Coisas que você não deve fazer nos seus primeiros tempos de Canadá/Ottawa
Quando você se muda de país, independente de onde venha e de para onde está indo, convém lembrar que a nova realidade será bem diferente. Os costumes são outros. As condições de vida são outras. A economia é outra. O mercado de trabalho é diferente. A língua pode ser outra. Ou seja, tudo é diferente.
Parece óbvio dizer que o novo imigrante precisa deixar seu estilo de vida para trás e se preparar para uma nova realidade, não? Mas isso nem sempre é fácil. Ou melhor: falar é fácil. Ler em blogs, sites ou revistas também pode ser fácil. Mas experimentar a vida real e adaptar-se ao que está ao seu redor é outra coisa. Esse processo sempre pode ser mais fácil se você estiver aberto a novidades e preparado para os acidentes de percurso que sempre poderão vir.
A partir da nossa própria experiência, de leituras e de situações que observamos, vamos falar agora de algumas coisas muito importantes que você não deve fazer nos seus primeiros tempos de Canadá:
1. Acreditar que terá uma vida “glamourosa” e cor-de-rosa por aqui, só porque saiu do Brasil para morar num país de primeiro mundo: isso de certa forma vem do complexo de vira-lata brasileiro, que faz pensar que o jardim do exterior é sempre mais verde... Boa parte dos relatos e reportagens mostra histórias de sucesso que podem representar uma exceção e não uma regra. Ou então mostram a pessoa como está agora, após muitos anos vivendo no exterior e com muitos perrengues e dificuldades superados e deixados para trás. Não se esqueça de que o conceito de “glamour” é sempre inventado;
2. Acreditar que o Canadá nada mais é do que os Estados Unidos com um clima (bem) mais frio e para onde ainda é possível emigrar legalmente: o Canadá, embora esteja próximo dos EUA e interaja bastante com o vizinho do sul, é muito diferente. Tem valores muito distintos, tem uma economia mais intervencionista, tem fatores culturais e problemas muito característicos. Não pense que vai encontrar uma Miami ou Orlando por aqui... não vai;
3. Acreditar que seu planejamento financeiro e orçamento, após tantas pesquisas, está imune a furos: sempre haverá algum gasto necessário ou obrigatório que você ignorava lá no Brasil. Algum seguro que você terá de fazer, por exemplo. Quando eu fechei o nosso primeiro aluguel ainda do Brasil, não fazia ideia de que seria obrigado a fazer uma espécie de seguro sobre os objetos de minha propriedade que guarnecem a casa;
4. Comprar imóvel de cara: eu nunca morei em imóvel alugado no Brasil e por um tempo cogitei a possibilidade de comprar um imóvel. Mas isso não vale a pena: os preços de imóveis no Canadá estão inflacionados em razão do crédito fácil concedido por aqui, os financiamentos serão difíceis no começo em razão do histórico inexistente de crédito - ou seja, você precisará dar uma polpuda entrada - e te deixarão endividado por mais de 20 anos sem que você nem saiba se vai ficar por aqui ou não. Por sinal, a imprensa não fala mas há imóveis encalhados no Canadá e eles não estão longe: o prédio onde eu moro ainda tem vários apartamentos à espera dos seus primeiros donos. Só compre imóvel se for muito rico e puder fazer esse tipo de investimento com facilidade;
5. Só comprar produtos novos nas lojas: a compra e consumo de produtos usados, inclusive roupas, não é praticada no Brasil. Mas é comum e perfeitamente aceitável segundo os canadenses. Vendas de garagem, bazares/brechós/thrift stores, compras de produtos de segunda mão direto do proprietário, etc., podem representar um custo-benefício excelente e dar uma nova chance a um objeto usado mas em boas ou perfeitas condições de utilização. Além do preço bem mais acessível, isso faz bem ao meio ambiente, permite ajudar entidades beneficentes e movimenta a pequena economia local;
6. Escolher uma região “car-dependent” para morar de cara, ainda sem emprego: muitas vezes isso acontece porque lemos blogs de brasileiros que já estão aqui há alguns anos e já estão com as carreiras estabilizadas por aqui. Nesse caso, já faz mais sentido sustentar a vida num subúrbio onde o transporte coletivo não está tão presente e/ou não é possível fazer as coisas a pé... Muito embora eu só ache realmente válido morar nesses lugares se o trabalho estiver perto. Se você acabou de chegar e está sem emprego, evite essas regiões. Pode até ser que você consiga uma casa grande por um valor de aluguel bem mais acessível, mas haverá outros gastos obrigatórios (sobretudo com transporte) que neutralizarão essa economia. Em Ottawa, só o seguro mensal de um carro usado pode custar o dobro do valor de um passe de transporte coletivo com uso ilimitado. Ou o quádruplo do valor de compra de uma bicicleta usada em bom estado. Vá por mim: viva em regiões centrais e vibrantes. Mude seu estilo de vida: não se preocupe em ter carro próprio desde já! Use o transporte coletivo, vá até os lugares a pé, ande de bicicleta. Além da economia de dinheiro, sua saúde e o seu humor agradecerão.
