○ — it’s not fair
bc-mingyu:
Ainda lhe era um tanto assustador estar em casa. Simplesmente por não reconhecer aquele lugar como lar. Olhava as paredes, os móveis, os riscos no piso, as pequenas rachaduras em alguns cantos. Tudo e nada, esperando que algo repentinamente lhe dissesse algo que fizesse sentido, mas... Nada. Entretanto, já era bem melhor do que sua situação no hospital. Era simplesmente aterrorizante acordar semi-morto sem saber de onde viera e menos ainda para onde teria que ir depois. Saber aquele lugar era seu, que, se o pior acontecesse e sua memória nunca mais voltasse, pelo menos poderia ficar ali sem incomodar ninguém para o resto da sua vida. Era minimamente reconfortante. Ao contrário da absurda quantidade de gesso e faixa que cobriam grande parte do corpo, tentando colocar no lugar todos os estragos causados pelo acidente. Felizmente, sua aparência estava bem melhor agora que muitos dos hematomas tinha desaparecidos ou se tornado ínfimos.
Outra coisa que ainda era um tanto assustadora era a urgência das pessoas assim que o viam. Uma das médicas no hospital dissera que deveria se acostumar com isso porque era uma reação natural ao susto. Ele podia entender, a parte assustadora era apenas não saber quem era a pessoa em seus braços. E acontecera de novo. Prendeu a respiração tentando conter a dor dos machucados que fora atiçada pelo aperto e retribuiu o abraço tentando confortá-la. Independente do estado de sua memória, não era nada legal saber que alguém estava sofrendo daquela maneira por sua causa. — Estou bem. — Garantiu com um breve sorriso, acariciando de leve uma das mãos em seu rosto. — Não foi dessa vez e eu espero que não tenha uma próxima. — Continuou enquanto sustentava o olhar dela.
Passou, então, a esquadrinhar o rosto dela. Sabia seu nome e sabia o tipo de relação que tinham. "Por favor, só dessa vez" implorou a si mesmo por alguma coisa, qualquer resquício de informação. Quando se conheceram, um lugar que gostavam de ir, um flash de cena que fosse. Ele estava desesperado. Entretanto, não adiantava. Quanto mais ele forçava, pior era. E tê-la ai, olhando-o de maneira tão intensa era verdadeiramente intimidador, além de não ajudar em nada. — Oi... Wanwisa...?
Naquele exato momento ela queria chorar. Soltar a carga que guardava dentro de si de uma vez só, num rompante tão rápido quanto a facilidade que seu rosto tinha de assumir um sorriso. O peso sobre seus ombros tinha sido muito pesado, a empurrando para baixo com força, mas sua constituição não permitia desistir tão rápido. Ou melhor, desistir de qualquer maneira. Wanwisa estava rindo e soluçando, os olhos marejando porque mais daquele tom ecoava pelos ouvidos e fazia o corpo inteiro se arrepiar. O toque em sua mão apagando horas acumulados numa questão de assoprar a poeira de um álbum bem guardado. --- Mingyu. --- De novo, aquele aperto no peito, um nome bem conhecido e reconhecido pelo mundo. Saudade. Saudade. Seus amigos não entendendo a profundidade que era estar no mesmo cômodo, de estar com a pessoa e ela não te reconhecer. Nem quando invadiu uma consulta da amiga psicóloga para chorar em seu peito a dor de ter perdido algo que ainda existia.
Eu- Me desculpa! --- Mais um ataque de sentimentos misturados, dedos passando e alisando as partes que lembrava estarem machucadas. A garota se estabanou na hora de se achegar um pouco mais, a alça da mochila enroscando no salto e a desequilibrando. Contudo, é claro, os reflexos foram rápidos e a seguraram antes da queda. --- Típico. Tão típico de Wanwisa. Igualzinho a quando fomos naquele parque. --- Lembra? O sussurro preso na garganta, um sexto sentido oculto a preservando de uma apreensão que não tinha nome. Nem identidade. Estranha, porém ali, tão presente quanto o peso extra na bolsa. No ar que separava os centímetros que os separavam. Tombou a cabeça pra frente, testa buscando a de num contato mais íntimo. Porque... Porque... algo dizia que não era a hora certa de um beijo. Não era? As sobrancelhas se contorceram em dúvida, mas o coração chutou para o lado e se colocou sobre os cotovelos, brilhando em expectativa e coberto de amor. --- Acho que não vou mais precisar te assaltar com o Ultimate Álbum que fiz pra gente. É meio vergonhoso. --- A língua enrolou para completar a linha de pensamento. --- Quer dizer, a gente pode ver se você quiser. Trabalhei muito nele. Mas tem tanta foto- Você não sabia que eu estava tirando em quase metade.









