Criada na miséria pela mãe, que a treinou em segredo para ser a heroína que derrubaria o regime totalitário, burocrático e manipulador do Magico de Oz, 𝐒𝐄𝐑𝐀𝐏𝐇𝐈𝐍𝐀 𝐇𝐎𝐔𝐃𝐈𝐍 cresceu convicta de seu propósito revolucionário e armada com a habilidade de eco-localização cognitiva. Contudo, ao ser abordada pelo ditador — que se revelou seu pai biológico em busca de uma herdeira —, ela aceitou o convite de viver no palácio sob o pretexto de infiltrar-se no governo e acabar com a pobreza de sua família. O plano ruiu quando a convivência diária com o carisma e a aparente gentileza doméstica do Mágico a seduziram, fazendo-a adiar indefinidamente a revolução e sucumbir ao conforto e aos privilégios do poder, caindo na armadilha final do governante: punir a resistência transformando a filha de sua maior inimiga em sua sucessora.
Ao abrir as páginas empoeiradas dos livros, é natural que nossos olhos busquem vorazmente pelo protagonista — o herói, o destinado, que tem algo de especial que nenhum outro personagem, por mais interessante que seja, jamais terá. Envolvidos pela nossa pequenez e trivialidade, buscar uma figura excepcional com a qual possamos nos identificar é, no mínimo, reconfortante. Talvez por isso as histórias de heróis fossem tão populares nos dias dourados.
Mesmo num reino onde a privacidade era um privilégio dos mais abastados, a pequena família que vivia na casa de ripas ao lado do riacho esmeraldino parecia saber de algo que seus vizinhos não tinham a menor ideia — e que azar o deles! Angelique era uma mulher jovem, bonita e com o raciocínio veloz como um furacão. Já Seraphina Cornelia, ou apenas Sissi, como era chamada pela mãe, não podia ser mais diferente. Quando a noite caía e elas faziam a refeição com alimentos colhidos da floresta, Angelique se comunicava com Sissi através de batidas na mesa, códigos e palavras inventadas; sabia dos perigos do reino e conhecia o rei de perto e pessoalmente para saber de tudo o que ele era capaz quando ia de encontro a alguém que conhecesse suas limitações, fossem mágicas ou apenas falhas de caráter que ele tinha pavor de que fossem reveladas.
Por anos, funcionou. Ou pelo menos assim Angelique pensou. Seraphina cresceu perspicaz, inteligente, e o objetivo de fazê-la saber do que Angelique sabia havia sido atingido com sucesso. Sabia quem era seu pai biológico, a história de como a Bruxa Má do Oeste e a Bruxa Boa do Leste haviam chegado lá, e também sobre o fracasso do Mágico em habilidades sobrenaturais, mas como ele era hábil na lábia e na manipulação das massas — afinal, houve um motivo para ele ter se tornado uma figura tão amada em Oz. A pergunta de Sissi por anos foi a mesma: se as pessoas sabiam, por que nada faziam? Por que Glinda nunca tentou derrubar o Mágico, sendo que ele sequer tinha poderes para se defender? E, por fim, como a população de Oz deixou a situação chegar àquele ponto? Afinal, a massa sempre seria mais poderosa do que um único homem que sequer sabia manejar uma espada. Passou toda a adolescência num misto de indignação e orgulho, pois Seraphina se conhecia e conhecia bem sua inteligência e determinação. Se um dia tivesse o poder, ela mesma derrubaria o Mágico e traria Oz de volta à luz.
Mas, nos contos de fadas, ninguém avisa de fato como os vilões agem quando não apenas querem algo, mas necessitam daquilo. Estamos acostumados a grandes furacões, maçãs envenenadas e rocas de fiar; fáceis de identificar, fáceis de escapar. Mas e quando o vilão o aborda com gentileza e cavalheirismo? E, principalmente, num momento de vulnerabilidade? O inverno ao lado do riacho sempre fora uma época difícil de encarar. Os casacos de pele costurados porcamente eram os salvadores das garotas entre novembro e fevereiro. Foi num dia de neve que Seraphina ouviu as três batidinhas na porta. Foi abordada por um homem sorridente, que cheirava a menta e tabaco. Ele dispensava apresentações, pois todos no reino tinham pleno conhecimento de quem era o Mágico de Oz. Sissi queria negar sua entrada, pois só ouvir falar do homem lhe embrulhava o estômago; mas sabia que essa seria a atitude que a condenaria. Então o deixou entrar e permitiu que mentisse o quanto quisesse. O Mágico se apresentou como seu pai. Havia procurado por ela durante muito tempo, tanto por querer sua filha de volta quanto porque também precisava de um herdeiro para Oz; afinal, diferente dos demais, ele nada mais era do que um homem comum e estava envelhecendo. Seraphina tinha todo o direito de recusar; contudo, aceitar seria não apenas se infiltrar no governo, mas também tirar a si mesma e sua mãe da pobreza extrema. Então, com o mesmo sorriso cínico do pai, Sissi disse sim.
