need anything?" Perguntou cauteloso, ainda segurando seu celular em sua mão esquerda.
Poderia ficar ali no quarto escuro por horas. Era um tipo de terapia permanecer no escuro onde não enxergava nada e não era vista. Mas é claro que ele precisava aparecer ali e acender a luz. Poético e trágico. "Ah." Levantou o olhar lhe encarando por um tempo, tentando formular a frase na cabeça, enquanto seu corpo se readaptava luz a presença de Wolfie ali. "Nah, I'm good." Limpou a garganta, "Só vim usar o sinal do celular." Disfarçou pegando o celular do colo. "Você precisa de algo?"
A presença de Clara era uma montanha russa viva em seu estômago. Ao mesmo tempo que ficava confuso e surpreso, Wolfie não deixava de se sentir saudoso, nostálgico de um tempo onde foi feliz, mesmo que para a menina tudo não passasse de uma mentira. E Wolfie era feliz hoje em dia, mesmo, mas era diferente com Clara. Ela sempre seria diferente. "Vim fazer o mesmo que você," respondeu calmo, mostrando o celular em sua mão. "Stormi não disse nada ainda e estou preocupado. Tudo bem com seu irmão? Seus pais? Seus primos?" Quase se amaldiçoou por falar demais, mas a verdade é que se importava e gostaria de saber se todos estavam bem em meio aquele tornado.
Não sabia, sinceramente, o quanto um tornado poderia mudar o clima de uma cidade. Não sabia que um tornado poderia diminuir a quantidade de oxigênio presente no ar. Sentia os ossos de seu tórax comprimir seu pulmão, e o ar faltar em sua corrente sanguínea; puxava o ar devagar e de forma ritmada, como se não estivesse a ponto de colapsar na frente de Wolfie. “Ah.” Respondeu simplesmente, pensando que deveria ter procurado outro lugar para fugir. “Você já tentou ligar? As vezes é mais fácil que mensagem.” Respondeu de forma genérica, tentando se manter calma e indiferente. “Sim, todo mundo bem. Já passou a histeria coletiva no grupo e todo mundo já avisou que está bem e seguro.” Olhou para a tela do celular observando as notificações pipocarem, uma atrás da outra. “Seus pais e seus irmãos estão bem?” Seu coração parecia doer de forma aguda. Odiava tanto tudo aquilo, tinha tanta vergonha. Queria apenas fechar os olhos e sumir dali tão rápido como chegou.
Wolfie assentiu para a pergunta, um pouco alheio pela preocupação que apertava seu coração - sua irmã mais nova provavelmente estava bem, certo? "Já, mas fica dando fora de área e eu sei que ela está na universidade, mas não cons-" foi interrompido por uma mensagem de Stormi e todo seu corpo relaxou, sentiu que até mesmo poderia cair. "Ela está bem!" Disse empolgado, um sorriso enorme em seu rosto ao olhar para Clara. Não que ela se importasse, é claro, mas precisava colocar seu alívio pra fora do peito. "Mike e Remy provavelmente estão juntos, certo? De certo imaginando que estão vivendo um filme apocalíptico," disse rindo, lembrando com carinho dos primos de sua ex namorada. "Sim, está todo mundo bem, só faltava mesmo a Stormi falar algo..." olhou melhor para Clara, de repente então sentindo todo o desconforto dela. "Eu, uhm, vou indo então, ok?" Guardou seu celular no bolso, passando nervosamente uma de suas mãos por seus fios curtos e rosados. Quando virou para abrir a porta, porém, não conseguiu abri-la. "Shit."
"Good, really good." Respondeu feliz, em um sorriso fraco. Estava feliz pela irmã de Wolfie estar bem, feliz por ele estar bem e ter recebido a notícia que esperava. Mas Clara não sabia se portar na presença do outro. Por mais que fingisse e agisse com naturalidade e indiferença, falsas, Clara nunca tinha ideia do que fazer. "Estão juntos, no hipotético bunker deles." Revirou os olhos ao usar o termo que eles haviam inventadl para a sala de estar do apartamento que dividiam. Apenas assentiu em resposta a Wolfie, sentindo um gosto amargo na boca. Não queria que ele se afastasse, mas não era exatamente confortável continuar com ele ali daquela forma. "Shit?" Repetiu em tom de pergunta conforme o olhava confusa. "This isn't happening." Sentiu seu coração parar ao se dar conta do que poderia estar acontecendo. Se levantou de forma rápida e caminhou até a porta, sem pensar duas vezes a forçou para abri-la mas nada aconteceu. "Shit." Continuava a balançar a maçaneta descontroladamente, como se ela fosse ceder a algum momento. Seria ela ou a Clara que cederiam naquela tarde.
Wolfie sabia, é claro, que deveria detestar Clara. Todo o tempo que passou com ela, a felicidade e o amor que compartilhou com a menina de olhos azuis - não passava somente de uma aposta, algo que ela achou de bom tom fazer. Ainda assim, Wolfie não conseguia odiá-la. Demorou tanto tempo pra ficar bem de novo e seu coração partido precisou ser remendado com cuidado, mas não tinha sentimentos ruins por Clara - era estranho. "É claro que sim," respondeu com naturalidade, conseguindo inclusive imaginar os dois primos de Clara vivendo exatamente aquela situação; sentia falta deles, assim como sentia da família dela, assim como sentia falta dela.
Sem saber muito o que fazer, Wolfie olhava de Clara para a porta e vice-versa. Ela claramente estava nervosa, certa? e Wolfie não era exatamente a melhor pessoa do mundo para ajeitar uma porta. Como se estivesse lidando com um animal arisco, ele se aproximou devagar, afastando as mãos nervosas de Clara da maçaneta. "Assim você pode acabar quebrando," disse com delicadeza. "Melhor você sentar... eu vou chamar ou ligar pra alguém. Vai ficar tudo bem," assegurou.
Poucas coisas haviam sido tão dolorosas em sua vida como o peso de suas próprias escolhas. Ainda que tivesse feito o que fez na melhor das intenções, as consequências daquilo assombravam sua vida por muito tempo. Ele não merecia aquilo. Merecia que Clara tivesse o mínimo de discernimento e pensasse melhor. "Óbvios e previsíveis, huh?!" Riu sem humor.
Ao sentir o toque de Wolfie em sua mão, Clara sentiu como se estivesse encostando em um fio desencapado. Sentiu o choque físico em seus braços, soltando a maçaneta automaticamente, esticando e retraindo os dedos, como se precisasse se dar conta de que o choque havia sido real. Olhou para ele por alguns segundos, sem ter coragem de responder a gentileza que ele havia feito. Ela não merecida isso. Apenas assentiu e voltou a se sentar no chão, como um cão encolhido. "No signal now." Disse baixinho enquanto percebia que a mensagem de socorro endereçada ao seu irmão não chegava. "We could use the air tubes." Olhou para a saída de ar no teto, pensando que Remy ou Mike a achariam genial por aquilo.
Wolfie riu um pouco. "Eu ia dizer engraçados, como sempre." E era verdade, ele mesmo tinha uma família grande e sabia bem como algumas coisas podiam ser caóticas, mas sempre achara divertida a relação de Clara com seu irmão e seus primos.
