O Néctar do Sado
O sol de agosto em SetĂșbal, no ano de 2025, nĂŁo era apenas uma fonte de luz; era um elemento sĂłlido, uma massa de calor que cheirava a maresia, a gasĂłleo dos barcos de pesca e, sobretudo, ao Ăłleo fervente das fritadeiras de choco. Na Avenida LuĂsa Todi, o coração pulsante da cidade, o mormaço instalava-se sobre as esplanadas como uma manta hĂșmida, fazendo com que os turistas suassem em lugares onde nem sabiam que tinham glĂąndulas sudorĂparas. Mas no meio do caos de pratos de plĂĄstico, guardanapos de papel que voavam com a brisa do Sado e gritos de gaivotas oportunistas, havia um ponto de ordem. Havia GanĂmedes.
GanĂmedes â ou simplesmente "Gani" para os clientes habituais e para o dono do cafĂ©, o Sr. Joaquim â nĂŁo era um prĂncipe de Troia, pelo menos nĂŁo daquela Troia cujas ruĂnas jaziam do outro lado do rio. Ele era o prĂncipe da "PĂ©rola do Choco", uma esplanada estratĂ©gica situada exatamente onde o cheiro a sardinha assada se cruza com o perfume caro das lojas de marca. Gani tinha vinte e poucos anos e uma beleza que parecia um erro genĂ©tico de tĂŁo perfeita. Tinha os caracĂłis dourados que pareciam esculpidos em manteiga de AzeitĂŁo, uns olhos da cor exata do Moscatel de SetĂșbal quando Ă© visto contra a luz de outubro, e uma pele bronzeada pelo sol da Figueirinha, sem nunca descascar.
A sua função era humilde, mas ele exercia-a com uma dignidade olĂmpica. Gani era o "moço de balcĂŁo" mais requisitado da PenĂnsula de SetĂșbal. Enquanto os seus colegas tropeçavam em carrinhos de bebĂ© e se esqueciam de trazer o picante, Gani flutuava. Ele equilibrava tabuleiros carregados de imperiais geladas com a destreza de um trapezista do circo Cardinali. Quando ele passava entre as mesas, o tempo sofria uma dilatação estranha. Os reformados que discutiam o preço do peixe no Mercado do Livramento calavam-se subitamente; as senhoras que bebiam chĂĄ morno esqueciam-se da canela; e atĂ© os polĂcias municipais, conhecidos pela sua firmeza, hesitavam em passar multas de estacionamento se Gani estivesse por perto a sorrir enquanto servia um cafĂ© curto.
O fenĂłmeno era puramente estĂ©tico, mas em SetĂșbal, a estĂ©tica Ă© polĂtica. Gani era o embaixador informal da cidade. Ele sabia que o segredo de uma boa imperial nĂŁo estava apenas na pressĂŁo do barril, mas no Ăąngulo em que o copo era entregue ao cliente. Ele sabia que um prato de choco frito, se nĂŁo viesse acompanhado por um limĂŁo cortado com simetria matemĂĄtica, era apenas comida; com ele, era uma oferenda sagrada.
No entanto, ser o mortal mais belo da margem sul tinha os seus desafios satĂricos. O Sr. Joaquim, um homem cujo pescoço tinha sido substituĂdo por uma prega de gordura endurecida por dĂ©cadas de fritos, sabia que Gani era o seu melhor ativo financeiro. "Gani, limpa a mesa cinco! EstĂŁo lĂĄ umas suecas que jĂĄ pediram trĂȘs garrafas de vinho sĂł para te verem a abrir o saca-rolhas!", gritava ele do balcĂŁo, com o suor a escorrer-lhe pela testa como se fosse o prĂłprio Rio Sado a transbordar.
Gani obedecia sem reclamar. Havia nele uma mansidão que raiava o divino. Ele não tinha ambiçÔes de ser modelo no Instagram, embora tivesse seguidores suficientes para derrubar o servidor da Meta se decidisse publicar uma foto em tronco nu na Praia de Albarquel. Ele gostava daquela vida. Gostava do som metålico dos talheres, do burburinho constante das gentes, do eco do sino da Igreja de S. Julião e da visão constante da Serra da Arråbida, que se erguia no horizonte como uma barreira de esmeralda contra o resto do mundo.
