Eu te chamo assim com o maior carinho do mundo, ok?
As coisas do lado de cá não estão as melhores possíveis, ainda que eu esteja segurando muito bem. Ou fingindo. Na verdade, eu acho que sempre fui muito boa em ignorar todos os problemas enquanto eles iam aumentando e se tornando uma bola de neve incontrolável que iria cair na minha cabeça e de mais ninguém.
Eu não tenho emprego, minha colega de apartamento foi embora, apesar de ter me deixado com o aluguel pago do mês, mas inclui que o próximo já está chegando e eu não tenho como pagar ainda e eu não sei bem quem é o seu pai. Assim, você pode me odiar pelos próximos vinte anos, como provavelmente você vai fazer, por não te apresentar ao cara que você iria querer conhecer, mas é que... Eu não sei. O único possível pai que ainda está na ilha pode acabar sendo só um cara que eu fiquei e não deu em nada, e vai terminar você e eu sozinhos.
Assim, não é que eu me arrependa de ter tomado a decisão de ter ficado com você. Eu pensei nisso por uma semana. Desde o dia que a médica disse que eu estava realmente grávida. Desde que ouvi seu coração batendo. Desde que ela disse que você já estava crescendo havia sete semanas. Eu pensei muito se eu seria capaz de fazer isso, sabe? Eu pensei de verdade. E eu decidi que queria. Que iria fazer isso, mas não tá sendo nada fácil. Meus pais, que eu não sei nem se você vai chegar a conhecer, podem até saber o que está rolando, mas com certeza vão me condenar por toda a vida (eles acham que eu deveria ter tido uma vida diferente e queriam isso também), eu já falei que não estamos na melhor fase e basicamente tá tudo um pouco demais.
Eu não queria falar de uma forma que soasse que foi bem ruim decidir ter você porque, apesar dos enjoos, cansaço e meus peitos ficarem super dolorosos e inchados, eu não estou arrependida de ter tomado essa decisão. Eu nunca fiquei tão feliz por ouvir um barulho tão assustador... Seu coração bate muito rápido! É assustador, mas eu fiquei toda chorosa. E fico toda vez que a médica diz que está tudo bem, que você tá evoluindo bem e crescendo da forma correta. Quando ela diz que meus exames estão bons e isso quer dizer que você está bem... Eu nunca imaginei que pudesse me sentir assim em toda a minha vida.
Mas também sei que é bastante complicado. Eu espero que as coisas melhorem pra gente, sabe. Talvez quando você nascer, estejamos beem melhores. Ou na pior. Espero na melhor, obvio. Capaz que você engatinha pra fora de casa se nascer na situação atual.
Enfim, sua mãe tá bem perdida. Não que ela seja centrada no geral, mas agora ficou um senso mais desequilibrado. Mas também nunca imaginei que eu poderia ser forte o bastante para passar por essa situação caótica. E eu sei que eu posso porque você merece a melhor versão de mim que eu posso te dar. E eu vou te dar.
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“New York, I love you but you’re bringing me down.”
TW: menção a tentativa de suícidio.
Meu Deus do céu, a que ponto eu cheguei em que eu tenho que desabafar em um diário? Infelizmente, odeio admitir, mas a mamãe estava certa e “meus amigos de festas” realmente não estão comigo independente do que aconteça, por mais que eu tenha entrado em diversas brigas com ela pra contestar isso. Dessa vez, muito infelizmente, ela tá certa.
O negócio é o seguinte, Diário. Para eu conseguir te explicar como acabei me sentindo tão solitária, precisamos voltar há uns anos atrás...
Quando o papai faliu, eu sabia que as coisas ficariam difíceis, mas nunca imaginei que alguns meses depois ele tentaria tirar a própria vida. E como eu lidei com isso? Você deve estar se perguntando, Diário. Bom, a verdade é que eu não lidei. Eu tinha 17 anos, como eu ia lidar com isso? Inclusive, quase não fui visitá-lo no hospital. Apesar dele sempre ter sido distante e definitivamente nunca ter sido um pai presente ou carinhoso, ainda era meu pai e eu não queria vê-lo naquela situação. Às vezes, Diário, até me culpo porque sei que não fui também um ponto facilitador.
