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seu corpo é seu boletim de ocorrência
subserviente: sirvo inconsciente e eu acho que nem deus sabe ao quê.
se eu pudesse te colocava de frente pro espelho, ainda que você virasse as costas pra mim e eu perdesse a sua cara de susto quando se deparasse com você mesma da mesma forma que eu te vejo:
tentando não parecer boba com sua franja no meio da testa, colecionando boas noites como se o dia dependesse do beijo na testa - que a franja não deixa (acho que descobri porque você cortou)
colocando todas as expectativas nos lugares errados pra não se decepcionar com o que realmente importa.
trocando as fechaduras por segredos menos seguros para que seja mais fácil sair e entrar.
de frente consigo mesma como se fosse outra pessoa porque você nunca se enxergou de verdade: sempre viu com os olhos do relógio de pulso - rápido demais pra apreciar o tempo passar.
acho que você é artista mesmo
tem-que-se-colocar livre a-cabeça tudo aquilo que você quer lembrar: esqueça. precisa-se abrir espaço, para que a arte apareça: solitária feito um vento no deserto do saara. você precisa passear pelas suas memórias, como quem visita um museu: tentando também ser uma obra de arte em meio ao quadro que soma história, arquitetura e muita dor. não pode ter medo de comer tinta, não pode ter medo de derramar o vinho, você precisa de ingresso para criar: e você não o compra em lugar nenhum -além do seu coração, ele precisa estar cheio - tão cheio que se despedaça e o convite para a arte apareça. também tenha um relógio, Daqueles de pulso - para que você evite se matar; qualquer punhado de terra nos pés, um pouco de água nos cabelos; e olhos tão perdidos que ninguém possa achar. você não precisa saber o que quer, mas é bom que saiba o que não quer. com o tempo, você começa a criar como necessidade básica, consegue colocar no mesmo lugar que a sede, que a fome, que o seu xixi e seu cocô, você se suja e se limpa com arte, e se você não conseguir parar por nada, você come arte, você respira arte: e com o tempo, ela te sustenta. só o tempo pode te explicar isso, e só alguém pode te dizer: você é artista.

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protagonista
atravesso a rua fora da faixa de pedestre; os carros que parem que me atropelem: o problema é deles, eu estarei ferida. e os feridos? e vida cuida - anestesia e caso seja o caso, eu morro de novo. mas: quem dirige o carro, quem te atropela vai ter que lidar com a vida - e ela só cuida das feridas. você só estava fora da faixa de pedestre porque era a protagonista; ali era melhor - cenário para os olhos verem, ângulo para os pés correrem, eu não podia esperar o carro passar: eu não podia impedir os acasos; eles que geram o clímax, te tiram do chão pra te devolver o ar te dão a chance de se curar - da síndrome de protagonista.
peço que fique comigo
não é sobre você, acredite, não é. tudo é muito mais parecido com meu desejo de viver algo que seja tão bom quanto ficar de olhos fechados - e todas as coisas que me lembram você não estão mais aqui, exceto a memória - essa, coitada, não sei onde deleto - as vezes a bicha tenta atrapalhar minha paz, confunde o presente e me leva pro passado, e nessa altura eu nem sei mais se ele existiu.
mas acredite no que você sente, o que você vê é diferente, e só muda quando você age. peço que fique comigo, até que eu esteja segura pra te deixar.
como era antes
não me lembro como fazia para centralizar os pensamentos em um texto: era mais simples quando eu não precisava respirar em intervalos e correr entre os acasos pra dar conta do coração batendo até que se prove ao contrário.
talvez seja o papel que falte, excesso de símbolos brilhos nas retinas adrenalinas talvez seja o papel o sulfite sem linhas solto como deveria ficar meu pensamento em uma página em branco, não cercada de botões em uma realidade paralela; talvez o secreto seja tão simples, como era antes.
eu não estou chateada
cansada, obcecada, desnorteada, paralisada, talvez travada, - eu não estou chateada mas a casa está vazia talvez ela seja de deus acho que a solidão é sagrada
sem bloqueios no sinal: trânsito livre como a esquerda - de verdadeiras intenções - e eu poderia te prometer eu poderia virar herói mudar por você mas eu fico melhor só; e ninguém sabe disso.
vim de outro mundo
onde os corações batem tão forte que é impossível não sentir.