Mas o verĂŁo de 2025 trazia algo diferente no ar. A gentrificação tinha chegado a SetĂșbal com a força de uma traineira desgovernada. Os novos habitantes, que compravam apartamentos renovados no centro histĂłrico por preços que fariam um deus grego chorar, começavam a frequentar a "PĂ©rola do Choco". Olhavam para Gani nĂŁo apenas com admiração, mas com cobiça. Queriam levĂĄ-lo dali, transformĂĄ-lo num acessĂłrio de decoração para festas em coberturas de luxo ou num Ăcone de uma marca de chinelos sustentĂĄveis.
Gani, porĂ©m, permanecia imune. Ele pertencia Ă quela calçada, Ă quele cheiro de rio misturado com lodo e esperança. O que ele nĂŁo sabia â e o que ninguĂ©m naquela avenida movimentada poderia prever â Ă© que a cobiça nĂŁo vinha apenas de agentes de modelos ou de reformados ricos de Cascais. AlguĂ©m muito mais poderoso, alguĂ©m que observava o mundo atravĂ©s de binĂłculos de ouro a partir de uma suĂte presidencial no Troia Design Hotel, tinha posto os olhos nele.
LĂĄ em cima, num Olimpo improvisado com ar condicionado central e serviço de quartos de vinte e quatro horas, Zeus (que na Terra usava o pseudĂłnimo de "Dr. ZĂ© Vasconcelos", um consultor internacional de Ă©tica duvidosa) estava aborrecido. O nĂ©ctar que lhe serviam no hotel sabia a conservantes. A ambrosia era apenas mousse de chocolate de pacote. Ele precisava de algo autĂȘntico. Ele precisava do brilho que sĂł o rapaz da "PĂ©rola do Choco" possuĂa.
Enquanto Gani limpava uma mancha de ketchup de uma mesa de metal, o cĂ©u sobre o estuĂĄrio começou a ganhar uma tonalidade dourada artificial, um filtro de Photoshop em tempo real que anunciava que a normalidade estava prestes a ser revogada por decreto divino. Gani olhou para o relĂłgio; o seu turno estava quase a acabar. Mal sabia ele que o seu prĂłximo turno duraria uma eternidade, e que o uniforme de avental seria em breve substituĂdo por algo muito mais leve, mas infinitamente mais pesado de carregar.
A profecia da beleza estava prestes a cumprir-se sob o som ruidoso de uma ĂĄguia que, naquele momento, sobrevoava o Montijo e ajustava os seus Ăłculos de aviador para o mergulho final.
Eram precisamente dezasseis horas e quarenta e cinco minutos quando o tempo em SetĂșbal decidiu descarrilar. O microclima da ArrĂĄbida, habitualmente previsĂvel nas suas brisas vespertinas, estagnou. Na esplanada da "PĂ©rola do Choco", o ar tornou-se subitamente espesso, com uma densidade de xarope que tornava difĂcil atĂ© o ato de pedir uma bica cheia. Os clientes, mergulhados num torpor pĂłs-prandial exacerbado pelo vinho da casa, nĂŁo notaram imediatamente a sombra que se projetava sobre a estĂĄtua de Bocage.
GanĂmedes estava a limpar a mesa sete â uma mesa difĂcil, ocupada por um grupo de turistas que insistia em comer as cascas das gambas â quando sentiu um arrepio na espinha que nĂŁo vinha do ar condicionado. No horizonte, sobre o edifĂcio da Segurança Social, o cĂ©u rasgou-se. NĂŁo era um rasgĂŁo de trovoada, mas uma distorção Ăłtica, como se alguĂ©m tivesse aplicado um filtro de "Saturação Divina" sobre o azul do Sado.
Foi entĂŁo que ela apareceu. Do topo do prĂ©dio mais alto da zona, uma silhueta desceu com a velocidade de um mĂssil de cruzeiro. Ă medida que se aproximava, a silhueta ganhava definição: era uma ĂĄguia, sim, mas uma ĂĄguia que parecia ter saĂdo de um catĂĄlogo de moda hipster de luxo. Tinha uma envergadura de asa que cobria trĂȘs faixas de rodagem da Avenida LuĂsa Todi e, fixos sobre o bico adunco e dourado, ostentava uns Ăłculos de sol de aviador que refletiam, com uma nitidez perturbadora, toda a frente ribeirinha da cidade.
