Cigana.
E quando me vi, já não era mais eu. Nada, naquele instante me pertencia, você havia me dominado. Desejei, me submeti e mesmo com medo, me deixei levar. Não poderia não viver.
Você me lia, como poesia, cada linha do meu corpo. Tateando com as mãos, provando com os lábios, endeusando com os olhos. Experimentando todos os sentidos, aguçando cada um dos meus.
Querendo matar o desejo, na linha tênue entre a necessidade de satisfação e o apreço de uma noite inteira. Me fitava, e dedicava cada movimento a aprovação que meus lábios sutilmente deixava escapar.
Voraz, como se fosse a última vez. A última refeição. A última noite. Em qualquer outros braços, com um pacto assertivo, talvez. Mas, com você me desfaço de toda certeza.
Por que não me juras amor eterno e nem o volver? Me deixa inerte. Sabendo que prefiro a incerteza do amanhã ao descontentamento do agora.
Me decifrou, pegou em minhas mãos e leu nas linhas, entendeu as entrelinhas. Me fez ansiar pelo futuro do segundo próximo, sem querer me despedir do agora. Me tornei benevolente a fragilidade, e exaultava os arrepios que me causava.
Nem a cigana previu. Na linha da vida, você foi um golpe de sorte.



