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todas as notificações silenciadas
no campo minado do sentir culpa pelos traumas que nem regressão, nem psicanalise, nem retiro, nem falta de juízo, nem arrancar o siso, vai conseguir responder como traduzir a tua cabeça pra um ser comum: daqueles que saem de casa no meio do caos de um governo caótico, sem direção de esquerda e direita, pilotando uma ferrari arranhada pelas influências das culturas do norte. Ninguém vai te explicar melhor do que suas paranóias onde você deveria pisar leve. preserve qualquer sensação de calma, causada pela falta de palavras sobre suas más decisões feitas na madrugada, enquanto você achava que o correio servia pra amar a vida como pombos que pegam metrô pra Amsterdam na esperança de parar num coffe shop e ser alimentado com mais que migalhas de convivência social: there's something in your language, it sounds like a bird singing, it's portuguese or spanish? my dear, não dá pra fugir da Síria esperando encontrar sua árvore genealógica espalhada pela plantação de humanos feita pelos colonizadores com sementes podres, se você tivesse mais paciência para ler sobre a escala de fitzpatrick entenderia minha agonia ao te dizer que you don't fucking care about my desires.
o peso do passado apagado pela ânsia do outro de comer mais que batatas sem sal, o cheiro o peixe frito num grude de maresia, as coisas dos trópicos, meu bem, as coisas tropicais são mais difíceis de explicar pra quem não conheceu as mazelas dos óbvios. Bundas ritmadas num espaço curto do tempo separado no fim da semana pra fazer de conta que não tem erro ser fadado as nostalgias geradas pelas separações inevitáveis do teu ego e teu espelho. Qual o mal de admitir que você é melhor do que pensou que era? if money come home, lentamente rápido quando você vê o tempo vale mais, as notas encontram paz nas mãos que as deixam ir você pode fazer o que quiser no jogo imobiliário mas a mais valia vale mais do que nos anos 90, 80, 70 you can't run away from yourself ou vai cair prove me wrong and I make a million dollars just for you to shut up.
saudade de voltar pra mim (sem o que eu sabia agora);
do tesão da dúvida sobre o que poderia - ser tão bom. aquela ideia de que tudo era menos fácil me dava gás pra fazer melhor. agora parece tudo tão simples: eu sei que me viro - não morro de fome, de frio, de libido. não vou morar na rua - se não quiser. eu sei, não enlouqueço tão fácil, morrer não é piscar olhos. eu sei que amores existem, sexo pode ser bom com qualquer um - se eu quiser.
saudade da mesa, da sala, até da gaiola: apago a memória da sua sombra na janela entre as grades e a curiosidade, empretecendo seus cabelos brancos ralos e mascarando sua pele de noventa anos em 2023. eu tô com saudade da voz, do tom de preocupação com as asas dos aviões que eu pegava toda semana. eu tô com saudade das suas dúvidas, do seu passo lento; bengala de madeira que meu ex te deu e você quase bateu na minha cabeça porque não tava velho pra isso. não tava pronto pra isso. não queria saber daquilo de se apoiar em algo que não fosse as próprias pernas - os mesmos caminhos pra feira, pra pinga da manhã, pro riso de manhã, mesmo que tudo provasse o contrário da felicidade, saudade do tédio que você assentava com calma, o tic tac do relógio não incomodava quando eu tinha pra onde voltar - e você estava lá.
do churrasco de domingo na casa rosa, que alguém puxava quando não tinha nada melhor pra fazer do que pensar em merda e comer bicho morto, bebendo milho fermentado com pessoas que se revezavam entre linguiças e nossos futuros separados. saudade da roupa de cama, do meu colchão, da máquina de lavar roupas e da quantidade de coisas acumuladas que eu não sabia onde pendurar mais - dos prêmios e suas surpresas, de tudo que deu certo enquanto você estava comigo - e tudo que poderia dar certo se a gente não tivesse se deixado dormindo acordado por tanto tempo.
mas a maior saudade é voltar pra algum lugar conhecido, qualquer um: tá tudo tão diferente depois que virei do avesso minha cabeça que eu acho que meus olhos ficaram do lado contrário.