Verdade seja dita, ele não fazia a menor ideia do que deveria fazer. Claramente não tinham sinal algum e não era possível avisar alguém que estava ali, mas precisava fazer algo, especialmente porque Clara parecia bastante nervosa. "Right," passou as mãos por seus fios raspados, tentando pensar em algo. "I mean, it's not that bad of idea, but I'm not sure..." falou enquanto olhava para a saída de ar - e se ficassem presos lá? Era melhor não. "Ah, já sei." Procurou por um pedaço de papel, escrevendo que duas pessoas estavam presas ali dentro e passando o bilhete por baixa da porta. "Eventualmente alguém vai passar e ver, certo? Agora só nos resta esperar." Sentou do outro lado.
"Se você acha." No fundo sabia que sim, os primos eram engraçados e tinham o seu valor. Mas era algo que sempre optava para guardar para si; como muitas outras coisas na sua vida, pensou tristemente.
Sabia que a chance do ar começar a faltar naquele ambiente era pequena, quase mínima, mas seus pulmões não entendia daquela forma. O ar parecia se tornar uma substância um pouco viscosa, incapaz de preencher seu corpo, como deveria. Precisava focar no que Wolfie estava falando, tentando controlar sua respiração como poderia. Não se permitiria a passar mais essa vergonha, poderia lutar mais uma vez contra a ansiedade, só mais uma vez. Balançou a cabeça positivamente, como se entendesse o que ele estivesse falando, deixando seus olhos prestarem atenção no papel passado por de baixo do vão da porta. "Yeah," Suspirou olhando para a porta. "Vai dar certo, né?" A voz saiu um pouco fraca, quase como se faltasse força para dizer algo enquanto tentava se controlar.
Apoiado com as costas na parede oposta a Clara, Wolfie se permitiu observar melhor sua ex namorada. Ela estava diferente. Claro, tinham se passado alguns anos e ela estava mais madura, mais adulta, mas não era só isso. Antes, Clara era cheia de luz, energia, um sorriso arteiro presente mais vezes do que não em seu rosto, seus lábios sempre prontos para soltarem as maiores pérolas do mundo - Wolfie particularmente gostava muito de ouvi-la falando, o som de sua risada, a forma como ela escondia o rosto em seu ombro. Agora, no entanto, era quase como se a menina quisesse se encolher dentro de si mesma, não querendo ser notada, mal interagindo com o mundo exterior. Ela parecia cansada, triste e perceber aquilo causava um mal estar em Wolfie. Deveria ter raiva dela, sabia disso, mas não conseguia. Com o tempo, deixou que tudo de ruim passasse, no fundo só guardando coisas boas que sentiu em relação a ela. Não achou que a veria novamente, muito menos que se preocuparia com ela, mas lá estava ele. "Yeah, of course," disse suave. Sem conseguir se conter e sabendo que deveria fazer algo, deixou seu lugar, se aproximando com calma de onde Clara estava. "Hey," falou baixo, arriscando colocar uma mão no joelho dela. "You're okay?"
Não soube quanto tempo se pegou encarando o teto, perdida no que nada lhe dizia e tampouco lhe acalmava, sendo sincera. Não era como se tivesse problemas claustrofóbicos, mas a sensação de impotência a atormentava. Não soube mesmo se em algum momento se perdeu nos próprios pensamentos autodestrutivos que não percebeu que Wolfie a olhava de maneira quase analítica; sentiu seu estomago se revirar. "Yeah." Respondeu devagar, tentando controlar a respiração. "I'm just..." Gesticulou as mãos, sentindo a pele do joelho queimar por baixo da calça. Sabia que a noite, quando retirasse a pele, estaria a marcada a mão do rapaz, com os cinco dedos marcos sobre a sua pele. Provavelmente em algum conto religioso, existia a história de quando alguma criatura sagrada tocava o profano, deixava uma marca de seu toque. Clara sabia que era aquilo que estava acontecendo. "....heavy. The air." Puxou a respiração devagar. Talvez ela fosse mesmo claustrofóbica, pensando bem. "I'm okay." Mentiu. "Kinda frustrating been locked up here. It's just too small."
Wolfie não era bom em tantas coisas que se fosse fazer uma lista provavelmente nem saberia por onde começar. Há muito tinha se passado o tempo que ele deixava aquilo o atormentar, mas ali preso com Clara sentiu um peso diferente em seu peito - ele não era bom em confortar ninguém, nunca tinha sido. De todos seus irmãos Evie era o sinônimo de conforto, não ele e era até engraçado, porque sua irmã mais velha era bastante explosiva. Sempre tinha se sentia inadequado ao ser colocado naquela posição, seus ombros eram muito magros e nada adequados para alguém se apoiar e nenhuma palavra que ele pudesse pensar parecia ser boa, por mais que Stormi sempre parecesse gostar de seu abraço. Pensando na irmã mais nova, Wolfie se apoiou na parede ao lado de Clara, sua mão que antes repousava no joelho da ex agora tomava a mão dela, a apoiando contra seu próprio peito. "You can count my hearbeats, I heard it helps." Qualquer coisa que ajudasse Clara a pensar em outra coisa. "So, uhm... do you want to tell me about the project?" Se ela falasse sobre o trabalho talvez tirasse sua cabeça de coisas ruins.
Por um bom tempo, Clara se martirizou e se culpou pelo que havia feito. Tinha sido uma decisão impulsiva e precipitada, apesar de suas boas intenções. Havia consequências boas e ruins em tudo aquilo, e Clara, depois de muito sofrimento, compreendeu que sujar as mãos e sacrificar algo bonito em prol de outra pessoa era uma forma de amor. Apesar de tudo, ela sabia que tinha agido pensando no melhor para Wolfie, ainda que de maneira muito torta. No entanto, toda a maturidade que havia adquirido sobre o assunto pareceu se esvair de seus dedos quando ficou presa com ele naquela pequena sala. Talvez a adrenalina tivesse bagunçado seus sentimentos; vê-lo ali trouxe tudo à tona. Agora, com o toque tão zeloso de sua mão, parecia que tudo se dissolvia sob sua pele. Clara balançou a cabeça em sinal positivo, sentindo as pontas dos dedos formigarem sobre o peito quente do outro; reconhecendo, mesmo através do tecido, a textura que havia por baixo. "One," disse entre soluços, tentando organizar os números e palavras em sua mente. "two," continuou, sentindo uma pressão crescer em seu peito. "Wolfie," murmurou, tudo acontecendo tão rápido quanto as palavras que saíam de sua boca. "I'm sorry." Não sabia exatamente pelo que estava se desculpando. Era tanto, que não havia começo ou fim. Mas ali, no âmago de suas emoções, sabia que precisava.
you and i walk in a fragile line; full moon
@wolfiekb
Clara respirou fundo uma, duas, três vezes. Observava o alerta de tornado no celular, um pouco descrente de que aquilo estava acontecendo com ela. De tantos lugares que poderia estar estava ali. Por dentro da casca grossa que exibia, sentia seu interior se contorcer em vergonha e arrependimento. Estaria presa no estúdio com a equipe de trabalho - e Wolfie, por longas horas. Sem pensar muito e fugindo do que havia adiado por tantos anos, saiu de fininho de onde todo mundo estava e foi até a sala onde guardavam os vestuários, se sentando no chão, sem se importando de se quer acender a luz. "Kill me now, please." Jogou para o universo com uma vontade genuína, apoiando a cabeça na parede e fechando os olhos com força.