â Foge, Gani! Ă o fisco! â gritou o Sr. Joaquim, agitando um pano de cozinha gorduroso, convencido de que aquela ave de rapina era o novo drone de fiscalização da Autoridade TributĂĄria.
Mas Gani nĂŁo fugiu. Estava paralisado, nĂŁo pelo medo, mas por uma sĂșbita compreensĂŁo estĂ©tica. A ĂĄguia nĂŁo cheirava a penas ou a animal selvagem; cheirava a um perfume caro de duty-free, uma mistura de Ăąmbar, sĂąndalo e poder absoluto. A ave aterrou com a leveza de um floco de neve sobre o balcĂŁo de metal, derrubando apenas um cinzeiro de plĂĄstico da Sagres.
O silĂȘncio na avenida foi absoluto. AtĂ© as gaivotas, habitualmente as donas do pedaço e conhecidas pela sua agressividade sociopata, recuaram para cima dos telhados, observando a cena com um respeito que nunca tinham concedido a nenhum inspetor de pescas.
A ĂĄguia olhou para GanĂmedes. Por trĂĄs das lentes espelhadas dos Ăłculos de sol, o jovem viu o cosmos. Viu galĂĄxias a nascer, viu a queda de impĂ©rios e, inexplicavelmente, viu o resultado do VitĂłria de SetĂșbal para a prĂłxima dĂ©cada. A ave soltou um grito que soou como um acorde de harpa distorcido por um amplificador de estĂĄdio.
â GanĂmedes de AzeitĂŁo! â a voz nĂŁo saĂa do bico da ave, mas parecia ressoar diretamente dentro do crĂąnio do rapaz. â O Dr. ZĂ© Vasconcelos tem uma proposta de emprego para ti. O estĂĄgio profissional acabou. EstĂĄs convocado para o Conselho de Administração do Universo.
Sem esperar por uma resposta ou por uma carta de recomendação, a åguia cravou as suas garras de ouro nos suspensórios de cabedal do avental de Gani. Com um bater de asas que levantou uma nuvem de guardanapos e fez voar os chapéus de sol de cinco esplanadas vizinhas, a criatura elevou-se.
O rapto foi acompanhado por uma banda sonora improvisada de buzinas de carros presos no trĂąnsito e gritos de "Ă senhor guarda, olhe o rapaz!". GanĂmedes, suspenso a trinta metros de altura, viu a sua vida passar-lhe Ă frente dos olhos: os verĂ”es na Figueirinha, as noites na discoteca Absurdo, as bifanas no "Rei do Choco". Mas, Ă medida que subiam, a nostalgia era substituĂda por uma estranha euforia.
Sobrevoaram o Ferry-Boat, que parecia um brinquedo de banheira cortando as ĂĄguas verdes do estuĂĄrio. Os golfinhos roazes, os famosos residentes do Sado, saltaram em unĂssono numa saudação coreografada que parecia retirada de um espetĂĄculo de Las Vegas. Gani olhou para baixo e viu o Sr. Joaquim, minĂșsculo na LuĂsa Todi, a tentar anotar o nĂșmero da matrĂcula da ĂĄguia num bloco de pedidos.
â Para onde me levas? â perguntou Gani, enquanto o vento da ArrĂĄbida lhe despenteava os caracĂłis perfeitos. â Tenho o turno da noite! O Sr. Joaquim corta-me as pernas se eu faltar!
â O Sr. Joaquim agora Ă© o menor dos teus problemas, Ăł rapaz â respondeu a ĂĄguia, enquanto ajustava a rota em direção Ă PenĂnsula de Troia. â Vais servir nĂ©ctar que nĂŁo vem em pacotes de cartĂŁo. Vais servir deuses que reclamam mais do que os turistas alemĂŁes, mas que pagam em imortalidade.
A åguia Zeus (pois quem mais poderia ostentar tal arrogùncia aviåria?) fez uma curva apertada sobre a Ponta do Adoxe. O destino não era o Monte Olimpo clåssico, mas uma reinterpretação moderna do mesmo: uma cobertura triplex com piscina infinita no topo de uma das torres de Troia, um lugar onde o acesso era restrito a deuses, semideuses e detentores de contas offshore de alto gabarito.
