Memórias de Minhas putas tristes
Autor: Gabriel Garcia Márquez
País: Colômbia
Tenho que admitir: vir de “Cem Anos de Solidão” para “Memória de Minhas Putas Tristes” é uma descida em um morro de terra seca e vermelha, encarando o cada vez mais próximo muro rochoso. “Memória de Minhas Putas Tristes” faz uma reflexão sobre a velhice, sobre o amor, sobre a morte, tudo do ponto de vista de um homem, e talvez seja por isso que eu não consegui me encontrar tanto na obra.
É difícil desenvolver carinho por um personagem que sempre encarou as mulheres como uma diversão e que quer se dar, de presente pelos noventa anos, o privilégio de tirar a virgindade de uma jovem. Não sei, parece-me mais uma conquista do Everest, uma forma de provar a si mesmo um último ato de virilidade, do que um presente por si só, um luxo que, sim, nós devemos nos permitir em datas especiais, como o aniversário.
Ficar observando uma jovem dormir nua, apenas criando histórias na cabeça de como a vida ao lado dela poderia ser, não é amor, e sim platonicidade. E isso é tão evidente que, quando o velho-jornalista-professor escuta a voz da sua “amada”, ele preferiria que isso não tivesse acontecido, pois a voz da menina era grossa e não se encaixava muito na personagem que ele criou para ela. A menina era tanto uma personagem, uma miragem, uma pintura que, como Olympia, de Manet, permanecia dormente, quieta e nua, aceitando culposamente as características e as narrativas que o velho criava para ela.
Quando li o nome da obra, achava que as memórias eram das putas, que lhes pertenciam. Imaginei que seriam histórias cheias de pavor dessas mulheres. Mas, depois de começar a obra, percebi que estava errada: as memórias eram dele, e todas, para ele, estavam tristes. Porém, arrisco dizer que o estado de espírito dessas mulheres pouco importava. A tristeza estava no olhar do nosso narrador; para ele, todas eram tristes, pois ele era triste. Ele nunca amou ninguém. Nem Delgadina, acredito.
Delgadina representa para mim uma alegoria daquilo que ele não tem mais, a juventude, e daquilo que nunca teve, o amor. Se alguém pensa que o amor nunca apareceu para ele por falta de contato, está completamente enganado. Como ele deixa bem claro em diversos momentos do livro, sua vida sexual e afetiva foi intensa. Um desavisado pode achar que, para encontrar o amor, basta se expor a ele. Não apenas. O amor exige, antes de mais nada, paciência, compreensão e tempo. Tais esforços não se encontravam na agenda dele.
Em resumo, “Memória de Minhas Putas Tristes” não foi um livro que me pegou. Não pensei muito sobre ele; acabou por acabar, sem um último suspiro de adeus.