Um tornado, sério? Wolfie ainda estava meio descrente na verdade. Claro, lembrava de seus pais comentarem algo sobre um tornado na época que eram mais jovens, mas nunca pensou que viveria algo assim. Estava até bem de boa, considerando tudo e na verdade só se levantou realmente porque seu sinal estava oscilando e queria muito falar com Stormi - a única que não tinha dado notícias ainda. Nem notou muito pra onde estava indo, Wolfie abriu uma porta qualquer, notando que o local era muito escuro e logo acendendo as luzes. Piscou algumas vezes, até notar outra pessoa no recinto. "Oh," disse surpreso, acabando por soltar a porta. "Clara," murmurou, não sabendo se a chamava ou se somente constatava que era ela. "Is, uh... do you need anything?" Perguntou cauteloso, ainda segurando seu celular em sua mão esquerda.
Poderia ficar ali no quarto escuro por horas. Era um tipo de terapia permanecer no escuro onde não enxergava nada e não era vista. Mas é claro que ele precisava aparecer ali e acender a luz. Poético e trágico. "Ah." Levantou o olhar lhe encarando por um tempo, tentando formular a frase na cabeça, enquanto seu corpo se readaptava luz a presença de Wolfie ali. "Nah, I'm good." Limpou a garganta, "Só vim usar o sinal do celular." Disfarçou pegando o celular do colo. "Você precisa de algo?"
A presença de Clara era uma montanha russa viva em seu estômago. Ao mesmo tempo que ficava confuso e surpreso, Wolfie não deixava de se sentir saudoso, nostálgico de um tempo onde foi feliz, mesmo que para a menina tudo não passasse de uma mentira. E Wolfie era feliz hoje em dia, mesmo, mas era diferente com Clara. Ela sempre seria diferente. "Vim fazer o mesmo que você," respondeu calmo, mostrando o celular em sua mão. "Stormi não disse nada ainda e estou preocupado. Tudo bem com seu irmão? Seus pais? Seus primos?" Quase se amaldiçoou por falar demais, mas a verdade é que se importava e gostaria de saber se todos estavam bem em meio aquele tornado.
Não sabia, sinceramente, o quanto um tornado poderia mudar o clima de uma cidade. Não sabia que um tornado poderia diminuir a quantidade de oxigênio presente no ar. Sentia os ossos de seu tórax comprimir seu pulmão, e o ar faltar em sua corrente sanguínea; puxava o ar devagar e de forma ritmada, como se não estivesse a ponto de colapsar na frente de Wolfie. “Ah.” Respondeu simplesmente, pensando que deveria ter procurado outro lugar para fugir. “Você já tentou ligar? As vezes é mais fácil que mensagem.” Respondeu de forma genérica, tentando se manter calma e indiferente. “Sim, todo mundo bem. Já passou a histeria coletiva no grupo e todo mundo já avisou que está bem e seguro.” Olhou para a tela do celular observando as notificações pipocarem, uma atrás da outra. “Seus pais e seus irmãos estão bem?” Seu coração parecia doer de forma aguda. Odiava tanto tudo aquilo, tinha tanta vergonha. Queria apenas fechar os olhos e sumir dali tão rápido como chegou.
Wolfie assentiu para a pergunta, um pouco alheio pela preocupação que apertava seu coração - sua irmã mais nova provavelmente estava bem, certo? "Já, mas fica dando fora de área e eu sei que ela está na universidade, mas não cons-" foi interrompido por uma mensagem de Stormi e todo seu corpo relaxou, sentiu que até mesmo poderia cair. "Ela está bem!" Disse empolgado, um sorriso enorme em seu rosto ao olhar para Clara. Não que ela se importasse, é claro, mas precisava colocar seu alívio pra fora do peito. "Mike e Remy provavelmente estão juntos, certo? De certo imaginando que estão vivendo um filme apocalíptico," disse rindo, lembrando com carinho dos primos de sua ex namorada. "Sim, está todo mundo bem, só faltava mesmo a Stormi falar algo..." olhou melhor para Clara, de repente então sentindo todo o desconforto dela. "Eu, uhm, vou indo então, ok?" Guardou seu celular no bolso, passando nervosamente uma de suas mãos por seus fios curtos e rosados. Quando virou para abrir a porta, porém, não conseguiu abri-la. "Shit."
"Good, really good." Respondeu feliz, em um sorriso fraco. Estava feliz pela irmã de Wolfie estar bem, feliz por ele estar bem e ter recebido a notícia que esperava. Mas Clara não sabia se portar na presença do outro. Por mais que fingisse e agisse com naturalidade e indiferença, falsas, Clara nunca tinha ideia do que fazer. "Estão juntos, no hipotético bunker deles." Revirou os olhos ao usar o termo que eles haviam inventadl para a sala de estar do apartamento que dividiam. Apenas assentiu em resposta a Wolfie, sentindo um gosto amargo na boca. Não queria que ele se afastasse, mas não era exatamente confortável continuar com ele ali daquela forma. "Shit?" Repetiu em tom de pergunta conforme o olhava confusa. "This isn't happening." Sentiu seu coração parar ao se dar conta do que poderia estar acontecendo. Se levantou de forma rápida e caminhou até a porta, sem pensar duas vezes a forçou para abri-la mas nada aconteceu. "Shit." Continuava a balançar a maçaneta descontroladamente, como se ela fosse ceder a algum momento. Seria ela ou a Clara que cederiam naquela tarde.
Wolfie sabia, é claro, que deveria detestar Clara. Todo o tempo que passou com ela, a felicidade e o amor que compartilhou com a menina de olhos azuis - não passava somente de uma aposta, algo que ela achou de bom tom fazer. Ainda assim, Wolfie não conseguia odiá-la. Demorou tanto tempo pra ficar bem de novo e seu coração partido precisou ser remendado com cuidado, mas não tinha sentimentos ruins por Clara - era estranho. "É claro que sim," respondeu com naturalidade, conseguindo inclusive imaginar os dois primos de Clara vivendo exatamente aquela situação; sentia falta deles, assim como sentia da família dela, assim como sentia falta dela.
Sem saber muito o que fazer, Wolfie olhava de Clara para a porta e vice-versa. Ela claramente estava nervosa, certa? e Wolfie não era exatamente a melhor pessoa do mundo para ajeitar uma porta. Como se estivesse lidando com um animal arisco, ele se aproximou devagar, afastando as mãos nervosas de Clara da maçaneta. "Assim você pode acabar quebrando," disse com delicadeza. "Melhor você sentar... eu vou chamar ou ligar pra alguém. Vai ficar tudo bem," assegurou.
Poucas coisas haviam sido tão dolorosas em sua vida como o peso de suas próprias escolhas. Ainda que tivesse feito o que fez na melhor das intenções, as consequências daquilo assombravam sua vida por muito tempo. Ele não merecia aquilo. Merecia que Clara tivesse o mínimo de discernimento e pensasse melhor. "Óbvios e previsíveis, huh?!" Riu sem humor.
Ao sentir o toque de Wolfie em sua mão, Clara sentiu como se estivesse encostando em um fio desencapado. Sentiu o choque físico em seus braços, soltando a maçaneta automaticamente, esticando e retraindo os dedos, como se precisasse se dar conta de que o choque havia sido real. Olhou para ele por alguns segundos, sem ter coragem de responder a gentileza que ele havia feito. Ela não merecida isso. Apenas assentiu e voltou a se sentar no chão, como um cão encolhido. "No signal now." Disse baixinho enquanto percebia que a mensagem de socorro endereçada ao seu irmão não chegava. "We could use the air tubes." Olhou para a saída de ar no teto, pensando que Remy ou Mike a achariam genial por aquilo.
