Tancredo e Clorinda
Tancredo e Clorinda são personagens centrais num episódio trágico do poema épico de Torquato Tasso, A Jerusalém Libertada, publicado pela primeira vez em 1581. Este episódio tornou-se particularmente famoso graças à adaptação musical de Claudio Monteverdi, "A luta de Tancredo e Clorinda", estreada em 1624.
A história desenrola-se durante a Primeira Cruzada, no contexto do cerco de Jerusalém.
Tancredo é um cavaleiro cristão, um dos principais líderes do exército cruzado. Ele apaixona-se perdidamente por Clorinda, uma bela e valente guerreira sarracena que luta no exército oposto. Numa noite, Clorinda disfarça-se com uma armadura masculina para incendiar as máquinas de cerco cristãs. Na sua fuga, é desafiada para um combate singular por Tancredo, que não a reconhece devido à escuridão e à sua armadura diferente.
Travam um duelo feroz e prolongado. Eventualmente, Tancredo fere Clorinda mortalmente. Ao vê-la a morrer, e sem saber a sua identidade, ele aproxima-se para lhe oferecer conforto espiritual. Clorinda, nos seus momentos finais, pede-lhe para a batizar na fé cristã, a religião na qual tinha nascido mas não tinha sido criada.
Clorinda nasceu de pais etíopes e foi criada na fé islâmica, sendo uma princesa guerreira muçulmana a serviço do rei de Jerusalém. A mãe de Clorinda, a rainha da Etiópia, era cristã. Antes do nascimento da filha, a mãe teve um sonho profético que a avisava de que a filha deveria ser batizada. A rainha confiou a filha recém-nascida a um servo eunuco de confiança, para que ele a criasse secretamente como cristã. O eunuco cumpriu a promessa e criou Clorinda, mas ela cresceu a acreditar que era muçulmana e tornou-se uma das mais ferozes guerreiras do exército sarraceno.
Quando Tancredo lhe levanta o visor do capacete para lhe dar água batismal, ele reconhece horrorizado o rosto da mulher que ama. A sua dor é imensa, mas ele cumpre o seu pedido. Clorinda morre em paz, com um sorriso, pois vê o céu abrir-se para a receber.
É esta revelação que torna a cena final tão dramática: ao remover o seu capacete para realizar o último desejo, Tancredo reconhece a sua amada Clorinda e cumpre, sem saber, o destino e o desejo original da mãe dela, salvando a sua alma antes da morte.
O episódio é um poderoso drama romântico e trágico que explora temas de amor, dever, identidade e conflito religioso. A sua adaptação por Monteverdi é considerada uma obra inovadora, notável pelo uso do "stile concitato" (estilo excitado), que pretendia expressar emoções intensas e a fúria do combate através da música. A obra de Tasso e a música de Monteverdi continuam a ser estudadas e representadas até hoje.
O tema de Tancredo e Clorinda teve uma presença significativa na pintura ocidental, especialmente durante os períodos do final do Renascimento, Maneirismo e Barroco. Os artistas foram atraídos pelo drama inerente e pela intensidade emocional do episódio, particularmente o momento trágico do batismo e revelação.
A versão de Domenico Robusti, conhecido como Domenico Tintoretto (filho do mais famoso Jacopo Tintoretto), sobre "Tancredo e Clorinda" é uma obra-chave do final do século XVI e início do XVII. A sua principal obra sobre o tema intitula-se "Tancredo Batizando Clorinda". Esta pintura pode ser vista no Museum of Fine Arts, Houston (MFAH).
A pintura condensa a ação do poema de Tasso no momento de maior intensidade dramática e emocional: Tancredo, chocado e com o coração partido, levanta o elmo de Clorinda para a batizar com água de um capacete, momentos antes da sua morte.
A obra afasta-se da serenidade clássica. Apresenta um dinamismo, uma composição em diagonal, e um uso intenso do claro-escuro que realça as figuras principais contra o fundo escuro da noite ou do campo de batalha.
Os gestos são exagerados e as expressões faciais são de profundo sofrimento e resignação, caraterísticas do estilo veneziano da época.