eu gosto do que vai embora, mas porquê gostava quando ficava: trem, ônibus, carros antigos e memória mas você gosta de mim: ontem.
liberdade é um caso de amor do ócio com a vontade
aquela sensação de que alguma coisa está errada (clinicamente pode-se nomear ansiedade, angústia, despersonalização): são as muitas opções que te deram, elas te circulam feito bala perdida - alguma delas vão te fazer sangrar no peito, outras umbigo. deve-se priorizar os órgãos vitais nas escolhas, pule o ego e a felicidade, assim, talvez, toda a sua socialização será facilitada por um foda-se (geracional) que só cabem aos intelectuais de merda: aqueles que tem tempo demais e opções de mais. ganharam da vida a liberdade de escolha - seja por ter tido dinheiro, sorte, beleza, inteligência, amor ou um conjunto disso. todo mundo sonha em viver feito artista, ninguém quer bancar as próprias escolhas enquanto fala com o gerente do banco que o tempo da arte é mais rápido do que ele supunha.
tem gente que precisa arrastar os cílios no asfalto pra conseguir 1h de liberdade, eles seguem a cartilha: nasça, cresça e morra. beba, envelheça, se não der tempo corra.
a gente corre também: o risco de repetir os mesmos padrões dados porque eles estão fáceis. é muito mais fácil seguir o manual do capitalismo sobre como sobreviver nele. mas alguns ganham essa coisa linda que é o poder de poder fazer o que quiser, mesmo com as pré definições - a pizza pré assada não é a mesma coisa de uma feita em um forno a lenha, mas é mais fácil do que preparar a massa.
a gente pré aquece as decisões mas até perceber que microondas é uma merda, nossos neurônios já se entristeceram com a repetição e o barulho de tirar o plástico. a gente se vê repetindo, nem que seja o estereótipo do vagabundo louco: que, por deus, não somos todos?! mas quem tem a liberdade por vezes o escolhe por falta de chão pra pisar, na piscina nem jesus andou a pé: se fosse um mar, um rio, uma barragem artificial que seja, hidroelétrica, seria mais fácil por ter amplitude: mas nos deram uma piscina de liberdade (infantil, rasa e perto da saída do hotel).
no amor não é diferente, a gente sabe que a vontade sobrepõe a lógica, talvez se você jogasse só com rainhas não tivesse que derrubar a cabeça do rei com tanto sangue de peão. tudo se mistura numa coisa nada a ver com nada, no final a gente só queria ser magicamente escolhido pelo destino enquanto esbarra no amor da sua vida numa escada a caminho do inferno - no inverno - do norte do mundo - compondo uma música na cabeça que só os loucos podem dançar. mas o fato é que ninguém aguenta tanta opção, a gente tem que se prender a alguma restrição - éticas auto impostas, equilíbrios em cordas bambas, acasos felizes, raios de sol de manhã - relógios funcionais - boletos, trejeitos, trabalhos, compromissos, e os outros sempre cobrando - tempo, atenção e que você faça escolhas - se venda ou compre-me, caminhe do meu lado ou tenha cuidado com o fino do meu salto quando cair no meu caminho - fique quieta ou grite alto, fale bem ou cale a boca, escolha se quer a unha preta ou branca:
a vida também cobra, troca de pele toda hora se você reparar bem alguma coisa nela já mudou (e você achava que estava sob controle de alguma coisa) pulando na piscina de sangue que permeia os sentimentos de toda mulher cansada: de existir.
as vozes da sua cabeça são entregadoras de panfleto
"Você fala demais” disse eu pra mim mesma, enquanto estava em silêncio. Só eu pude me ouvir, me achei louca, mas já fui a especialistas demais pra saber que loucura é um ponto de vista medroso sobre a beleza da existência - e é claro que romantizar a vida é, também, aprender a gostar de si - não existe vida sem você; não existe - se quer - mundo sem você. Você é a base da realidade que criou. O jeito que você anda, fala, omite e corre da chuva instintivamente são ações que foram programadas muito antes de você ter consciência que estava formulando um método de existir.