Enfim, naquela época, eu visitei ele e provavelmente, foi um dos poucos momentos em que eu me senti acolhida e querida por ele. Parecia que a experiência de quase-morte havia feito algo que eu nunca seria capaz de explicar. A gente passou horas conversando, eu segurei a mão dele e infelizmente, acho que aquele foi o momento mais pai e filha que tivemos em toda a minha vida. E eu digo infelizmente porque eu sinto muito que tenha sido naquelas circunstâncias.
Mas como eu disse, eu não quis lidar com toda a dor que era ter meu próprio pai no hospital. Então, depois do ocorrido e de ter feito uma única visita ao papai, eu fiz o que eu faço de melhor que é sair e encher a cara. Ficar bêbada até esquecer meu nome. Sim, uma menina menor de idade enchendo a cara. Afinal, eu ainda tinha dinheiro do meu pai guardado e usei pra conseguir entrar nos mais diversos lugares, como sempre fiz ao longo dos anos. E novamente, também fiz o que eu faço de melhor, e afastei toda e qualquer pessoa que me fazia bem, porque eu não queria levar ninguém comigo pro fundo do poço, não queria ser um fardo ou uma preocupação pra ninguém. Mas claro que ninguém nunca soube o que realmente estava acontecendo, eu não queria quebrar a pose de uma menina forte que não liga pra nada, e acho que até hoje nunca consegui contar pra ninguém.
Na época, por mais que minha mãe nunca admitisse pra mim ou pra ninguém, fiquei sabendo pela minha abuelita que ela ficou mal de saber a situação que meu pai estava e ela pensou que eu fosse mudar meu jeito e na verdade, só piorou. Eu fiquei um mês sem pisar em casa, sumi de Valletta, desapareci em Nova York e não me incomodei de avisar ninguém. Só mandava mensagem para os meus irmãos e pras minhas irmãs, falando que eu tava viva e perguntando dos meus pais. E claro, mantinha contato constante com a minha tia, que era e é praticamente minha mãe.
Quando eu voltei pra casa, me senti a pessoa mais iludida por achar que algo ia mudar. Pensei que minha mãe seria mais amorosa e meu pai mais presente, mas o cenário que eu encontrei foi totalmente diferente ou melhor, foi o mesmo. Fui iludida? Não vou negar que fui, Diário. O que eu esperava? Minha família passando por um inferno e eu não era forte o suficiente pra dar o apoio que eles precisavam, e eu não conseguia encontrar o apoio que eu precisava em casa. Obviamente nada ia mudar! Pode me chamar de burra, Diário. Eu mereço.
Mas eu precisei mudar e readequar todos os meus planos. Inicialmente, depois de terminar o ensino médio em Valletta, eu ia convencer meus pais de morar em Nova York com meu pai e estudar na NYU. Mas, sem o dinheiro, era completamente inviável, sem contar que eu sabia que o custo de vida em Nova York era bem maior do que em Malta. Então eu abri mão de um sonho, pra tentar criar outro.
O mais difícil é que, todo mundo em casa continuava fingindo que nada estava acontecendo e que meu pai não tinha acabado de sair do hospital, até ele fingia que nada estava acontecendo e continuava fazendo planos e mais planos pra conseguir voltar a ser tão bem sucedido quanto era. Sinceramente, Diário, eu queria muito fingir que nada estava acontecendo, mas eu sabia que se meu pai não havia morrido por ter tentado se matar, provavelmente um ataque cardíaco ia matá-lo com tantas preocupações.
Depois que eu voltei das minhas “férias”, sabendo que meu pai provavelmente não queria nem me ver, apenas sugeri para a Cait que falasse com o papai para ele tirar umas férias em algum lugar bonito, porque Nova York e Wall Street iam matá-lo e eu realmente não queria enterrar meu pai. Como eu já esperava, ele escutou minha irmã e fez uma viagem com a nova namorada. De algum jeito, aquilo aliviou minha culpa por ter sumido.