Wolfie riu um pouco. "Eu ia dizer engraçados, como sempre." E era verdade, ele mesmo tinha uma família grande e sabia bem como algumas coisas podiam ser caóticas, mas sempre achara divertida a relação de Clara com seu irmão e seus primos.
Verdade seja dita, ele não fazia a menor ideia do que deveria fazer. Claramente não tinham sinal algum e não era possível avisar alguém que estava ali, mas precisava fazer algo, especialmente porque Clara parecia bastante nervosa. "Right," passou as mãos por seus fios raspados, tentando pensar em algo. "I mean, it's not that bad of idea, but I'm not sure..." falou enquanto olhava para a saída de ar - e se ficassem presos lá? Era melhor não. "Ah, já sei." Procurou por um pedaço de papel, escrevendo que duas pessoas estavam presas ali dentro e passando o bilhete por baixa da porta. "Eventualmente alguém vai passar e ver, certo? Agora só nos resta esperar." Sentou do outro lado.
"Se você acha." No fundo sabia que sim, os primos eram engraçados e tinham o seu valor. Mas era algo que sempre optava para guardar para si; como muitas outras coisas na sua vida, pensou tristemente.
Sabia que a chance do ar começar a faltar naquele ambiente era pequena, quase mínima, mas seus pulmões não entendia daquela forma. O ar parecia se tornar uma substância um pouco viscosa, incapaz de preencher seu corpo, como deveria. Precisava focar no que Wolfie estava falando, tentando controlar sua respiração como poderia. Não se permitiria a passar mais essa vergonha, poderia lutar mais uma vez contra a ansiedade, só mais uma vez. Balançou a cabeça positivamente, como se entendesse o que ele estivesse falando, deixando seus olhos prestarem atenção no papel passado por de baixo do vão da porta. "Yeah," Suspirou olhando para a porta. "Vai dar certo, né?" A voz saiu um pouco fraca, quase como se faltasse força para dizer algo enquanto tentava se controlar.
Apoiado com as costas na parede oposta a Clara, Wolfie se permitiu observar melhor sua ex namorada. Ela estava diferente. Claro, tinham se passado alguns anos e ela estava mais madura, mais adulta, mas não era só isso. Antes, Clara era cheia de luz, energia, um sorriso arteiro presente mais vezes do que não em seu rosto, seus lábios sempre prontos para soltarem as maiores pérolas do mundo - Wolfie particularmente gostava muito de ouvi-la falando, o som de sua risada, a forma como ela escondia o rosto em seu ombro. Agora, no entanto, era quase como se a menina quisesse se encolher dentro de si mesma, não querendo ser notada, mal interagindo com o mundo exterior. Ela parecia cansada, triste e perceber aquilo causava um mal estar em Wolfie. Deveria ter raiva dela, sabia disso, mas não conseguia. Com o tempo, deixou que tudo de ruim passasse, no fundo só guardando coisas boas que sentiu em relação a ela. Não achou que a veria novamente, muito menos que se preocuparia com ela, mas lá estava ele. "Yeah, of course," disse suave. Sem conseguir se conter e sabendo que deveria fazer algo, deixou seu lugar, se aproximando com calma de onde Clara estava. "Hey," falou baixo, arriscando colocar uma mão no joelho dela. "You're okay?"
Não soube quanto tempo se pegou encarando o teto, perdida no que nada lhe dizia e tampouco lhe acalmava, sendo sincera. Não era como se tivesse problemas claustrofóbicos, mas a sensação de impotência a atormentava. Não soube mesmo se em algum momento se perdeu nos próprios pensamentos autodestrutivos que não percebeu que Wolfie a olhava de maneira quase analítica; sentiu seu estomago se revirar. "Yeah." Respondeu devagar, tentando controlar a respiração. "I'm just..." Gesticulou as mãos, sentindo a pele do joelho queimar por baixo da calça. Sabia que a noite, quando retirasse a pele, estaria a marcada a mão do rapaz, com os cinco dedos marcos sobre a sua pele. Provavelmente em algum conto religioso, existia a história de quando alguma criatura sagrada tocava o profano, deixava uma marca de seu toque. Clara sabia que era aquilo que estava acontecendo. "....heavy. The air." Puxou a respiração devagar. Talvez ela fosse mesmo claustrofóbica, pensando bem. "I'm okay." Mentiu. "Kinda frustrating been locked up here. It's just too small."
you and i walk in a fragile line; full moon
@wolfiekb
Clara respirou fundo uma, duas, três vezes. Observava o alerta de tornado no celular, um pouco descrente de que aquilo estava acontecendo com ela. De tantos lugares que poderia estar estava ali. Por dentro da casca grossa que exibia, sentia seu interior se contorcer em vergonha e arrependimento. Estaria presa no estúdio com a equipe de trabalho - e Wolfie, por longas horas. Sem pensar muito e fugindo do que havia adiado por tantos anos, saiu de fininho de onde todo mundo estava e foi até a sala onde guardavam os vestuários, se sentando no chão, sem se importando de se quer acender a luz. "Kill me now, please." Jogou para o universo com uma vontade genuína, apoiando a cabeça na parede e fechando os olhos com força.
Um tornado, sério? Wolfie ainda estava meio descrente na verdade. Claro, lembrava de seus pais comentarem algo sobre um tornado na época que eram mais jovens, mas nunca pensou que viveria algo assim. Estava até bem de boa, considerando tudo e na verdade só se levantou realmente porque seu sinal estava oscilando e queria muito falar com Stormi - a única que não tinha dado notícias ainda. Nem notou muito pra onde estava indo, Wolfie abriu uma porta qualquer, notando que o local era muito escuro e logo acendendo as luzes. Piscou algumas vezes, até notar outra pessoa no recinto. "Oh," disse surpreso, acabando por soltar a porta. "Clara," murmurou, não sabendo se a chamava ou se somente constatava que era ela. "Is, uh... do you need anything?" Perguntou cauteloso, ainda segurando seu celular em sua mão esquerda.
Poderia ficar ali no quarto escuro por horas. Era um tipo de terapia permanecer no escuro onde não enxergava nada e não era vista. Mas é claro que ele precisava aparecer ali e acender a luz. Poético e trágico. "Ah." Levantou o olhar lhe encarando por um tempo, tentando formular a frase na cabeça, enquanto seu corpo se readaptava luz a presença de Wolfie ali. "Nah, I'm good." Limpou a garganta, "Só vim usar o sinal do celular." Disfarçou pegando o celular do colo. "Você precisa de algo?"
A presença de Clara era uma montanha russa viva em seu estômago. Ao mesmo tempo que ficava confuso e surpreso, Wolfie não deixava de se sentir saudoso, nostálgico de um tempo onde foi feliz, mesmo que para a menina tudo não passasse de uma mentira. E Wolfie era feliz hoje em dia, mesmo, mas era diferente com Clara. Ela sempre seria diferente. "Vim fazer o mesmo que você," respondeu calmo, mostrando o celular em sua mão. "Stormi não disse nada ainda e estou preocupado. Tudo bem com seu irmão? Seus pais? Seus primos?" Quase se amaldiçoou por falar demais, mas a verdade é que se importava e gostaria de saber se todos estavam bem em meio aquele tornado.