Há muito tempo ouvimos falar que toda história tem dois lados. Seraphina, contudo, não se interessava pelo que o Mágico tinha a dizer sobre sua mãe — não até ele começar a falar.
Os dias com o pai passaram de repugnantes a toleráveis; e de toleráveis a agradáveis. Angelique nunca tinha comentado que ele gostava de jogos de tabuleiro, livros de ficção científica ou que ria de qualquer piada com trocadilhos. O Mágico não comia geleia de morango, apenas de mirtilo, e gostava de tostar o próprio pão na frigideira. Metade das vezes os pães queimavam, o que fazia o velho homem rir de uma forma singular — um riso que qualquer um reconheceria a metros de distância e que os faria rir junto devido ao contágio de seu bom humor. Ademais, os funcionários do palácio eram sempre muito bem tratados.
Seraphina forçava-se a lembrar do que Angelique havia contado: os assassinatos, torturas, perseguições e censuras, tudo obra dele e dos feiticeiros que decidiram se juntar ao seu governo. Mas associar um velho homem de tamanha gentileza a tais atrocidades parecia uma tarefa impossível; a conta não fechava.
A promessa de derrubar o homem foi feita a Angelique, que se despediu da filha a contragosto. Contudo, os dias se passaram. E dias viraram meses; Sissi dizia que estava estudando o palácio, o governo e o próprio Mágico, a fim de elaborar um plano que não poderia falhar em nenhuma hipótese. E, todos os dias, criava uma nova desculpa para adiar o dia do abate do Mágico por mais um café da manhã ao seu lado.
No final, ele sempre soube. Ninguém se esconde do governo do Mágico — nem em outros idiomas, nem se comunicando por batidas na mesa. Mas a maior punição que ele poderia preparar para Angelique era ver sua filha, que ela criou para ser uma heroína, sucumbir à tentação do conforto, do privilégio e do poder.
FAMILIA
O Mágico de Oz nunca foi casado, mas teve filhos bastardos por toda Oz. Não se sabe exatamente quantos, pois Sissi foi a única que ele reconheceu.
PODER:
Eco-localização cognitiva: Ela consegue decifrar mentiras pela sutil alteração no ritmo cardíaco de alguém, prever o próximo movimento de um adversário em combate ou encontrar passagens secretas no palácio apenas "ouvindo" a densidade das paredes.
SOBRE OZ:
Aproveitando-se do vácuo de poder e da miséria extrema causados pela tirania das do Norte e do Sul, ele surgiu como um outsider. Em vez de feitiçaria, introduziu a burocracia, a ciência e a tecnologia industrial, organizando as massas empobrecidas sob a promessa de libertação. Angelique e a resistência original lutaram ao seu lado, sem prever que a derrocada das Bruxas daria lugar a uma opressão ainda mais metódica.
Assim que centralizou o controle, o Mágico promoveu um expurgo interno violento, eliminando ou exilando os revolucionários idealistas que poderiam ameaçar sua liderança. Para justificar a manutenção de um estado de exceção permanente, ele transformou as Bruxas derrotadas em um "inimigo público perpétuo", convencendo a população de que cada direito revogado, racionamento de comida ou avanço da vigilância era uma medida estritamente necessária para a segurança nacional.
Por fim, o regime consolidou-se através do apagamento do passado e da engenharia social. A história foi reescrita para que as novas gerações o vejam como uma figura paternal e eterna, ocultando o fato de que a engrenagem totalitária de Oz não depende de magia, mas de uma máquina burocrática.