De qualquer forma, voltando para o agora, Diário, daqui há alguns meses eu me formo e eu não estou conseguindo lidar com isso, então decidi sumir um pouco de Valletta e voltei pra Nova York, e estou escrevendo do meu antigo quarto na Cidade de Concreto, porque novamente, eu tô fugindo de tudo como fugi há alguns anos atrás. E bom, vou admitir que me formar é uma conquista e tanto, e confesso que mudei drasticamente. Precisei deixar algumas pessoas entrarem na minha vida, mas ainda não me sinto completamente confortável. É difícil sabendo que posso desapontá-las e elas podem me desapontar a qualquer momento e convenhamos, já desapontei muitas pessoas nessa vida e preciso ter um saldo pra próxima.
Mas acho que o ponto aqui, Diário, é que eu não gosto totalmente da área que estou me formando e estou muito perto de jogar tudo por alto, porque a única coisa que eu consigo me sentir é perdida e triste comigo mesma, e não acho que ninguém vá me entender. Eu poderia falar sobre isso com meus irmãos ou minhas irmãs, mas ainda acho que ninguém me entenderia. Meu pai não me entenderia e minha mãe muito menos, e novamente, eu e ela entrariamos em mais um discussão com provavelmente alguns gritos. Ou seja, eu só traria mais preocupações e mais decepções. Definitivamente, penso que a vida deles seria melhor sem mim, mas esse não é ponto...
Acho, Diário, que na verdade eu só estou evitando uma briga enorme com a mamãe, porque eu meio que já decidi que não quero seguir na área de jornalismo. Vou continuar trabalhando, como fiz nos últimos anos pra me manter, mas provavelmente para a mamãe eu vou estar jogando todo o meu potencial no lixo e se a nossa relação já não é boa, provavelmente vai ficar pior e eu não sei se tenho o mental necessário pra isso, Diário. Novamente, me vejo querendo ficar em Nova York e não voltar mais.
Então, eu vou deixar essas problemáticas para a Maya do futuro. (kk maya do futuro vc que LUTE)
Inclusive, vou deixar aqui um recado pra ela:
“Querida Maya, deixe as pessoas entrarem mais na sua vida e deixe que elas te conheçam! Você tem muito a oferecer, só cuidado para quem oferece... Espero que você se encontre. E mesmo que você pense muitas vezes que não é amada, seus irmãos e irmãs te amam, assim como sua abuelita e sua tia.
Fica bem. Você merece o mundo e nunca deixe que ninguém te diga o contrário.”
Eu do futuro. Eu não sei porque estou escrevendo isso, e eu acredito que ninguém que eu conheça entenda alemão para entender nada que vai estar deposto aqui. Minha médica disse que expor meus sentimentos seriam a melhor maneira de deixar tudo bem claro para mim mesmo, e eu não consigo expor da melhor forma possível em inglês, então que fique claro a todos que estejam tentando ler que tudo aqui foi escrito com pura emoção. Eu sinto minhas mãos tremerem. Eu ainda não acredito no que aconteceu. Eu sei que eu vou ler isso no futuro e que meus olhos irão lacrimejar da mesma forma que estão agora. Eu estou prestes a perder tudo que você já perdeu.
Eu nunca morei sozinho. Antes de morar com minha ex-esposa, eu morava com meus tios e logo antes com meus pais. Estar sentado em uma escrivaninha em uma casa não mobiliada por mim era desconfortável. Eu não conseguia ouvir a musica alta no quarto de Elizabeth, eu não conseguia ouvir o barulho no chuveiro de alguém tomando banho, e Ada não esta em meu pé reclamando por atenção. Estou sozinho. Posso ouvir de longe o barulho dos carros passando e essa é a única coisa que me prende no presente. Não entendo o que fiz de errado. Criei Ada e Elizabeth junto a minha esposa e me mantive presente em todo relacionamento o máximo que podia. Dei prioridade a eles em toda a minha vida e parecia que aquilo não havia sido o suficiente. Eu não fui o suficiente? Eu pensei que havia finalmente se tornado algo como meu pai era para a nossa família, mas será que ele estava certo? As minhas decisões que me levaram até esse momento foram dadas por um perdedor e por isso, não teriam um resultado diferente. Era essas as palavras que meu pai sempre me dizia.