Não sabia, sinceramente, o quanto um tornado poderia mudar o clima de uma cidade. Não sabia que um tornado poderia diminuir a quantidade de oxigênio presente no ar. Sentia os ossos de seu tórax comprimir seu pulmão, e o ar faltar em sua corrente sanguínea; puxava o ar devagar e de forma ritmada, como se não estivesse a ponto de colapsar na frente de Wolfie. “Ah.” Respondeu simplesmente, pensando que deveria ter procurado outro lugar para fugir. “Você já tentou ligar? As vezes é mais fácil que mensagem.” Respondeu de forma genérica, tentando se manter calma e indiferente. “Sim, todo mundo bem. Já passou a histeria coletiva no grupo e todo mundo já avisou que está bem e seguro.” Olhou para a tela do celular observando as notificações pipocarem, uma atrás da outra. “Seus pais e seus irmãos estão bem?” Seu coração parecia doer de forma aguda. Odiava tanto tudo aquilo, tinha tanta vergonha. Queria apenas fechar os olhos e sumir dali tão rápido como chegou.
Wolfie assentiu para a pergunta, um pouco alheio pela preocupação que apertava seu coração - sua irmã mais nova provavelmente estava bem, certo? "Já, mas fica dando fora de área e eu sei que ela está na universidade, mas não cons-" foi interrompido por uma mensagem de Stormi e todo seu corpo relaxou, sentiu que até mesmo poderia cair. "Ela está bem!" Disse empolgado, um sorriso enorme em seu rosto ao olhar para Clara. Não que ela se importasse, é claro, mas precisava colocar seu alívio pra fora do peito. "Mike e Remy provavelmente estão juntos, certo? De certo imaginando que estão vivendo um filme apocalíptico," disse rindo, lembrando com carinho dos primos de sua ex namorada. "Sim, está todo mundo bem, só faltava mesmo a Stormi falar algo..." olhou melhor para Clara, de repente então sentindo todo o desconforto dela. "Eu, uhm, vou indo então, ok?" Guardou seu celular no bolso, passando nervosamente uma de suas mãos por seus fios curtos e rosados. Quando virou para abrir a porta, porém, não conseguiu abri-la. "Shit."
"Good, really good." Respondeu feliz, em um sorriso fraco. Estava feliz pela irmã de Wolfie estar bem, feliz por ele estar bem e ter recebido a notícia que esperava. Mas Clara não sabia se portar na presença do outro. Por mais que fingisse e agisse com naturalidade e indiferença, falsas, Clara nunca tinha ideia do que fazer. "Estão juntos, no hipotético bunker deles." Revirou os olhos ao usar o termo que eles haviam inventadl para a sala de estar do apartamento que dividiam. Apenas assentiu em resposta a Wolfie, sentindo um gosto amargo na boca. Não queria que ele se afastasse, mas não era exatamente confortável continuar com ele ali daquela forma. "Shit?" Repetiu em tom de pergunta conforme o olhava confusa. "This isn't happening." Sentiu seu coração parar ao se dar conta do que poderia estar acontecendo. Se levantou de forma rápida e caminhou até a porta, sem pensar duas vezes a forçou para abri-la mas nada aconteceu. "Shit." Continuava a balançar a maçaneta descontroladamente, como se ela fosse ceder a algum momento. Seria ela ou a Clara que cederiam naquela tarde.
Wolfie sabia, é claro, que deveria detestar Clara. Todo o tempo que passou com ela, a felicidade e o amor que compartilhou com a menina de olhos azuis - não passava somente de uma aposta, algo que ela achou de bom tom fazer. Ainda assim, Wolfie não conseguia odiá-la. Demorou tanto tempo pra ficar bem de novo e seu coração partido precisou ser remendado com cuidado, mas não tinha sentimentos ruins por Clara - era estranho. "É claro que sim," respondeu com naturalidade, conseguindo inclusive imaginar os dois primos de Clara vivendo exatamente aquela situação; sentia falta deles, assim como sentia da família dela, assim como sentia falta dela.
Sem saber muito o que fazer, Wolfie olhava de Clara para a porta e vice-versa. Ela claramente estava nervosa, certa? e Wolfie não era exatamente a melhor pessoa do mundo para ajeitar uma porta. Como se estivesse lidando com um animal arisco, ele se aproximou devagar, afastando as mãos nervosas de Clara da maçaneta. "Assim você pode acabar quebrando," disse com delicadeza. "Melhor você sentar... eu vou chamar ou ligar pra alguém. Vai ficar tudo bem," assegurou.
Poucas coisas haviam sido tão dolorosas em sua vida como o peso de suas próprias escolhas. Ainda que tivesse feito o que fez na melhor das intenções, as consequências daquilo assombravam sua vida por muito tempo. Ele não merecia aquilo. Merecia que Clara tivesse o mínimo de discernimento e pensasse melhor. "Óbvios e previsíveis, huh?!" Riu sem humor.
Ao sentir o toque de Wolfie em sua mão, Clara sentiu como se estivesse encostando em um fio desencapado. Sentiu o choque físico em seus braços, soltando a maçaneta automaticamente, esticando e retraindo os dedos, como se precisasse se dar conta de que o choque havia sido real. Olhou para ele por alguns segundos, sem ter coragem de responder a gentileza que ele havia feito. Ela não merecida isso. Apenas assentiu e voltou a se sentar no chão, como um cão encolhido. "No signal now." Disse baixinho enquanto percebia que a mensagem de socorro endereçada ao seu irmão não chegava. "We could use the air tubes." Olhou para a saída de ar no teto, pensando que Remy ou Mike a achariam genial por aquilo.
Wolfie riu um pouco. "Eu ia dizer engraçados, como sempre." E era verdade, ele mesmo tinha uma família grande e sabia bem como algumas coisas podiam ser caóticas, mas sempre achara divertida a relação de Clara com seu irmão e seus primos.
Verdade seja dita, ele não fazia a menor ideia do que deveria fazer. Claramente não tinham sinal algum e não era possível avisar alguém que estava ali, mas precisava fazer algo, especialmente porque Clara parecia bastante nervosa. "Right," passou as mãos por seus fios raspados, tentando pensar em algo. "I mean, it's not that bad of idea, but I'm not sure..." falou enquanto olhava para a saída de ar - e se ficassem presos lá? Era melhor não. "Ah, já sei." Procurou por um pedaço de papel, escrevendo que duas pessoas estavam presas ali dentro e passando o bilhete por baixa da porta. "Eventualmente alguém vai passar e ver, certo? Agora só nos resta esperar." Sentou do outro lado.
"Se você acha." No fundo sabia que sim, os primos eram engraçados e tinham o seu valor. Mas era algo que sempre optava para guardar para si; como muitas outras coisas na sua vida, pensou tristemente.
