só queria ir no show. só isso.
eu fico me perguntando por que caralhos eu insisto em sonhar.
não tem ingresso barato, não tem passagem fácil, não tem apoio.
pesquisando site de rodoviária, olhando ingresso que muda de preço a cada dez minutos, fazendo conta que não fecha.
só pra ver a porra da banda que me faz sentir viva.
só pra estar lá, só uma vez.
pra mim, aparentemente, é.
tô trabalhando desde 2017 sem férias, sem salário, sem um pingo de liberdade.
minha vida virou um cronograma que não fui eu que escrevi.
e quando eu falo que quero ir, que ainda olho os ingressos, escuto:
“isso não é nossa realidade.”
como se fosse errado eu querer sair disso nem que seja por um dia.
como se meus sonhos fossem um capricho.
como se sentir fosse supérfluo.
e o pior é que eu nem pedi nada.
mas aí vem o peso, vem o “tem gente passando fome”, o “pelo menos temos o que comer”.
como se eu tivesse nascido só pra agradecer o mínimo.
como se fosse feio sonhar mais alto que o teto da nossa casa.
o ingresso abaixou. a passagem existe.
mas eu não tenho coragem.
não porque eu não queira — porque porra, como eu quero.
mas porque eu sempre fui a que faz tudo certo.
a que engole o choro e continua.
eu queria, pela primeira vez, dizer foda-se e ir.
mesmo se eu tivesse que dormir em rodoviária.
mesmo se eu tivesse que voltar no dia seguinte.
mesmo se eu estivesse sozinha na grade.
porque valeria a pena. cada centavo, cada cansaço.
mas parece que não vai rolar.