Esperança é uma coisa perigosa para uma mulher como eu ter.
É quase como uma redoma que toma toda a sanidade que há em mim e transfere para outro lugar. Um lugar inaudĂvel, nĂŁo palpável, obscuro e imprevisĂvel e eu viro refĂ©m de mim mesma por intermináveis e incontroláveis instantes.Â
Eu faço uma mistura de comprimidos que descem pela minha garganta junto a um cafĂ© amargo dormido e horrĂvel que Ă© o melhor que tenho em casa agora. NĂŁo há energia para fazer um cafĂ© novo, digo energia prĂłpria do meu corpo, porĂ©m a energia artificial da minha casa tambĂ©m nĂŁo Ă© recomendável pelo meu cĂ©rebro.Â
Prefiro ficar no escuro, rolando para cima e para baixo um feed de uma rede social porcamente falsa e mentirosa, nada ali é real. “As pessoas não podem viver tão bem assim e serem tão felizes assim”, repito a mim mesma incessantemente. Não seria justo com as outras Lolitas como eu, que existam mulheres tão livres de suas próprias mentes e bem sucedidas. A dependência começa com a pobreza e a doença mental é um conjunto de tudo.
Insanamente mistura cafeĂna com calmantes, pois nĂŁo faço mais ideia do que fazer. O suicĂdio Ă© uma opção que passa pela minha cabeça pelo menos a cada meia hora, mas eu tenho alguĂ©m que eu amo e que nĂŁo quero deixar para trás. NĂŁo falo da minha mĂŁe, familiares que refletem meus ancestrais, nĂŁo. Falo do homem que eu amo e sei que me ama e que egoĂstamente nĂŁo quero que viva sem mim.Â
As horas passam no escuro aconchegante do meu lar e eu percebo que tudo isso se tornou meu escudo. Ao colocar os pés para fora, tudo vira kriptonita e eu, como uma boa doente mental esquisita, sinto que minha mente pode morrer de vez se tiver contato com o mundo externo.
Eu tentei imensamente por diversos meses investir todo o meu tempo em tudo o que gosto, todos os ramos da arte passaram pelos meus dedos de modo meio mĂłrbido, pois, ao passarem e eu perceber que sou um completo desastre em qualquer coisa, morreram para mim logo em seguida. Menos a escrita.
Eu nĂŁo sou uma menina que consegue mais falar sobre como se sente realmente, nĂŁo tenho abertura para isso e as unidades de saĂşde locais me deixaram ainda mais doente. Escrevo, porque consigo ser honesta com meus prĂłprios dedos, com o restante do mundo eu finjo uma sanidade e um desapego que nunca existiram de fato.Â
Eu consigo ver quando as coisas estĂŁo desmoronando e eu nĂŁo consigo fazer nada para mudar tudo isso, todos os caminhos sĂŁo imprecisos, Ă© tudo muito difĂcil e minha mente foi danificada em um nĂvel que eu simplesmente nĂŁo consigo mais fingir ser outra pessoa senĂŁo eu mesma. Fora de casa isso Ă© um problema porque quem eu sou nĂŁo Ă© empregada nunca. Eu nĂŁo gosto de sorrir todos os dias para pessoas que eu nĂŁo amo. Tem momentos que fico nĂŁo verbal e nĂŁo sei como lidar com tudo isso em segundo plano, visto que o primeiro plano precisa começar com a minha socialização forçada, da qual eu tambĂ©m nĂŁo consigo mais nada e isso acaba com tudo.
Acaba com tudo porque coloca tudo em perigo, porque o mundo e as pessoas sĂŁo meus inimigos e eu sei que vou perder o homem que eu amo por ser a pessoa que sou. Porque o amor nĂŁo basta, o mundo nĂŁo Ă© feito para amantes, o mundo Ă© feito para pagantes e se vocĂŞ nĂŁo tem capital de giro vocĂŞ nĂŁo Ă© ninguĂ©m.Â
NĂŁo consegui concluir os estudos, surtei na Ă©poca em meio a pandemia e tudo e depois novamente devido ao meu vĂcio em substâncias que me façam esquecer da minha mediocridade.Â
O problema Ă© que nĂŁo me sinto medĂocre, me sinto um gĂŞnio e sei que sou, mas ser um gĂŞnio nĂŁo significa nada se vocĂŞ nĂŁo nasce na famĂlia certa, já possuindo tudo aquilo que a maioria das pessoas morrem tentando ter e nunca alcançam: sucesso. Sucesso em resumo quer dizer dinheiro, estĂŁo intimamente ligados. Se vocĂŞ nĂŁo nasce possuindo, dificilmente vai ter depois. SaĂşde mental tambĂ©m faz parte desse combo. Eu nĂŁo possuo nada disso a nĂŁo ser as certezas de que sou uma menina muito bonita, possuo grande genialidade e inteligĂŞncia, tenho TEA e sou casada com o homem mais incrĂvel de toda a histĂłria do mundo todo. Outra certeza que tenho Ă© de que vou perdĂŞ-lo, por tudo o que escrevi atĂ© agora.