Nada mais exaustivo do que oferecer o peito inteiro
e descobrir, tarde demais,
que havia somente mĂŁos procurando abrigo para si.
Uma casa construĂda sobre o vento.
onde apenas um prato voltava vazio.
Tanto esforço para traduzir o indizĂvel.
Tantas camadas retiradas uma a uma,
como quem acredita que a nudez absoluta obrigarĂĄ o mundo a compreender.
E o mundo olhando apenas a pele.
O corpo também soube antes.
O corpo infeccionando como um animal acuado.
Toda célula gritando aquilo que a linguagem, tão elegante e tão filosófica, insistia em explicar com delicadeza.
Havia um desejo atravessando outro sem jamais perguntar se existia alguém do outro lado.
Que extraordinĂĄria ironia.
Encontrar apenas uma sucessĂŁo de gestos incapazes de perceber que existe um universo inteiro escondido sob a pele alheia.
E ainda chamar isso de intimidade.
A memĂłria Ă© uma arquiteta cruel.
Levanta catedrais sobre ruĂnas.
Pinta vitrais onde existiam paredes mofadas.
Transforma migalhas em banquetes.
Faz acreditar que o vazio nasceu com a despedida,
quando o vazio jĂĄ dormia na cama muito antes do adeus.
Morreu a fantasia de que bastaria amar o suficiente para ensinar alguém a enxergar.
Ninguém aprende a contemplar uma floresta porque outra floresta resolveu florescer diante dos olhos.
Ărvores continuam invisĂveis para quem atravessa o mundo procurando apenas madeira.
Que libertação obscena.
Descobrir que a tragédia não foi perder um lar.
Foi insistir em chamar de lar um lugar onde nem o silĂȘncio encontrava repouso.
Agora resta apenas uma sala vazia.
A mobĂlia retirada Ă s pressas.
As marcas dos quadros ainda impressas na parede.
E, pela primeira vez, nenhuma vontade de trazer outra pessoa para morar ali imediatamente.
Talvez o vazio nĂŁo seja um inimigo.
Talvez seja apenas o som de uma casa sendo desocupada das ilusÔes.
Talvez exista uma dignidade feroz em caminhar pelos prĂłprios cĂŽmodos, ainda escuros, ainda frios, ainda desconhecidos.
Porque hĂĄ portas que sĂł se revelam depois do incĂȘndio.
E hĂĄ ruĂnas que finalmente param de fingir que eram palĂĄcios.