âOlĂĄ, JoĂŁo. Ou JoĂŁo Gabriel. Ou Santiago, nĂŁo sabemos ainda, eu e sua mĂŁe nĂŁo conseguimos nos decidir. Sei que eu queria brasileirar Lenon ou Dilan, mas sua mĂŁe anda redutiva quanto a isso, diz querer protegĂȘ-lo. Mas do quĂȘ, a gente pode saber? Talvez de fazer sucesso com as menininhas do Jardim de InfĂąncia com um nome lendĂĄrio desses. Mas nĂŁo se chateie, ok? NĂłs vamos encontrar uma solução. Bem, eu nĂŁo sei como começar isso, Ă© estranho falar com uma barriga gorda, a Ășltima vez que fiz isso foi aos sete anos quando o tio Lino me jurou ter comido o Caco, um hamster branquinho que eu tinha. Mas isso Ă© uma longa histĂłria. VocĂȘ quer um hamster tambĂ©m? O pai compra. Pai. Que troço esquisito pra quem ainda come sucrilhos pela manhĂŁ. Mas agora estĂĄ tudo bem. NĂłs nĂŁo planejamos vocĂȘ, mas o inesperado aconteceu. Primeiro eu tive algumas crises peterpĂąnicas, sumi por um tempo, cheguei a sugerir que vocĂȘ fosse interrompido. AĂ veio o ultrassom, aquela canção do Cat Stevens num comercial sobre o verĂŁo, os livros do âDiĂĄrio de Um Bananaâ na livraria perto daqui. EntĂŁo eu decidi que precisava de vocĂȘ, talvez mais que vocĂȘ de mim. Acho que vocĂȘ pode me ensinar muitas coisas. NĂŁo coisas como lidar com peitos, isso eu jĂĄ aprendi aos 23. HĂĄ montes de outras coisas que eu preciso saber, como ser menos egoĂsta, menos farisaĂsta, menos inconsequente. Ou como dar nĂł em gravatas, seu avĂŽ jĂĄ tentou trezentas vezes, mas acho que ele nĂŁo sabe direito o que estĂĄ fazendo. Bem, acho que jĂĄ deu pra sentir que ainda estou confuso quanto ao meu papel nessa peça que a vida me pregou. As coisas vĂŁo mudar, eu sei, mas acho que vou me sair bem. Dizem que, agora sim, vou conhecer o verdadeiro amor. E, confesso, estou curioso e trĂȘmulo. Talvez eu desmaie no seu parto, tudo bem pra vocĂȘ? Mas Ă© sĂł questĂŁo de idade, pulando essa parte a gente pode sair do hospital, conhecer o mundo e passear por aĂ. Comecei uma poupança pra vocĂȘ. JĂĄ tem trinta reais. Sei que nĂŁo Ă© muita coisa, mas jĂĄ dĂĄ um Mc Lanche Feliz. O que vocĂȘ acha? Depois, mais tarde, talvez uns vinte anos, podemos beber algumas cervejas e falar sobre garotas ou sobre o que estĂĄ errado na escalação do nosso time do coração. O que vocĂȘ quer agora? Batatas fritas? Uma garupa atĂ© a praça do aviĂŁo? Uma guitarra? Uma estrela do mar? Bem, como vocĂȘ pode ver, o clima Ă© de ansiedade, alegrias e de uns tapinhas nas costas. Tenho recebido muitos abraços, parabĂ©ns e recomendaçÔes para criar juĂzo. NĂŁo sei que porra as pessoas estĂŁo pensando quando me mandam criar juĂzo. E tambĂ©m nĂŁo entendo os parabĂ©ns, foi fĂĄcil e gostoso fazer vocĂȘ, mas isso Ă© papo pra daqui uns quinze anos. Quem sabe, se der tempo, vocĂȘ conheça seu bisavĂŽ. Ele estĂĄ com Alzheimer. Ăs vezes ele joga o prato inteiro de comida na parede e os adultos acham um pouco triste, mas acho que vocĂȘ vai atĂ© achar engraçado. AliĂĄs, estou louco pra escutar seu riso. E tambĂ©m jĂĄ fiz planos de cantar âHey Judeâ quando vocĂȘ começar a espernear no berço que ganhamos dos seus avĂłs de Pelotas. NĂŁo serĂĄ perfeito o tempo todo. HaverĂĄ dias que vocĂȘ vai berrar sem parar e eu vou implorar pra vocĂȘ começar a falar agora mesmo, e diga afinal o que Ă© que vocĂȘ quer. Mas tudo bem, a gente faz as pazes e algumas fuzarcas. E depois vocĂȘ pode adormecer no meu peito assistindo âTrĂȘs Ă© Demaisâ no sofĂĄ, atĂ© a mamĂŁe chegar. Ah, sobre a mamĂŁe. Bem, acontece que nĂŁo estamos mais juntos. NĂŁo sei explicar, essas coisas sĂŁo meio complicadas, temo que se eu começar a explanar como funciona os relacionamentos vocĂȘ relute sair daĂ e depois precisaremos gastar todo dinheiro da sua faculdade numa cesariana desnecessĂĄria. Vai ser um pouco estranho, mas hoje em dia Ă© comum os pais morarem em apartamentos separados, por mais idiota que isso possa parecer. O lado bom Ă© que vocĂȘ terĂĄ dois quartos. Ă, nĂłs adultos somos muito idiotas mesmo, na maioria das vezes a gente nĂŁo sabe direito o que estĂĄ fazendo. Mas nĂŁo se preocupe, ainda somos amigos, a gente se dĂĄ legal e estaremos sempre por perto. Sem brigar, a gente jura. Sei que estamos sempre jurando coisas, mas vamos trabalhar duro. Por vocĂȘ. Certo? Se estĂĄ bom pra vocĂȘ, dĂĄ um chute. Se nĂŁo, dois. E pode apostar, vamos amar vocĂȘ infinitamente mais e melhor do que a gente jĂĄ se amou um dia. Como assim, quanto Ă© infinito? Infinito Ă© infinito. Ă tudo. Ă pra sempre. Ă sem fim. Ă uma coisa que nĂŁo dĂĄ contar nos dedos. Nem na calculadora? NĂŁo, nem na calculadora, filho.â