Sabia que a chance do ar começar a faltar naquele ambiente era pequena, quase mínima, mas seus pulmões não entendia daquela forma. O ar parecia se tornar uma substância um pouco viscosa, incapaz de preencher seu corpo, como deveria. Precisava focar no que Wolfie estava falando, tentando controlar sua respiração como poderia. Não se permitiria a passar mais essa vergonha, poderia lutar mais uma vez contra a ansiedade, só mais uma vez. Balançou a cabeça positivamente, como se entendesse o que ele estivesse falando, deixando seus olhos prestarem atenção no papel passado por de baixo do vão da porta. "Yeah," Suspirou olhando para a porta. "Vai dar certo, né?" A voz saiu um pouco fraca, quase como se faltasse força para dizer algo enquanto tentava se controlar.

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É com imenso prazer que informamos que a lista de "Homens Mais Putos de Sun City" saiu hoje mesmo no ISCGE. O nobre Sr. Wolfie Kit Blishen debutou na décima primeira (11ª) posição. Como você se sente a respeito?
Hm.
Nada.
you and i walk in a fragile line; full moon
@wolfiekb
Clara respirou fundo uma, duas, três vezes. Observava o alerta de tornado no celular, um pouco descrente de que aquilo estava acontecendo com ela. De tantos lugares que poderia estar estava ali. Por dentro da casca grossa que exibia, sentia seu interior se contorcer em vergonha e arrependimento. Estaria presa no estúdio com a equipe de trabalho - e Wolfie, por longas horas. Sem pensar muito e fugindo do que havia adiado por tantos anos, saiu de fininho de onde todo mundo estava e foi até a sala onde guardavam os vestuários, se sentando no chão, sem se importando de se quer acender a luz. "Kill me now, please." Jogou para o universo com uma vontade genuína, apoiando a cabeça na parede e fechando os olhos com força.
Um tornado, sério? Wolfie ainda estava meio descrente na verdade. Claro, lembrava de seus pais comentarem algo sobre um tornado na época que eram mais jovens, mas nunca pensou que viveria algo assim. Estava até bem de boa, considerando tudo e na verdade só se levantou realmente porque seu sinal estava oscilando e queria muito falar com Stormi - a única que não tinha dado notícias ainda. Nem notou muito pra onde estava indo, Wolfie abriu uma porta qualquer, notando que o local era muito escuro e logo acendendo as luzes. Piscou algumas vezes, até notar outra pessoa no recinto. "Oh," disse surpreso, acabando por soltar a porta. "Clara," murmurou, não sabendo se a chamava ou se somente constatava que era ela. "Is, uh... do you need anything?" Perguntou cauteloso, ainda segurando seu celular em sua mão esquerda.
Poderia ficar ali no quarto escuro por horas. Era um tipo de terapia permanecer no escuro onde não enxergava nada e não era vista. Mas é claro que ele precisava aparecer ali e acender a luz. Poético e trágico. "Ah." Levantou o olhar lhe encarando por um tempo, tentando formular a frase na cabeça, enquanto seu corpo se readaptava luz a presença de Wolfie ali. "Nah, I'm good." Limpou a garganta, "Só vim usar o sinal do celular." Disfarçou pegando o celular do colo. "Você precisa de algo?"
A presença de Clara era uma montanha russa viva em seu estômago. Ao mesmo tempo que ficava confuso e surpreso, Wolfie não deixava de se sentir saudoso, nostálgico de um tempo onde foi feliz, mesmo que para a menina tudo não passasse de uma mentira. E Wolfie era feliz hoje em dia, mesmo, mas era diferente com Clara. Ela sempre seria diferente. "Vim fazer o mesmo que você," respondeu calmo, mostrando o celular em sua mão. "Stormi não disse nada ainda e estou preocupado. Tudo bem com seu irmão? Seus pais? Seus primos?" Quase se amaldiçoou por falar demais, mas a verdade é que se importava e gostaria de saber se todos estavam bem em meio aquele tornado.
Não sabia, sinceramente, o quanto um tornado poderia mudar o clima de uma cidade. Não sabia que um tornado poderia diminuir a quantidade de oxigênio presente no ar. Sentia os ossos de seu tórax comprimir seu pulmão, e o ar faltar em sua corrente sanguínea; puxava o ar devagar e de forma ritmada, como se não estivesse a ponto de colapsar na frente de Wolfie. “Ah.” Respondeu simplesmente, pensando que deveria ter procurado outro lugar para fugir. “Você já tentou ligar? As vezes é mais fácil que mensagem.” Respondeu de forma genérica, tentando se manter calma e indiferente. “Sim, todo mundo bem. Já passou a histeria coletiva no grupo e todo mundo já avisou que está bem e seguro.” Olhou para a tela do celular observando as notificações pipocarem, uma atrás da outra. “Seus pais e seus irmãos estão bem?” Seu coração parecia doer de forma aguda. Odiava tanto tudo aquilo, tinha tanta vergonha. Queria apenas fechar os olhos e sumir dali tão rápido como chegou.
Wolfie assentiu para a pergunta, um pouco alheio pela preocupação que apertava seu coração - sua irmã mais nova provavelmente estava bem, certo? "Já, mas fica dando fora de área e eu sei que ela está na universidade, mas não cons-" foi interrompido por uma mensagem de Stormi e todo seu corpo relaxou, sentiu que até mesmo poderia cair. "Ela está bem!" Disse empolgado, um sorriso enorme em seu rosto ao olhar para Clara. Não que ela se importasse, é claro, mas precisava colocar seu alívio pra fora do peito. "Mike e Remy provavelmente estão juntos, certo? De certo imaginando que estão vivendo um filme apocalíptico," disse rindo, lembrando com carinho dos primos de sua ex namorada. "Sim, está todo mundo bem, só faltava mesmo a Stormi falar algo..." olhou melhor para Clara, de repente então sentindo todo o desconforto dela. "Eu, uhm, vou indo então, ok?" Guardou seu celular no bolso, passando nervosamente uma de suas mãos por seus fios curtos e rosados. Quando virou para abrir a porta, porém, não conseguiu abri-la. "Shit."
"Good, really good." Respondeu feliz, em um sorriso fraco. Estava feliz pela irmã de Wolfie estar bem, feliz por ele estar bem e ter recebido a notícia que esperava. Mas Clara não sabia se portar na presença do outro. Por mais que fingisse e agisse com naturalidade e indiferença, falsas, Clara nunca tinha ideia do que fazer. "Estão juntos, no hipotético bunker deles." Revirou os olhos ao usar o termo que eles haviam inventadl para a sala de estar do apartamento que dividiam. Apenas assentiu em resposta a Wolfie, sentindo um gosto amargo na boca. Não queria que ele se afastasse, mas não era exatamente confortável continuar com ele ali daquela forma. "Shit?" Repetiu em tom de pergunta conforme o olhava confusa. "This isn't happening." Sentiu seu coração parar ao se dar conta do que poderia estar acontecendo. Se levantou de forma rápida e caminhou até a porta, sem pensar duas vezes a forçou para abri-la mas nada aconteceu. "Shit." Continuava a balançar a maçaneta descontroladamente, como se ela fosse ceder a algum momento. Seria ela ou a Clara que cederiam naquela tarde.
Wolfie sabia, é claro, que deveria detestar Clara. Todo o tempo que passou com ela, a felicidade e o amor que compartilhou com a menina de olhos azuis - não passava somente de uma aposta, algo que ela achou de bom tom fazer. Ainda assim, Wolfie não conseguia odiá-la. Demorou tanto tempo pra ficar bem de novo e seu coração partido precisou ser remendado com cuidado, mas não tinha sentimentos ruins por Clara - era estranho. "É claro que sim," respondeu com naturalidade, conseguindo inclusive imaginar os dois primos de Clara vivendo exatamente aquela situação; sentia falta deles, assim como sentia da família dela, assim como sentia falta dela.