Por exemplo, eu, não tenho rotina. A rotina me parece um looping sem graça em que a gente se perde do que realmente importa: a busca - a procura por significados, nem que seja não se importar que as coisas não tenham sentido nenhum. Mas existe algo mais importante, pra mim, do que a rotina, esta é o fluxo - o porvir - o devir - e várias coisas que na prática são tiros no pé. Mas me atiro, ando flutuando.
Ninguém me contou que seguir as regras era mais importante do que concordar com elas, e que crescer, tinha um Q de D, de desespero. A gente estica tanto que não cabe mais no corpo, começa a espremer ele na tentativa de se expressar, e daí saem as marcas de expressão - as rugas - os cabelos brancos - o tempo sufocando o sujeito como se ele fosse o céu, decidindo quais as cores o dia vai ter. Também, nessa mania chata de não dá spoiler, ninguém conversou comigo sobre escolhas - e como elas precisam ser feitas com base em tudo - menos na lógica pura, a lógica, por mais que pareça a garota mais inteligente do planeta, é dependente emocional do coração - tenta fazer tudo por ele, mas no final ele infarta - deixa a lógica a mercê das próprias compreensões. Mas quando ele está em estado normal, sem pressão e se comunicando bem com o resto do corpo, e é na batida dele que a gente acha a resposta: Quais são as melhores escolhas pra minha vida? Como posso beneficiar o maior número de seres que existem? Quem eu amo? Como devo me comportar? Pra onde ir e onde ficar? Terei tempo pra ser feliz, ou a vida é outra coisa?
As vezes me pergunto se happy ending significa algo mais do que a tradução me permite entender - mas acho que é só isso, a gente tem que ficar feliz quando acaba, porque o fim significa conclusão - mas nunca é extinção, tudo que existe continua existindo, até que nós percamos a consciência, a lógica, o desespero de lidar com a busca.
reconhecer o carinho no outro, e o quanto custa.
a falta de olhares meticulosos para nossos defeitos irão sucumbir em calmas aclamadas pela solução dos problemas reais: que inventamos. a maioria das nossas conclusões são neurônios em silêncio. o outro lhe equilibra depois que se afasta de você: deve ter alguma explicação física para isso. a sua diferença é o que te fará ser menos infeliz. a indiferença é o que pode te trazer de volta ao riso. compreender é um caminho sem rota; mas tem volta? acredito que não. ninguém me ouve a não ser a minha própria subjeção. a imagem que quero passar e a que passo, são roupas amassadas. o meio dita o seu comportamento. as coisas mais belas são as menos frágeis. o nosso olhar se acostumou a ver beleza nas penas. fogos de artifício são a explosão da euforia reprimida pela fila do pão. por isso assusta, nada que estoura o céu é uma manifestação de amor. quando alguém diz que gosta de me ler, eu tenho medo de que ela me conheça.
falo sozinha quando escrevo. tomar banho depois da raiva é lavar a alma. a privacidade é um luxo dos sábios. tudo que acelera o coração o faz sangrar. sinto muita raiva do inevitável, gosto de flexibilidade.

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a poesia morreu
em algum lugar entre o passado e o futuro, e não foi agora. foi antes, outrora entre as palavras difíceis e os decibéis entre os conjuntos de roupas de academia e os painéis solares, entre os celulares e os olhares perdidos na página inicial do google, buscando fora o que está dentro da poesia, agora morta. que deus a tenha (e que ele morra também)
comunicação interrompida
pela distância da preguiça da língua; uma está em dúvida se vive deprimida a outra molhada corrompe a vida: lambe tudo que pode ter gosto de despedida. presa ao ciclo infinito de infinitos trânsitos iluminados pelas velas que as senhoras acenderam pedindo por pena de deus, e deus lá tem pena de ninguém? ele quer que a gente se destrua; use o corpo e usufrua dos ritos de passagem que a natureza realiza todo dia - compondo canções inorgânicas com a orquestra sinfônica dos desencontros - duros feitos o sol a pino na cabeça da fotografia - ninguém quer saber das frutas colhidas antes da hora. tem dia que a noite é foda, mas tem noite que o dia engole, com todas as funções de um 5AM club pensando que é privilegio se por ao extremo da produtividade, ao invés de sacrilégio pular o sagrado pra se sentir sarado - de tudo que dói.