A julgar pela reação mais do que simplória da mais nova, pode perceber que ela não era muito familiarizada com seus gêneros citados. Entendia que haviam muitas pessoas naquele país que realmente não costumava consumir das músicas ocidentais, mas mesmo após anos ela se perguntava como aquilo era possível. Ter sido aberta à todo tipo de musicalidade desde antes de nascer lhe deixava com uma visão e gosto bastante diversificado, por mais que seu coração sempre se inclinasse por indie, rock e até mesmo músicas de décadas que sequer sonhava em nascer.
O sorriso cresceu em seus lábios assim que Haru juntou-se a ela no estofado. – Eu também não lembro de muita coisa não, só que toquei algumas músicas, bebi pra cara… pra caramba e fiquei com uma garota. – deu de ombros ao relatar, sem importar-se de dizer que havia sido uma garota. Dizer que nunca teve problemas por causa de sua sexualidade era uma mentira, mas com os anos ela já não se importava mais com aquilo. Era adulta e mais do que resolvida da vida para precisar preocupar-se e esconder o que era. – Mas é claro que tem, vai demorar mais do que o normal, mas podemos dar um jeito nisso. – com uma breve risada, levou a destra até a franja da garota, bagunçando-a de leve ao rir sem medir a intimidade que não havia entre as duas.
Sequer se lembrava mais que estava a espera do aviso do inicio de sua apresentação quando colocou o violão no colo, demonstrando como deveria segura-lo. – Você segura ele assim, uma mão aqui perto da cabeça dele. – disse bem devagar, apontando para cada parte do violão. Iria tentar ensina-la o básico ali mesmo, até que ouviu a porta ser aberta e alguém lhe chamar, fazendo-a levar um susto. – Por deus, que susto. – resmungou consigo mesma em japonês, com a mão sobre o peito ao virar-se na direção da porta. “Cinco minutos pra você subir, rápido.” Apenas isso fora dito pelo stuff do lugar, que logo se retirou após dar uma olhada em Haru bem ao seu lado. – Opa, eu acho que vou ter que deixar a aula pra outro dia. – deu um sorriso amarelo para a garota, levantando-se em um pulo. Já estava completamente pronta, mas deu uma rápida olhada no espelho antes de voltar para a outra. – Você vai me ver tocar, não é? Ou eu vou ficar muito chateada com você.
Não fez nada além de balançar a cabeça de forma positiva e abrir um largo sorriso quando Yukari falou sobre suas desventuras no luau. Ver alguém falando tão abertamente sobre ficar com alguém do mesmo sexo sempre pegava a coreana de surpresa, mesmo que não houvesse nenhum preconceito contra aquilo. Era incomum, principalmente levando em consideração o quanto aquilo era discriminado no país em que viviam, então sentia uma espécie de orgulho que sequer lhe pertencia quando alguém falava sem medo. Se tivesse de ser honesta, ela mesma possuía uma pequena curiosidade sobre aquilo; nunca havia beijado nenhuma menina além selinhos inocentes, mas a vontade existia... Só nunca havia agido sobre ela, e não via nenhuma oportunidade de fazer aquilo acontecer.
Talvez por seus pensamentos terem se desviado nesse caminho, Haru se surpreendeu um pouco quando sentiu a mão de Yukari em sua franja, mas fez seu melhor para disfarçar e apenas sorrir para ela. Em seguida balançou a cabeça de forma negativa, como quem espantava os pensamentos, para poder focar no que a japonesa lhe mostrava. Com a atenção que dedicava apenas às suas aulas, a garçonete focou o olhar no instrumento no colo da outra, tentando entender como segurá-lo da forma correta. E, claro, como estava tão focada, foi inevitável o susto quando a porta do local foi aberta, fazendo-a voltar a realidade. Meu Deus, não quero nem ouvir a bronca que vou levar...
Levantando de um pulo, Haru abriu um largo sorriso enquanto acompanhava Yukari se aprontar. Já estava ali mesmo, completamente ferrada, então um minuto a mais não faria tanta diferença assim. “É claro que eu vou!” Confirmou sem sequer pensar. “Bom, vou estar servindo mesas o tempo inteiro, mas é claro que eu vou assistir, não perderia isso por nada agora que eu sei o que a senhorita também é capaz de fazer.” Riu e em seguida fez uma pequena reverência, dando um passo para trás. “Tenha uma boa apresentação, Yukari-ssi. Espero que a gente possa conversar mais e, ah! Eu não vou esquecer da aula, hein?”