Desde que se entendia por gente, Lola sempre fora uma pessoa muito física. Não precisava de muito para notar o quanto ela gostava de contatos, e acabava que, na falta de outra forma de saber se expressar, aquela era sempre sua saída para qualquer que fosse a situação. Até mesmo naquela ocasião, em meio a seu desespero pessoal, havia recorrido àquele trejeito para esboçar sua gratidão. Não pensou, porém, em vários fatores, como o fato de nunca ter trocado verdadeiramente uma palavra com aquele a sua frente, vendo que só se conheciam de vista e por comentários que ouviam um sobre o outro no ambiente que compartilhavam.
Mas aquilo parecia muito pouco importante para Casillas no momento. Estava sã e salva, graças à ele, e ainda achava pouco todos os gestos que havia tomado para demonstrar o tamanho da gratidão que sentia naquele momento. Conforme se acalmava, agora que finalmente sentia-se livre do perigo, chegou até a soltar uma risada baixa ao sentir o outro limpar a garganta seguidamente do beijo que a loira estralou contra seus lábios, só então lembrando a si mesma de baixar as mãos para afastá-las do espaço pessoal alheio. Ela realmente precisava aprender a se controlar, já que nem todas as pessoas compartilhavam da mesma forma de expressão que ela.
Respirou fundo enquanto escutava as palavras do outro, simultaneamente a sensação dos dedos alheios limpando as lágrimas que ainda desciam por seu rosto. Internalizou as sentenças, enquanto, aos poucos, a sensação de inquietação se dissipava de dentro dela. Ainda estava um pouco sem reação, e não sabia como prosseguir em seguida. Sabia que não podia ir embora, afinal, estava ali a trabalho. Porém, daquele jeito, tampouco poderia voltar para dentro e agir normalmente ao redor do cliente. A saída logo veio na voz de Connor, que parecendo ouvir a confusão interna de Lola, estendeu a mão em um convite que, novamente, tirava-a de um limbo que não conseguiria sair sozinha. Assentiu uma vez, enquanto aceitava a mão alheia, para começarem a caminhar para dentro da fábrica abandonada novamente.
Perfez todo o caminho em silêncio, usando daquele tempo para se acalmar totalmente. Agora, livre de seu agressor e, principalmente, na companhia de alguém que era muito mais preparado do que ela para estar naquele ambiente, ela voltava a sentir-se segura. “Desculpe por você ter que ter feito aquilo.” Murmurou, depois de algum tempo considerável, enquanto deixava-o guiá-la até seu dito camarim. Nunca havia visto aquele tipo de área das lutas, já que restringia-se a área comum, onde os embates aconteciam e o público assistia. “Isso nunca aconteceu antes. Eu sei também que não devia ficar andando sozinha por aí… Céus, eu fui tão burra.” Franziu o cenho, negando com a cabeça para si mesma, já que não era realmente de seu feitio ser ingênua àquele ponto. Voltou o olhar para o lado, encarando a própria mão e em seguida a dele, que estava junto da sua. “Os seus dedos… Eu sinto muito por isso também. Posso te ajudar com os machucados. Limpar e fazer alguns curativos… É o mínimo que eu posso fazer, na verdade. Não sei nem como começar a retribuir o que você fez por mim.”
Connor não se importava com pessoas desconhecidas num geral — a discrição era tão desejada que ele preferia fingir que muitas coisas ao seu redor não estavam acontecendo. Porém ele tinha um grande ódio de pessoas sujas como aquele homem, que abusava de outras pessoas inocentes sem dar-lhes o direito de defesa. Aquela era a pior raça do mundo, ao menos nos olhos de D’Angelo de maneira que foi impossível para ele não se meter e ajudar Lola. E seria capaz de fazer de novo sem pensar duas vezes. Mas por sorte não teriam aquele problema novamente e ela poderia se manter mais tranquila por hora. Só esperava que a loira tivesse mais cuidado na próxima vez que estivesse por ali. Infelizmente era perigoso demais para uma mulher andar sozinha naquele ambiente.
Lola parecia ser peculiar, não num mal sentido. Era adepta ao contato físico sem medo ou vergonhas e isso era completamente novo para Connor que acreditava que não era um costume nova yorkino e sim da mulher. Foi criado por uma família onde o pai era um lutador famoso e que não tinha o costume de demonstrar carinho pela família — embora tivesse sido um bom pai e marido no geral — e durante a adolescência, no colegial, também não tinha o costume de ser muito afetuoso com seus colegas e até namoradas (o que explicava os términos rápidos). Então, de fato, havia sido pego de surpresa por toda aquela demonstração de afeto e gratidão e não soube como corresponder, mas parecia que ela não se importava com isso.
Enquanto retornava para o prédio dava breves olhadas nas expressões da mulher, procurando ver se ela estava bem em voltar para lá. Antes que passassem pela porta firmou o aperto na mão dela, impedindo-a de continuar. “Por aqui. Pra evitar todo aquele suor e gente escrota.” Com a cabeça apontou para a escadaria de incêndio, deixando que ela passasse na frente para então guia-la até o andar onde seu espaço ficava. “Não precisa pedir desculpa. Não tem nem motivos pra você fazer isso. Você foi a vítima e eu faria de novo.” E falava sério, ainda que confuso por ela estar pedindo desculpas por algo que não havia planejado. Internamente concordou que ela havia tido um deslize por andar por ali sozinha achando que nada de ruim aconteceria, mas não seria tão duro ao dizer que ela fora burra em fazer tal. “Não deveria ser um problema você andar por ai sozinha. Esses escrotos que são os culpados. Mas infelizmente você tem que dobrar os cuidados por aqui.” Respondeu enquanto pulava a janela para dentro do camarim, dando a mão para ajuda-la a fazer o mesmo já que imaginou que o vestido dificultaria o trabalho.
Olhou os próprios dedos quando ela os trouxe à tona, balançando a cabeça em negativa para tranquiliza-la. “Não se preocupa com isso. E a cara dele vai estar pior do que isso amanhã então valeu totalmente a pena. Duvido que ele consiga arrumar alguém pra foder com a cara quebrada.” Desta vez tinha humor na voz, um breve sorriso nos lábios e nos olhos. “Eu tenho uma luta agora então não teria muita vantagem em limpar e fazer curativos... Quando acabar eu vejo o que vou fazer. Mas você não está em dívida comigo, ok? Não se sinta assim.” Olhou ao redor, esperando que ela se acomodasse em algum lugar. Não era nada luxuoso, com infiltrações, buracos na parede móveis velhos, mas ela poderia descansar no sofá que tinha ali e esperar por ele. Se quisesse ainda poderia acompanhar as lutas por uma televisão pequena que transmitia tudo que passava no ringue ao vivo. “Vou buscar água pra você. Ou quer alguma outra coisa?”