Ă medida que desciam para o heliporto privado da cobertura, decorado com estĂĄtuas de mĂĄrmore que piscavam o olho aos visitantes, GanĂmedes percebeu que o seu mundo de imperiais e choco frito tinha acabado. Ele estava prestes a entrar num domĂnio onde a etiqueta era mortal e o vinho nunca acabava. A ĂĄguia largou-o suavemente sobre um tapete persa que custava mais do que todo o stock de bebidas da "PĂ©rola do Choco".
A ave sacudiu as penas e, num clarĂŁo de luz que cheirava a ozono e a loção pĂłs-barba de luxo, transformou-se. Ali, diante de Gani, estava um homem de meia-idade, com um bronzeado de quem passa a vida em iates, vestindo uma camisa de seda aberta atĂ© ao terceiro botĂŁo e uma pulseira dourada que brilhava mais do que o sol de SetĂșbal.
â Bem-vindo a Troia, miĂșdo â disse Zeus, tirando os Ăłculos de sol. â Deixa o avental na entrada. O nĂ©ctar estĂĄ no frigorĂfico inteligente e a Afrodite jĂĄ se estĂĄ a queixar que o copo dela estĂĄ vazio. Começa o teu turno.
GanĂmedes olhou para trĂĄs, para a linha do horizonte onde SetĂșbal ainda brilhava, pequena e barulhenta. O rapto estava concluĂdo. A ascensĂŁo tinha começado. E, pela primeira vez na histĂłria da mitologia, o copeiro dos deuses estava preocupado se teria deixado o gĂĄs ligado na sua kitchenette no Bairro do Viso.
A transição de GanĂmedes da esplanada da LuĂsa Todi para a cobertura triplex do "Olimpo-Troia" foi tĂŁo abrupta como uma mudança de canal num televisor avariado. Num minuto, ele estava a limpar o balcĂŁo com um pano que jĂĄ tinha visto dias melhores; no outro, estava de pĂ© sobre um mĂĄrmore tĂŁo branco e polido que conseguia ver o reflexo do seu prĂłprio espanto. O ar ali em cima era diferente. NĂŁo tinha o cheiro a escape dos autocarros da Carris Metropolitana; era filtrado, ionizado e perfumado com uma essĂȘncia subtil de "Ouro e ArrogĂąncia".
Zeus â ou Dr. ZĂ© Vasconcelos, para os efeitos do contrato de arrendamento â gesticulou para o horizonte.
â Tudo o que vĂȘs Ă© teu, miĂșdo. Ou melhor, Ă© meu, mas tu podes servir aqui.
O deus, agora com um roupĂŁo de seda que custava o PIB de uma pequena nação, conduziu GanĂmedes atĂ© ao bar. NĂŁo era um bar comum. As garrafas nĂŁo tinham rĂłtulos; tinham selos de cera com sĂmbolos antigos. O gelo nĂŁo vinha de uma mĂĄquina barulhenta, mas era esculpido diretamente de glaciares esquecidos por ninfas de ĂĄguas geladas.
â O teu trabalho Ă© simples â explicou Zeus, enquanto servia a si prĂłprio uma dose generosa de algo que brilhava como luz lĂquida. â MantĂ©m os copos cheios. A Hebe, a minha filha, era uma miĂșda despachada, mas decidiu tornar-se influencer de "vida saudĂĄvel" e agora sĂł bebe sumos verdes e recusa-se a servir ĂĄlcool aos tios. O Olimpo estava a secar, Gani. E os deuses com sede sĂŁo... digamos que o Ășltimo empregado acabou transformado num vaso de begĂłnias.
GanĂmedes engoliu em seco. A imortalidade, ao que parecia, vinha com uma clĂĄusula de risco profissional elevada. Ele recebeu o seu novo uniforme: uma tĂșnica de linho egĂpcio, cortada por um alfaiate italiano que provavelmente tinha vendido a alma a Hermes, e umas sandĂĄlias de couro que se ajustavam sozinhas aos seus pĂ©s. De repente, o seu avental da "PĂ©rola do Choco" parecia uma relĂquia de uma era primitiva.
A primeira tarefa de Gani foi servir o banquete daquela noite. Os deuses tinham começado a chegar para o "Troia Summer Festival", uma reunião anual que a imprensa local pensava ser apenas um encontro de magnatas das criptomoedas.
