❝—— Eu nunca disse que era uma dama, sir Tepes. ❞ Ela poderia até ser uma mulher, e se identificar como cis feminino, contudo, isso não obrigava que mantivesse uma postura delicada e frágil, como a exigida naquela sociedade patriarcal. Rosalie estava ali para ser o pesadelo dos mais conservadores, usando calças, caçando e distribuindo socos na mesma intensidade que distribuía palavras baixas. O ego ferido, e o rosto com escoriações do garoto, comprovavam isso. E ela estava apenas começando. ❝—— Além disso, creio que possa deixar de lado toda essa pomposidade. Estamos em um ginásio, e não em uma de suas aulas civilizadas demais para meu gosto. ❞ Selvagem. Alguns já haviam a chamado daquela forma, mas era perceptível sua evolução em relação à regras sociais, ainda que não se curvasse a maior parte delas, por tratarem seu sexo como inferior. Quando o garoto tentou lhe socar, ela desviou, dando um meio giro com o corpo, sorriso presunçoso nos lábios. Ela poderia ser ruim nas matérias teóricas, mas era realmente boa naquilo. ❝—— Você acha que esse filhinho de mamãe está pegando leve comigo? ❞ Caçoou, visivelmente divertida com a insinuação do professor. Como em uma dança, seu corpo orbitava o de seu oponente, mas diferente da primeira, suas mãos só encontravam o corpo alheio para desferir golpes. E daquela vez, a costela fora atingida, no entanto, não conseguiu se esquivar rápido o bastante, acabando por ser acertada pela rasteira do garoto, que a fez cair de costas no chão. Estava irada! E isso era percebido na forma rápida como se levantou, fuzilando o outro com o olhar. Primeiro um, depois o outro. Um. Outro. Ritmicidade. Sentia os músculos do garoto se desfazerem contra seus dedos a cada novo soco, e já não estava mais em um treino, havia se tornado pessoal. Pum. Pum. Pum. E um grunhido de dor que a fez parar, o adversário vacilando para trás antes de reclamar que ela não sabia treinar, e então, deixar o ringue. A respiração ainda estava ofegante quando virou-se para o mais velho, jogando os fios que insistiam em sair do rabo de cavalo, para trás. ❝—— Foi surpreendente o bastante? ❞
—É apenas o esperado de sua parte, Srta. Hunter. — E era, pela visão clássica de uma sociedade ao menos, ainda que com o passar dos anos tudo fosse se adaptando, costumes fossem mudando, tal como ele também ia, na medida do possível. Teve de rir com o comentário sobre sua pomposidade, via certa graça naquilo visto que não o fazia por querer, mas pelo mero costume de falar dessa forma, é o que acontece quando se tem mais de um século de diferença da pessoa com quem está conversando, ainda que ele fizesse o possível para não soar tão antiquado. —Devo lamentar de que minha forma de dialogar não seja de seu agrado, Rosalie? E não me é difícil imaginar que minhas aulas não sejam de seu gosto, visto a atividade em que se empenha no atual momento. — A maioria detestava as aulas de etiqueta, ninguém quer ser corrigido afinal, e todo conhecimento se prova inútil até que se torne necessário em sua vida. Ele era um vampiro, um monstro selvagem e insaciável, a sede de sangue andava sempre presente com ele e todos de suas espécie, era algo que não podia ser desligado. Por isso era importante ter controle, sobre si mesmo e a selvageria que havia dentro de si, caso contrário o estrago poderia ser catastrófico e ele não queria ter de lidar com pilhas de corpo para se livrar no mais tardar, não mais. —E ele não está? — Questionou em tom de provocação, que apenas serviria de incentivo para a outra, visto que os mais jovens pareciam obter grande prazer ao provar que os mais velhos estavam errados sobre algo e era com isso que ele contava. Observou de forma atenta o combate entre os dois aprendizes, a Hunter possuía um potencial invejável na luta, raiva poderia ser um ótimo motivador se bem canalizada. E ele pode perceber que esse não era bem o caso dela, visto que só parou quando o outro grunhiu de dor e vacilou alguns passos para trás, mostrando que ela só havia parado quando se deu conta de que estava exagerando mais do que deveria por conta da raiva que sentia em suas veias, coisa da qual o vampiro também podia sentir de certa forma. —Sobre o que exatamente? Seu descontrole advindo de sua fúria ou a forma deselegante que usa em combate? Tenho de dizer que nenhum me provoca surpresa, mas veja pelo lado positivo, ainda tem muitos anos para que melhore, Srta. Hunter.