Minha médica me disse que momentos como esse vem para me ensinar alguma coisa. Eu não entendo como essa dor pode me ensinar alguma coisa. Me desculpe, para você que usa o tradutor para tentar ler isso, por ser tão dramático e pessimista por todo esse texto. Eu não consigo confiar que isso não vá parar nas mãos de alguém. Não consigo confiar que qualquer coisa escrita não fosse ser lida, pois essa era a única razão pelo qual nós humanos começamos a escrever. Este texto não estaria fazendo o seu serviço se não fosse lido. Eu não sei se conseguiria ler isso novamente no futuro. Me desculpe estar saindo da questão. Eu só não consigo dissertar sobre algo que não entendo.
Eu ainda estou com as flores que eu comprei para ela em cima da mesa. Já estão secas e mortas em cima da mesa. Não tenho coragem de jogar fora. Ada ainda não veio ver a nova casa e Elizabeth também não. Ainda tenho algumas coisas minhas em caixas e eu não sei se tenho energia para olhar por elas e organizá-las novamente nesse ambiente vazio. Nunca fui uma pessoa com um olhar bom para decoração e minha ex-esposa sempre foi a responsável por cuidar dessas coisas. Ver a casa pronta para ser decorada e não ter ela aqui comigo para pensar em como arrumar as coisas e a ajudar com as coisas que ela não conseguia fazer machuca algo dentro de mim que eu não sabia que poderia doer tanto. O espaço que eu guardava tudo com bastante carinho agora me corrói aos poucos. Estarei eu quebrando por dentro? Espero que esteja tudo bem com você.
Já tinha ouvido falar da cabine misteriosa em frente ao Palácio do Grão Mestre, e sua curiosidade foi o suficiente para fazer Marjorie ir até o local para ver com seus próprios olhos e entender do que se tratava. Assistiu por um tempo as pessoas entrando na cabine, vendo que saíam com algo que parecia muito apenas uma cabine de fotos normal, mas se fosse isso pra que tanta comoção assim? Com isso em mente resolveu entrar na fila, precisava saber o que era, sua mente imaginando diversas possibilidades melhores, algumas até impossíveis, se fossem apenas fotos sairia decepcionada dali. Esperou na fila até enfim chegar chegar sua vez, olhando tudo com atenção, percebendo a televisão e aparecendo nela a primeira pergunta, ao menos não era uma cabine normal de fotos.
Qual é sua maior habilidade?
Franziu o cenho confusa automaticamente ao ler. Quase desistiu e saiu, não fazia ideia de suas habilidades, talvez soubesse uma coisa ou outra, mas nada que pudesse considerar como a maior habilidade, a não ser é claro, sua habilidade com ilustração, mas sentiu o gosto amargo apenas em pensar que essa poderia ser a resposta. Porém se deu por vencida por não achar nada mais para responder, e sua curiosidade em entender o que era a fez ficar, tentou simplificar a sua habilidade ao responder, não queria se aprofundar. “Desenho.”
Como você a aprendeu?
“Como qualquer criança aprende.” falou com certa irritação tomando sua voz. Não era a resposta exatamente certa, havia se dedicado muito para aprender, mesmo sem condições de ter aulas particulares, aprendia como podia e com o que achava disponível, aprendendo técnicas, se inspirando em ilustrações dos quadrinhos que gostava e aprendendo seu próprio estilo a partir disso.
Você a desenvolveu?
“Sim.” respondeu simplesmente. Havia realmente desenvolvido muito, afinal usava daquilo para contar histórias, as vezes apenas desenhos já contava o que ela queria passar, outras, eram histórias em quadrinhos completas, tentava melhorar cada vez mais antes de parar de vez com isso.
Se sim, como?
”Desenhando.” novamente a resposta direta e sem explicação, se sua avó estivesse ali certamente a repreenderia pela falta de educação. Verdade era que poderia falar por horas sobre todas as formas que desenvolveu, não era apenas desenhar, pois aprendeu muito sobre escrita criativa para contar suas histórias, então havia muitos meios que ela havia utilizado para desenvolver o máximo.
Você trabalha em algo em que usa sua habilidade?
”Não.” suas falas saíam de maneira birrenta, como ficava quando se sentia irritada e incomodada por estarem invadindo seu espaço mais do que deviam. De qualquer forma estava realmente longe de ao menos tentar trabalhar com isso.