Ares foi o primeiro a reclamar. O deus da guerra, que na Terra se apresentava como um mercenĂĄrio de elite reformado com tatuagens tribais e um temperamento explosivo, atirou o copo para o chĂŁo.
â Isto Ă© nĂ©ctar ou Ă© sumo de pacote?! â rugiu ele. â Eu pedi nĂ©ctar de 1945, o ano da vitĂłria! E onde estĂĄ o meu choco frito? Disseram-me que o novo copeiro era de SetĂșbal!
Gani, mantendo a calma que sĂł anos a lidar com clientes bĂȘbados na noite de S. Tiago podem conferir, sorriu o seu sorriso mais magnĂ©tico.
â Senhor Ares, o nĂ©ctar estĂĄ a decantar. Entretanto, tome este Moscatel de SetĂșbal, reserva especial de 2025. Ă o Ășnico lĂquido na Terra que consegue apagar o fogo de uma batalha ou começar uma nova.
Ares bebeu, rosnou de satisfação e sentou-se. GanĂmedes tinha passado o seu primeiro teste: a diplomacia do balcĂŁo.
No entanto, o verdadeiro perigo não vinha dos deuses barulhentos, mas da sombra silenciosa que observava tudo de uma cadeira de baloiço de design escandinavo junto à piscina infinita. Hera, a rainha dos deuses, não estava impressionada. Para aquela ocasião, ela tinha assumido a forma de uma baronesa europeia de idade indefinida, com um chapéu de abas largas, óculos escuros que custavam o preço de um T2 no Bonfim e um sotaque alemão que cortava como uma faca de peixe.
Ela odiava GanĂmedes. NĂŁo porque ele fosse ineficiente, mas porque ele era demasiado perfeito. Ele era um lembrete vivo das escapadelas do marido e da sua preferĂȘncia pela beleza mortal sobre a etiqueta divina.
â Serviço amador â sussurrou ela, quando GanĂmedes lhe serviu uma taça de ambrosia com uma folha de hortelĂŁ da ArrĂĄbida. â Na minha Ă©poca, os copeiros tinham pedigree. Este cheira a marĂ© baixa e a trabalho honesto. Que horror.
Hera começou então a sua campanha de sabotagem passivo-agressiva. Ela não usava raios; usava a tecnologia moderna. Munida de um iPhone de ouro, ela passava o dia a publicar avaliaçÔes negativas em plataformas que só os deuses liam.
"O novo copeiro Ă© lento", escrevia ela no DivinAdvisor. "A ambrosia estava morna e ele olhou para mim como se eu fosse uma turista alemĂŁ em busca de descontos. NĂŁo recomendo. Zero estrelas."
A pressĂŁo começou a aumentar. GanĂmedes via-se a correr entre a cozinha industrial de alta tecnologia e o terraço, servindo Afrodite â que queria nĂ©ctar com baixo teor calĂłrico â e Poseidon, que tinha chegado diretamente do porto de SetĂșbal e exigia que a ĂĄgua da piscina fosse substituĂda por ĂĄgua salgada porque a sua pele estava a ficar "demasiado seca".
â Gani, traz-me um cinzeiro! â gritava Zeus.
â Gani, a minha toalha estĂĄ hĂșmida! â reclamava Apolo.
â Gani, o Wi-Fi do Olimpo nĂŁo chega Ă zona das espreguiçadeiras! â queixava-se Hermes.
No meio deste caos divino, GanĂmedes começou a sentir uma saudade estranha e dolorosa. Tinha saudades do Sr. Joaquim a gritar por causa de um prato partido. Tinha saudades do barulho dos carros na LuĂsa Todi e atĂ© das gaivotas que tentavam roubar comida. Ali, na imortalidade de Troia, tudo era perfeito demais, frio demais, e terrivelmente vigiado pelos olhos vingativos de Hera.
Certa noite, enquanto limpava as taças de cristal depois de uma orgia de nĂ©ctar particularmente ruidosa, GanĂmedes olhou para o outro lado do rio. As luzes de SetĂșbal brilhavam como pequenas brasas na escuridĂŁo. Ele era agora imortal, jovem para sempre e copeiro do criador do universo. Mas, enquanto Hera escrevia mais uma crĂtica negativa no seu blogue divino, Gani percebeu que a eternidade era muito tempo para passar a servir pessoas que nunca diziam "obrigado" e que se esqueciam de deixar gorjeta.
