FLASHBACK || baile de gala armstrong
Arqueou as sobrancelhas e assentiu quando ela falou do irmão. Richard não gostava dele, o considerava um risco maior do que se Annabel estivesse sozinha, mas não entraria naquela briga novamente, não depois de tudo que foi dito da última vez. — Tenha cuidado, sim? Mesmo estando com ele — limitou-se, queria dizer mais, mas limitou-se. A mão que a tocava no queixo, deslizou pela curva do pescoço e voltou a repousar sobre o ombro, iniciando ali uma pequena caricia com o polegar. Observando o fraco sorriso que ela dera, e que ele acabou por corresponder. — Você não é a horrível aqui, Annie. E sabe muito bem disto — e ele também sabia, mas não era como se conseguisse fazer algo a respeito. Richard reconhecia seu defeito, seu erro, ou erros. Reconhecia que era um homem covarde demais, para simplesmente contar toda a verdade para sua esposa e encontrar um jeito de deixar a vida de todos mais fácil. Não, ele era covarde e por isso preferia empurrar as coisas com a barriga, mesmo que estivesse chegando ao seu limite. Suspirou, soltando o ar que havia prendido de modo inconsciente, quando a ouviu dizer que não conseguiu o esquecer. Naquele instante, nada mais importaria, ele apenas queria puxa-la de volta para perto, mas entendia que eles precisavam mais uma vez ter aquela conversa, a resolução de tudo, ou de parte de tudo. — Sei que não está me pedindo nada, Annie. Na verdade você nunca pediu, e se alguns anos atrás tivesse pedido, talvez as coisas pudessem sem diferentes — pudessem ser, pois nem ele sabia se ainda poderiam, não quando tinha o coração tão dividido. Richard sempre achou tolice dizer que havia se apaixonado por duas pessoas. Sempre achou que isso era um jogo barato, para iludir garotas bobas, mas lá estava ele, apaixonado pelas duas, amando as duas. Amava Olivia todos os dias, quando acordavam, quando ela afagava seus cabelos, quando beijava seu rosto. Amava todas as coisas, das grandes até as pequenas, tudo que ela fez nos últimos anos. Ao mesmo tempo, sempre amou o fantasma de Annabel, amou reencontra-la, amo até cada uma das discussões que tiveram naqueles últimos meses. A amou naquela sala na estação de trem, quando ela parecia ser tudo que faltava nele, e a amava ainda mais agora, perdendo-se outra vez naqueles olhos azuis. Suspirou, seu olhar era pesar, pois sabia de tudo isso e ainda assim se recusava a verbalizar para qualquer uma das duas. — Te disse uma vez, que você foi meu grande amor, a mulher mais importante da minha vida — e era péssimo que ele colocasse isso no passado, era péssimo não ter essa certeza no presente — não deixaria de pensar em você assim, pois não deixei antes, quando passei anos sem te ver, sem saber onde estava… não deixaria agora, não depois de tudo. — e mais uma vez ele suspirou, desviando o olhar — Se eu te disser que sei o que fazer, estaria mentindo e prometi nunca mais mentir para você. Então, eu sinceramente não sei como seguir — e aquilo era tanto sobre eles, quanto sobre Rick e Olivia.
—— Acho que a chegada do Jack os inibiu. Não tenho recebido mais bilhetes. —— Nem reparado nada de suspeito, mas isso porque eles costumavam se esconder bem, e Annabel era distraída demais para notar. Mas, estava confiante de que, pelo menos esse âmbito de sua vida, estava entrando nos eixos. Annie não deixou de notar que a postura de Richard mudara em relação ao irmão, só não sabia se a opinião havia mudado, ou ele apenas quis evitar discussão. “ e se alguns anos atrás tivesse pedido, talvez as coisas pudessem sem diferentes ” A fala dele soava como um tapa na cara, uma facada na boca do estômago. Era doloroso pensar que, se tivesse ficado, não teria deixado escapar a possibilidade de ser feliz. Talvez os dois nunca tivessem dado certo, afinal, ela pensava como se tentasse se confortar. Talvez ela seria a esposa traída, no fim das contas. A professora tentava pensar em pontos negativos, como se tentasse consolar a si mesma do fato de que não podia voltar no tempo, e nunca saberia o que eles poderiam ter sido, se tivesse ficado. —— Quando eu decidi ir embora, eu estava tão magoada, mas eu sabia que se parasse para te ouvir, eu te perdoaria. Porque eu te amava a esse ponto. —— Começou a falar, deixando escapar um riso abafado e sem muito humor de seus lábios. Um tipo de humor levemente ácido, que não combinava com ela, mas combinava com o momento e a pequena confissão. —— Mas eu sentia que seria uma tola, de dar uma segunda chance. Porque eu acreditei que você só me usou, que não me amou. E eu passei todos os últimos seis anos me odiando por sentir tanta falta de alguém que nunca me amou. —— Sentia os olhos começarem a lacrimejar, mas engoliu porque se recusava a fazer isso ali. —— Eu sei o quanto a nossa história é conturbada, e o quanto isso pode ser problemático, mas eu acredito no seu amor. A forma como você me olha, como me beija, como me toca, como lembra de tantos detalhes sobre mim. —— Fechou os olhos, brevemente, enquanto narrava, relembrando das sensações. Abriu os olhos, e um sorriso, ao finalizar. —— E a Annabel de vinte e três anos fica feliz por saber que tudo o que viveu naqueles meses, em Baviera, não foi uma mentira. Que ela não amou sozinha. —— Terminou seu pequeno desabafo. Havia passado os últimos dias pensando nisso, tentando entender o que sentia, o que queria, o que esperava. O seu lado apaixonado, que esperava que ele batesse a sua porta e dissesse que a escolhia, entrou em conflito absolutamente todos os dias com o seu lado racional, que dizia para se afastar, ir embora da cidade, nunca mais falar com ele. Dois extremos vivendo dentro de uma única mente. Estava uma confusão ali dentro. —— Obrigada por não mentir para mim. Mas, se eu puder dizer alguma coisa, eu diria que você está pensando nas pessoas erradas. Pensando em você, em mim, na sua esposa... A pessoa que mais deveria importar agora é a sua filha. Ela não merece crescer em um lar de mentiras e traições. —— Annie sabia bem que aquele conselho poderia ser o que o despertaria para se tornar um marido fiel e exemplar para Olivia, e aquilo lhe doía um pouco. Mas, acima de tudo, queria vê-lo feliz, mesmo que significasse que não seria ela o motivo de seu sorriso.