Se não, por que não?
”Porque não.” considerou que não precisava dar explicações para isso, o que diria? Que sua mãe ter morrido havia sido um trauma tão grande que fez com que ela nunca mais conseguisse fazer o que mais amava por sentir a forte ligação com ela e isso for demais para a ruiva? Que mesmo depois de anos não tinha superado isso, pois nunca nem tentou de fato superar já que se tentasse doía mais do que ela queria e conseguia lidar?
Sua habilidade se relaciona com seus sonhos?
Se já estava achando extremamente desconfortável aquelas perguntas, tudo piorou aí, apertou os dentes tentando se manter calma. Trocou o peso do corpo de um pé para o outro, sentindo sua respiração pesar, a habilidade se relacionava sim com seus sonhos, trabalhar em uma editora onde pudesse ser ilustradora de histórias em quadrinhos, ou melhor, poder fazer as suas próprias, desde a escrita até o desenho, entre tantas outras opções de coisas que poderia fazer com sua habilidade, mas sonhos esses que havia desistido e enterrado a muito tempo atrás, e nunca havia os substituído, achava ter nenhum sonho em sua vida mais. Respirou fundo antes de tentar responder algo que a distanciasse da verdade. “Não.”
Quanto custa seu sonho?
Estava sentindo como uma tortura, poderia ter ido embora sem terminar, mas algo a fez ficar ali, encarar aquelas perguntas por mais ruim que fossem parecia a chamar para ela própria refletir e pensar nas coisas que tanto evitava lembrar. Sentiu seus olhos marejarem ao ler a pergunta que havia surgido, mas ao ver isso se controlou, secando rapidamente os olhos, não poderia chorar ali. Seu sonho custava se libertar de todo aquele trauma, mas isso era dolorido, não sabia ao menos se um dia conseguiria superar tudo o que deveria, sentia até certa culpa em pensar nisso, como se significasse que estaria abandonando sua mãe, que estivesse seguindo em frente sem ela e por mais que soubesse que isso era o certo, sentia como se fosse errado. Novamente porém, deu uma resposta direta e não verdadeira, não iria falar sobre essas questões com uma cabine qualquer. “Nada.”
Finalmente as perguntas acabaram, demorou um tempinho até se recompor e conseguir sair da cabine, de cabeça abaixada extremamente chateada. Percebeu o papel com as fotos que foram tiradas, tirou ele rapidamente tapando as imagens para que ninguém visse e se afastou rapidamente, então realmente tinha fotos na cabine, pensou, mas agora ela desejava que fosse uma simples cabine de fotos normais como havia temido no inicio.
Ao ter se afastado parou para olhar o papel em suas mãos, a primeira foto marcando sua curiosidade, seguindo para o susto das perguntas e logo para expressões mais irritadas, mesmo que fosse muito difícil da garota se irritar normalmente, mas engoliu em seco ao ver o final quando quase havia chorado. Não entendia ainda para o que era aquelas perguntas e fotos, e se eles tinham gravação da pessoa ali dentro e fossem fazer algo com aquilo depois, odiaria se alguém visse, para alivio de consciência considerou que eles não ficariam com nenhuma cópia das fotos ou gravação da imagem dela. Queria colocar fora aquele papel com as fotos, mas não quis deixar em um lixo por ali, então apenas guardou na bolsa para depois dar um jeito em casa, logo começou a andar, seguindo para voltar para casa, não queria mais ficar ali, precisava ficar sozinha, outro sentimento que a ruiva geralmente não sentia, mas aquela simples cabine havia trazido mais á tona do que ela desejava.
Após o retorno de Amelia, fora a vez de Lewis entrar na cabine. Não estava nervoso, embora o retorno da bailarina tenha o feito pensar o que poderia haver para deixá-la daquele jeito, tal como o que poderia fazer consigo. É certo que estava passando por um momento — como explicava quando pensava demais no futebol.
Acomodou-se na cadeira diante de um televisor, olhando todo o espaço que parecia ter apenas um metro quadrado. Era desconfortável. Quem pensou na arquitetura daquilo? Além da altura. Aquilo certamente era menor que Andrew. Imaginar o outro dando uma testada na “porta” de entrada o fizera rir. Lewis era terrível.