(Acha caro morar na parte central de Ottawa? Se você não tem filhos para se preocupar com a baixa qualidade do ensino de inglês na escola pública ou tem alguma forma de driblar isso, vá morar na região de Hull, em Gatineau. Ela é barata para viver se comparada a Ottawa e é bem mais conveniente do que vários bairros da capital. De lá, pode-se chegar de ônibus ou mesmo a pé ou de bicicleta à região da Rideau Street com muita facilidade.)
7. Não interagir com os donos da casa e só procurar seus patrícios: por mais que o Canadá seja multicultural e favorável à manutenção das culturas de origem pelas muitas colônias de imigrantes, é preciso aprender a cultura e os valores dos canadenses e, sobretudo, a língua. Até porque não adianta nada ter um notão no IELTS e falar um inglês internacional brilhante. Há expressões que são daqui, o sotaque é daqui... são tantos “eh?” (se fala “hein?”), “permit?”, “have a good one” que você pode ficar sem entender nada. Não tenha medo: os canadenses geralmente são muito simpáticos e receptivos com os recém-chegados e não corrigem os erros de inglês, o que ajuda muito. Você tem que falar inglês por aqui se quiser trabalhar.
Ah, e boa parte dos patrícios que você encontrar pelo seu caminho pode simplesmente não estar interessada em ajudar um recém-chegado só porque vem do mesmo país. É um direito que a pessoa tem e por isso não fique triste se se aquele patrício não quiser responder a alguma pergunta, não for com a sua cara, não quiser ser seu amigo ou coisa parecida. Deixe pra lá e siga em frente;
8. Fechar um aluguel barato mas tendo que pagar todas as utilidades do imóvel: olhe aí o barato que sai caro! Quando você vai morar em algum lugar que não tem ar condicionado e aquecimento central, esse custo geralmente vai para a sua conta de eletricidade. Em Ottawa faz muito calor no verão e muito frio no inverno. Você até pode driblar o calor com ventiladores ou abrir as janelas de casa, porque aqui venta, mas não poderá driblar o frio de -10, -15, -30 graus. Aí espere chegar a conta da hydro... dependendo do caso pode chegar a 150, 200 dólares por mês.
9. Achar que vai conseguir de cara um emprego na sua área de formação: já ouviu aquela história de “experiência canadense”? Pois é, isso não é ficção! Por melhor e mais estrelado que o seu currículo profissional e acadêmico seja, os empregadores canadenses querem evidências da sua adaptação ao ambiente, à cultura e ao mercado de trabalho daqui. Além disso, você competirá com os canadenses e talvez eles levem vantagem.
Os profissionais de Tecnologia da Informação (TI), que podem conseguir bons empregos bem depressa em suas áreas ou mesmo fazer o landing já empregados por aqui, são uma exceção e não a regra. Muitos fizeram blogs e contaram histórias de sucesso, e talvez tenham feito você acreditar que seria fácil. Só que agora, com Express Entry, o funil apertou e talvez os mesmos beneficiados pelas regras antigas do Federal Skilled Worker que agora estão por aqui felizes e empregados não conseguiriam nem ser aceitos pelo Citizenship and Immigration Canada. Não vamos cultivar ilusões. Até agora, segundo este report oficial, pouquíssimos brasileiros foram chamados para aplicar pelo novo sistema. Nem 1.9%, enquanto os indianos representam mais de 20% e os filipinos, 19.4%. E convém lembrar que 85% dos chamados já residem no Canadá... ou seja, podem ter uma formação daqui.
10. “Trabalho voluntário é pouco para alguém como eu, com xyz qualificações”: saiba que aqui ele é considerado muito digno... uma importante retribuição que o indivíduo dá para a sua comunidade. E que é obrigatório para todo estudante de ensino médio. Muitas vezes, ele representará a melhor inserção do imigrante no mercado de trabalho. Proporcionará que você mostre suas qualidades pessoais e profissionais à comunidade (e consequentemente aos empregadores) sem cobranças ou pressões excessivas e servirá para engrossar a sua “experiência canadense”.
11. Vir para cá pensando em enriquecimento financeiro e nada mais: sim, o dinheiro é importante mas há muitas outras experiências que você terá aqui. Há um fator cultural, há um fator humano, há um fator social... sem contar que se você encontrar o mapa da mina, o governo será seu sócio cobrando gordas alíquotas de imposto de renda.