A armadura de Clorinda está caída ao lado, revelando o seu corpo ferido e a sua identidade feminina, enquanto ela aceita a fé cristã nos seus últimos momentos. É uma representação poderosa do conflito entre o amor romântico e o dever militar, e entre as crenças religiosas.
A versão de Giovanni Antonio Guardi sobre o tema "Tancredo e Clorinda" é intitulada A Luta entre Tancredo e Argante Com Clorinda em Segundo Plano. Esta obra encontra-se no Statens Museum for Kunst (Galeria Nacional da Dinamarca), em Copenhaga.
Ao contrário de Domenico Tintoretto, que se concentrou no momento íntimo e trágico do batismo, Guardi escolheu representar um momento de intensa ação e conflito anterior ao clímax fatal. A sua pintura ilustra um duelo diferente no poema de Tasso.
A pintura de Guardi capta um dos duelos entre Tancredo e Argante (outro guerreiro sarraceno). Clorinda não é a oponente direta de Tancredo nesta cena específica, mas sim uma observadora.
A obra é dominada pelas figuras de Tancredo e Argante em primeiro plano, trancados num combate feroz com as espadas erguidas. A composição é teatral e dramática, típica do estilo veneziano do século XVIII.
Clorinda aparece em segundo plano, montada a cavalo. A sua presença é ambígua e a sua atenção direciona o olhar do espectador para o calor da batalha, funcionando como um fulcro emocional da cena, mesmo não estando no centro da ação física.
A pintura de Guardi demonstra o seu domínio do estilo Rococó e a sua formação como pintor de história. Caracteriza-se por uma pincelada solta e vibrante, que cria uma sensação de movimento e energia, capturando a fúria do combate. Utiliza cores ricas e uma atmosfera que realça o drama, distanciando-se do claro-escuro mais sombrio do período barroco anterior.
Em resumo, a versão de Guardi é uma representação mais voltada para a ação e o dinamismo da batalha do que para o momento de redenção e morte, o que a distingue das interpretações mais comuns do tema.
A versão de Louis-Jean-François Lagrenée, de 1761, é uma das interpretações mais famosas e representa uma mudança estilística significativa em relação às obras barrocas anteriores de Tintoretto ou Guardi.
A pintura, intitulada "Tancredo e Clorinda" (Tancrède et Clorinde), está atualmente na Galeria Tretyakov em Moscovo.
A obra de Lagrenée é um excelente exemplo da transição entre o estilo Rococó e o início do Neoclassicismo francês. A tragédia do momento é suavizada por uma estética mais refinada e idealizada. As figuras têm posturas graciosas e os rostos são belos e expressivos, mas menos crus e dramáticos do que nas versões italianas do século XVII. A cena é cuidadosamente composta, focando-se no centro da ação: o batismo. O arranjo é claro e harmonioso, com uma luz suave que ilumina o grupo central e se dissipa para os cantos mais escuros.
Lagrenée tende a apresentar a cena num cenário que parece quase um cenário teatral ou uma paisagem idílica, em vez de um campo de batalha brutal, o que era comum no gosto Rococó pela beleza e pelo idílico, mesmo em temas sérios. Em vez do terror e do horror gótico da versão de Tintoretto, Lagrenée enfatiza a compaixão de Tancredo e a aceitação serena e quase sorridente de Clorinda moribunda, como descrito no poema de Tasso.
O artista barroco napolitano Luca Giordano (1634–1705) criou a sua própria versão do tema de Tancredo e Clorinda, que se destaca pelo seu estilo vibrante e dramático, caraterístico da escola de pintura napolitana do século XVII.
A obra mais notável de Luca Giordano sobre este tema intitula-se "Tancredo Batiza Clorinda". A pintura faz parte de uma prestigiada série de doze telas que ilustram vários episódios do poema épico A Jerusalém Libertada de Torquato Tasso. Esta série pertenceu originalmente à coleção do 9.º Conde de Santisteban e encontra-se agora dispersa ou sob a custódia da Fundación Casa Ducal de Medinaceli em Espanha.