Tocou a tela diante de si, imaginando que era necessário, tateando-a até que se iluminou, revelando a primeira pergunta. Ótimo. Começaram falando sobre o mais fácil.
Qual é sua maior habilidade?
“Nossa, cara, tenho várias.” Suspirou pelo nariz, dando de ombros em seguida. “Tipo, meus amigos dizem que sou ótimo fazendo piadas. Tô aprendendo a dançar também. Jogo vôlei...” Parou, cumprindo os lábios. Nem de longe tudo que ele estava citando era sua maior habilidade. Suas maiores habilidades eram: sua visão de jogo, sua velocidade, capacidade de separação e, também, seus saltos. Habilidades que fizeram dele um grande recebedor porque conseguia encontrar rotas incríveis. Recebia hail marys nos treinos, no meio de três defensores, sem problema algum. Sua altura não dificultava. O problema era que, agora, o incômodo que surgia em sua perna depois de atividades intensas o prejudicava. “Eu sou recebedor. Era, na real... Não tem como falar só uma habilidade pra isso, mas eu tinha várias habilidades que me faziam muito bom no que eu era, tá ligado? Eu sabia ver as rotas, pegava passes em janelas curtas, eu nunca dropei um passe na minha vida.” A janela para que o ar chegasse aos pulmões era curta; Lewis não conseguia sentir as pontas dos dedos, pois formigavam. Por que inventou de falar de futebol? Ou melhor, por que não inventou de falar antes do futebol? “Então acho que jogar futebol é a minha maior habilidade.” Tocou a tela uma segunda vez, passando para a próxima pergunta.
Como você a aprendeu?
“Meu pai era jogador na faculdade e se contundiu. Ele queria que eu jogasse também. E ele viu que eu era bom corredor e conseguia agarrar bem as bolas. Aprendi a receber passe.” Não era um bom passador; fizera com os pais algumas jogadas, mas sempre errava — por muito — passes. Na infância, jogando como quarterback, o rapaz fora sacado tantas vezes que literalmente comeu grama.
Você a desenvolveu?
“Pra caralho.” Não sabia se era um programa de TV, mas, se assim fosse, cortariam aquela fala. “Quase joguei na NFL.” Tinha orgulho daquilo, ainda que não tenha funcionado. Outro toque na tela.
Se sim, como?
“Eu treinava dia e noite, cara. Todo dia. Aprendia vendo defesa, vendo posicionamento e o treinador era muito parça.” Lewis riu consigo mesmo, lembrando-se da época no college.
Você trabalha em algo em que usa sua habilidade?
“Não. Nem trabalho no momento. O restaurante que eu tava fechou e ainda não arrumei um lugar que me contrate.” Encolheu os ombros. “Mas também não trabalho com futebol. Não posso.” Passou para a próxima pergunta, desejando que aquilo acabasse logo.
Se não, por que não?
A pergunta fizera com que o rapaz ficasse em silêncio por um segundo, relembrando cada detalhe do dia em que se lesionara. Por que não? Bem, porque um filho da puta viu que eu seria tackleado, mas resolveu ir com o capacete na minha perna. “Eu machuquei na faculdade e me aposentei.” Era simplista, mas era o que conseguia responder sem que aquilo se tornasse maior. Em sua garganta uma bola se formara.
Sua habilidade se relaciona com seus sonhos?
“Sim, não, talvez... Eu não posso mais jogar futebol, então não faz diferença.” Respondeu com simplicidade. Tocou a tela novamente. Aquilo não tinha fim?
Quanto custa seu sonho?
A pergunta o fizera parar por um segundo, sem resposta. Seu maior sonho? Voltou a jogar futebol. Mas aquilo era impossível. “Meu sonho era voltar a jogar futebol. E isso não vai rolar.” Ainda não havia aprendido a viver longe do futebol, notando que aquilo deveria ter sido superado há algum tempo, mas Fitzgerald só conseguia pensar na falta que lhe fazia. Talvez fosse culpa da sua família que nunca lhe dera outra possibilidade senão o futebol. Agora não sabia bem o que fazer sem ele.