O que ele nĂŁo sabia era que Hera estava a planear algo mais do que apenas mĂĄs crĂticas. Ela tinha contactado a ASAE Divina. O estĂĄgio de GanĂmedes estava prestes a tornar-se um problema cĂłsmico, e Zeus, como sempre, estava demasiado ocupado a admirar o seu prĂłprio reflexo na piscina para notar que a tempestade que se aproximava nĂŁo era da sua autoria.
A rotura definitiva no Olimpo-Troia aconteceu na noite de S. Tiago, a data em que SetĂșbal se incendeia em feiras, carrossĂ©is e o cheiro a sardinha assada atravessa o rio como um convite pecaminoso. Enquanto na margem norte a cidade celebrava a sua humanidade barulhenta, na cobertura do triplex de Zeus, a atmosfera era de um tĂ©dio cortante. Os deuses estavam na fase "melancĂłlica" da imortalidade, aquela em que nem o nĂ©ctar mais puro consegue disfarçar o facto de que jĂĄ viram tudo o que havia para ver desde o Big Bang.
GanĂmedes, porĂ©m, estava inquieto. Do seu posto de observação junto Ă piscina infinita, ele via os fogos-de-artifĂcio subirem sobre o AuditĂłrio JosĂ© Afonso. Ele sentia a falta da vibração do chĂŁo, do suor honesto de um turno de doze horas e da liberdade de poder mandar um cliente para o tĂĄrtaro sem que isso causasse um incidente diplomĂĄtico intergalĂĄctico.
Hera, que não dormia nem deixava dormir, decidiu que aquela era a noite do golpe final. Disfarçada com um robe de seda de padrão de pavão, ela aproximou-se de Zeus, que tentava equilibrar um jarro de Moscatel na cabeça enquanto fazia um Live para o seu "InstaGod".
â ZĂ©, querido â disse ela, com uma voz que soava a gelo picado. â O teu "achado" de SetĂșbal estĂĄ a dar prejuĂzo. A ASAE Divina enviou-me um relatĂłrio. Ele nĂŁo tem formação em higiene e segurança alimentar do Olimpo. AlĂ©m disso, as crĂticas no TripAdvisor dizem que ele passa mais tempo a olhar para a margem de lĂĄ do que para as nossas taças. Ele quer voltar, ZĂ©. Ele prefere o choco frito Ă nossa ambrosia.
Zeus, cujo ego era mais instĂĄvel do que a economia mundial, sentiu uma pontada de ciĂșme divino.
â Preferir SetĂșbal ao meu triplex? â rugiu ele, fazendo com que o vinho no jarro transbordasse e criasse uma pequena tempestade sobre o porto de SetĂșbal. â Eu dei-lhe sandĂĄlias de couro italiano! Eu dei-lhe a imortalidade sem ele ter de pagar a taxa turĂstica!
O deus levantou-se, transformando o seu robe em luz pura. O seu sotaque de consultor de luxo desapareceu, dando lugar à voz do trovão que faz tremer as fundaçÔes da Serra da Arråbida.
â GanĂmedes! â gritou ele, fazendo com que todos os copos de cristal na cobertura estalassem. â Queres ser mortal de novo? Queres voltar para a mediocridade das gorjetas de dois euros e dos turnos de domingo?
Gani, que estava a polir uma taça de prata, olhou para o deus.
â Com todo o respeito, Dr. ZĂ©... senhor Zeus... lĂĄ em baixo, as pessoas riem-se de verdade. Aqui em cima, vocĂȘs sĂł se riem dos outros. Eu prefiro o barulho do Sado ao silĂȘncio deste mĂĄrmore.
A fĂșria de Zeus foi imediata, mas nĂŁo foi a fĂșria da destruição; foi a fĂșria da posse. Se GanĂmedes nĂŁo queria ser o seu copeiro privado em Troia, seria o seu copeiro pĂșblico para a eternidade.
