Se o silĂȘncio falasse, seria como um sopro atĂŽnito de desabafo.
Um som sincopado disposto entre cĂłdigos e ecos, uma mistura de todas as mĂĄgoas antes abarcadas e absorvidas. Ele choraria a morte de todos aqueles que imploraram pela vida, naquele ultimo momento, quando a voz estĂĄ cava e trĂȘmula demais para ser ouvida, quando parece que hĂĄ um bolo na garganta impedindo que o ar siga o seu fluxo inato.
Ele choraria a desilusĂŁo de todos os amores perdidos, que, mudos, foram se perdendo no tempo, entre os vilĂ”es da mentira e do egoĂsmo, que estĂŁo sempre a sussurrar ao ouvido dos mais fracos. Sussurros, embora baixos, sĂŁo ouvidos; enquanto o silĂȘncio, que nĂŁo tem voz nem nada, resigna-se em apenas tocar nas almas, como dedos de seda resvalando pelo espĂrito. Alguns sentem o arrepio e entendem... outros, porĂ©m, colocam a culpa no vento que, Ă s vezes, ressoa como trombetas para que o silĂȘncio se sufoque no vazio da prĂłpria impessoalidade.
Ah, não deve ser fåcil ser sempre impessoal e imparcial... ter que ficar sempre quieto e calado, como uma parede sem olhos nem ouvidos. Também não deve ser fåcil ouvir os lamentos de todos sem nunca se queixar, sem nunca se lamentar também...
E se o silĂȘncio jĂĄ houver se apaixonado? Deve nos invejar, quando nos ouve declamar um poema, confessar uma paixĂŁo, cantar aquela musiqueta chata que, embora seja mesmo chata, nos lembra daquele velho amor de verĂŁo.
Se nos sentimos sozinhos, abraçamos o silĂȘncio. Se estamos com medo, o acusamos de fĂșnebre. Se o barulho nos incomoda, clamamos por ele. E quando ele vem, o chamamos solidĂŁo... Se o silĂȘncio falasse, eu o ouviria quietinha, atĂ© que ele se cansasse e adormecesse em meus braços, assim como eu (tantas vezes) o fiz.