Na última vez que tocara a tela, viu-se um obrigado que indicava o término da entrevista. Pigarreou algumas vezes, passando os nós do indicador nos olhos.
Vira a tirinha de fotos e a pegara, observando a inscrição número às costas da tira. Quando notara que estava pronto para sair, saiu, reencontrando Amelia com um sorriso que não chegava aos olhos.
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O George disse que eu devia escrever sobre isso. Falou que é um jeito de alinhar meus pensamentos e registrar o que eu estou sentindo. É esquisito isso, na verdade. Eu nunca tentei organizar meus pensamentos dessa forma. De forma nenhuma. Eu nunca tinha passado por terapia, também. Mas o George é legal, eu gosto de conversar com ele. Ainda estou confusa de como fazer isso. Ele disse pra eu escrever coisas simples primeiro, sobre mim. Ok, vou começara agora então.
Eu me chamo Daisy Astrid LaFrant, eu tenho vinte anos. Eu gosto de sorvete e de gatos. Eu nasci em Nice, mas moro em Paris. Estou casada com meu primeiro namorado. A gente se mudou pra cidade grande faz dois anos, era meu grande sonho. Trabalho com jardinagem em um lugar horrível. Sou a pessoa que faz todas as funções que ninguém quer fazer. Eu moro em um apartamento do tamanho de uma caixa de sapato. Eu frequento um café todo dia e fico observando as pessoas, isso me faz bem. Eu adoro perfumes doces. Eu detesto frutas cítricas e eu adoro açúcar. E faz uma semana que eu interrompi uma gravidez. Eu sei, eu sei que eu não devia. Pelo menos, eu sei que se eu contasse pra alguém, eram o que me diriam. Mas o George disse que eu não fui egoista. E mesmo que eu tivesse sido, às vezes é importante ser egoista.
Talvez eu tenha sido, eu tirei uma vida, certo? Tenho tentado pensar que não era uma vida de verdade, não tinha nem um mês, devia ter o tamanho de um feijão. Mas dói.
Eu sempre sonhei em ter um filho, sabe? Eu sempre sonhei com estar casada com o amor da minha vida, eu sempre sonhei com morar em Paris. Eu sempre sonhei com ser capaz de me sustentar e ser feliz comendo um croissant por dia. Eu não devia estar feliz? Por que eu não consigo estar feliz? Por que eu não me sinto bem? Por que eu abortei?
Minha cabeça está doendo todos os dias. Eu não consigo olhar nos olhos nem do meu próprio marido. Eu não consigo falar com ninguém que não seja o George. Eu me sinto sufocada, não tem ar nesse apartamento inteiro. Esse apartamento é horrível. É sujo. Os canos estão aparecendo, está tendo um vazamento, o teto está mofando. Eu odeio meu trabalho. Eu odeio morar aqui, eu estou sempre exausta, cansada. Eu não sei o que fazer. Eu não sei o que pensar, eu não sei pra quem eu posso contar, pra quem eu quero contar. Ninguém. Acho que ninguém. Eu não tenho mais amigos, aqui. Minha vida gira em torno dele, tudo gira em torno dele. Quando eu me tornei essa pessoa? Eu sempre fui essa pessoa? Quando foi a última vez que eu me coloquei como prioridade? Quando foi a última vez que eu fiz algo por mim?
Quinta passada. Quando eu interrompi. Meu deus, eu interrompi uma gravidez, eu tava gravida. Eu estava gravida, eu não paro de sangrar, meu deus. Meu deus. Eu não sei. Eu não sei o que eu fiz, eu não sei como fazer. Como eu cheguei aqui? Como? Cada vez que eu penso nisso e tento respirar, sinto meu coração disparar, meus pulmões sufocarem. Algum dia eu vou conseguir viver com isso? Como eu vou conseguir minha vida sabendo que isso aconteceu? Como eu vou conseguir ser a mesma pessoa? Como eu deixei as coisas chegarem até aqui. A casa. O emprego. O casamento. Um aborto. Eu de dois anos atrás estaria me odiando nesse momento. E se o futuro for horrível? E se eu tiver feito a pior decisão da minha vida? E se eu me arrepender pra sempre? E se eu for embora?