â Se amas tanto essa cidade, entĂŁo vais vigiĂĄ-la para sempre! â declarou Zeus. â Mas nĂŁo como um homem. Vais ser o farol dos bĂȘbados, o guia dos perdidos e o sĂmbolo de que o copo nunca deve estar vazio!
Com um gesto largo, Zeus agarrou GanĂmedes pelos ombros. O corpo do jovem começou a dissolver-se, nĂŁo em cinzas, mas em fotĂ”es de alta intensidade. A tĂșnica de linho transformou-se em plasma estelar; as sandĂĄlias de couro tornaram-se cometas. Num grito que foi confundido com o maior foguete da Feira de Sant'Iago, GanĂmedes foi lançado para o firmamento.
Mas houve um erro de cĂĄlculo. Zeus tinha bebido demasiado licor de poejo e a sua pontaria divina estava afetada. Em vez de colocar GanĂmedes na esfera das estrelas fixas, a milhĂ”es de anos-luz de distĂąncia, o rapaz ficou "preso" na atmosfera superior, mesmo por cima da cidade de SetĂșbal. A interferĂȘncia magnĂ©tica das antenas da operadora NOS e os vapores persistentes da zona industrial da Mitrena criaram um fenĂłmeno surrealista: GanĂmedes nĂŁo se tornou uma constelação clĂĄssica composta por pontos de luz. Tornou-se um Holograma CĂłsmico Gigante.
Naquela noite, os setubalenses pararam. No cĂ©u noturno, entre a lua e o Castelo de SĂŁo Filipe, apareceu a figura de um jovem de caracĂłis dourados, segurando um jarro de barro de AzeitĂŁo. De forma contĂnua e silenciosa, o vulto vertia um lĂquido Ăąmbar que, ao cair, se transformava em poeira estelar antes de tocar nas ĂĄguas do Sado.
A sĂĄtira final deu-se quando as agĂȘncias de marketing perceberam o potencial da coisa. Em poucos dias, a imagem de GanĂmedes no cĂ©u nĂŁo era vista como um milagre religioso ou um fenĂłmeno astrofĂsico, mas como a maior campanha de publicidade exterior da histĂłria de Portugal. A CĂąmara Municipal de SetĂșbal apressou-se a declarar a "Constelação do Moço do BalcĂŁo" como PatrimĂłnio Imaterial da Humanidade, enquanto o Sr. Joaquim, na LuĂsa Todi, colocava uma placa na porta do restaurante: "Antiga Casa de GanĂmedes â O Ănico Estabelecimento com Empregado no Espaço".
Hera, em Troia, sorria vitoriosa. Tinha-se livrado da presença do rapaz na sua cobertura, embora agora tivesse de fechar as cortinas todas as noites porque a luminosidade do holograma do ex-copeiro era de 500 mil lĂșmens, o que arruinava os seus banhos de lua.
E quanto a GanĂmedes? LĂĄ em cima, suspenso entre o oxigĂ©nio e o vĂĄcuo, ele descobriu que a eternidade era, afinal, bastante tolerĂĄvel. Ele tinha a melhor vista do mundo. Ele via os pescadores saĂrem ao amanhecer, via os namorados trocarem promessas nas muralhas do forte e, acima de tudo, via que o seu jarro infinito parecia abençoar as vinhas da regiĂŁo. O vinho de SetĂșbal nunca soube tĂŁo bem como depois daquela noite.
Diz a lenda urbana que, em noites de nevoeiro cerrado, quando a estĂĄtua de Bocage parece ganhar vida, GanĂmedes desce um pouco mais baixo, atĂ© ao nĂvel dos telhados da Baixa de SetĂșbal. Nessas noites, se deixares um copo vazio no parapeito da janela, acordarĂĄs com um leve cheiro a nĂ©ctar divino e a brisa marinha. Ele continua a ser o copeiro, mas agora serve a quem realmente tem sede: os mortais que, entre uma imperial e um prato de choco, ainda tĂȘm tempo para olhar para cima e sonhar com deuses que usam Ăłculos de sol.
O mito de GanĂmedes em SetĂșbal fechou-se assim: nem prĂncipe, nem escravo, mas uma marca registada no cĂ©u, lembrando a todos que, nesta cidade, atĂ© o rapto mais terrĂvel pode acabar em festa, vinho e uma excelente vista sobre a ArrĂĄbida.