Sem saber muito o que fazer, Wolfie olhava de Clara para a porta e vice-versa. Ela claramente estava nervosa, certa? e Wolfie não era exatamente a melhor pessoa do mundo para ajeitar uma porta. Como se estivesse lidando com um animal arisco, ele se aproximou devagar, afastando as mãos nervosas de Clara da maçaneta. "Assim você pode acabar quebrando," disse com delicadeza. "Melhor você sentar... eu vou chamar ou ligar pra alguém. Vai ficar tudo bem," assegurou.
Poucas coisas haviam sido tão dolorosas em sua vida como o peso de suas próprias escolhas. Ainda que tivesse feito o que fez na melhor das intenções, as consequências daquilo assombravam sua vida por muito tempo. Ele não merecia aquilo. Merecia que Clara tivesse o mínimo de discernimento e pensasse melhor. "Óbvios e previsíveis, huh?!" Riu sem humor.
Ao sentir o toque de Wolfie em sua mão, Clara sentiu como se estivesse encostando em um fio desencapado. Sentiu o choque físico em seus braços, soltando a maçaneta automaticamente, esticando e retraindo os dedos, como se precisasse se dar conta de que o choque havia sido real. Olhou para ele por alguns segundos, sem ter coragem de responder a gentileza que ele havia feito. Ela não merecida isso. Apenas assentiu e voltou a se sentar no chão, como um cão encolhido. "No signal now." Disse baixinho enquanto percebia que a mensagem de socorro endereçada ao seu irmão não chegava. "We could use the air tubes." Olhou para a saída de ar no teto, pensando que Remy ou Mike a achariam genial por aquilo.
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Clara respirou fundo uma, duas, três vezes. Observava o alerta de tornado no celular, um pouco descrente de que aquilo estava acontecendo com ela. De tantos lugares que poderia estar estava ali. Por dentro da casca grossa que exibia, sentia seu interior se contorcer em vergonha e arrependimento. Estaria presa no estúdio com a equipe de trabalho - e Wolfie, por longas horas. Sem pensar muito e fugindo do que havia adiado por tantos anos, saiu de fininho de onde todo mundo estava e foi até a sala onde guardavam os vestuários, se sentando no chão, sem se importando de se quer acender a luz. "Kill me now, please." Jogou para o universo com uma vontade genuína, apoiando a cabeça na parede e fechando os olhos com força.
Um tornado, sério? Wolfie ainda estava meio descrente na verdade. Claro, lembrava de seus pais comentarem algo sobre um tornado na época que eram mais jovens, mas nunca pensou que viveria algo assim. Estava até bem de boa, considerando tudo e na verdade só se levantou realmente porque seu sinal estava oscilando e queria muito falar com Stormi - a única que não tinha dado notícias ainda. Nem notou muito pra onde estava indo, Wolfie abriu uma porta qualquer, notando que o local era muito escuro e logo acendendo as luzes. Piscou algumas vezes, até notar outra pessoa no recinto. "Oh," disse surpreso, acabando por soltar a porta. "Clara," murmurou, não sabendo se a chamava ou se somente constatava que era ela. "Is, uh... do you need anything?" Perguntou cauteloso, ainda segurando seu celular em sua mão esquerda.
Poderia ficar ali no quarto escuro por horas. Era um tipo de terapia permanecer no escuro onde não enxergava nada e não era vista. Mas é claro que ele precisava aparecer ali e acender a luz. Poético e trágico. "Ah." Levantou o olhar lhe encarando por um tempo, tentando formular a frase na cabeça, enquanto seu corpo se readaptava luz a presença de Wolfie ali. "Nah, I'm good." Limpou a garganta, "Só vim usar o sinal do celular." Disfarçou pegando o celular do colo. "Você precisa de algo?"
A presença de Clara era uma montanha russa viva em seu estômago. Ao mesmo tempo que ficava confuso e surpreso, Wolfie não deixava de se sentir saudoso, nostálgico de um tempo onde foi feliz, mesmo que para a menina tudo não passasse de uma mentira. E Wolfie era feliz hoje em dia, mesmo, mas era diferente com Clara. Ela sempre seria diferente. "Vim fazer o mesmo que você," respondeu calmo, mostrando o celular em sua mão. "Stormi não disse nada ainda e estou preocupado. Tudo bem com seu irmão? Seus pais? Seus primos?" Quase se amaldiçoou por falar demais, mas a verdade é que se importava e gostaria de saber se todos estavam bem em meio aquele tornado.
Não sabia, sinceramente, o quanto um tornado poderia mudar o clima de uma cidade. Não sabia que um tornado poderia diminuir a quantidade de oxigênio presente no ar. Sentia os ossos de seu tórax comprimir seu pulmão, e o ar faltar em sua corrente sanguínea; puxava o ar devagar e de forma ritmada, como se não estivesse a ponto de colapsar na frente de Wolfie. “Ah.” Respondeu simplesmente, pensando que deveria ter procurado outro lugar para fugir. “Você já tentou ligar? As vezes é mais fácil que mensagem.” Respondeu de forma genérica, tentando se manter calma e indiferente. “Sim, todo mundo bem. Já passou a histeria coletiva no grupo e todo mundo já avisou que está bem e seguro.” Olhou para a tela do celular observando as notificações pipocarem, uma atrás da outra. “Seus pais e seus irmãos estão bem?” Seu coração parecia doer de forma aguda. Odiava tanto tudo aquilo, tinha tanta vergonha. Queria apenas fechar os olhos e sumir dali tão rápido como chegou.
Wolfie assentiu para a pergunta, um pouco alheio pela preocupação que apertava seu coração - sua irmã mais nova provavelmente estava bem, certo? "Já, mas fica dando fora de área e eu sei que ela está na universidade, mas não cons-" foi interrompido por uma mensagem de Stormi e todo seu corpo relaxou, sentiu que até mesmo poderia cair. "Ela está bem!" Disse empolgado, um sorriso enorme em seu rosto ao olhar para Clara. Não que ela se importasse, é claro, mas precisava colocar seu alívio pra fora do peito. "Mike e Remy provavelmente estão juntos, certo? De certo imaginando que estão vivendo um filme apocalíptico," disse rindo, lembrando com carinho dos primos de sua ex namorada. "Sim, está todo mundo bem, só faltava mesmo a Stormi falar algo..." olhou melhor para Clara, de repente então sentindo todo o desconforto dela. "Eu, uhm, vou indo então, ok?" Guardou seu celular no bolso, passando nervosamente uma de suas mãos por seus fios curtos e rosados. Quando virou para abrir a porta, porém, não conseguiu abri-la. "Shit."