A abordagem de Giordano difere das de Tintoretto ou Lagrenée pelo seu uso do barroco pleno. As suas obras são conhecidas pelo uso de cores ricas, brilhantes e por uma sensação de movimento intenso, que lhe valeu a alcunha de "Luca Fa Presto" (Luca Faz Depressa), devido à sua velocidade de execução.
Tal como outros artistas, Giordano foca-se no momento do batismo. A cena é encenada com grande teatralidade, utilizando a luz para guiar o olhar do espectador para a expressão de desespero de Tancredo e para o corpo moribundo de Clorinda.
A série completa de Giordano é particularmente interessante porque não se foca apenas no episódio principal, mas ilustra uma gama mais vasta de histórias de amor e batalhas do poema de Tasso, incluindo episódios de Olindo e Sofronia, ou Rinaldo e Armida.
Aniello Falcone (1607–1656), um pintor barroco italiano da escola napolitana, mais conhecido pelas suas cenas de batalha ("battaglie"), também abordou o tema de Tancredo e Clorinda.
A abordagem de Falcone ao tema reflete o seu domínio em representar ação e drama realistas, um pouco à semelhança do seu contemporâneo Luca Giordano.
Falcone era conhecido pelo seu realismo robusto, influenciado pelo naturalismo de Caravaggio e Ribera. A sua versão de Tancredo e Clorinda provavelmente exibe essa mesma crueza e intensidade.
A especialidade de Falcone em cenas de batalha sugere que a sua representação do episódio pode ter focado mais na violência e na tragédia do conflito do que no sentimentalismo ou na elegância idealizada de um artista como Lagrenée.
A obra retrata o momento em que Tancredo encontra Clorinda ferida mortalmente. É uma cena que permite a Falcone explorar a justaposição da armadura e do campo de batalha com a vulnerabilidade da morte e o ato sagrado do batismo.
As cenas são frequentemente carregadas de emoção, capturando o horror de Tancredo e a serenidade moribunda de Clorinda. O uso do claro-escuro foi eficaz para destacar a intensidade do momento, muitas vezes à luz da lua ou de uma tocha, realçando a armadura e os rostos. A armadura de Clorinda, que oculta a sua identidade feminina e a sua fé, é um elemento visual chave. A cena do batismo simboliza a reconciliação religiosa e a redenção da alma de Clorinda no momento da morte.
O tema proporcionou aos artistas uma oportunidade rica para combinar narrativas históricas (Cruzadas) com elementos de romance trágico e simbolismo religioso.
O poema de Tasso foi um dos textos seculares mais influentes da sua época, rivalizando com as histórias clássicas e mitológicas como fonte de temas para artistas. A sua popularidade garantiu que a trágica história de amor, guerra e identidade fosse amplamente representada.
A narrativa oferece uma rica paleta de emoções intensas – o fervor da batalha, o amor trágico, o reconhecimento tardio e a redenção espiritual. Estes temas ressoaram fortemente com os ideais estéticos do período Barroco, que valorizava o drama, o movimento e a capacidade de "mover o espírito" do espetador.
A cena do batismo, em particular, onde Tancredo batiza Clorinda moribunda, foi um momento-chave. Simboliza a purificação e a salvação da alma de Clorinda, uma guerreira muçulmana, através do sacramento cristão administrado pelo seu próprio assassino e amante. Esta justaposição de morte física e vida espiritual, e o elemento da revelação trágica, ofereceu um poderoso motivo visual.
Clorinda é uma das mais notáveis personagens de mulher guerreira na literatura e na arte, desafiando as normas de género da época. A sua representação com armadura, lutando em pé de igualdade com homens, atraiu o interesse de artistas que exploravam a dualidade entre feminilidade e força marcial.
Em suma, a cena de Tancredo e Clorinda é importante na história da arte como um paradigma da narrativa trágica, que permitiu aos artistas explorar emoções humanas universais e inovações técnicas, tanto na pintura como na música.
3 Dezembro de 2025










