um dia nos encontraremos com o coração menos duro e as certezas menos solidificadas. algum dia nos encontraremos com os olhos mais calmos e o perdão pedindo pra voltar. mas talvez eu não te perdoe, de mim não sei muito. quando lia Clarice Lispector na minha adolescência e imaginava o quão longe e aturdida ela estava pela ideia do amor, nunca imaginei que em algum momento poderia supor chegar a um estado parecido ou equânimo. acontece que, depois de você, caminho pelas ruas da cidade com todo o medo de alguém saltar meus ombros e me demandar amor. tenho medo de me pedirem reciprocidade e todas essas coisas que não fazem sentido quando o amor não é uma ciência exata, mas sim permissões e concessões: eu decido compartilhar com você meu corpo, minha pele, minha memória angustiada, os centímetros da minha fala, a maneira com a qual meus pés se desenrolam, meu medo de aranha e multidão. você decide me oferecer melancia no café da manhã, me levar aos parques da cidade, às livrarias mais charmosas do centro, às festas mais legais do bairro, àquela parte tua que ninguém nunca foi. e talvez o mistério das obras Clariceanas esteja no fato de que Clarice sempre foi no âmago das discussões, pessoas e palavras. se eu ousar fazer o mesmo, enlouqueço ou me torno mais lúcido? um dia nos encontraremos e minha lucidez estará à frente da minha vontade de te perdoar. quem sabe daqui a uns anos você adquira corpo, memória, intuição? quem sabe daqui a uns anos eu adquira estômago, racionalidade e um pouco de maciez? queria te perdoar e eliminar todas as toxinas de mim. mas se meu âmago é sujo e dependente, por qual dos meus discursos você criará certa empatia? quero te encontrar daqui a uns anos com meu âmago experienciado pelo sabor da vida. explico: até nos reencontrarmos, quem sabe no Arpoardor num calor de trinta graus, quem sabe na fria e paulistana rua Augusta, quero ter adquirido maturidade e humanidade suficientes pra poder te conceder um abraço, um sorriso sincero e uma conversa tão esclarecedora que nem deus suporia que poderíamos ter. quero te ver homem grande, como sei que é. quero que me veja também homem grande, como sei que sou. quero que entendamos sobre o tempo e suas peripécias e sobre o quanto tentar é importante. no jogo do amor não há derrotas — há, na verdade, dois ou três âmagos que decidiram não viver separados, distantes do seio do universo... um dia nos encontraremos e você me confessará que na sua memória ainda existe espaço pra nós dois, que na escrivaninha do seu quarto ainda restam os livros com os quais te presenteei, que minhas falas perduraram na sua cabeça e te guiaram por um caminho menos trabalhoso em se tratando de relacionamentos. vai me falar sobre entregas, que é difícil se doar pra alguém pois o medo da dor por vezes é maior, que eu fui bom pra você e vice-versa. vou te confessar que a vida é um sopro que quando se vê, já foi embora. que devemos aproveitar todos os espaços concedidos, entre um trabalho e outro, relacionamento e outro, conexão e outra. contar que amadureci ao ponto de não ficar mais intrigado com a maneira umbrosa com que terminamos e com os destinos nos afastando de forma tão brutal. talvez âmago seja mesmo essa coisa disforme que fica em nós depois que outra pessoa decide pisar fundo até faltar o ar. faltou pra mim, muitas vezes. daqui a uns anos, te encontrar sereno e realizado. me encontrar sereno e realizado. com o coração menos amargurado e a vida mansa.
um dia nos encontraremos menos Clarice, mais Eu e Você: completamente entendíveis e compreensíveis um pro outro, como nunca fomos