"Good, really good." Respondeu feliz, em um sorriso fraco. Estava feliz pela irmã de Wolfie estar bem, feliz por ele estar bem e ter recebido a notícia que esperava. Mas Clara não sabia se portar na presença do outro. Por mais que fingisse e agisse com naturalidade e indiferença, falsas, Clara nunca tinha ideia do que fazer. "Estão juntos, no hipotético bunker deles." Revirou os olhos ao usar o termo que eles haviam inventadl para a sala de estar do apartamento que dividiam. Apenas assentiu em resposta a Wolfie, sentindo um gosto amargo na boca. Não queria que ele se afastasse, mas não era exatamente confortável continuar com ele ali daquela forma. "Shit?" Repetiu em tom de pergunta conforme o olhava confusa. "This isn't happening." Sentiu seu coração parar ao se dar conta do que poderia estar acontecendo. Se levantou de forma rápida e caminhou até a porta, sem pensar duas vezes a forçou para abri-la mas nada aconteceu. "Shit." Continuava a balançar a maçaneta descontroladamente, como se ela fosse ceder a algum momento. Seria ela ou a Clara que cederiam naquela tarde.
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Clara respirou fundo uma, duas, três vezes. Observava o alerta de tornado no celular, um pouco descrente de que aquilo estava acontecendo com ela. De tantos lugares que poderia estar estava ali. Por dentro da casca grossa que exibia, sentia seu interior se contorcer em vergonha e arrependimento. Estaria presa no estúdio com a equipe de trabalho - e Wolfie, por longas horas. Sem pensar muito e fugindo do que havia adiado por tantos anos, saiu de fininho de onde todo mundo estava e foi até a sala onde guardavam os vestuários, se sentando no chão, sem se importando de se quer acender a luz. "Kill me now, please." Jogou para o universo com uma vontade genuína, apoiando a cabeça na parede e fechando os olhos com força.
Um tornado, sério? Wolfie ainda estava meio descrente na verdade. Claro, lembrava de seus pais comentarem algo sobre um tornado na época que eram mais jovens, mas nunca pensou que viveria algo assim. Estava até bem de boa, considerando tudo e na verdade só se levantou realmente porque seu sinal estava oscilando e queria muito falar com Stormi - a única que não tinha dado notícias ainda. Nem notou muito pra onde estava indo, Wolfie abriu uma porta qualquer, notando que o local era muito escuro e logo acendendo as luzes. Piscou algumas vezes, até notar outra pessoa no recinto. "Oh," disse surpreso, acabando por soltar a porta. "Clara," murmurou, não sabendo se a chamava ou se somente constatava que era ela. "Is, uh... do you need anything?" Perguntou cauteloso, ainda segurando seu celular em sua mão esquerda.
Poderia ficar ali no quarto escuro por horas. Era um tipo de terapia permanecer no escuro onde não enxergava nada e não era vista. Mas é claro que ele precisava aparecer ali e acender a luz. Poético e trágico. "Ah." Levantou o olhar lhe encarando por um tempo, tentando formular a frase na cabeça, enquanto seu corpo se readaptava luz a presença de Wolfie ali. "Nah, I'm good." Limpou a garganta, "Só vim usar o sinal do celular." Disfarçou pegando o celular do colo. "Você precisa de algo?"
A presença de Clara era uma montanha russa viva em seu estômago. Ao mesmo tempo que ficava confuso e surpreso, Wolfie não deixava de se sentir saudoso, nostálgico de um tempo onde foi feliz, mesmo que para a menina tudo não passasse de uma mentira. E Wolfie era feliz hoje em dia, mesmo, mas era diferente com Clara. Ela sempre seria diferente. "Vim fazer o mesmo que você," respondeu calmo, mostrando o celular em sua mão. "Stormi não disse nada ainda e estou preocupado. Tudo bem com seu irmão? Seus pais? Seus primos?" Quase se amaldiçoou por falar demais, mas a verdade é que se importava e gostaria de saber se todos estavam bem em meio aquele tornado.
Não sabia, sinceramente, o quanto um tornado poderia mudar o clima de uma cidade. Não sabia que um tornado poderia diminuir a quantidade de oxigênio presente no ar. Sentia os ossos de seu tórax comprimir seu pulmão, e o ar faltar em sua corrente sanguínea; puxava o ar devagar e de forma ritmada, como se não estivesse a ponto de colapsar na frente de Wolfie. “Ah.” Respondeu simplesmente, pensando que deveria ter procurado outro lugar para fugir. “Você já tentou ligar? As vezes é mais fácil que mensagem.” Respondeu de forma genérica, tentando se manter calma e indiferente. “Sim, todo mundo bem. Já passou a histeria coletiva no grupo e todo mundo já avisou que está bem e seguro.” Olhou para a tela do celular observando as notificações pipocarem, uma atrás da outra. “Seus pais e seus irmãos estão bem?” Seu coração parecia doer de forma aguda. Odiava tanto tudo aquilo, tinha tanta vergonha. Queria apenas fechar os olhos e sumir dali tão rápido como chegou.
clara vc deixaria de chamar o tom de viado por 5 mil reais
Não.

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Clara respirou fundo uma, duas, três vezes. Observava o alerta de tornado no celular, um pouco descrente de que aquilo estava acontecendo com ela. De tantos lugares que poderia estar estava ali. Por dentro da casca grossa que exibia, sentia seu interior se contorcer em vergonha e arrependimento. Estaria presa no estúdio com a equipe de trabalho - e Wolfie, por longas horas. Sem pensar muito e fugindo do que havia adiado por tantos anos, saiu de fininho de onde todo mundo estava e foi até a sala onde guardavam os vestuários, se sentando no chão, sem se importando de se quer acender a luz. "Kill me now, please." Jogou para o universo com uma vontade genuína, apoiando a cabeça na parede e fechando os olhos com força.
Um tornado, sério? Wolfie ainda estava meio descrente na verdade. Claro, lembrava de seus pais comentarem algo sobre um tornado na época que eram mais jovens, mas nunca pensou que viveria algo assim. Estava até bem de boa, considerando tudo e na verdade só se levantou realmente porque seu sinal estava oscilando e queria muito falar com Stormi - a única que não tinha dado notícias ainda. Nem notou muito pra onde estava indo, Wolfie abriu uma porta qualquer, notando que o local era muito escuro e logo acendendo as luzes. Piscou algumas vezes, até notar outra pessoa no recinto. "Oh," disse surpreso, acabando por soltar a porta. "Clara," murmurou, não sabendo se a chamava ou se somente constatava que era ela. "Is, uh... do you need anything?" Perguntou cauteloso, ainda segurando seu celular em sua mão esquerda.
Poderia ficar ali no quarto escuro por horas. Era um tipo de terapia permanecer no escuro onde não enxergava nada e não era vista. Mas é claro que ele precisava aparecer ali e acender a luz. Poético e trágico. "Ah." Levantou o olhar lhe encarando por um tempo, tentando formular a frase na cabeça, enquanto seu corpo se readaptava luz a presença de Wolfie ali. "Nah, I'm good." Limpou a garganta, "Só vim usar o sinal do celular." Disfarçou pegando o celular do colo. "Você precisa de algo?"
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Clara respirou fundo uma, duas, três vezes. Observava o alerta de tornado no celular, um pouco descrente de que aquilo estava acontecendo com ela. De tantos lugares que poderia estar estava ali. Por dentro da casca grossa que exibia, sentia seu interior se contorcer em vergonha e arrependimento. Estaria presa no estúdio com a equipe de trabalho - e Wolfie, por longas horas. Sem pensar muito e fugindo do que havia adiado por tantos anos, saiu de fininho de onde todo mundo estava e foi até a sala onde guardavam os vestuários, se sentando no chão, sem se importando de se quer acender a luz. "Kill me now, please." Jogou para o universo com uma vontade genuína, apoiando a cabeça na parede e fechando os olhos com força.