Eu devia ter ouvido as pessoas, sabe? Disseram pra mim que era uma ideia ruim. Disseram que eu era nova demais, que eu estava indo rápido demais. Eu ainda sou nova. Eu ainda estou indo rápido demais. Eu me joguei de cabeça e continuo me jogando todos os dias. Eu me entreguei completamente, eu pensei que estava seguindo meu coração. Eu estava. Mas deixei de ouvir todas as outras coisas e pessoas. Eu devia ter pensado demais, eu não estaria nessa situação. Mas eu fui idiota, eu não pensei. Eu amo esse cara com todo o meu coração e talvez eu nunca mais encontre ninguém assim. Talvez não, talvez nunca, nunca mais. E se ele for o amor da minha vida, o único? Eu acredito em almas gêmeas e acho que eu com certeza é ele. Eu nunca mais vou achar isso, não posso. Não vou conseguir ter algo tão intenso quanto isso. Mas nesse momento eu não consigo estar mais aqui. Não posso. E eu não sei se algum dia ele vai me perdoar por isso. Não sei se um dia eu vou me perdar por isso.
Espero que daqui a cinco anos você tenha arrumado um diário de verdade para escrever. Chega de escrever em papéis e deixar por aí!
Eu estou escrevendo isso em um surto às 22:41 da noite porque estou procurando um emprego e comecei a pensar sobre o motivo de ter desistido da carreira de atriz e pensando em como, quando comecei, eu pensava que daqui uns cinco anos estaria atuando no West End, em Londres. Aquela coisa, sabe? Atuar em temporadas em Londres, voltar para casa, conversar com os pais na mesa da cozinha e rir... Nossa, acho que esse era o meu maior sonho. Agora parece muito distante e eu tô me perguntando o motivo. Tipo, eu canto bem, assim como também atuo bem, então por que parei? No começo nem tudo é muito certo, mas depois de um tempo era só ter insistido, sabe? Mas eu desisti muito fácil e eu não era assim. Porra, eu lutei pra ir pra faculdade, briguei com papai e mamãe, fiz greve falsa de fome! Eu não sou de me entregar tão fácil, mas sinto que, desde que saí da casa dos meus pais, eu meio que me entreguei. Nunca pensei em como isso mexeu comigo até agora.
A questão é que, vendo essa parte, como eu parei, decidi voltar. Na verdade, não tinha decidido até começar a escrever, mas agora eu penso que tem muitos espaços pela cidade, tem alguns teatros locais que da pra juntar um dinheiro e, eventualmente, partir pra Londres. Quem sabe daqui cinco anos, quando você ler essa carta, estejamos em algum papel no West End? Lembra quando o sonho era o West End? Por que deixamos no fundo do baú?
Nossa, eu espero muito coisa para daqui cinco anos. Primeiro que, a partir de agora, eu terei sempre uma companhia. É egoísmo pensar que tendo um filho eu não serei mais tão sozinha? Quer dizer, não que eu vá obrigar o bebê a me amar incondicionalmente, mas se eu for uma boa mãe, ele vai me amar, certo? E, cê sabe, nunca pensei muito como alguém que se desespera por ficar só. Não é uma preocupação. Mas também, agora, com 33, ficou um pouco triste, eu acho. Eu sei que não vai ser fácil, pode crer, com dois meses eu já estou surtando. Mas, agora, eu gosto da ideia...
Ok, voltando, espero que a gente chegue no West End daqui a cinco anos, assim como espero que você, Hyana do futuro, seja tão boa como sempre foi, mas também seja uma boa mãe. Não faça com o bebê o que fizeram com você, por favor! Me ajuda a te ajudar.
Enfim... Cinco anos, né? Daqui a cinco anos eu espero muito que estejamos em uma casa legal, espaçosa, e que estejamos conquistando nosso espaço também. Eu confio em você para realizar os sonhos que estou construindo agora, não me decepcione! E, por favor, não se esqueça de quem você é de verdade. O que você gosta, você gosta. Nunca precisou fingir por ninguém e não vai começar agora.
Ah, não se esqueça dos seus amigos em Malta!!!! Eles estão me dando a maior força agora, e provavelmente vão ser o pilar pra gente chegar onde estamos agora. Eu espero.