Eram seis da manhã. Lá estava eu — perdido em uma BR qualquer, sob a maior chuva e as maiores lágrimas que já caíram sobre mim. Sem rumo. Sem vontade de existir. Sem medo de morrer.
Tudo começou em uma data comemorativa. Tinha pensado em tudo: a nossa música, o nosso lugar, o nosso dia. A nossa história parecia ter saído de um filme, e eu tinha certeza de que, depois de um ano, merecíamos celebrar como no início. Ela nunca tinha recebido flores na vida, estava feliz por ser alguém inédito naquela caótica vida. Era o meu jeito de mostrar que, em meio ao caos que a cercava, ela ainda era alguém digna de ternura. Eu também não estava acreditando naquilo — estava realizando um sonho. Não pelo o que eu tinha acabará de fazer, sim por fazer pela pessoa que eu julgava ser a mais incrível que já tinha conhecido.
Mas, por trás de tudo, a noite começava a desmoronar. Estávamos mudando. O mundo estava nos desgastando. E nós dois sabemos que corações podem mudar. Ela ainda sorria — eu também, mas cada vez menos.
Era uma época difícil. Eu vivia meus dois primeiros infernos, e minha mente já era um campo minado. Sentia que o meu corpo inteiro era um gatilho, que todos os meus pensamentos eram como projeteis apontados diretamente para a minha mente se transformar em estilhaços. Ela era meu ponto de paz em meio à loucura. Eu podia estar em ruínas, mas aquele pequeno sorriso me fazia sentir mais feliz do mundo. Eu poderia descansar minha cabeça, só de saber que você era minha. Toda minha. Ela me dava suporte e forças de lugares em que eu não encontrava mais, foi um reconforto para a situação que cada vez se parecia mais critica em nossas vidas, então quando eu perdia isso, não sobrava nada da minha consciência, estava emocionalmente dependente dela. Até que, naquela noite que deveria ser inesquecível, tudo se arruinou. E foi inesquecível — da pior forma possível.
Em segundos, depois de alguns desentendimentos, eu me vi perdido, minha mente nunca foi tão frágil. Entre fotos, lembranças, e lágrimas que desciam sem pedir licença. A montanha-russa aterrorizante, que aos poucos eu havia me acostumado, virou abismo. Não havia mais sintonia. A conexão que parecia eterna, finalmente se quebrou. E eu finalmente percebi.
Então, em uma tentativa desesperada de salvar aquela noite, nós fugimos. Ela já estava perdida — e eu, me perdendo junto. Não havia mais forças. O amor, descobri, que não é invencível. Não é inesgotável. E naquela noite, eu cheguei ao meu limite. Larguei tudo. Fui embora do carro sem pensar. Não por covardia, jamais faria isso, mas foi por exaustão. Sair era a única forma de continuar respirando, eu já estava me afogando em desespero.
Sempre me perguntei o que levava alguém a cruzar o limite da razão.
Agora eu sabia. Bastam alguns segundos para o colapso. Mesmo a pessoa mais centrada é capaz de se quebrar. E eu que sempre me achei inteiro, virei fragmento de loucura. Corri de tudo — dos meus pesadelos, das memórias, de mim mesmo.
Chovia muito, por fora e por dentro. E quanto mais eu andava, mais o desespero crescia. Eu já tinha me perdido, junto com a lucidez que ainda me restava. Nenhum pensamento era bom o bastante para me manter são. Todos estavam lutando para tomar o controle, e nenhum fazia sentido. Eu só queria desaparecer.
E então, como num sussurro de guitarras distantes, uma frase veio à mente: Como uma chuva fria de novembro, percebi que nada dura pra sempre. Nem mesmo o amor, nem mesmo a razão. E que, às vezes, todos nós precisamos de um tempo sozinhos. Assim como a chuva fria de novembro, o fim chega sem aviso — e, inevitavelmente, sem aviso — o amor também vai embora.
Deixando apenas o frio, o silêncio e o eco de uma melodia que não se apaga, que não se esquece.
"So, if you want to love me
Then, darlin', don't refrain
Or I'll just end up walkin'
In the cold November rain"